{"id":986,"date":"2010-10-21T00:00:00","date_gmt":"2010-10-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=986"},"modified":"2015-12-04T19:19:23","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:23","slug":"pao-e-circo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=986","title":{"rendered":"P\u00e3o e Circo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, <span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span><\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/pao-e-circo=f576335\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/VisaoE092.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>\"Panem et Circenses\", que \u00e9 como quem diz \"P\u00e3o e Circo\", escrevia J\u00fanio Juvenal no s\u00e9c. I, na S\u00e1tira X a prop\u00f3sito do modelo de sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtico criado por Roma para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem social do Imp\u00e9rio. Na pr\u00e1tica esse modelo correspondia \u00e0 garantia da exist\u00eancia de comida e divers\u00e3o para o povo, com o objectivo de apaziguar eventuais movimentos de insatisfa\u00e7\u00e3o social contra os governantes e as suas pol\u00edticas. A leitura de Juvenal corresponde a uma das primeiras e mais profundas cr\u00edticas que se conhecem acerca do funcionamento do sistema pol\u00edtico, nomeadamente das estrat\u00e9gias que este vai encontrando para se perpetuar, suportado pela massa amorfa que constitui o povo.<!--more--><br \/>\nAo olharmos para as sociedades de hoje, ou seja vinte s\u00e9culos depois, n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil chegarmos \u00e0 conclus\u00e3o que, neste particular, pouco ou nada parece ter mudado.<br \/>\nCreio que n\u00e3o se possa sustentar que este tipo de estrat\u00e9gia seja deliberada, como porventura n\u00e3o o ter\u00e1 sido em Roma. Por\u00e9m e uma vez que acaba por se manifestar, o efeito \"P\u00e3o e Circo\" tem servido os intentos das classes pol\u00edticas (pelo menos de algumas franjas menos escrupulosas), enquanto modelo de manuten\u00e7\u00e3o da coes\u00e3o social. Invariavelmente, constatamos que as sociedades acabam por reproduzir sistematicamente este modelo (chamemos-lhe \"modelo P\u00e3o e Circo\").<br \/>\nDamos hoje aten\u00e7\u00e3o particular a este tema face \u00e0 crise econ\u00f3mica e financeira em que nos encontramos mergulhados e, por outro lado, por vivermos num quadro pol\u00edtico de Democracia, que assenta todo ele no poder soberano do povo.<br \/>\nPor vezes interrogo-me at\u00e9 que ponto s\u00e3o fornecidos ao povo os dados esclarecedores minimamente objectivos que lhe permitam tomar, nos momentos das vota\u00e7\u00f5es, as melhores decis\u00f5es para o seu pr\u00f3prio futuro? At\u00e9 que ponto est\u00e1 o povo preparado e interessado em conhecer tais dados? Um povo que viva numa l\u00f3gica de \"P\u00e3o e Circo\" estar\u00e1 efectivamente \u00e0 altura das responsabilidades que uma verdadeira Democracia exige? Estar\u00e1 na posse do m\u00ednimo de informa\u00e7\u00e3o clara e objectiva sobre a realidade acerca da qual \u00e9 chamado a pronunciar-se? Eu, por mim, tenho algumas reservas\u2026<br \/>\nPor\u00e9m e contrariamente ao que possa pensar-se, a culpa deste estado de coisas n\u00e3o est\u00e1 no povo. A culpa, se existe (reafirmo que, apesar de poder revelar-se \u00fatil a alguns em determinados contextos, a estrat\u00e9gia \"P\u00e3o e Circo\" n\u00e3o aparenta ser deliberada), tem sido das sucessivas elites pol\u00edticas que, pelas mais variadas raz\u00f5es e um pouco por todo o lado, se t\u00eam abstido de implementar pol\u00edticas tendentes \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os mais interessados, preocupados, com esp\u00edrito objectivamente critico e participativos das grandes decis\u00f5es relativas \u00e0 sociedade de que fazem parte.<br \/>\nEstamos em crer que a eleva\u00e7\u00e3o destes \u00edndices de esclarecimento junto do povo teria como resultado directo o incremento da qualidade dos pol\u00edticos, dos seus projectos e das pol\u00edticas que colocariam em pr\u00e1tica. Doutra forma, continuaremos a correr o s\u00e9rio risco de a crise ser, aos olhos de grande parte dos cidad\u00e3os, algo que serve apenas para alimentar discursos e debates pol\u00edticos, mas sem qualquer correspond\u00eancia com a realidade da vida de cada um de n\u00f3s.