Óscar Afonso, Eco Magazine
Portugal não está condenado ao lugar que ocupa hoje, mas dificilmente conseguirá subir ao nível de vida europeu enquanto persistir em ignorar os sinais agora conhecidos.
Há imagens que valem mais do que mil palavras. As que apresento nesta crónica, que me custam a digerir, demonstram aquilo que a maioria dos portugueses sente no seu dia a dia: um baixo nível de vida. É um ‘murro no estômago’ de uma Nação que foi induzida em erro quanto ao seu progresso material relativo no contexto europeu pela falta de informação atualizada sobre a população.
Um estudo de 2025 da FEP Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto, já tinha alertado, há sensivelmente um ano, que o PIB per capita em paridades de poder de compra (PPC) de Portugal em percentagem da União Europeia (UE), indicador que mede o nível de vida relativo, era significativamente menor do que diziam os dados oficiais e não teria, afinal, sequer ultrapassado os 80% desde a pandemia.
Tudo isso porque os dados administrativos revistos da população estrangeira residente da Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) já apontavam para uma população total superior a 11 milhões, bastante acima dos dados oficiais do INE usados pelas instituições europeias nesse cálculo. Esta semana tivemos a confirmação das conclusões do estudo da FEP, com novos dados e alguns cálculos.
Dados revistos da população colocam em causa a narrativa da convergência para o nível de vida da UE
Com a revisão em alta da população residente para 11,4 milhões (os dados anteriores apontavam para menos de 11 milhões), divulgada há poucos dias pelo INE, o PIB per capita em PPC de Portugal, uma expressão do nosso nível de vida, fica naturalmente revisto em baixa.
Como essa correção ainda não se encontra refletida nos dados oficiais, apresento de seguida os cálculos necessários e os principais resultados que deles decorrem, acompanhados da respetiva análise. O valor corrigido é 77,0% da UE em 2025, na 22ª posição, a 6ª pior entre os 27 Estados-membros, bastante abaixo dos 81,3% nos dados originais da Comissão Europeia (CE) divulgados em maio, correspondentes à 19ª posição – ver Figura 1.
No final da análise, na parte em que analiso a informação relativa à população, mostro que a revisão do nível de vida resulta de um desfasamento máximo de cerca de 6% em 2025 (e nos dois anos precedentes) entre os novos dados da população publicados pelo INE e os que tinha anteriormente e foram usados pela CE nesse cálculo.
Por isso, mesmo que o INE venha a rever em alta os dados do PIB de 2024 e 2025, como sinalizou recentemente o ministro das Finanças, tenderá a ser uma correção muito inferior a essa magnitude, na ordem de poucas décimas de ponto percentual de variação, dado o histórico de revisões das contas nacionais, pelo que não deverá afetar de forma substancial os cálculos aqui apresentados.
Grande parte da imigração foi canalizada para as atividades de baixo valor em que a economia está especializada, como o turismo. Por outro lado, dado o desfasamento entre a dinâmica da imigração e a da atividade económica, não é de excluir a presença de um número significativo de imigrantes na economia paralela, tanto em anos anteriores como atualmente, contribuindo para as estatísticas do PIB sobretudo por via do seu consumo. Recordo que um estudo da FEP, publicado numa revista científica indexada, estimou em quase 35% o peso da economia não registada no PIB português em 2022, numa fase em que a imigração crescia fortemente, sugerindo que este fenómeno não deverá ser negligenciado na análise.
Comparando o valor de 2025 com o de pré-pandemia, i.e., 2019 (77,2%, na 19ª posição) verifica-se mesmo uma ligeira descida do indicador de nível de vida relativo, mas que significa a perda de 4 posições no ranking, contrariando, assim, a narrativa que os últimos governos nos queriam passar, de que a economia estava a crescer bem, acima da UE, devido a progressos estruturais com impacto na melhoria do nível de vida relativo.
A nossa economia cresceu mais, de facto, mas muito pouco atendendo a vários fatores excecionais de que beneficiou: uma forte expansão do turismo pós-pandemia, um PRR generoso, a atração de algum investimento e de mais turistas por razões de segurança, face à guerra na Ucrânia – que, pelo contrário, penalizou bastante a Alemanha e os países de leste (PL) –, bem como um forte aumento da imigração.
