António João Maia, Jornal i

A questão da corrupção traduz um problema que, de diversas maneiras, nos afecta de modo mais ou menos evidente a todos

 

A corrupção é um termo e sobretudo uma questão que tem acompanhado o dia-a-dia das nossas vidas. Com frequência ele passeia-se nas primeiras páginas dos jornais e entra-nos pela casa dentro através das televisões e das rádios. A propósito das mais variadas situações, apresentadas com contornos de maior ou menor suspeição e envolvendo nomes de instituições e de pessoas – quase sempre de destacas figuras da vida social, política e económica –, vamos sendo alimentados com a noção de que a corrupção está um pouco por todo o lado, que faz parte do universo da política e dos negócios e que mina a confiança tão importante nas relações entre o público e o privado e, particularmente, das pessoas umas com as outras.

Enfim a questão da corrupção traduz um problema que, de diversas maneiras, nos afeta de modo mais ou menos evidente a todos…

Se perguntarmos às pessoas se são a favor da corrupção, ou se elas próprias são corruptas, certamente que nos responderão, de modo franco e convicto, que “são contra a corrupção”, e por isso “consideram não ser corruptas”. Se a questão for considerada assim de modo abstrato, facilmente se percebe que ninguém seja a favor da corrupção, até porque todos temos a noção de sermos íntegros e pessoas de bem.

Mas se perguntarmos às mesmas pessoas o que pensam dos outros relativamente às referidas questões, provavelmente vão-nos dizer, de modo igualmente franco e sincero, que “a corrupção está justamente nas suas atitudes e sobretudo nas suas práticas”. A noção que nos transmitirão será a de que “as outras pessoas, à sua medida e de modo mais ou menos evidente, denotam sinais de poderem ser corruptas, nomeadamente quando estão ligadas à vida política e ao mundo dos negócios”, espelhando assim as imagens que lhes chegam pela comunicação social.

Com esta perceção – que, relativamente a Portugal, é confirmada pelos resultados do Barómetro da Corrupção, questionário anualmente realizado pela Transparência Internacional – podemos concluir (para lá de outras leituras admissíveis) que, em função do ponto de vista que consideremos, ou temos uma sociedade sem corrupção (a partir da autoimagem de cada “eu”), ou uma sociedade em que todos, cada um à sua medida, são corruptos (a partir do olhar de cada sujeito sobre “os outros”).

Ora, como é bom de ver, a realidade do problema não é uma coisa nem a outra. Ela estará seguramente algures entre estes dois pontos-limite, havendo sinais, como referi em “Corrupção em Portugal – entre a percepção e a realidade”, de que a dimensão efetiva do problema seja inferior à que é estimada pelas pessoas.

Todavia, a noção que verdadeiramente as pessoas traduzem é a de que a corrupção é um problema dos outros. Por isso consideram estar fora do seu alcance qualquer esforço ou contributo para o alterar. Por isso tendemos a adotar a estratégia da avestruz, que nos leva a fechar os olhos e a pactuar com situações muito simples com que por vezes nos cruzamos, como seja o ato de alguém, sem razão que o justifique, querer passar à frente na fila para o almoço, ou para adquirir o bilhete do comboio.

Mas a corrupção também tem a ver connosco quando pedimos, ou concedemos, um pequeno favor para um “lugarzinho lá nos serviços”, ou para chegar mais depressa e nas condições pessoais mais vantajosas, à “decisão do nosso processo” na junta de freguesia, desconsiderando tudo o que está pelo meio e deve ser respeitado, ou seja os princípios, as regras e fundamentalmente o interesse coletivo.

Enquanto não tivermos a noção de que a corrupção é verdadeiramente um problema de todos, dificilmente ganharemos consciência do papel determinante que está reservado a cada um de nós para a redução da sua dimensão…