{"id":996,"date":"2010-12-30T00:00:00","date_gmt":"2010-12-30T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=996"},"modified":"2015-12-04T19:19:21","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:21","slug":"a-preto-e-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=996","title":{"rendered":"A Preto-e-Branco"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/a-preto-e-branco=f584061\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/VisaoE102.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 dias, enquanto falava ao telefone com um amigo, acab\u00e1mos invariavelmente por passar de rasp\u00e3o pelo estado actual do pa\u00eds, dos portugueses e das perspectivas que se nos colocam para os pr\u00f3ximos tempos. Enquanto ele caracterizava a nossa realidade com a t\u00e3o conhecida refer\u00eancia musical do S\u00e9rgio Godinho, o \"c\u00e1 se vai andando com a cabe\u00e7a entre as orelhas\", eu associei-a a uma daquelas fotografias antigas a preto-e-branco, do g\u00e9nero das que guardamos dos nossos av\u00f3s, com a diferen\u00e7a de, nesta que imaginei, as pessoas surgirem com um sorriso for\u00e7ado, envergonhado, tristonho, com a agravante de se encontrar a tal ponto desfocada que as fei\u00e7\u00f5es das pessoas se mostravam estranhamente distorcidas, e sem permitir que se conseguisse perceber o fundo, o cen\u00e1rio escolhido pelo fotografo para a captar.<!--more--><br \/>\nConcord\u00e1mos depois que as duas vis\u00f5es eram de todo concordantes, como se fossem os dois lados da mesma moeda, porque, embora associando o nosso presente a vis\u00f5es distintas, n\u00e3o deixavam de, \u00e0 sua medida, corresponder a um certo sentido de resigna\u00e7\u00e3o, nostalgia e encolher de ombros que n\u00f3s, os portugueses, possamos porventura estar a viver e a sentir no dia-a-dia das nossas exist\u00eancias.<br \/>\nTerminada a conversa, continuei a reflectir sobre as imagens que acab\u00e1ramos de utilizar para caracterizar a nossa realidade de hoje, acabei mesmo por imaginar a jun\u00e7\u00e3o de ambas. Imaginei uma foto, desfocada, destorcida, de vinte milh\u00f5es de orelhas, ou melhor de dez milh\u00f5es de pares de orelhas, cada um deles com uma posi\u00e7\u00e3o predeterminada. Depois, entre cada duas orelhas constituintes de um par, surgia ent\u00e3o, com mais ou menos esfor\u00e7o, a face encaixada, nalguns casos mesmo for\u00e7ada, de cada um de n\u00f3s, como se uma for\u00e7a nos compelisse para a foto e, enquanto nos empurrava, nos ia exigindo que, apesar do esfor\u00e7o, fossemos ainda capazes de sorrir. \u00c9 evidente que acabei por me rir desta imagem assim grotescamente pincelada e, no momento seguinte, voltei \u00e0 minha pr\u00f3pria realidade.<br \/>\nServe esta estranha nota de abertura para de alguma forma procurar enquadrar a quest\u00e3o que quero verdadeiramente abordar nesta cr\u00f3nica e que se prende com a mudan\u00e7a social.<br \/>\nO soci\u00f3logo franc\u00eas \u00c9mile Durkheim, \u00e9 considerado o primeiro autor que estudou a problem\u00e1tica da mudan\u00e7a social. Foi no final do s\u00e9culo XIX que introduziu o conceito de Anomia, por refer\u00eancia a situa\u00e7\u00f5es em que as normas sociais e morais se tornam confusas, obscuras ou muito simplesmente inexistentes. Nestas ocasi\u00f5es, quando as normas existentes deixam de ser reconhecidas (e portanto respeitadas) pelos sujeitos, mas ainda n\u00e3o se encontram suficientemente cristalizados os procedimentos que h\u00e3o-de originar os novos padr\u00f5es normativos que as ir\u00e3o substituir, verificou aquele autor, os sujeitos tendem a sentir-se confusos, estranhos e desesperados, por perda das refer\u00eancias e por deixarem de ter a percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 correcto e incorrecto. Ficam como umas \"baratas tontas\" sem saber muito bem que caminho seguir.<br \/>\nO termo anomia deriva do grego \"anomos\", que significa sem (a) lei (nomos), e o autor utilizou-o pelo primeira vez em \"O Suic\u00eddio\" (1897) (edi\u00e7\u00e3o portuguesa de 1977 da Editorial Presen\u00e7a), ao conseguir correlacionar positivamente a ocorr\u00eancia de alguns actos de suic\u00eddio com enquadramentos sociais de desespero, resultantes de uma menor consist\u00eancia normativa e dos valores sociais. O autor caracterizou estas situa\u00e7\u00f5es como actos de suic\u00eddio an\u00f3mico.<br \/>\nDe certa forma, o presente est\u00e1 a evidenciar sinais de necessidade de mudan\u00e7as nos nossos estilos de vida. As anunciadas medidas para fazer face \u00e0 crise que atravessamos v\u00e3o necessariamente (j\u00e1 ningu\u00e9m acredita no contr\u00e1rio) provocar altera\u00e7\u00f5es nos nossos padr\u00f5es de vida. Naturalmente que essas altera\u00e7\u00f5es v\u00e3o ter efeitos distintos em cada portugu\u00eas. Mas uma coisa parece certa, vamos ter de \"apertar o cinto\" e, face a esta perspectiva, poucos ou nenhuns de n\u00f3s sabem exactamente o que vai suceder, como vai ser poss\u00edvel e necess\u00e1rio que nos adaptemos a uma nova realidade, cujos contornos exactos ainda n\u00e3o conhecemos, mas que, os entendidos afirmam-no, traz consigo algumas dificuldades econ\u00f3micas. Acrescente-se a prop\u00f3sito, em concord\u00e2ncia com todo este contexto sinteticamente descrito, que numa recente divulga\u00e7\u00e3o dos resultados de um inqu\u00e9rito realizado na Europa, os portugueses revelaram sentirem-se menos felizes do que o valor m\u00e9dio de felicidade assumido pelos cidad\u00e3os europeus.<br \/>\n\u00c9 em face desta perspectiva acinzentada que imagino aquela fotografia que descrevi e na qual nos revejo a todos. Com um sorriso estranho, for\u00e7ado e distorcido pela for\u00e7a da realidade com que nos fomos empurrando a todos para este contexto, com a natural apreens\u00e3o de quem sabe j\u00e1 que a realidade vai alterar-se for\u00e7osamente, sem saber muito bem como vai ser poss\u00edvel a supera\u00e7\u00e3o desta \"anomia\" que agora come\u00e7amos todos a viver e que n\u00e3o nos permite (ainda) ver muito bem com que cores ser\u00e1 pintado o nosso futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Vis\u00e3o on line, H\u00e1 dias, enquanto falava ao telefone com um amigo, acab\u00e1mos invariavelmente por passar de rasp\u00e3o pelo estado actual do pa\u00eds, dos portugueses e das perspectivas que se nos colocam para os pr\u00f3ximos tempos. 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