Maria Natália Gonçalves, OBEGEF

Vivemos tempos estranhos em que se instalou um clima de suspeição generalizada em relação aos detentores de cargos públicos.

O bombardeio de pseudonotícias, do disse que disse, fez ou não fez, é alucinante...  Andamos todos muito confusos! O que parece que é, não é e o que é, não parece. As percepções valem mais que os dados e as narrativas contradizem os factos. Há dias que nem sabemos o que pensar!

Óbvio que ninguém é ingénuo em acreditar que o mundo complexo em que vivemos é formado por donzelas imaculadas. Sim, a corrupção é real e afeta-nos de forma mais profunda do que podemos imaginar e, nesse caso, os sistemas de controlo devem funcionar e retirar as devidas consequências. Contudo, esta verdade não deve confundir a nossa inteligência e fazer-nos cair na armadilha de achar que à exceção de nós mesmos, os demais são invariavelmente corruptos. Não seria ético da nossa parte!

No meio político-partidário e da governação, o escrutínio em matéria de integridade e transparência deve ser reforçado, mas há que ter cautela, pois trata-se de um terreno propício à efabulação manipuladora.

Só quem for desprovido de honestidade intelectual poderá dizer que não é legítimo a quem presta um serviço à sociedade ter a expectativa de receber o benefício correspondente, seja ele material ou imaterial. Há redes de influência, conexões pessoais e profissionais que não desaparecem no dia da investidura num cargo público e outras que se estabelecem e não cessam no último dia do mandato. Mas, daí a generalizar que tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá na vida de um detentor de cargo público é uma indesculpável falta de transparência e de integridade, é uma lamentável instrumentalização da ética.

Esta instrumentalização reflete uma certa maneira de estar de quem vive na caverna da política ou dentro de uma armadura ideológica defensora de uma existência coletiva apoiada no assistencialismo do Estado. E, se olharmos bem, existe um padrão de comportamento grupal que nos tem conduzido a um beco sem saída.

Por um lado, os portugueses têm um problema de relacionamento com o sucesso e a riqueza, o que em certa medida explica a nossa dificuldade em prosperar como país. Uma mentalidade franciscana de escassez, associada à síndrome do ‘bota-abaixo’, manifesta-se numa maledicência patológica em relação às concretizações do vizinho e numa inaptidão em cooperar coletivamente em prol de um benefício comum.

Por outro lado, os portugueses lidam mal com a responsabilidade cívica. Num país com mais de 50 anos de liberdade democrática, o propagar de denúncias anónimas de corrupção é paradoxal. É fundamental a proteção adequada dos denunciantes, mas daí a dar-se credibilidade absoluta ao anonimato, é favorecer a impunidade dos que não se coíbem em ‘lançar a pedra e esconder a mão’.

É perverso alimentar assim um ambiente que amplifica rumores de supostos casos de corrupção ao serviço de interesses duvidosos. E depressa o circo da pequena política fica montado e lá vão os portugueses, mais uma vez, a reboque dos caprichos e devaneios de quem está menos preocupado em ver o país crescer e mais em garantir o acesso a um exercício medíocre do poder. 

Como afirmou Fernando Savater, convém não esquecer que “(a) única coisa para que a ética serve é para nos tentarmos melhorar a nós próprios e não para repreender eloquentemente o vizinho” (in, Ética para um jovem).