José António Moreira, Jornal SOL

Por esse país fora há centenas, diria mesmo milhares, de "Xicos" que, ao longo de dezenas de anos, têm vindo a subsidiar do próprio bolso os petiscos que os seus concidadãos saboreiam, assumindo anualmente os prejuízos das suas empresas para colocar o bem-estar dos outros acima do seu

Nas comemorações anuais do Dia de Portugal, um dos pontos altos é a atribuição, por parte do Presidente da República, de ordens honoríficas a cidadãos que se tenham distinguido por atos relevantes ao longo da vida. Existirá um processo bem definido para escolher essas pessoas, através da medição rigorosa dos seus contributos para a sociedade. Não conheço tal processo, mas não me custa aceitar que, por mais fina que seja a rede onde se apanham os inúmeros cidadãos merecedores de uma comenda, haverá sempre muitos outros que, igualmente valorosos, não têm a sorte de lá cair.

Há dias, subitamente, a minha tortuosa mente iniciou uma divagação que alinhou, sucessivamente, três elementos: as ordens honoríficas, a pessoa do Sr. Xico e o gostoso frango de churrasco que ele vende no seu estabelecimento.

O Sr. Xico, sócio quase único da empresa que explora a churrascaria cá do bairro, é uma das pessoas que, em cada ano, tem passado injustamente ao lado desse processo de seleção. Injustamente, repito.

Para que os seus concidadãos possam deliciar-se com o saboroso frango, o Sr. Xico, nos últimos quinze anos, já teve de injetar na empresa, diretamente do seu bolso, quase seiscentos mil euros — ou seja, mais de meio milhão. Sendo a sua atividade empresarial extremamente deficitária — como atestam esses quinze anos de prejuízos consecutivos —, qualquer outra pessoa teria fechado a porta há muito tempo. Mas ele é um filantropo: pensa na vida dos seus clientes, pensa em como ela seria mais vazia de proteína e de sabor se eles não tivessem a oportunidade de saborear o dito frango e lamber os dedos sujos de gordura.

Fosse o Sr. Xico um homem abastado e compreender-se-ia facilmente o seu altruísmo. Mas não é. Deve ter um mar de dívidas pessoais a pagar, contraídas para cobrir, a intervalos regulares, os prejuízos da churrascaria, permitindo que esta continue de portas abertas e chaminé fumegante, aromatizando as redondezas. Por outras palavras, ele subsidia o churrasco que o bairro consome sem nunca disso ter feito alarde — o que é mais um fator abonatório da sua nobre personalidade.

Por tudo isto, seria da mais elementar justiça que a malha da rede honorífica fosse apertada, mesmo muito apertada, para que da próxima vez o Sr. Xico nela pudesse cair e ser agraciado com uma comenda ou algo igualmente sonante.

Cheguei mesmo a equacionar a criação, entre vizinhos preocupados com esta injustiça, de um movimento civil e apolítico com a denominação "Xico Churrasco a Comendador", que faria lobby junto das autoridades competentes. Porém, quando abordei o primeiro amigo para integrar a iniciativa, ele travou-me o entusiasmo:

— Pá, não te metas nisso. O Xico merece o nosso empenho, mas esse movimento corre o risco de, ao tentar corrigir uma injustiça, criar muitas mais. Por esse país fora há centenas, diria mesmo milhares, de "Xicos" que, ao longo de dezenas de anos, têm vindo a subsidiar do próprio bolso os petiscos que os seus concidadãos saboreiam, assumindo anualmente os prejuízos das suas empresas para colocar o bem-estar dos outros acima do seu.

E assim morreu o movimento, antes de nascer.

Posted in: Crónicas, SOL.
Last Modified: Setembro 19, 2026