Filipe Pontes, Jornal SOL
“A fraude explora o cimento invisível do país: confiança. Quando a confiança é o alvo, todos somos superfície de ataque — cidadãos, empresas e Estado.”
A fraude mudou. E nós continuamos a combatê-la com o manual antigo.
Durante anos, a burla tinha ‘cara’: um e-mail tosco, um telefonema estranho, um esquema repetido. Hoje, a fraude tem produção, marketing e Inteligência Artificial. O golpe já não aparece a pedir desculpa — aparece a parecer legítimo.
Basta olhar para o que circula nas plataformas: anúncios e páginas falsas a usar deepfakes de órgãos de comunicação social e de figuras públicas para vender ‘investimentos’ com promessas delirantes e a palavra ‘IA’ como selo de credibilidade. É o engano vestido de notícia.
O problema, porém, não é só tecnológico. É cultural. A fraude explora o cimento invisível do país: confiança. Confiança na voz, na imagem, no logótipo, no ‘site’, no ‘parece oficial’. Quando a confiança é o alvo, todos somos superfície de ataque — cidadãos, empresas e Estado.
Como membro do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF), não preciso de inventar missão: ela está escrita desde a origem. Ajudar instituições públicas e privadas a reduzir risco de fraude, formar quadros técnica e eticamente preparados e contribuir para uma opinião pública mais esclarecida sobre fraude e economia não registada, em Portugal e na Europa. O OBEGEF constituiu-se como associação privada sem fins lucrativos, interdisciplinar e aberta à sociedade.
A Europa ajuda a perceber a escala. O ENISA Threat Landscape 2025 analisa 4.875 incidentes (julho de 2024 a junho de 2025) e descreve um ecossistema em que ataques se profissionalizam e a engenharia social continua a ser porta de entrada. E quando o crime se profissionaliza, deixa de ser episódico: torna-se estrutural.
Há ainda um ponto onde o debate tem de ser adulto: fundos e contratação pública. A fraude não vive apenas do ‘pequeno esquema’. Vive do conflito de interesses, do custo inflacionado, da fatura ‘criativa’, do documento fabricado. O Relatório OLAF 2024 fala por si: recomendou a recuperação de 871,5 milhões de euros para o orçamento da UE e a prevenção de 43,5 milhões de euros de despesa indevida.
O que fazer? Primeiro: parar de achar que códigos resolvem culturas. O papel aceita tudo — a fraude também. Segundo: tratar fraude como risco estratégico, com dono, métricas e controlos que apanhem padrões (exceções, fracionamentos, urgências fabricadas, mudanças de IBAN). Terceiro: treinar pessoas para o mundo real, onde uma voz pode ser clonada e um vídeo pode mentir.
A fraude não vai desaparecer. Mas pode deixar de ser fácil. E essa é a diferença entre um país ingénuo e um país resiliente.

