Marcus Braga,  Revista AI Magazine Ed. 56 Nov/Dez 2025

Em outubro de 2025 estreou com relativo sucesso na plataforma Netflix o filme “ A casa de dinamite”, dirigido pela premiada Kathryn Bigelow, com a participação no elenco de Rebecca Ferguson e Idris Elba, além de grande elenco, tratando do tema da guerra fria e da deterrência nuclear entre as nações de forma bem interessante e inovadora.

Filme angustiante, narra a partir do ponto de vista de diversos atores governamentais a detecção de um míssil balístico lançado de um lugar desconhecido em direção ao território estadunidense e a partir desse fato, em curto espaço de tempo, a reação dos mecanismos de defesa, pondo a prova treinamentos, procedimentos e equipamentos.

Aliás, essa tríade em relação a defesa antiaérea permeia as quase duas horas de filme, quando diante do medo e da insegurança dos profissionais, eles são lembrados do seu treinamento; quando surge a dúvida de como agir, se invocam os procedimentos; e ainda, surgem discussões estatísticas sobre o sucesso dos equipamentos de defesa.

Para além da tensão dos atores diante de um perigo iminente, a tônica do filme, destaca-se um ator ausente nas falas e que poderia ter tido um papel fundamental: a auditoria. Não se vê falas como “-De que forma isso falhou? Não foi auditado?”. A existência de mecanismos independentes e sistemáticos de verificação de pontos relevante do processo não figura entre as questões trazidas no decorrer do filme, como se um sistema de defesa tão importante funcionasse de forma autônoma, pela força apenas de seu processo de treinamento, procedimentos estabelecidos e equipamentos de última geração.

A atividade de auditoria deriva da natureza das coisas, da necessidade de supervisão do processo de delegação e descentralização, da atuação oportunista frente a assimetria informacional e dos riscos derivados dos contextos reais (BRAGA, 2020). Ao se desenhar um sistema, seja de defesa ou administrativo, são pensadas salvaguardas que façam frente aos riscos que podem se materializar em falhas, e a verificação independente e sistemática da suficiência dessas proteções é um instrumento de promoção de confiança.

Não é à toa que as normas internacionais (THE IIA, 2024) ao tratarem da avaliação, utilizam a palavra “assurance” da língua inglesa, que traz uma ideia de asseguração, de proteção e de confiança, ressaltando o conceito de uma avaliação em completude da auditoria interna que forneça aos gestores em um nível estratégico uma razoável segurança, que pode ser a chave de um sono tranquilo ou a solução de um processo decisório diante de uma crise, como no filme comentado.

Essa visão da atividade de auditoria, mormente a auditoria interna, que destaque seu aspecto sistemático e disciplinado, a completude de seu escopo e o foco da suficiência das salvaguardas diante do risco, uma visão sintonizada a essência dessa atividade, encontra dificuldades em um tempo no qual o foco “errocêntrico” é exaltado, onde o debate sobre os problemas detectados superam a relevância das soluções pontuais e sistêmicas necessárias, impedindo assim o amadurecimento de sistemas administrativos que conduzam a confiança.

No campo das políticas públicas, como no filme, esse debate se reveste de singular importância, pois uma política se materializa por meio de um programa que é composto de processos diversos, envolvendo outros atores, territórios e até agentes privados, e ao assistir nos periódicos problemas em relação a determinado programa governamental, a visão da auditoria interna precisa adentrar a raiz do problema, suas causas e a forma de se o evitar, para que aquele dissabor se converta em confiança, em um sentido construtivo.

A Auditoria Interna é a atividade que pela desconfiança, gera confiança, e para isso, em especial na atividade governamental, ela precisa ter a sua capacidade detectiva de problemas ligada de forma indissociável com a sua capacidade de analisar a suficiência das salvaguardas e propor reformas que amadureçam aquela gestão em um aspecto preventivo, ressignificando assim o conceito de adicionar valor a gestão.

Se passado uma década, ainda detectamos os mesmos problemas em relação a um determinado programa governamental, essa devida realimentação da governança da política pública não está surtindo efeito, e os prejuízos se fazem de forma continuada e estrutural, o que enseja que o processo de auditoria, para além de focar no contábil, na conformidade ou no operacional, adote uma visão baseada em riscos.

Segundo Griffiths (2015) e Oliveira (2019), a ideia da auditoria interna baseada em riscos é trazer uma opinião ao gestor sobre se os riscos estão sendo gerenciados em um nível considerado aceitável, adicionando valor às organizações, a partir de trabalhos direcionados aos principais riscos do negócio e as salvaguardas que deles devem dar conta. Uma visão de cuidado em relação a organização, de ver como ela está se protegendo, com a técnica e o afastamento necessário que caracterizam a auditoria interna.

Nesse sentido, a chamada Auditoria Baseada em Riscos, não se preocupa em levantar riscos para o gestor, e sim em ver como os riscos estão sendo tratados por ele, em que nível de cuidado, e para isso, se utiliza de testes que simulando o real, permitem identificar problemas e relacioná-los em um contexto maior, de governança daquela política pública, em um avanço civilizatório.

A Auditoria Interna não é uma casa de dinamite, de explosões espetaculosas, e sim um trabalho cotidiano, metodológico e estrutural em relação a organização, que avalia seus principais processos, um tratamento, um cuidado, que torna estes melhores por se verem mais confiáveis e protegidos, trazendo a alta gestão conhecimento, tranquilidade e previsibilidade, evitando que problemas estruturais de maior monta cresçam e se tornem uma ameaça real a continuidade da organização.

E nos governos, que lidam com a guerra, mas que também cuidam de pessoas em  hospitais e educam crianças em escolas, o papel da auditoria interna suplanta a visão de um cão de guarda vigilante (Watchdog) para que não se cometam erros, sendo acrescido de uma atuação mais cuidadora, que compreenda e teste o que for relevante, indicando o que precisa ser ajustado, saindo de treinamentos e procedimentos para uma percepção mais realista fornecida a gestão, que passa a confiar mais nos seus processos e nos seus resultados.

Referências:

BRAGA, Marcus Vinicius de Azevedo. Vale quanto pesa: um estudo sobre os impactos do controle na gestão. In: Belo Horizonte: Editora Fórum. 2020.
GRIFFITHS, David. Three views on implementation. Version 2.2 [S. l.: s. n.], 2015. E-book. Disponível em: https://www.internalaudit.biz/files/implementation/rbiaimplementing.pdf. Acesso em: 27 out. 2025
OLIVEIRA, Tatiana Freitas de. Avaliação das práticas de auditoria interna da Secretaria Federal de Controle Interno da CGU sob a ótica da Auditoria Baseada em Riscos. Revista da CGU, [s. l.], n. 19, abr./jul. 2019
THE INSTITUTE OF INTERNAL AUDITORS (The IIA). Normas Globais de Auditoria Interna. Versão em português. Publicado em 9 jan. 2024. Disponível em:https://www.theiia.org/globalassets/site/standards/editable-versions/global-internal-audit-standards-portuguese.pdf . Acesso em: 27 out. 2025.