Fátima Geada, Jornal SOL

A integração da IA aumenta significativamente a eficácia da auditoria, tendo em consideração a sua Eficiência Operacional permitindo a automatização de tarefas repetitivas, a redução do tempo e a promoção da otimização do uso de recursos, bem como a qualidade de informação, através de uma análise mais profunda e abrangente, identificação precoce de riscos e maior precisão nas conclusões

A evolução dos sistemas de corporate governance e o reforço das práticas de auditoria interna desenvolvem um papel central na sustentabilidade organizacional. A emergência da Inteligência Artificial (IA) está a transformar profundamente estes domínios, introduzindo novas oportunidades de eficiência, rigor e capacidade preditiva. Este artigo analisa a relação entre corporate governance e a eficácia da auditoria interna, destacando o papel catalisador da IA na melhoria dos sistemas de controlo, gestão de risco e tomada de decisão.

Introdução

O conceito de corporate governance refere-se ao conjunto de mecanismos, processos e relações que orientam a gestão e o controlo das organizações. A auditoria interna, por sua vez, constitui um pilar essencial desse sistema, garantindo a fiabilidade dos processos, a conformidade normativa e a gestão eficaz dos riscos.

Na última década, a digitalização e, mais recentemente, a adoção de soluções baseadas em Inteligência Artificial têm vindo a redefinir o papel da auditoria interna, tornando-a mais estratégica e orientada para o futuro. A independência do órgão de AI no âmbito da segunda linha, do modelo das Três Linhas, sai reforçado com a diversidade de metodologias a aplicar, quer descritivas e de caraterização, quer preditivas, e a amplitude das mesmas, que a utilização da IA permite.

 Corporate Governance e Auditoria Interna: Enquadramento Conceptual

A corporate governance baseia-se em princípios como: a transparência, responsabilização (accountability), equidade e sustentabilidade

Organizações internacionais, como a OECD, enfatizam desde sempre, que uma boa governance assegura a confiança dos stakeholders e contribui para um desempenho económico sustentável.

De acordo com o Institute of Internal Auditors (IIA), a auditoria interna é uma atividade independente que visa avaliar e melhorar a eficácia dos processos de gestão de risco, assegurar a conformidade e reforçar os sistemas de controlo interno

A eficácia da auditoria interna está diretamente ligada à qualidade da governance organizacional. Quando nos referimos aos modelos de governance de tendência Monista ou Dualista, há sem dúvida uma tendência para os Modelos Anglo Saxónicos serem considerados como evidenciando um reforço da independência dos Boards, através da inclusão de membros não executivos e a constituição de Comissões Especializadas. A Comissão Especializada de Auditoria terá nesse âmbito, a atribuição da reportabilidade do órgão de Auditoria Interna, reforçando assim a sua independência.

Relação entre Corporate Governance e Eficácia da Auditoria Interna

A ligação entre estes dois elementos é bidirecional, por um lado um impacto da Governance na Auditoria, um sistema de governance robusto garante independência da função de auditoria, estabelece linhas claras de reporte (ex.: ao comité de auditoria) e promove uma cultura ética organizacional. Por outro lado, o contributo da Auditoria Interna para a Governance, em que a auditoria interna tende a fornecer assurance independente ao conselho de administração, apoia na monitorização de riscos emergentes e avalia a eficácia dos controlos e processos. Deste modo, a auditoria interna atua como um mecanismo de feedback essencial para o aperfeiçoamento contínuo da governance.

Inteligência Artificial na Auditoria Interna

A IA incorpora diversas tecnologias relevantes para a auditoria, desde tecnologias de machine learning, process mining, robotic process automation (RPA) e metodologias potentes de análise de Big Data.

A IA permite assim potenciar cada vez mais a Auditoria Interna no que concerne a auditorias contínuas (continuous audit ), utilização e análise de enormes volumes de dados em tempo real, sem necessidade de se socorrer de processos de amostragem, baseados em níveis de significância e erros toleráveis , que aumentam o risco de extrapolação dos resultados de Auditoria, permitindo também a deteção automatizada de anomalias e fraudes, mitigando desta forma significativamente o risco de fraude e a redução de erros humanos

Com base na utilização de metodologias preditivas, a auditoria potencia a sua vertente prospetiva, preditiva e orientada para potenciais riscos futuros, diminuindo de importância o seu carácter estritamente reativo, baseado em análise de factos e eventos passados e colocando a tónica no desenvolvimento de avaliações de riscos potenciais face a comportamentos preditivos.

A integração da IA aumenta significativamente a eficácia da auditoria, tendo em consideração a sua Eficiência Operacional permitindo a automatização de tarefas repetitivas, redução do tempo despendido para a elaboração de uma auditoria e promovendo assim a otimização do uso de recursos, bem como a qualidade de informação, através de uma análise mais profunda e abrangente, identificação precoce de riscos e maior precisão nas conclusões

Deste modo, o valor estratégico da Auditoria Interna é definitivamente potenciado enquanto função de: apoio à decisão do conselho de administração, fator de melhoria da governance e maior alinhamento com os objetivos estratégicos

Contudo, nem tudo são boas notícias, temos que considerar também os desafios e limitações, dos quais se destacam: os Riscos Tecnológicos, com a dependência acrescida de sistemas cada vez mais complexos, problemas acrescidos de cibersegurança e dificuldade em gerir eficazmente os algoritmos; para além da problemática decorrente das novas competências profissionais necessárias.Os auditores internos necessitam de dominar competências digitais e analíticas, conhecimentos em IA, bem como capacidade de interpretação de resultados automatizados, com conhecimento acrescido no âmbito das metodologias de data analytics.

Questões Éticas e Regulatórias

As questões éticas e regulatórias da Inteligência Artificial (IA) constituem um dos temas centrais na atualidade, sobretudo no contexto da governance, compliance e sustentabilidade.

De todo este novo enquadramento, surgem novas questões altamente desafiantes do ponto de vista ético e regulatório, no que concerne à: proteção de dados, transparência dos algoritmos e leitura dos mesmos e conformidade com normas internacionais (ex.: GDPR, ESG, CSRD)

Implicações para a Corporate Governance

Estas questões traduzem-se num impacto efetivo no que concerne à corporate governance das organizações, levando a um reforço em áreas de supervisão de riscos tecnológicos e de garantia de uso ético da IA; novas Estruturas de Controlo, com a integração de governance digital e a criação de comités especializados em tecnologia, bem como de responsáveis dessas mesmas áreas com representação nos boards e uma maior relevância e abrangência das funções da segunda linha ( Modelo das Três Linhas). Além disso, um reforço na transparência e accountability, através de uma preocupação reforçada na análise e explicabilidade dos modelos de IA, bem como de um reporting reforçado aos stakeholders.

Conclusão

A Inteligência Artificial representa uma oportunidade transformadora para a auditoria interna e para os sistemas de corporate governance. A Inteligência Artificial está a redefinir não só a auditoria interna, mas a própria arquitetura da corporate governance. Ao transformar a função de auditoria numa ferramenta preditiva e estratégica, cria-se uma oportunidade para reforçar a transparência, a eficiência e a resiliência organizacional.

Contudo, a sua implementação exige uma abordagem equilibrada, que combine inovação tecnológica com rigor ético, competências profissionais e um quadro sólido de governance. A oportunidade vem acompanhada de uma responsabilidade acrescida: garantir que a tecnologia é governada com o mesmo rigor com que transforma as organizações.

Num contexto económico cada vez mais exigente, a qualidade da governance poderá, mais do que nunca, ser o verdadeiro diferenciador competitivo.