Pedro Moura, Expresso online
Mas quando foi a última vez que um Presidente ou um Primeiro-Ministro olhou para os portugueses e disse: "E vocês, o que estão a fazer pelo país?". Marcelo Rebelo de Sousa, mestre da popularidade, alguma vez usou o seu carisma para esta exortação? Já JFK dizia: “Ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country”
Portugal, esse país onde toda a gente sabe exatamente o que os outros deviam fazer, mas ninguém se lembra do que podia fazer melhor. Somos campeões no desporto nacional da indignação: exigimos tudo aos governos, às instituições, às empresas, mas quando toca a cobrar responsabilidades aos nossos concidadãos (ou de nós próprios), a conversa muda. O português médio, tão feroz no Twitter contra os políticos, baixa a cabeça quando o vizinho estaciona em segunda fila ou quando o colega do lado se encosta no trabalho (ou quando ele próprio o faz).
1. O Estado paternalista e a infantilização coletiva
Os políticos e governantes deviam exortar os cidadãos a serem mais interventivos, mais exigentes uns com os outros, não só ao nível dos direitos, mas também dos deveres. Mas quando foi a última vez que um Presidente ou um Primeiro-Ministro olhou para os portugueses e disse: "E vocês, o que estão a fazer pelo país?" Marcelo Rebelo de Sousa, mestre da popularidade, alguma vez usou o seu carisma para esta exortação? Já JFK dizia: "Ask not what your country can do for you, ask what you can do for your country". Por cá, perguntar isto seria certamente um insulto e uma fonte de mais uma torrente de indignações diárias por parte de comentadores televisivos e dos cidadãos nas redes sociais.
2. Salário líquido: a ilusão conveniente
Se os portugueses tivessem que pagar os seus impostos diretamente, sentindo na pele o valor do IRC e da TSU, talvez a relação com o Estado fosse diferente. Ou, seja, em vez de receberem todos os meses o seu vencimento líquido, recebessem o valor total do vencimento bruto na sua conta bancária, e daí tivessem (todos os meses) de pagar IRS e TSU ao Estado. Mas não, o empregador é que "paga mal", porque ninguém faz ideia do custo real de um trabalhador para a empresa. Achamos sempre que os impostos "são da empresa" e nunca do nosso próprio bolso. Se víssemos o dinheiro a sair diretamente da nossa conta, talvez fôssemos mais exigentes com o uso que o Estado faz dele.
3. O custo da mediocridade
Toda a gente conhece o fenómeno: um português médio trabalha numa empresa portuguesa e é um profissional mediano, resignado, queixoso. Muda-se para uma empresa estrangeira (no estrangeiro ou mesmo em Portugal) e, subitamente, descobre-se um talento escondido. Claro, a culpa é dos patrões portugueses, da falta de incentivos, do ambiente tóxico. Mas e a responsabilidade do próprio trabalhador? E a cultura de "sacudir a água do capote"? A burocracia, a negligência e a má-vontade criam um custo de oportunidade gigantesco. Diria até que este custo de mediocridade ultrapassa o custo total da corrupção no país. Mas esta é mais uma conversa incómoda?
Portugal precisa de menos lamentação e mais ação. E talvez, só talvez, de portugueses que perguntem primeiro o que podem fazer melhor antes de apontar o dedo aos outros e dizerem que são, esses, os outros, que ‘são todos iguais’.