Manuel Castelo Branco, OBEGEF
Quando a remuneração dos CEOs deixa de ter limites claros, a governação corporativa transforma-se num fator de legitimação da desigualdade. O caso Elon Musk é um alerta que também interpela Portugal.
Ainda hoje, passadas décadas, são várias as empresas cujas atividades e/ou líderes foram expostos como estando associados ao regime Nazi que apresentam narrativas sobre essa associação nas suas páginas web. Três exemplos são o Mercedes-Benz Group AG (https://group.mercedes-benz.com/company/tradition/company-history/75th-anniversary-of-the-end-of-world-war-ii.html), a Siemens (https://www.siemens.com/global/en/company/about/history/stories/siemens-and-national-socialism.html) e a Continental (https://www.continental.com/en/stories/supplier-for-hitlers-war/). A utilização de trabalho forçado é um dos aspetos que todas elas enfatizam.
Em algumas dessas narrativas parece haver uma desculpabilização de algum tipo. É caso da Siemens, em que, a propósito de Carl Friedrich von Siemens, líder da empresa entre1933 e 1941, se salienta na narrativa apresentada que, sendo um “firme defensor da democracia, ele detestava a ditadura nazi”. Não obstante, continua essa narrativa, “ele era responsável por assegurar o bem-estar e existência continuada da empresa”. A utilização de trabalho forçado é apresentada como “a única forma de compensar a escassez de mão-de-obra”, devida à convocação para o serviço militar de grande parte dos seus funcionários qualificados. A Siemens reconhece e lamenta explicitamente este passado, afirmando que o facto de ter “permitido que as pessoas trabalhassem contra a sua vontade numa altura em que a empresa era parte integrante da economia de guerra do regime nacional-socialista é algo que a atual gestão de topo e os funcionários da empresa lamentam profundamente”.
A Continental parece ter optado por uma estratégia um pouco diferente na sua abordagem à responsabilidade histórica que partilha com muitas outras empresas. Na sua narrativa, a Continental dá conta dos resultados de um estudo efetuado pelo historiador Paul Erker, com o título “Supplier for Hitler’s War. The Continental Corporation in the Nazi Era”, publicado em 2022 pela editora De Gruyter, o qual contou com o apoio da Continental, nomeadamente através da disponibilização de “todos os documentos relevantes na íntegra e sem restrições”. Para a Continental, o sucedido deve-se não só “às pessoas e às circunstâncias sociais da época da ascensão dos nazis ao poder, mas também à cultura empresarial”. Na narrativa apresentada pela Continental, sublinha-se “o quão suscetível a empresa era à ideologia nazi da "Betriebsgemeinschaft" (comunidade fabril), bem como aos objetivos políticos e ideológicos do regime nazi”. No caso da Continental, afirma-se claramente que o que ocorreu não foi “apenas provocada por fatores externos, mas também internos”.
Das três empresas em que se foca este texto, a Mercedes-Benz é aquela que oferece mais detalhes quanto à forma como eram tratados os trabalhadores forçados. Salientando a escassez de documentos que possam “fornecer informações concretas sobre a forma como foram tratados os prisioneiros dos campos de concentração enviados para a Daimler-Benz como trabalhadores forçados”, afirma-se na narrativa apresentada na página web da Mercedes-Benz que se deve “presumir que o tratamento que lhes foi infligido não diferiu em muito dos métodos utilizados nos campos de concentração e de trabalho forçado das SS, especialmente no final da guerra”.
É também a Mercedes-Benz que estabelece uma relação explícita entre a realidade do regime Nazi e a realidade dos nossos dias, ao afirmar que “sobretudo hoje, numa era em que a incitação à violência de extrema-direita se torna cada vez mais frequente e agressiva, a Mercedes-Benz está consciente do seu dever moral de ajudar, de forma clara e visível, a garantir que o racismo e a discriminação não são tolerados na nossa empresa”. A narrativa apresentada na página web da Mercedes-Benz termina com o reconhecimento do importante alerta deixado pela conturbada história da empresa, o de “não ignorarmos os anos negros entre 1933 e 1945”, mas antes “os mantermos vivos na memória”. Reconhece-se que “nenhum dos atuais colaboradores da Mercedes-Benz é responsável pelos danos causados aos seres humanos” nas suas fábricas e empresas e afirma-se a responsabilidade de cada um deles “pela sua própria conduta e pelos esforços pessoais para impedir que o ódio, a exclusão e a desumanidade voltem a ganhar terreno”. A narrativa da Mercedes-Benz termina com a frase “Não na Mercedes-Benz e não na nossa sociedade”. Parece-me adequada esta atitude de assumir responsabilidades quanto ao passado. Mais adequada ainda me parece esta chamada de atenção quanto às responsabilidades de cada um e de todos nós quanto ao presente e, especialmente, quanto ao nosso devir coletivo.


