{"id":989,"date":"2010-11-11T00:00:00","date_gmt":"2010-11-11T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=989"},"modified":"2015-12-04T19:19:22","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:22","slug":"dolus-malus-e-dolus-bonus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=989","title":{"rendered":"Dolus malus e Dolus bonus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Mariana Costa<\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>, <span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span><\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/dolus-malus-e-dolus-bonus=f578530\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/VisaoE095.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cA altera\u00e7\u00e3o artificiosa da quilometragem de um ve\u00edculo (para menos) ou a sua dissimula\u00e7\u00e3o por estabelecimento comercial especializado nesse ramo n\u00e3o pode ser qualificar como pr\u00e1tica comercial \"normal\", \"usual\" ou \"corrente\", mera sugest\u00e3o propiciadora do com\u00e9rcio jur\u00eddico (actos de compra e venda) ou como uma forma habilidosa de apresentar a mercadoria, vulgar expediente ou t\u00e9cnica de marketing mais ou menos agressiva\u201d. Ac. do STJ, de 20\/Jan\/2005 (in \u00abhttp:\/\/www.dgsi.pt\u00bb, consultado em 05 de Novembro de 2010).<!--more--><br \/>\nA protec\u00e7\u00e3o conferida pelo direito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es contratuais assenta no princ\u00edpio da autonomia privada. Este princ\u00edpio constitui um mecanismo de ordena\u00e7\u00e3o da vida em sociedade, atrav\u00e9s da atribui\u00e7\u00e3o, a cada sujeito, da faculdade de estabelecer livremente rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas com outros sujeitos, bem como de definir as regras pelas quais aquelas se regem.<br \/>\nA autonomia privada \u00e9, assim, um instrumento t\u00e9cnico de realiza\u00e7\u00e3o de uma op\u00e7\u00e3o valorativa pr\u00e9via: o reconhecimento de que, a cada pessoa, deve caber o poder de gerir livremente os seus interesses, como forma de promo\u00e7\u00e3o da sua personalidade.<br \/>\nEm consequ\u00eancia, entende a ordem jur\u00eddica que s\u00f3 h\u00e1 livre estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas se e na medida em que a vontade do sujeito se constr\u00f3i com exacto conhecimento das circunst\u00e2ncias que a envolvem e sem a interven\u00e7\u00e3o de factores compuls\u00f3rios externos. Da\u00ed que o direito entenda que deve proteger o declarante das consequ\u00eancias potencialmente nefastas que para ele podem advir da vincula\u00e7\u00e3o a uma vontade formada de modo deficiente. E existe uma vontade formada de modo deficiente se o seu processo de forma\u00e7\u00e3o se encontra viciado por motivos an\u00f3malos e considerados ileg\u00edtimos.<br \/>\n\u00c9 neste contexto que surge a protec\u00e7\u00e3o do declarante cuja vontade se encontra viciada por dolo, isto \u00e9, por um engano gerado pelo emprego de qualquer \u201csugest\u00e3o ou artif\u00edcio (...) com a inten\u00e7\u00e3o ou consci\u00eancia de induzir ou manter em erro o autor da declara\u00e7\u00e3o\u201d ou ent\u00e3o pela \u201cdissimula\u00e7\u00e3o, pelo declarat\u00e1rio ou terceiro, do erro do declarante.\u201d (artigo 253\u00ba, n.\u00ba1 do C\u00f3digo Civil).<br \/>\nDesta defini\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, desde logo, distinguir duas modalidades de dolo: o dolo positivo (ou comissivo) e o dolo negativo (ou omissivo).<br \/>\nQuanto ao dolo positivo, ele resulta da utiliza\u00e7\u00e3o consciente de sugest\u00f5es ou artif\u00edcios considerados ileg\u00edtimos, que provocam ou mant\u00e9m o declarante em erro; existe, portanto, um comportamento activo, com vista a criar ou manter um erro. A conduta geradora de dolo activo consubstancia-se, em rigor, numa viola\u00e7\u00e3o do dever de verdade que impende sobre cada contratante.