Fátima Geada, Jornal SOL

As grandes falhas corporativas raramente resultam de ausência de regras, mas sim de culturas permissivas e governance ineficaz

Num contexto de maior escrutínio regulatório e pressão sobre resultados, a ética corporativa deixou de ser um tema moral para se tornar num indicador económico. Investidores, reguladores e mercados começam a penalizar empresas que não incorporam governance ética robusta. A questão já não é “porquê investir em ética?”, mas “quanto custa não o fazer?”.

Governance e Ética: o que antes era “intangível” tornou-se um risco financeiro mensurável - A globalização dos mercados, a digitalização acelerada e o crescimento dos critérios ESG mudaram profundamente a perceção do risco empresarial. Hoje, falhas éticas — desde manipulação de informação financeira a governança ineficaz — traduzem-se em quebras abruptas de valor, penalizações regulatórias, fuga de investidores e danos reputacionais potencialmente irreversíveis.

Nos últimos anos, vários relatórios de mercados financeiros demonstram que empresas com governance ética forte têm menor volatilidade, prémios de risco mais baixos e acesso mais competitivo a financiamento. Esta tendência acompanha os novos referenciais internacionais, entre os quais se destaca o modelo de Cultura Ética e Governação Empresarial (FCG) promovido pelo International Ethics Standards Board for Accounts (IESBA), que não só promove a adoção de elevados padrões éticos nas organizações, mercados e economias, mas foca-se em sustentabilidade, defendendo a independência na informação de sustentabilidade e para os profissionais que a asseguram.

A Ética surge cada vez mais por pressão dos reguladores: assumindo a ética como requisito de estabilidade económica. A União Europeia reforçou significativamente a regulação sobre transparência, sustentabilidade e responsabilidade corporativa. Diretivas como a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) obrigam empresas a divulgar práticas éticas, sistemas de controlo interno e processos de governance, elevando as responsabilidades dos órgãos de administração. Num relatório recente, o IESBA sublinha que a ética é agora uma componente vital do funcionamento do sistema financeiro, afirmando que o setor contabilístico tem uma responsabilidade estrutural na preservação da confiança.

Para os mercados, isto significa que a ética passou a ser uma infraestrutura crítica — tal como a qualidade da auditoria, o controlo de riscos ou a transparência na política de dividendos.

Os oito pilares que os investidores começam a exigir que as organizações e os mercados cumpram e que o novo enquadramento internacional identifica, são oito elementos estruturantes que determinam a força ética de uma empresa:

  1. Liderança ética – o “tone at the top” que condiciona decisões e comportamentos.
  2. Supervisão e governance – mecanismos que monitorizam e corrigem desvios.
  3. Contributo independente – perspetivas externas que evitam pensamento fechado.
  4. Accountability transversal – responsabilidade clara por atos e decisões.
  5. Incentivos éticos – alinhamento entre remuneração, risco e conduta.
  6. Discussão aberta – cultura de speak‑up que reduz riscos ocultos.
  7. Formação ética contínua – capacitação para lidar com conflitos reais.
  8. Transparência – comunicação credível e estruturada com stakeholders Investidores institucionais internacionais, como fundos soberanos ou fundos de pensões, já incorporam estes fatores nos seus modelos internos de análise de risco.

Quando a cultura falha, o mercado reage: lições do passado recente. Os mercados dão exemplos claros do custo económico das falhas éticas, vários são os exemplos que se podem referir, desde os idos anos 90, até situações já neste século como a Wirecard, a Carrillion e a Volkswagen, são exemplos de existência de fraudes internas, por controlo deficiente e governance frágil, levando a perdas milionárias e quebras reputacionais e financeiras da década por falhas éticas associadas a incentivos perversos

Estes casos confirmam aquilo que investigadores há muito defendem: as grandes falhas corporativas raramente resultam de ausência de regras, mas sim de culturas permissivas e governance ineficaz.

As empresas portuguesas estão preparadas? Em Portugal, a pressão para reforçar a governance ética intensificou-se com a agenda europeia ESG, o aumento das exigências de reporte e a necessidade de atrair investimento estrangeiro. Setores como banca, energia, tecnologia e saúde atravessam transformações que exigem maior transparência e robustez ética.

Contudo, ainda se verificam práticas em que se continua a tratar ética como um tema "complementar", sem integrar:

  • métricas éticas nos sistemas de incentivos,
  • formação contínua dos colaboradores,
  • canais formais de denúncia,
  • contributo independente,
  • mecanismos de avaliação cultural.

Num ambiente económico cada vez mais competitivo, isto constitui um risco estratégico. O fator talento: ética como vantagem competitiva num mercado laboral exigente - Mais de 70% dos jovens qualificados na UE referem que não trabalham para empresas cuja cultura ética não respeitam. Para setores com escassez de talento — como auditoria, finanças ou tecnologia — a ética é agora uma variável determinante de atração e retenção. A ética é uma condição de competitividade e um fator de retenção das novas gerações. A ética é um fator chave da economia — e quem não perceber isto ficará para trás

A cultura ética e a governance deixaram de ser temas filosóficos e passaram a ser variáveis económicas centrais.
Influenciam risco, custo de capital, acesso a mercados, atração de talento, decisões de investidores e resiliência em crises.

Para empresas que pretendem competir globalmente, a pergunta já não é se devem investir em cultura ética — mas quanto estão dispostas a perder se não o fizerem.


Referências Bibliográficas :

  • IESBA (2026). Firm Culture and Governance Dialogues.
  • OECD (2015). G20/OECD Principles of Corporate Governance.
  • European Commission (2023). Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD).
  • Transparency International (2024). Corruption Perceptions Index.
  • Harvard Business Review (2023). Ethical AI & Corporate Governance.
Posted in: Crónicas, SOL.
Last Modified: Janeiro 22, 2026