António Dias, OBEGEF
Olá Alice… à boleia da publicação de estudos recentes, hoje vamos voltar a refletir sobre Corrupção e, também… sobre Populismo.
- A Transparência Internacional divulgou os resultados do “Corruption Perceptions Index 2025”, um estudo que compara o nível de perceção de corrupção em 182 países, com base em 13 fontes de informação, independentes e especializadas, que baseadas em dados publicados nos dois anos anteriores, mensuram a perceção sobre a corrupção no setor público.
Em comparação com 2024, Portugal caiu três posições e ocupa o 46.º lugar, tendo obtido o resultado mais baixo de sempre, 56 pontos (num total de 100, a melhor pontuação possível). Naturalmente, ainda que se possa dizer que estamos no primeiro terço da tabela, esta classificação não é propriamente honrosa.
Mas o pior, não é, por si só, a classificação obtida em 2025. O pior, é que este resultado confirma a tendência de descida no rating iniciada em 2018, ano em que ocupávamos o 30.º lugar e obtivemos 64 pontos.
Contudo, os dados indiciam que não se trata apenas de um problema de Portugal, mas sim, de forma genérica, de toda a Europa (ainda que continue a ser a região considerada menos corrupta do mundo).
- Alice: Então, apesar da maioria dos governos Europeus reafirmarem constantemente que vão combater a Corrupção, a avaliação da perceção tem vindo a piorar?
- Parece que sim, Alice. Mas ainda é cedo para uma resposta.
Vejamos agora o estudo “Citizens’ Attitudes Towards Corruption in the UE in 2025”, publicado pela Comissão Europeia e que apresenta os resultados de um inquérito, sobre perceção da corrupção, realizado junto de cidadãos dos 27 estados membro da UE.
Se nos focarmos em exclusivo nos dados relativos a Portugal, verificamos que 91% dos portugueses inquiridos consideram a corrupção como “comum no país”, menos 5p.p. que no relatório relativo a 2024, o que pode indiciar alguma melhoria.
Porém, não deixa de ser um valor muito próximo do total, bastante superior à média europeia que corresponde a 69%, sendo Portugal o terceiro país com taxa mais elevada.
A percentagem obtida, permite admitir que se trata de uma opinião generalizada na população, para a qual, certamente contribuem os casos mediáticos que envolvem figuras notáveis, que geram elevado impacto na perceção da corrupção no país e penalizam a imagem da Democracia.
Ainda de destacar que 90% dos inquiridos admite existir corrupção nas instituições públicas nacionais e 86% consideram que a existência de relações muito estreitas entre as empresas e a política conduzem à corrupção (em ambas as situações, o segundo registo mais alto do estudo).
Para 61% dos portugueses inquiridos, nos últimos três anos a corrupção em Portugal tem vindo a aumentar (média UE 44%), sendo que os partidos (com 64%, média UE 51%) e os políticos (com 63%, média UE 46%) são os grupos percecionados como os mais permeáveis ao suborno e abuso de poder.
Quanto aos esforços para acabar com a corrupção, 57% dos inquiridos considera que são insuficientes em Portugal e 74% entende que os casos de alta corrupção não são suficientemente perseguidos, sendo que apenas 30% dos inquiridos admite que os esforços governamentais para combater a corrupção são efetivos.
E, para finalizar, apenas 1% confirma que testemunhou ou experimentou, nos últimos 12 meses, alguma situação relacionada com corrupção, o registo mais baixo da UE.
- Alice: Não compreendo, se a corrupção em Portugal é percecionada pelos seus cidadãos como elevada e “comum”, não seria de esperar que fossem frequentemente confrontados com situações concretas de corrupção?
- Sim, Alice. Partilho a tua surpresa e dificuldade de compreensão. Mas nota, uma coisa são as perceções que as pessoas têm, outra, é o que de facto acontece. De outra forma, nem sempre temos capacidade para distinguir a realidade, da imagem que dela temos.
E parece-me Alice, que a maior parte das pessoas, mais do que aquilo que vê ou vive, construí a sua perceção baseada no que ouve, sobretudo num contexto em que a corrupção é tema público e mediático e está no centro do discurso populista.
É muito fácil cativar a atenção dos ouvintes quando o tema são os meandros da corrupção, que poucos favorece, mas que muitos prejudica. É muito fácil generalizar, criticar e apontar o dedo. É muito fácil assumir com eloquência que se fará melhor (como se os agentes do populismo fossem imunes à corrupção, quando não são). É muito fácil construir perceções, nem sempre verdadeiras, e contagiar uma população insatisfeita.
Sabes, Alice, a corrupção, floresce no silêncio da conivência. Enquanto a perceção da corrupção, cresce com ruído, muito ruído.
Sendo tu uma jovem, é a ti e a todos os jovens que se impõe a clareza necessária. Mas não esqueças, é difícil acabar com a corrupção, se é que ela pode ter fim.
A corrupção é indissociável à vida em comunidade e às relações de poder que são estabelecidas, em qualquer tipo de regime. Lembro-me de uma frase antiga, referida por pessoas humildes que viveram na Ditadura (onde não se falava de corrupção, ainda que visivelmente existisse) e depositaram toda a sua esperança na Democracia, e desiludidos, comentavam:
“A manjedoura é a mesma… os animais é que são outros.”
- Alice: Não há nada a fazer?
- Bem, poderá não ser possível erradicar de forma definitiva a corrupção, mas pode-se combater e atenuar.
A luta contra a corrupção é uma responsabilidade coletiva que deve ser alicerçada na cidadania ativa e em instituições robustas, integras e independentes, que possam ser percecionadas como um pilar de transparência e de confiança pública.
A solução, não é a constante narrativa artificial e moralizadora patente no discurso populista. Pura demagogia, em que os seus agentes, cientes dos seus interesses, todos acusam enquanto enaltecem as suas falsas virtudes.
- Alice: Sabes, criando um paralelo com as personagens da fábula de onde venho, a perceção da corrupção tem toques de Chapeleiro Louco, cheio de enigmas sem resposta, incoerente e mau anfitrião. Já a narrativa populista, corresponde à Falsa Tartaruga e as suas erróneas e incoerentes lições.