Grande parte da imigração foi canalizada para as atividades de baixo valor em que a economia está especializada, como o turismo. Por outro lado, dado o desfasamento entre a dinâmica da imigração e a da atividade económica, não é de excluir a presença de um número significativo de imigrantes na economia paralela, tanto em anos anteriores como atualmente, contribuindo para as estatísticas do PIB sobretudo por via do seu consumo. Recordo que um estudo da FEP, publicado numa revista científica indexada, estimou em quase 35% o peso da economia não registada no PIB português em 2022, numa fase em que a imigração crescia fortemente, sugerindo que este fenómeno não deverá ser negligenciado na análise.
Não há milagres. Se cada português tem uma produtividade relativamente baixa, em média – Portugal continua perto da cauda da UE nesse indicador –, não espanta que o nível de vida seja também baixo.
Sejamos claros. Enquanto o país não mudar os incentivos para tornar a especialização produtiva mais intensiva em conhecimento e tecnologia, não pode esperar maior produtividade e nível de vida, continuando a assistir à saída dos jovens mais talentosos para o exterior por falta de postos de trabalho qualificados e bem remunerados. Assim, o crescimento recente acima da UE, que contribuiu também para a subida do nível de vida – mas diminuta em termos reais, como mostro abaixo –, deve-se sobretudo a um conjunto de fatores excecionais e não a progressos estruturais como nos queriam fazer crer.
Os novos dados evidenciam, de forma clara, que não é possível continuar a adiar reformas estruturais se quisermos elevar de forma substantiva e sustentada a produtividade e o nível de vida tanto em termos absolutos como relativos, comparando com o espaço europeu em que nos inserimos.
Os números corrigidos mostram ainda uma forte divergência face ao nível de vida da UE desde o início do milénio, passando de 85,0% em 1999, na 15ª posição, para 77,0% em 2025, na 22ª posição.
Pior, as projeções da CE corrigidas para Portugal nos anos 2026 e 2027 apontam para a estabilização em cerca de 77%, mas com a perda de mais uma posição em 2027, como evidenciado mais abaixo.
Os portugueses têm de exigir mais dos governantes de cada vez que vão às urnas e no espaço público. É esse o propósito das minhas análises. Não nos podemos resignar, enquanto povo, a sermos ultrapassados sucessivamente pelos países mais pobres da UE. Devemos aspirar a muito mais e recusar a ideia de que Portugal é um país onde as oportunidades e a prosperidade parecem estar reservadas apenas para alguns, como tantas vezes a distribuição dos fundos públicos dá a entender.
Figura 1. PIB per capita de Portugal em Paridade de Poderes de Compra (PPC), UE=100: valor oficial da CE e valor corrigido pelos novos dados da população (INE)

Fonte: Comissão Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da população, jun-26) e cálculos próprios. Para assinalar que os números de 2026 e 2027 são projeções, as colunas foram assinaladas com um padrão ponteado. A correção efetuada resultou da divisão dos dados originais de nível de vida relativo de Portugal face à UE da CE pelo fator de correção da população evidenciado na Figura 8 abaixo (o rácio entre os dados do INE, na ótica das contas nacionais, e os usados pela CE no cálculo).
A Figura 2 dá conta de que, em 2025, Portugal tinha sido ultrapassado em nível de vida pela maioria das economias de leste, que entraram bem mais tarde na UE e receberam muito menos fundos europeus, mas parecem ter aproveitado esses apoios muito melhor.
Entre os países que nos ultrapassaram consta a Roménia (77,9%), que ainda há não muitos anos era a economia mais pobre da UE, como apontava o estudo da FEP, o que na altura gerou espanto e variadas críticas. A verdade é que a Roménia ultrapassou já também a Croácia, país especializado no turismo tal como Portugal, destoando da especialização industrial da média dos Países de Leste (PL), o que contribuiu para uma convergência assinalável desse grupo neste milénio, atingindo 81,3% da UE nesse ano.
Figura 2. PIB per capita em PPC (UE=100) nos países da UE em 2025, incluindo o valor oficial de Portugal e o valor corrigido face aos dados revistos da população do INE

Fonte: Comissão Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da população, jun-26) e cálculos próprios. Nota: o agregado dos PL corresponde à média simples dos valores desses países, assinalados com a letra L no final dos respetivos nomes.
