Carlos Pimenta, Jornal i Online

 

Nós, consumidores, temos de ser responsáveis e não pactuarmos com a escravatura.
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1. A escravatura é uma vergonha da humanidade. Nenhum de nós ou dos nossos familiares gostaria de ser escravo. É uma brutal afronta à dignidade humana que a nossa civilização cristã rejeita e que há muitos séculos é condenada por sucessivos papas. Nem sempre há coerência entre o que simbolizamos e o que somos. Os mesmos que ergueram a bandeira da “propagação da fé cristã” também enriqueceram com o comércio de escravos. Contudo, se queremos ter verdadeiro respeito pelo que vimos ao espelho temos de ser coerentes com os valores da moral.

A escravatura não é um acontecimento do passado. Faz parte do nosso quotidiano sem que muitas vezes nos apercebamos. Nas últimas décadas do século XX e nos três lustros do presente a escravatura tem aumentado estimando-se em dezenas de milhões. Não é uma reminiscência em alguns recantos do mundo. Nos Estados Unidos foram julgadas várias empresas pela sua prática e o tráfico de seres humanos na Europa tem-lhe estado associado. Falar de escravatura hoje não é um eufemismo, é expressar uma realidade que só pode gerar angústia e desconforto. Cálculos feitos, um escravo hoje pode ser transaccionado por um décimo do valor do que imperava séculos passados. São as leis do mercado em tempos de desemprego, competitividade internacional e abissais desigualdades sociais.

É frequentemente afirmado que cada moeda que gastamos na aquisição de um produto é um voto de confiança em quem o produziu. Não podemos continuar a dar o nosso «voto» a quem pratica o esclavagismo. Os frigoríficos e os guarda-fatos, para além de outros recantos das nossas habitações, tresandam a escravatura. Como afirma Loreta Napoleoni, “os consumidores continuam a manter-se alegremente na ignorância em relação a estes factos. A matriz do mercado, um complicado labirinto de fumos e espelhos, esconde a natureza exploradora do negócio e do comércio. (…) Os consumidores, se alguma vez optarem por pensar nisso, poderão ficar chocados ao saber quem embolsa a maioria dos lucros das suas compras diárias de mercadorias”.

2. Muitos outros aspectos poderiam ser referidos em relação aos bens que quotidianamente consumimos. Uns são produzidos com trabalho infantil, outros em situações de degradante insalubridade. Uns põem em causa a preservação da natureza e o ar que respiramos, outros a salvaguarda das espécies e a biodiversidade. Uns estão encharcados em sangue de guerras e crimes, outros escorrem as lágrimas de produtores falidos pelo esmagamento dos preços.

Os consumidores, que somos todos nós, têm que assumir e exercer a sua responsabilidade social. Não basta ver a qualidade e o preço, a necessidade e a utilidade. Temos de equacionar o respeito pelos valores éticos da civilização que ambicionamos. Há pouca informação sobre estes temas. Tem de existir muito mais.

As associações de defesa do consumidor têm uma responsabilidade em promovê-la, em diligenciar práticas concordantes com a dignidade humana.