Ricardo Rodrigues, OBEGEF

Às ninfas o espírito do adamastor, ora, entre crenças e fés distópicas, veículos perniciosos de legitimação de um poder opressor, embiocado sob o manto diáfano da moralidade e da tradição. Uma quase espiritualidade, onde não há espaço para a transcendência e a interrogação. Um efetivo instrumento de dominação que reforça desigualdades estruturais, explorando máximas despóticas (v. fortes com os fracos, fracos com os fortes). A captura das narrativas religiosas e pseudocientíficas por elites ávidas consolida um paradigma de subjugação paulatino de vulneráveis presas (reféns), entre agentes mobilizados, os ungidos, e individualidades não hegemónicas ou contra-hegemónicas, rotuladas ameaças, a poderosas e inspiradoras deidades, semidivindades, intangíveis, absolutamente inquestionáveis.

Boas leituras:

Perpassando a teologia do domínio e a teologia da prosperidade, construções ideológicas orientadas para a perpetuação de relações (cada vez mais) assimétricas de poder, doutrinas que sacralizam hierarquias sociais, tornando a contestação política irrelevante e herética. A teologia do domínio, radicada no princípio da pleníssima soberania do divino (resultado hermenêutico do despótico princípio). Sustenta, assim, a captura das estruturas de poder, suprimindo o pluralismo, impondo uma visão-prima monolítica da moralidade. A teologia da prosperidade que concatena diretamente fé a recompensa material, constitui uma real apologia ao neoliberalismo espiritual, apresentando o sucesso económico e financeiro como evidência da predileção divina (v. maná – graça - bênção), e a pobreza, por sua vez, consequência direta da insuficiência moral.

A par, tantas outras, com equivalente potencial de perniciosidade, pois que consolidam o domínio dos grupos hegemónicos e a submissão dos mais vulneráveis. A teologia do sacrifício, que glorifica o sofrimento como meio de resgate ou redenção, com enorme potencial de naturalização da exploração dos grupos mais expostos, fomentando uma postura ética passiva ou de elevada resignação. A teologia da “guerra santa” e a teologia da “guerra espiritual” que justificam, em graus e intensidades variáveis, respetivamente, a violência física e a violência indireta ou social, como formas legítimas de imposição ideológica, contribuindo para a propagação de discursos fundamentalistas e intolerantes. A teologia da submissão, que reforça a passividade e a resignação perante a ordem e a autoridade, condenando a contradita a ato de rebeldia, libertinagem, ato injustificado/ inaceitável de desobediência, contra o divino. E, finalmente, a teologia apocalíptica, de viés escatológico-enigmático, possui um enorme potencial imobilizador da ação individual e coletiva e funciona como legitimadora de lideranças apresentadas como fiéis redentoras, dotadas das virtudes que as tornam aptas a transformar / transfigurar propostas belicistas polarizadoras, elevando-as ao estatuto de confrontações morais e espirituais, com todas as consequências.

A confluência sistémica destas teologias constitui robusto substrato a mecanismos de engenharia social altamente eficazes, ampla e criativamente explorados, pelas “extremas-direitas”, seus ideólogos e apoiantes, sem, evidentemente, descurar outros grupos e movimentos, particularmente hábeis na edição criativa de imaginários, e a partir da construção de narrativas e discursos, ancorados no ressentimento e no medo, imbuídos numa densa-complexa moralidade religiosa, exortam pelo resgate ou restauração, sem reservas ou tréguas, de uma ordem moral e divina / natural, uma visão de mundo (recortada- predefinida) onde o sacrifício, a submissão e as ungidas ações de domínio (consagradas / elevadas a virtudes), etc., constituem caracteres de um plano superior de salvação.

Com relevo,

Processos herméticos de glorificação e sacralização das desigualdades e da opressão-subordinação (subjugação), atrelados a métodos e técnicas de descredibilização e condenação sumária de quaisquer formas de reivindicação emancipatória, alegados frutos de agendas ocultas, contrárias às fiéis determinações do divino-superior.

As individualidades e os grupos sociais não hegemónicos, convictos dos desígnios espirituais, que, qual profecia autorrealizada, os condenam indefinidamente a uma certa e determinada localização social, abdicam, em absoluto, da contestação (marcadores obstaculizadores da mobilidade ou transição sociais).

Os oprimidos, convencidos de que a submissão os redime/ os resgata, aceitam a sua posição na “hierarquia” social, sem qualquer tipo ou forma de insurgência.