<br \/>\nPara estes cidad\u00e3os (que presumimos seja um grande franja, porventura a maioria das pessoas) a possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o e consumo de produtos alimentares (ainda que por vezes de menor qualidade), o consumo das novelas e do futebol, acompanhados de umas Cervejinhas e Tremo\u00e7os (o \"P\u00e3o e o Circo\") s\u00e3o raz\u00f5es suficientes para o enquadramento de toda uma l\u00f3gica de vida. Para estes, as discuss\u00f5es pol\u00edticas (sobre a crise ou sobre outro qualquer assunto) s\u00e3o algo que ignoram porque simplesmente n\u00e3o entendem o discurso, nem a argumenta\u00e7\u00e3o, nem, sobretudo, porque nem sequer imaginam (longe disso) que os efeitos de m\u00e1s op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas (que num sistema democr\u00e1tico tamb\u00e9m dependem de si) possam vir a tornar-se nefastos sobre a qualidade da sua (nossa) pr\u00f3pria exist\u00eancia.<br \/>\nFinalizo com a descri\u00e7\u00e3o de um epis\u00f3dio que h\u00e1 dias tive oportunidade de testemunhar e ilustra bem a problem\u00e1tica que procuro evidenciar:<br \/>\nEstava a almo\u00e7ar com alguns familiares meus num pequeno mas barulhento restaurante do bairro onde resido, todos na companhia de uma televis\u00e3o que, dada a hora, transmitia as not\u00edcias da hora de almo\u00e7o. Dada a hora, a sala estava cheia de gente das mais variadas origens sociais. Professores (o restaurante situa-se nas proximidades de uma escola secund\u00e1ria), funcion\u00e1rios do munic\u00edpio (situa-se tamb\u00e9m ali pr\u00f3ximo um departamento municipal) e empregados de uma f\u00e1brica, contavam-se entre a maioria dos presentes. Enquanto todos com\u00edamos e fal\u00e1vamos (alguns em alto e bom som), o locutor das not\u00edcias l\u00e1 ia desembrulhando e mostrando os avan\u00e7os e recuos de governo e oposi\u00e7\u00e3o na procura de solu\u00e7\u00f5es para a nossa crise. Depois passou pelo notici\u00e1rio internacional, que inclu\u00eda tamb\u00e9m a crise econ\u00f3mica e financeira, que alastra um pouco por todo o mundo, com refer\u00eancias a aumentos de deficits e de despesas p\u00fablicas. Tudo passou ao lado dos comensais. Eu e talvez mais um ou outro mais interessado, tivemos de fazer algum esfor\u00e7o auditivo para conseguirmos perceber algumas das palavras que vinham da TV. Repentinamente o ru\u00eddo na sala reduziu-se a quase um sussurro. A TV e o senhor que dava as novas tornavam-se o centro das aten\u00e7\u00f5es para a grande maioria dos presentes. Noticiava-se agora os maus resultados dos \u00faltimos jogos da selec\u00e7\u00e3o nacional de futebol. Os jogadores que pior tinham jogado, os golos falhados e as reac\u00e7\u00f5es de treinador e dirigentes. Terminada a not\u00edcia, os discursos voltaram a subir de tom, mas em muitas das mesas, o tema que anteriormente tinha sido focado, ficou esquecido. Dera lugar ao futebol e aos problemas que grassavam na Federa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTerminei a refei\u00e7\u00e3o a comentar com o meu irm\u00e3o, enquanto beb\u00edamos o caf\u00e9, que bem vistas as coisas a malta quer mesmo \u00e9 \"P\u00e3o e Circo\", uns (o cidad\u00e3o an\u00f3nimo) porque assim anda entretido, e outros (os pol\u00edticos) porque assim est\u00e3o com a vida de certa forma mais facilitada.<br \/>\nO problema, para concluir esta reflex\u00e3o, \u00e9 que se nada for feito para alterar esta evid\u00eancia, tendemos a manter grandes margens de manobra para a demagogia. Uma sociedade esclarecida \u00e9 necessariamente mais exigente (pelo menos possui esse potencial), e um maior grau de exig\u00eancia traduzir-se-\u00e1 em melhores pol\u00edticos e em melhores pol\u00edticas, com os correspondentes efeitos ben\u00e9ficos para todos.<br \/>\nEm pleno s\u00e9culo XXI, numa ocasi\u00e3o em que celebramos 100 anos sobre a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e a Democracia est\u00e1 j\u00e1 implementada entre n\u00f3s h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, seria \u00fatil que a sociedade portuguesa fizesse uma reflex\u00e3o profunda e ampla tamb\u00e9m sobre esta vertente da maturidade democr\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Vis\u00e3o on line, &#8220;Panem et Circenses&#8221;, que \u00e9 como quem diz &#8220;P\u00e3o e Circo&#8221;, escrevia J\u00fanio Juvenal no s\u00e9c. 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