{"id":978,"date":"2010-08-26T00:00:00","date_gmt":"2010-08-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=978"},"modified":"2015-12-04T19:19:25","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:25","slug":"immanuel-kant-assassinado-no-tamisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=978","title":{"rendered":"Immanuel Kant assassinado no Tamisa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta, <span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span><\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/immanuel-kant-assassinado-no-tamisa=f570170\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/VisaoE084.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. No Speakers' Corner o orador falava sobre o crime: \"Foi encontrado morto numa margem do Tamisa o grande fil\u00f3sofo Immanuel Kant, agarrado \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o do seu livro Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica. Apesar da deteriora\u00e7\u00e3o do papel foi poss\u00edvel detectar nos laborat\u00f3rios da pol\u00edcia londrina o seguinte coment\u00e1rio na primeira p\u00e1gina: \"\u00c9 uma exig\u00eancia da raz\u00e3o reconhecer a exist\u00eancia de outros homens, tratando-os como fins e n\u00e3o como meios\". Mais um fil\u00f3sofo assassinado. A pol\u00edcia admite que n\u00e3o haja um s\u00f3 criminoso, mas muitos, o que dificulta bastante a investiga\u00e7\u00e3o\".<!--more--><br \/>\n2. Acontecimento dram\u00e1tico.<br \/>\nA Europa que foi palco do Renascimento Italiano, do nascimento da ci\u00eancia moderna, da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, herdeira das culturas greco-romana e judaico-crist\u00e3, casa de artistas, escritores, m\u00fasicos, pintores e fil\u00f3sofos imortais parece ter esquecido, em poucas d\u00e9cadas, tantos s\u00e9culos de promo\u00e7\u00e3o do belo, do bem e do engenho.<br \/>\nA Europa que sempre (tirando alguns dram\u00e1ticos curtos interregnos) defendeu os valores do humanismo, o respeito pelo homem e a sua dignifica\u00e7\u00e3o, que tem sido um baluarte da democracia e da pluralidade de ideias e culturas, parece agora se esquecer do Homem, da inclus\u00e3o, da conviv\u00eancia, da \u00e9tica e da toler\u00e2ncia.<br \/>\n3. De facto, hoje, os aspectos econ\u00f3micos sobrep\u00f5em-se a todas as outras vertentes da vida em sociedade. Quando se abordam essas problem\u00e1ticas est\u00e1-se mais preocupado com os aspectos financeiro que com a cria\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o e rendimento (durante a crise que ainda estamos a viver falou-se muito da banca, da bolsa, dos mercados financeiros e quase nada da agricultura, da ind\u00fastria, do com\u00e9rcio), alienando o essencial aos interesses especulativos. A infla\u00e7\u00e3o \u00e9 tema mais importante que o emprego e o desemprego, a pobreza e a exclus\u00e3o social, a crise, o crescimento do produto. Apregoa-se a redu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e do Estado ao m\u00ednimo indispens\u00e1vel, defende-se o \"emagrecimento\" deste, mas n\u00e3o se prop\u00f5e a mesma dieta para os hiperlucros e os esbanjamentos de muitas grandes empresas. Contudo, contraditoriamente, aceita-se, mais, promove-se e aplaude-se, um certo tipo de interven\u00e7\u00e3o: nesta crise, para p\u00f4r os contribuintes a pagarem os preju\u00edzos do capital especulativo, que frequentemente n\u00e3o \u00e9 contribuinte.