Em perspetiva, o cenário piora, como referido. As projeções da CE apontam para que, em 2027, Portugal seja ainda ultrapassado em nível de vida pela Hungria (77,0% vs. 77,7% nesse ano, respetivamente), passando para a 23ª posição, a 5ª pior, cada vez mais perto da cauda da UE – ver Figura 3.
Figura 3. PIB per capita em PPC (UE=100) nos países da UE previsto para 2027, incluindo o valor oficial de Portugal e o valor corrigido face aos dados revistos da população do INE

Fonte: Comissão Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da população, jun-26) e cálculos próprios.
Além da evolução do nível de vida relativo em percentagem da UE, releva analisar as dinâmicas subjacentes de cada um dos agregados de base, primeiro em termos nominais e depois em termos reais.
A Figura 4 permite perceber a evolução comparada do valor do nível de vida de Portugal (taxa de variação do nível de vida medido em euros com a correção PPC, ou seja, em termos nominais, pelo que inclui a variação de preços), com e sem correção pelos novos dados da população, da UE e da média dos PL.
Entre 1999 e 2025, o nível de vida português cresceu 3,0% ao ano, em termos nominais, nos dados corrigidos (3,2% nos não corrigidos, uma diferença de duas décimas, mas que se torna significativa, em termos compostos, ao longo de 25 anos), apenas o 20º desempenho na UE (18º nos dados sem correção), 3,4% na UE e 5,7% nos PL, em média. Este grupo de países teve, assim, quase o dobro do progresso material de Portugal neste milénio em termos nominais.
Na média de 2019 e 2025, alisando os efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia, o nível de vida de Portugal cresceu nominalmente 4,56% ao ano (18ª posição), menos do que nos dados não corrigidos (5,5%, na 10ª posição), mas bastante acima do período 1999-2019 (2,6%, na 21ª posição), a refletir os efeitos extraordinários referidos, mais o efeito da inflação, que foi mais elevada após 2019, em média (sobretudo pelo impacto da guerra na Ucrânia), razão pela qual expurgo este fator na figura seguinte.
Na média de 2019 e 2025, alisando os efeitos da pandemia e da guerra na Ucrânia, o nível de vida de Portugal cresceu nominalmente 4,56% ao ano (18ª posição), menos do que nos dados não corrigidos (5,5%, na 10ª posição), mas bastante acima do período 1999-2019 (2,6%, na 21ª posição), a refletir os efeitos extraordinários referidos, mais o efeito da inflação, que foi mais elevada após 2019, em média (sobretudo pelo impacto da guerra na Ucrânia), razão pela qual expurgo este fator na figura seguinte.
Essa subida de 4,56% ao ano ficou ligeiramente abaixo do valor da UE (4,63%), explicando a divergência de nível de vida relativo assinalada anteriormente. Ficou bem mais longe da progressão dos PL (5,9%), que até aumentou ligeiramente neste período, mas motivada pelo efeito preço como mostro a seguir.
Mais importante para os portugueses é a análise da Figura 5, que expurga o efeito da inflação (medida pela evolução média anual do deflator do PIB, que agrega os efeitos preço das suas várias componentes), traduzindo de forma mais aproximada a evolução real do seu nível de vida.
O que se verifica é que, com os dados corrigidos, o progresso do nível de vida em termos reais foi muito reduzido, de apenas 0,4% ao ano entre 1999 e 2025 (0,6% nos dados não corrigidos, em ambos os casos na 23ª posição), que compara com 1,3% na UE e 1,5% nos PL, que quase quadruplicam o nosso progresso real, evidenciando uma enorme discrepância.
Sucede que, no período de 2019 a 2025, a melhoria do indicador corrigido de Portugal, de 0,3% ao ano, foi ainda menor (face a 0,4% em 1999-2025, como referido, e 0,5% de 1999 a 2019), bastante abaixo da UE (0,9%), embora acima dos PL (-0,2%) – que registaram um retrocesso neste período, tendo sido muito mais afetados pelo fim da energia barata russa, que implicou um maior impacto na inflação.
