Luís Seabra, Jornal SOL
A inevitabilidade da fraude não é pretexto para a inação, mas razão para agir: preparar, investigar depressa, aprender e melhorar os controlos
A fraude destrói valor. Às perdas diretas somam-se coimas, custos judiciais e, sobretudo, danos mais difíceis de reparar: investidores e colaboradores deixam de confiar na gestão, a produtividade cai, a reputação fica manchada e os melhores talentos saem.
A premissa deste artigo é simples: a fraude é inevitável. Bancos e empresas são feitos de pessoas, e, onde há pessoas, há quem, sob pressão e perante uma oportunidade, encontre a justificação para agir de forma desonesta. A questão não é se a fraude vai ocorrer, mas quando. Acreditar que «…só acontece aos outros…» ou esperar que «…não nos aconteça a nós…» não é gestão de risco: é fé. As instituições mais avançadas preparam-se: assumem a fraude como certa e testam a resposta com playbooks e dry-runs.
Preparar não é acumular controlos isolados, é adotar um modelo integrado, assumido por toda a organização. A segunda edição do Fraud Risk Management Guide (COSO e ACFE, 2023 – COSO: Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission; ACFE: Association of Certified Fraud Examiners) estrutura-o em cinco princípios:
- Governo. Cabe à gestão de topo instituir uma cultura de integridade e de valores éticos inegociáveis e demonstrar, nas decisões e no exemplo, um compromisso inabalável contra a fraude («tone from the top»). Na minha opinião, é o princípio mais importante: nada dissuade mais a fraude do que a liderança e a cultura que cria.
- Avaliação do risco. Realizar regularmente um Fraud Risk Assessment que identifique os riscos relevantes, avalie probabilidade e severidade e analise incentivos e vulnerabilidades. Para tal, ajuda ver a organização com os olhos de quem a quer defraudar.
- Controlos. Implementar controlos preventivos e de deteção. Prevenir a fraude sempre que possível; detetar depressa o que não se conseguir evitar.
- Investigação. Perante a materialização do risco ou a suspeita de fraude, iniciar uma investigação formal. Uma investigação célere dissuade. Mas muitas organizações hesitam, por desconforto ou falta de competências (audições de colaboradores, ferramentas forenses). Quem não investiga convida à repetição.
- Monitorização. Avaliar regularmente se o modelo está a ser aplicado e se funciona, e corrigir o que falhar. O risco de fraude evolui; o modelo tem de evoluir com ele.
O contexto atual torna o modelo mais urgente. Esquemas mais sofisticados, fraudes potenciadas pela inteligência artificial, trabalho remoto e dependência de terceiros aumentam a probabilidade e a severidade dos eventos.
A inevitabilidade da fraude não é pretexto para a inação, mas razão para agir: preparar, investigar depressa, aprender e melhorar os controlos. A fraude deve ser gerida de forma articulada com os riscos de compliance, operacionais, financeiros e estratégicos, e integrada no Risk Appetite Framework. Porque a fraude vai chegar; o que está em aberto é se a organização estará pronta.