Narrativas da emancipação ou da libertação ideológica, fórmulas estéticas de redenção, que, apesar da aparente qualidade das propostas, desbravam linearidades e generalizações, condenam factos, evidencias, limitações, redefinem causas e contextos, etc., em boa verdade, visam ativamente a boa manutenção do status quo, servindo, frequentemente, processos de legitimação de entes hegemónicos e correspondente complexo ideológico (conservador).

Narrativas do inimigo “comum”, explorando o ressentimento e o medo, pela construção /(re)definição das ameaças (externas e internas) à ordem divina e social, personificadas por vidas, corpos e causas ditos heréticos (v. imigrantes; movimentos progressistas; grupos marginalizados ou, mesmo, tecnologias disruptivas), ora, os efetivos incitadores responsáveis por um inevitável e derradeiro caos idealizado, fortalecendo, assim, a imprescindibilidade da manutenção do status quo para assegurar a preservação da ordem em perigo-risco.

O discurso meritocrático, inscreve a desigualdade como reflexo da ordem natural, rotulando os estados de pobreza, precariedade e exclusão como reais evidências de falha moral individual, furtando à discussão, entre causas, sintomas e sinais, os vícios de um sistema, que tende a favorecer individualidades e grupos hegemónicos, estruturalmente beneficiários de vantagens.

A função do discurso meritocrático não visa, claro está, a tutela dos “bons” valores tradicionais, mas, sobretudo, a perpetuação de uma elite que se oculta numa retórica populista, enquanto deambula operante entre bastidores, afetos e favores, capazes de asseverar a boa manutenção progressista de um determinado status quo.

Os agentes hegemónicos, envoltos na aura de uma autoridade divina, tornam-se, destarte, poderosas e inspiradoras deidades, semidivindades, figuras incontestáveis, inquestionáveis, ditadores iluminados, os salvadores, para quem a moralidade se torna um real instrumento de legitimação.

Nesta senda, o potencial das novas tecnologias, em particular das inteligências artificiais (IA’s), entre espaços e plataformas, que apesar de verdadeiramente transformadoras, pois que constituem efetivos instrumentos emancipatórios, decisivos no contexto dos processos de democratização, são, oficialmente, aliadas da continuidade e exploração dos abusos e de desigualdades históricas, estruturais e culturais. Em boa verdade, e apesar do anacrónico negacionismo, evidenciam-se como efetivas catalisadoras exponenciais dos fenómenos de opressão, discriminação e exclusão. Reproduzindo e amplificando os sistemas de poder, asseguram a perpetuação das hierarquias sociais, ao passo que introduzem novas formas/ dinâmicas de dominação e exclusão.

O contexto político, económico, social e cultural, aliado aos caracteres específicos definidores das principais instituições, organizações, bem como, sistemas, serviços e tecnologias – com destaque, pelos inúmeros potenciais, designadamente no controlo informacional, na vigilância digital, na segmentação ideológica, vetores de influência na modelação da opinião pública e na consolidação de narrativas,as plataformas digitais, em especial, pela forma como mobilizam e amplificam esses mecanismos, o Parler, o Truth Social, o Gab, a Fox News (sectorialmente), o Reddit, o Twitter (X), o complexo Meta, etc. – produtos do seu tempo, com ideólogos, projetistas e executores imersos nos seus próprios referenciais de valores e princípios, direta e indiretamente modelados à-na estrutura organizacional vigente (v. as dimensões de gestão-governança (governance); a cultura organizacional; o clima organizacional; as políticas de moderação de conteúdos; os protocolos de comunicação-interação com usuários; etc.), evidencia marcadores preocupantes, que determinam um elevado potencial de reprodução e robustecimento dos sistemas de poder.

As IA’s, também elas produtos do seu tempo, recorrentemente utilizadas pelas plataformas digitais, são programadas/ moldadas/ alimentadas/ testadas /treinadas com recurso (base essencial ou matéria-prima) a grandes volumes de “dados”, de várias naturezas, proveniências várias, ora, de fontes diretas, indiretas, mecânicas, etc., representativos e não representativos, “justos” e “injustos”, ainda assim, projetam um específico contexto histórico, político, económico, social e cultural, cujo design/ cuja assinatura carrega as marcas da opressão e das assimetrias. Esse repertório nocivo torna-se parte da tecnologia, resultando, sem o devido crivo ético-estético e iusnormativo, na inevitável reprodução e amplificação de sistemas de opressão e “crenças” limitantes (estrutural, institucional intersubjetivamente dogmatizados), com especial relevo, o racismo, a xenofobia, a misoginia, a LGBTQIAPN+ fobia, a aporofobia, o etarismo, o capacitismo, etc., nas suas plurais expressões, intensidades e simbolismos.