Os dados não corrigidos apontavam para um ganho real de nível de vida dos portugueses de 1,2% ao ano entre 2019 e 2025, acima dos 0,9% na UE, percebendo-se, assim, a grande diferença que faz ter em conta os dados atualizados da população.
Ou seja, mesmo com os fatores extraordinários que beneficiaram a economia portuguesa neste período, o nível de vida real dos portugueses continuou a crescer menos que o da UE e, inclusivamente, abaixo do registado em 1999-2019, pois grande parte do ganho nominal foi perdido para a inflação. Isso ao contrário do que os dados não corrigidos mostravam e era propalado pelos governantes, que assentavam a sua análise em dados desatualizados por não refletirem adequadamente a realidade demográfica.
Trata-se de um falhanço estatístico que os poderes públicos demoraram demasiado tempo a corrigir, com a perversidade de alimentar o discurso político de um país ‘cor-de-rosa’, assente na ideia de uma economia particularmente dinâmica – em termos estruturais, não meramente conjunturais – e de uma aproximação sustentada ao nível de vida da UE, uma narrativa que os novos dados colocam seriamente em causa.
É esta a economia do ano para a revista The Economist em 2025, uma distinção bastante celebrada pelo governo que prontamente critiquei por usar critérios desadequados e pouco condicentes com o prestígio que a publicação chegou a ter no passado.
Houve mais dinheiro nos bolsos dos portugueses – o contrário seria de espantar face ao enorme afluxo de fundos da UE neste período, com o PRR a acrescer ao final do PT 2020 e início do PT 2030. Mas, infelizmente, não houve progresso em termos relativos face à UE, e esse dinheiro foi em grande medida perdido para a inflação, acabando por se verificar um progresso real um pouco menor do que na média entre 1999 e 2019.
A análise conjunta das Figuras 4 e 5 significa que houve mais dinheiro nos bolsos dos portugueses – o contrário seria de espantar face ao enorme afluxo de fundos da UE neste período, com o PRR a acrescer ao final do PT 2020 e início do PT 2030. Mas, infelizmente, não houve progresso em termos relativos face à UE, e esse dinheiro foi em grande medida perdido para a inflação, acabando por se verificar um progresso real um pouco menor do que na média entre 1999 e 2019.
A falta de avanços efetivos no nível de vida português – em termos absolutos e relativos, tanto nominais como reais – leva muitos dos nossos jovens mais qualificados a procurar melhores condições de vida no exterior, o que empobrece o país e limita o nosso futuro coletivo.
Mais uma vez, não podemos esperar progressos superiores aos dos restantes países se não evoluirmos no perfil de especialização produtiva da economia.
Mesmo continuando a receber avultados fundos europeus, dificilmente os aplicaremos tão eficazmente enquanto uma parte significativa dos recursos continuar a ser canalizada para atividades de menor produtividade e pouco valor acrescentado, um problema para o qual tem contribuído a degradação da qualidade institucional do país, tema que abordei em crónicas anteriores.
Dos dados da Figura 4 realço ainda que, em 2025, o nível de vida de Portugal cresceu já bem menos: 2,8%, na 24ª posição, usando a série revista. Este valor acaba por ser marginalmente superior ao valor não corrigido (2,7%, na mesma na 24ª posição), devido ao ajustamento. É, por isso, muito estranho que este tenha sido o único aspeto sobre os dados ajustados do nível de vida de Portugal, na sequência da divulgação da população corrigida pelo INE, salientado pelo ministro da Presidência, António Leitão Amaro, tanto quanto eu tenha conhecimento.
Ainda que positivo, é um aspeto menor comparado com a revisão em baixa de 3 posições no ranking de nível de vida de Portugal na UE em 2025, passando a ser o 6º pior, face aos novos dados, e a divergência (ligeira) face à UE desde 2019 – em vez da convergência evidenciada pelos dados não corrigidos e tão celebrada pelos governos PS e desta AD –, alargando a registada desde 1999, conforme destaquei acima.
Por outro lado, essa progressão do nível de vida em termos nominais em 2025 é apenas aparente, pois a Figura 5 revela que, descontando o efeito da inflação, ocorreu uma perda de 1,1% em termos reais (a descida é de 1,2% nos dados não corrigidos).
