António João Maia, OBEGEF

Com o aprofundamento acrítico da IA, continuará o homem a estar apto a manter a sua capacidade de estabelecer racionalmente, de forma autónoma e ética, as linhas de orientação do seu destino coletivo?

Na carta encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV suscita-nos a refletir sobre o sentido e a salvaguarda da vida humana na circunstância da Inteligência Artificial (IA).

Diz-nos que todo o processo de desenvolvimento das tecnologias é revelador de uma capacidade de criação autónoma e livre do homem, mas que os resultados que dele possam advir, alguns dos quais já começam a verificar-se, podem não ser todos muito positivos para o próprio homem, ou seja trata-se de um processo que pode apresentar impactos negativos sobre algumas das principais componentes da vida humana.

Reconhece, por exemplo, que, do ponto de vista da evolução do desenvolvimento humano, os sistemas informáticos têm relevado benefícios generalizados na melhoria das condições de vida e de bem-estar da humanidade.

Reconhece igualmente que tem sido benéfico o efeito de aproximar os indivíduos uns dos outros, na partilha de informações e de conhecimento, bem como na capacidade de processar grandes quantidades de dados, muitas vezes com superação da inteligência humana, em celeridade, em eficácia e também em redução do risco de erro.

Reconhece ainda que a IA é um auxiliar que simplifica o quotidiano dos indivíduos nas tomadas de decisão, por exemplo na arrumação da agenda, na seleção de um determinado tipo de restaurante ou de vinho para acompanhar aquele prato de carne ou de peixe, ou simplesmente na escolha um livro ou filme sobre uma determinada temática.

A IA pode igualmente aliviar o ser humano da realização de atividades pesadas, rotineiras ou perigosas, libertando-o para a realização de tarefas mais condizentes com a sua condição de ser racional.

Porém, reconhece também que a circunstância da IA representa alguns riscos para a humanidade. Fala-nos por exemplo dos riscos de desumanização, de uma certa crise antropológica, descrita como “síndrome de Babel”, onde a idolatria do poder económico e do lucro podem desconfigurar humanamente os mais fracos e esbater as diferenças humanas – a IA pode anular a individualidade do sujeito ao transformá-lo num “mero” dado ou número, cavando desigualdades entre os que participam na revolução digital e os outros, ou outsiders, os que não participam, os que estão fora deste processo evolutivo, transformando-os numa espécie de humanos de segunda categoria ou mesmo de sub-humanos.

Identifica também os riscos éticos, na medida em que nem as máquinas nem os sistemas informáticos, por mais sofisticados que sejam, dispõem de uma consciência moral, capaz de considerar e ponderar o sentido mais profundo e dilemático das questões do homem, com efeitos nefastos já verificados em processos decisórios em que os sistemas de IA têm sido chamados a participar.

A carta encíclica Magnifica Humanitas sobressalta-nos neste momento de encruzilhada em que a humanidade se encontra e confronta-nos com uma questão muito simples e concreta, que é a de saber se, com o aprofundamento acrítico da IA, continuará o homem a estar apto a manter a sua capacidade de estabelecer racionalmente, de forma autónoma e ética, as linhas de orientação do seu destino coletivo?