Pedro Moura, Expresso online
Já não procuramos perceber se há mais crime: procuramos mais crimes que provem que temos razão e, se alguém aparece com estatísticas e factos contrários, são imediatamente rotulados de falsos, muitas vezes com laivos conspirativos
Gostamos muito de dizer que não vamos em cantigas. Até aparecer alguém a cantar precisamente a música que queremos ouvir. A partir daí, até fazemos coro.
Há um negócio que começa assim: dar-nos razão. O nosso medo é justificado, o nosso mal-estar tem uma explicação, a nossa falta de dinheiro resulta de ainda não conhecermos o segredo certo. Finalmente, alguém nos compreende. E, por coincidência, tem um produto, uma consulta, um curso ou uma oportunidade imperdível para nos apresentar.
Nos média e na internet há informação excelente. Mas também há um supermercado de verdades fáceis, prontas a consumir: um culpado, uma explicação e uma solução. Tudo arrumadinho. Pensar no assunto é que estraga.
Os algoritmos das redes sociais ajudam a servir a ementa: aquilo que vemos, comentamos e partilhamos influencia o que nos aparece a seguir. Esta personalização não é um certificado de verdade. Podemos estar a receber mais do que nos prende a atenção, não mais do que precisamos de saber.
Juntemos-lhe a nossa preferência por quem concorda connosco e temos os ingredientes para um circuito fechado: vejo, acredito, partilho, recebo mais do mesmo. No fim, "está em todo o lado". Pois está. No nosso lado.
Pense-se num assalto que abre o telejornal, reaparece nos comentários da noite e chega ao telemóvel em cinco versões diferentes. Ao jantar, já parece que o país está entregue à bicharada. Alguém pergunta se há efetivamente mais crimes, de que tipo e onde. “Mas tu não vês as notícias / a ‘internet’?” Vê. Só não está a contar o mesmo assalto seis vezes.
O sofrimento da vítima é real. A conclusão de que ninguém está seguro não vem automaticamente no pacote. Mas, nesta lógica, até as estatísticas podem tornar-se suspeitas quando não confirmam a nossa certeza. Já não procuramos perceber se há mais crime: procuramos mais crimes que provem que temos razão e, se alguém aparece com estatísticas e factos contrários, são imediatamente rotulados de falsos, muitas vezes com laivos conspirativos.
Na saúde, a armadilha exige cuidado redobrado. Veja-se a menopausa: há sintomas reais, por vezes muito incapacitantes, e tratamentos que podem ajudar, incluindo hormonais, conforme cada caso. Não é uma questão de “está tudo na cabeça”, nem de aguentar e calar.
Mas imaginemos uma mensagem que pega no cansaço, nas dificuldades de sono e nas alterações de humor e oferece uma explicação para tudo. “Está a ver? É exatamente o que me acontece.” Esse reconhecimento pode ser útil para a mulher que atravessa essa condição. O problema começa se dispensar outras perguntas e vier acompanhado de uma solução, fácil e óbvia, para toda a gente. “Foi um médico que disse e aconselha este tratamento / medicamento” merece atenção e ajuizamento; não deve encerrar a conversa e muito menos transformar questões num mero “não consegues compreender o que é isto” defensivo e auto-limitante.
E se a mensagem passar de “há formas de lidar com isto” para “daqui para a frente já não vai conseguir”? Arriscamos trocar esclarecimento por resignação. A própria pessoa pode desistir antecipadamente; os outros podem aproveitar o rótulo para a pôr de parte. Informar não deveria servir para fechar portas.
Depois há o dinheiro fácil. O guru aparece junto a um carro caro, mostra ganhos extraordinários e explica que trabalhar por um salário é para quem ainda não percebeu nada. Tem um método de apostas ou uma oportunidade em criptomoedas. “Se ele conseguiu, também consigo.” Talvez. Mas o carro não é uma auditoria e o vídeo dos ganhos não mostra quantos perderam.
Nas burlas de investimento, o teatro pode incluir plataformas com lucros fictícios e pequenos levantamentos permitidos para ganhar confiança. “Eu já tirei dinheiro, portanto funciona.” Só quando a vítima tenta retirar uma quantia maior surgem os obstáculos. Aquela pequena confirmação ajudou a vender uma mentira muito maior. E isto afeta tanto pessoas com pouco como com muita instrução. E a vergonha de se ser vítima leva ao silêncio, o que ainda ajuda mais os burlões.
Não é tudo fraude, naturalmente. Mas repare-se no ponto comum: uma explicação que nos agrada começa a valer mais do que as perguntas que a poderiam pôr à prova.
É aí que o grupo pode fazer o resto. Dentro da comunidade, os testemunhos confirmam-se uns aos outros. Quem questiona é “negativo”, “não percebe” ou “tem interesses”. Chame-se-lhe groupthink, ou pensamento de grupo: não chegámos todos à mesma conclusão depois de discutir; deixámos de discutir para continuarmos todos do mesmo lado. Há os que pensam como nós e são da nossa opinião, e há os ‘outros’, com quem obviamente nem adianta falar.
A exclusão trata de afastar o incómodo. A autoexclusão poupa trabalho: quem antecipa hostilidade cala-se, evita o assunto ou deixa de participar. A tendência para guardar opiniões quando se julga que os outros discordam está documentada, tanto online como fora das redes.
Depois, o silêncio passa por concordância. “Aqui toda a gente pensa assim.” Pudera. Os restantes já desistiram de falar. A polarização encontra terreno fértil: por dentro, palmadinhas nas costas; por fora, gente que já não merece ser ouvida. Para quem vende certezas, melhor ainda: os clientes podem acabar a fazer de seguranças à porta das perguntas.
E nós? Vamos sacudir a água do capote e dizer que a culpa é dos algoritmos?
A culpa de uma burla é de quem a pratica. As plataformas e quem informa têm responsabilidades. Mas isso não nos dispensa de fazer a nossa parte. Não usemos um diploma como certificado de imunidade, nem confundamos desembaraço a mexer no telemóvel com capacidade de avaliar o que lá aparece.
Precisamos de aprender, nas escolas e fora delas, a interpretar informação, comparar fontes e perceber interesses. Não apenas a detetar mentiras grosseiras, mas a desconfiar daquela explicação tão conveniente que parece feita à nossa medida. Antes de partilhar ou comprar: de onde vem isto? O que ficou de fora? Quem ganha? E o que me faria mudar de opinião?
Precisamos também de deixar os outros fazer essas perguntas sem lhes saltar à garganta. Espírito crítico não é pedir provas aos adversários e aceitar de olhos fechados tudo o que vem dos nossos. Nem diálogo é esperar pela nossa vez de repetir a mesma coisa mais alto, sem nunca realmente conseguir ouvir o que o outro tem para dizer, julgando que a ‘verdade do dia’ que se viu no Facebook ou no TikTok é o que de mais real existe.
É preferível fazer perguntas aparentemente parvas a ser o parvo alegre com a certeza de já ter todas as respostas (é tão fácil encontrar uma resposta hoje), sobretudo quando há alguém a ganhar dinheiro com essas certezas.