Sob o manto de uma suposta neutralidade, objetividade e eficiência algorítmicas e de um dito auspicioso “progresso” tecnológico (sem freio), sofisticados instrumentos-mecanismos com enorme potencial de condicionamento das perceções, inovadoras formas de manipulação e efetivação de hierarquias, são, assim, disponibilizados ao serviço das narrativas propagandistas, das poderosas elites ávidas de mais poder.

Neste amplo quadro, com todos os meios, técnicas e recursos, em espaços e ambientes tradicionais, digitais, virtuais, conhecidos, a explorar, artificiais reedições de processos salvíficos e de divinização de figuras políticas, de magnatas da tecnologia, entre outros tecnocratas, convertidos em avatares do destino histórico, investidos de um poder atemporal ou espiritual, os iluminados, os predestinados, os profetas, os paladinos da verdade e da justiça, as deidades, as semidivindades, libertados, pois, de quaisquer convenções sociais e, sobretudo, do escrutínio democrático.

A idolatria (política) ou mitificação dos líderes e a supressão do senso crítico são vetores de um complexo cenário de servidão voluntária (uma real submissão), onde as individualidades, assim, presas (reféns) resignadas, a quem foi vedado alcançar a emancipação consciencial, essencial à existência plena e coexistência pacífica, sucumbem ao inebriante fascínio por uma ordem social rigidamente estratificada. Na qual, a intolerância integra um vasto leque de valores-base de suporte à repressão e perseguição da dissidência.

Mitificada a autoridade, a perpetuação de regimes autocráticos excludentes.

Quanto à ordem estabelecida, geneticamente intangível (natural e imutável), um desígnio superior incontestável. Com ela, a perpetuação de um ciclo de anulações identitárias, de espoliações, de esbulhos das individualidades e dos grupos mais vulneráveis da hierarquia social, assim, esmagados por uma estrutura que, paradoxalmente, se autoproclama redentora.

Fechando,

As engrenagens das narrativas e dos discursos teotecnocráticos impõem um compromisso sério de transmutação epistemológica, que reacenda e intensifique, de modo progressivo, os alicerces fundacionais principiológicos da laicidade, da cidadania ativa-crítica plural, entre outros. Em boa verdade se diga, que a cisão entre fés e Estado(s) não pode, nem deve ser um mero enunciado linguístico iusnormativo, antes uma prática ativa (constante e efetiva), de pleníssima defesa da integridade e efetividade dos direitos, liberdades e garantias e da autonomia do Estado, por sua vez, sensível e intransigente a vieses autoritários.  

Nesta senda, pleno destaque para o sistema educativo/ formativo, seus agentes, promotores, como baluarte do conhecimento, do pensamento crítico, ética e esteticamente comprometido, ora, decisivo no processo de desmistificação do poder (das idolatrias) e da glorificação do obscurantismo.

Um sistema vivo, berço para/de novas visões, reedições críticas (multipolar) das narrativas, que projetando efetiva e em plenitude as vivências e os fenómenos, das vidas e dos corpos, carregando, pois, a suas causas, dores, necessidades e sonhos, proporcionam futuros, com justiça, solidariedade e dignidade. Ora, um sistema ao serviço de uma nova ordem social composta por identidade críticas, conscientes e comprometidas com os “eus” de todos.

Assim, a inevitável desconstrução, letra por letra, palavra por palavra, argumento por argumento, linhas, entrelinhas, dos edifícios discursivos (torres frenéticas), construtos falaciosos, que, sob falsos imperativos, ditos sacros, sustentam a opressão e perpetuam as desigualdades, fragmentando, objetificando, silenciando as expressões dos “eus”, esmagando quaisquer vestígios de dignidade.

Só assim poderemos cogitar uma tangível superação da teia de ilusões e desilusões que sustentam a perpetuação dos domínios das individualidades e grupos hegemónicos e devolver aos mais vulneráveis a possibilidade de serem protagonistas, de serem agentes determinantes no seu iter vital, serem agentes decisivos nos respetivos processos/ procedimentos/ dinâmicas, serem sujeitos ativos na múltiplas esferas da vida social-pública-política, no fundo, a oportunidade de uma experiência existencial dignificante, a verdadeira redenção.

Mas!

Sempre existe um “mas”!

Não adormeças!

Não esmoreças!

Sê vigilante!

                                                                                                                        A próxima linha é tua……………