As declarações do ministro implicam que o governo estará ciente do nível de vida revisto e, presumo, da perda de posições com os novos dados, mas ainda não corrigiu a narrativa ‘cor-de-rosa’ que já vinha dos últimos governos PS quanto à real situação económica do país, algo que deveria ser feito pelo ministro das Finanças ou pelo ministro da Economia.
Em particular, o país aguarda que o executivo forneça, quanto antes, um retrato atualizado em matéria de convergência de nível de vida com a UE – como o que aqui apresento, mas oficial –, que é um desígnio estratégico que tem atravessado os sucessivos governos desde a nossa adesão em 1986.
Trata-se, contudo, de um desígnio muito insuficiente. Isto porque o crescimento económico da UE, que os sucessivos governos visam superar – o que aconteceu apenas de forma pontual e por margens reduzidas entre 1999 e 2025, pois Portugal cresceu pouco mais de metade da média da UE, como mostrei noutras crónicas –, há muito deixou de constituir um objetivo ambicioso, dada a estagnação das maiores economias.
Defendo, por isso, que devemos antes ambicionar entrar na metade dos países com maior nível de vida da UE num horizonte aceitável, o que requer reformas estruturais para aumentar o potencial de crescimento económico em, pelo menos, 1,4 pontos percentuais acima do crescimento da UE, segundo um estudo da FEP.
Por outro lado, como Leitão Amaro está com a pasta da imigração e é responsável pela mudança das regras nessa área, é justo reconhecer que contribuiu para a redução e maior controlo das entradas já observados em 2025, o aspeto mais relevante da sua intervenção e que evidencio abaixo com números concretos. Embora as medidas adotadas tenham sido positivas, em geral, precisam de ser calibradas como defendo abaixo, caso contrário poderão limitar o crescimento económico.
Figura 4. Taxa de variação média anual do valor do PIB per capita em PPC (%) de Portugal em termos nominais – com e sem correção pelos novos dados da população do INE –, dos PL e da UE, e rankings de Portugal na UE com e sem correção

Fonte: Comissão Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da população, jun-26) e cálculos próprios.
Figura 5. Taxa de variação média anual do valor do PIB per capita em PPC (%) de Portugal em termos reais (expurgando a evolução do deflator do PIB) – com e sem correção pelos novos dados da população do INE –, dos PL e da UE, e rankings de Portugal na UE com e sem correção

Fonte: Comissão Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da população, jun-26) e cálculos próprios. Nota: para expurgar o efeito da inflação na evolução do PIB per capita em PPC, aos dados do gráfico anterior foi deduzida a evolução dos respetivos deflatores do PIB em cada um dos períodos.
População residente atinge 11,4 milhões, 14% estrangeira, mas o fluxo de entrada baixou em 2025
Importa agora analisar os principais números revistos da população residente, que demoraram a sair. Após mais de meio ano de atraso na divulgação das estatísticas da população residente de 2025 e da polémica sobre os números corretos, decorrente da diferença significativa de valores entre organismos públicos desarticulados, esta semana o INE divulgou finalmente os números oficiais para esse ano e a revisão da série desde 2021.
As alterações são bastante significativas (mais abaixo apresento dados nesse sentido, ao evidenciar os números usados para corrigir o nível de vida) e mostram como há vários anos os poderes públicos estavam a tomar decisões de política com base em números bastante desfasados da realidade, com origem em informação muito desatualizada da imigração, para o que terá contribuído o fim do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a atribulada passagem para a AIMA.
Ficamos a saber que, em 2025, o país tinha 11,4 milhões de residentes – valor próximo das estimativas da AIMA, que estavam assim bem mais perto da realidade do que os anteriores dados do INE –, dos quais 14% eram estrangeiros, significando que o seu peso subiu muito em poucos anos (de 3,8% em 2017 para 14,0% em 2025 – ver Figura 6).
Tal deveu-se ao descontrolo das entradas – desligadas da atividade económica, que não subiu em proporção mesmo tendo beneficiado de fatores extraordinários, já referidos – provocado pelo Regime de Manifestação de Interesse (RMI) que vigorou entre 2017 e 2024.
A sociedade e as entidades públicas não estavam preparadas para um fluxo de tal magnitude, incluindo as que produzem os números oficiais da população, levando ao que designei de ‘descontrolo estatístico’ decorrente do descontrolo das entradas.