<br \/>\nSitua\u00e7\u00e3o distinta se levanta a prop\u00f3sito do dolo omissivo. Aqui o declarante j\u00e1 estava em erro e o declarat\u00e1rio, apesar de se encontrar obrigado a esclarec\u00ea-lo, n\u00e3o o fez, intencional ou conscientemente.<br \/>\nA exist\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o de dolo, nos termos acima descritos, atribui ao declarante em erro o direito de anular o contrato (preenchidas as condi\u00e7\u00f5es de relev\u00e2ncia previstas no artigo 254.\u00ba do C\u00f3digo Civil), precisamente porque este se encontra desprovido do seu fundamento de protec\u00e7\u00e3o: a autodetermina\u00e7\u00e3o do sujeito.<br \/>\nPor\u00e9m, nem todo o dolo \u00e9 censurado pelo nosso ordenamento jur\u00eddico. Nos termos do artigo 253\u00ba, n.\u00ba 2 do C\u00f3digo Civil: \u201cN\u00e3o constituem dolo il\u00edcito as sugest\u00f5es ou artif\u00edcios usuais, considerados leg\u00edtimos segundo as concep\u00e7\u00f5es dominantes no com\u00e9rcio jur\u00eddico, nem a dissimula\u00e7\u00e3o do erro, quando nenhum dever de elucidar o declarante resulte da lei, de estipula\u00e7\u00e3o negocial ou daquelas concep\u00e7\u00f5es\u201d. Trata-se da figura do dolus bonus.<br \/>\nDesta forma, n\u00e3o haver\u00e1 dolo positivo se os artif\u00edcios ou sugest\u00f5es utilizados para induzir o declarante em erro s\u00e3o conformes \u00e0s concep\u00e7\u00f5es dominantes no com\u00e9rcio jur\u00eddico e n\u00e3o haver\u00e1 dolo omissivo, se nenhum dever de elucidar o declarante resulta da lei, de estipula\u00e7\u00e3o negocial ou das referidas concep\u00e7\u00f5es dominantes.<br \/>\nAtente-se, no entanto, que quando a lei faz refer\u00eancia \u00e0s concep\u00e7\u00f5es dominantes no com\u00e9rcio jur\u00eddico n\u00e3o est\u00e1 a remeter para a conduta habitual dos comerciantes, mas sim para o entendimento generalizado nas pr\u00e1ticas comerciais do que deve e n\u00e3o deve ser feito, ou melhor, do que pode ou n\u00e3o pode ser feito em mat\u00e9ria de deveres de informa\u00e7\u00e3o e verdade, respeitando o sentimento e consci\u00eancia generalizada da comunidade jur\u00eddica acerca das fronteiras de censura. Assim e citando o Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa, de 27 de Setembro de 2007 (in \u00abhttp:\/\/www.dgsi.pt\u00bb, consultado em 05 de Novembro de 2010), \u201cse o exagero por um comerciante das qualidades da sua mercadoria pode cair na previs\u00e3o do n\u00ba 2 do art. 253\u00ba do CC (dolus bonus), j\u00e1 o mesmo n\u00e3o acontece quando o comerciante enaltece ou atribui \u00e0 sua mercadoria qualidades que sabe n\u00e3o existirem, que sabe que esta n\u00e3o possui\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Costa, Vis\u00e3o on line, \u201cA altera\u00e7\u00e3o artificiosa da quilometragem de um ve\u00edculo (para menos) ou a sua dissimula\u00e7\u00e3o por estabelecimento comercial especializado nesse ramo n\u00e3o pode ser qualificar como pr\u00e1tica comercial &#8220;normal&#8221;, &#8220;usual&#8221; ou &#8220;corrente&#8221;, mera sugest\u00e3o propiciadora do com\u00e9rcio jur\u00eddico (actos de compra e venda) ou como uma forma habilidosa de apresentar a&hellip; <a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=989\">Ler mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,123],"tags":[],"class_list":["post-989","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-visao-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/989","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=989"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/989\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8278,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/989\/revisions\/8278"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}