Face à revisão da população, além do nível de vida, outros indicadores per capita também terão de ser revistos e já vamos com um grande atraso, como referi. É bastante óbvio que, com informação desatualizada, não é possível um diagnóstico adequado da realidade que permita tomar as medidas de política mais adequadas para resolver os problemas da população, é essa a questão.
Por outro lado, o fim do RMI e a alteração das regras da imigração – a única reforma com esse nome dos governos desta AD, embora com os problemas que já abordei noutras crónicas e reitero abaixo – já permitiu uma redução expressiva das entradas em 2025, para 59 mil em 2025, após valores muito superiores nos anos anteriores (ver Figura 7).
O problema é que agora corremos o risco de passar de um excesso para um défice de entradas, devido a uma calibração inadequada das regras, que deveriam estar mais estreitamente alinhadas com as necessidades da economia.
Se o mecanismo da Via Verde vai nesse sentido, ao depender da existência prévia de um contrato de trabalho, o que é positivo, a sua execução continua a ser burocrática e de alcance limitado. Torna-se, por isso, difícil compreender a atual política complementar de vistos de trabalho. Em vez de restringir este instrumento a profissões altamente qualificadas, faria mais sentido articulá-lo com as entidades representativas das empresas, que melhor conhecem as necessidades de cada setor e tipo de profissão, como tenho vindo a alertar.
Se assim não for, corremos um risco de ‘passar do 80 para o 8’ e limitar a capacidade de crescimento da economia já no curto prazo, pois há setores que dependem muito de mão-de-obra estrangeira.
Se é certo que precisamos de evoluir a especialização económica para setores de maior intensidade em conhecimento e tecnologia, com maior produtividade e menos intensivas em mão-de-obra, isso não se decreta através de uma política de vistos pouco compatível com o perfil de especialização atual. Tal demora tempo a acontecer e exige reformas e mudança de incentivos que não se vislumbram nas atuais políticas desta AD, como tenho vindo a apontar em diversos espaços de opinião.
É ainda necessário assegurar capacidade de absorção pela sociedade e pelos serviços públicos dos imigrantes que já entraram e dos que entrem no futuro, incluindo a formação necessária e um reconhecimento mais expedito das suas competências de base – há evidência que aponta para uma sobrequalificação dos estrangeiros face aos postos de trabalho que ocupam significativamente maior do que sucede para os trabalhadores em geral – para corresponder a uma mudança de especialização produtiva que urge, requerendo medidas nesse sentido.
Finalmente, a Figura 8 evidencia o ajustamento da população que foi usado para corrigir a série do nível de vida relativo de Portugal face à UE. Para tal foi calculado um fator de correção, o rácio entre os novos valores de população residente do INE e os usados pela CE no cálculo do nível de vida, neste caso na ótica das contas nacionais (a população em conceito nacional do INE foi obtida aplicando uma média móvel de dois anos aos dados demográficos – ver notas da Figura 8), a mesma do PIB.
O ajustamento efetuado consistiu em dividir o nível de vida relativo divulgado pela CE por esse fator de correção, que variou entre 1,009 em 2021 e 1,056 em 2023, 2024 e 2025. Isso significa que nesses três últimos anos a população agora estimada pelo INE está 5,6% acima da que foi usada pela CE para calcular o nível de vida, o que é um desfasamento expressivo, provocando as alterações descritas anteriormente no nível de vida relativo. Para ajustar os valores previstos pela CE para Portugal em 2026 e 2027 apliquei também o fator de 2025 (1,056), preservando assim nos dados corrigidos a variação anual prevista pela CE para a população portuguesa nos dados originais.
Figura 6. População residente revista (milhões de pessoas) e peso dos estrangeiros (%), conceito demográfico

Fonte: INE e cálculos próprios. Nota: os dados revistos da população, entre 2021 e 2025, estão assinalados pelas barras de padrão oblíquo.
Figura 7. População estrangeira residente, conceito demográfico: total e variação anual (milhões de pessoas)

Fonte: INE e cálculos próprios.
Figura 8. População residente (milhões), conceito das contas nacionais: dados usados pela CE no cálculo do nível de vida, dados revistos do INE e fator de correção na série de 2021 a 2025

Fonte: Comissão Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da população, jun-26) e cálculos próprios. Nota: o conceito de população residente na ótica das contas nacionais difere do conceito demográfico. Os números do INE em conceito nacional resultam da aplicação de uma média móvel de dois anos aos dados demográficos na série longa de 1970-2025 usada para assegurar comparabilidade. Os dados da CE já estão em conceito nacional. De notar que o valor de 2021 em conceito demográfico na série revista 1970-2025 que foi usada difere do valor constante nas séries 2008-2025 e 2021-2025 usadas acima. De qualquer forma, mesmo que o valor de 2021 usado não seja o correto, o desvio não será muito significativo e não tem implicações nos anos seguintes, em que as revisões do nível de vida são muito mais relevantes.
Conclusão: Sem bons dados não há bons diagnósticos nem boas decisões
O verdadeiro problema revelado pelos novos dados não é a revisão estatística em si mesma, mas antes o seu atraso muito significativo, bem como o tempo prolongado em que os governantes e os agentes económicos assentaram as suas decisões em informação bastante desatualizada.
Com efeito, durante vários anos, o país avaliou o seu desempenho económico e tomou decisões, públicas e privadas, com base em informação demográfica desatualizada, revelando fragilidades de governação e capacidade administrativa que não devem ser ignoradas.
E a realidade económica revelada pelos novos dados é significativamente menos favorável do que aquela que foi transmitida pela narrativa política dos últimos governos do PS e desta AD.
Portugal surge agora como o 6º pior país da UE em nível de vida, depois de ter sido sucessivamente ultrapassado por economias que, há poucos anos, se encontravam muito atrás de nós. Mais preocupante ainda, os novos dados mostram que, mesmo num período mais recente, marcado por fatores temporários muito favoráveis — forte recuperação do turismo, fundos europeus abundantes, PRR, imigração e maior atratividade internacional decorrente do contexto geopolítico —, o nível de vida real dos portugueses continuou a crescer menos do que o da UE e progrediu até relativamente menos do que entre 1999 e 2019 em termos reais, depois de expurgado o impacto da inflação.
Estes resultados devem servir de alerta para todos os responsáveis políticos, mas também para os cidadãos, que têm o direito — e a responsabilidade — de exigir maior rigor na avaliação dos resultados económicos e das políticas públicas, e sobretudo melhores resultados.
Numa democracia, a qualidade das decisões, públicas e privadas, depende da qualidade da informação disponível. Sem conhecer adequadamente a realidade, os eleitores dificilmente poderão avaliar o desempenho dos governos e escolher as forças políticas mais capazes de adotar as medidas necessárias para resolver os problemas do país e melhorar as condições de vida dos portugueses. Enquanto agentes económicos, poderão ainda tomar decisões erradas à luz de pressupostos errados.
O debate público português continua excessivamente concentrado na gestão do curto prazo, quando o verdadeiro desafio reside na capacidade de transformar estruturalmente a economia. Sem ganhos sustentados de produtividade, sem uma especialização mais intensiva em conhecimento e tecnologia, sem instituições mais eficazes e sem melhor utilização dos recursos disponíveis, continuaremos a assistir à saída dos mais qualificados, à perda de posições nos rankings europeus e à erosão gradual das nossas perspetivas de convergência.
O debate público português continua excessivamente concentrado na gestão do curto prazo, quando o verdadeiro desafio reside na capacidade de transformar estruturalmente a economia. Sem ganhos sustentados de produtividade, sem uma especialização mais intensiva em conhecimento e tecnologia, sem instituições mais eficazes e sem melhor utilização dos recursos disponíveis, continuaremos a assistir à saída dos mais qualificados, à perda de posições nos rankings europeus e à erosão gradual das nossas perspetivas de convergência.
Os números agora corrigidos, mais do que um embaraço estatístico, devem ser encarados como uma oportunidade para abandonar narrativas complacentes e enfrentar a realidade com maior exigência.
Portugal não está condenado ao lugar que ocupa hoje, mas dificilmente conseguirá subir os degraus do nível de vida europeu enquanto persistir em ignorar os sinais que os dados, finalmente corrigidos, agora revelam com clareza. Se dúvidas houvesse que o país precisa mudar de vida e implementar reformas económicas profundas, os resultados aqui apresentados deverão dissipá-las de vez.