<br \/>\nE os Estados aceitam esta situa\u00e7\u00e3o e fazem haraquiri. Os cidad\u00e3os deixam-se embalar na cantiga da inevitabilidade e da defesa apolog\u00e9tica de que a actual economia \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel, o que \u00e9 fideisticamente justificado pela assump\u00e7\u00e3o de que o mercado \u00e9 Deus e a liberdade da livre circula\u00e7\u00e3o de capitais a sua Igreja (eliminando o paganismo e a bruxaria da liberdade de circula\u00e7\u00e3o de trabalhadores, a liberdade de todos terem uma vida digna, a liberdade de se acreditar num futuro melhor).<br \/>\nEnfim, usando um chav\u00e3o, a nova Europa arrumou a velha Europa dos ideais e utopias, das preocupa\u00e7\u00f5es sociais. A nova Europa \u00e9 a campe\u00e3 do neoliberalismo.<br \/>\n4. Porqu\u00ea?<br \/>\nS\u00e3o muitas as causas desta situa\u00e7\u00e3o, mas uma delas \u00e9 certamente a Europa ser hoje um centro nevr\u00e1lgico das actividades econ\u00f3micas ilegais:<br \/>\nO fim do sistema econ\u00f3mico socialista foi antevisto v\u00e1rios anos antes pela elite governante (\"a nomenklatura disp\u00f4s de dez anos para se reestruturar e para tirar proveito da inevit\u00e1vel transi\u00e7\u00e3o para o capitalismo\"), tendo muitos pertencentes \u00e0 referida elite organizado a economia paralela, a posse de enormes riquezas, o controlo de centros de decis\u00e3o nevr\u00e1lgicos, a sonega\u00e7\u00e3o de recursos financeiros, a cria\u00e7\u00e3o de ex\u00e9rcitos paralelos de \"capangas\", a transfer\u00eancia para \"lugares seguros\" (ex. offshores) de muitos destes recursos.<br \/>\nEssas m\u00e1fias refor\u00e7aram o seu poder \u00e0s escalas europeia e mundial controlando empresas, neg\u00f3cios e pessoas, aparecendo frequentemente de uma forma populista (ex. no futebol), ramificando-se em institui\u00e7\u00f5es culturais e filantr\u00f3picas. Influenciam activamente a pol\u00edtica nacional e internacional. Alguns conflitos t\u00eam-lhe sido particularmente ben\u00e9ficos (ex. Guerra dos Balc\u00e3s).<br \/>\nAs medidas tomadas pelos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001 tornaram aquele pa\u00eds menos apetec\u00edvel (veja-se o \"Patriot Act\") para ser o centro principal das actividades ilegais \u00e0 escala mundial e de lavagem de dinheiro. Muitas dessas actividades transferiram-se para a Europa: \"a libra e o euro tornaram-se subitamente muito atractivos enquanto moedas de investimento. Isso explica por que \u00e9 que se tornaram as moedas preferidas para os fundos de investimento especulativo\".<br \/>\nA Europa \u00e9 detentora de v\u00e1rios offshores onde, com grande impunidade, se pode colocar os sites inform\u00e1ticos de actividades ilegais, fazer lavagem de dinheiro e controlar as redes econ\u00f3micas criminosas (embora n\u00e3o se pondo de parte a exist\u00eancia de opera\u00e7\u00f5es legais ou perfeitamente leg\u00edtimas, esclare\u00e7a-se). Segundo o Fundo Monet\u00e1rio Internacional temos, na Europa: Andorra, Campione (It\u00e1lia), Chipre, Dublin (Irlanda), Gibraltar (RU), Guernsey (RU), Man (RU), Jersey (RU), Liechtenstein, Londres (RU), Luxemburgo, Madeira (Portugal), Malta, M\u00f3naco, Holanda e Sui\u00e7a. Fora dela: Tahiti (Fran\u00e7a), Anguilla (RU), Aruba (Holanda), Bermuda (RU), Ilhas Virgens (RU), Ilhas Caim\u00e3o (RU), Montserrat (RU), Antilhas Holandesas (Holanda), Turks e Caicos (RU), Estados Associados das \u00cdndias Ocidentais (RU). Outros pertencem \u00e0 Commonwealth.<br \/>\nO interesse da Europa em ser parceiro privilegiado da China torna-a particularmente condescendente com os atentados aos direitos humanos naquele pa\u00eds, \u00e0 entrada (disfar\u00e7ada) das m\u00e1fias chinesas na Europa. A China \u00e9 a campe\u00e3 da contrafac\u00e7\u00e3o (dos bens de consumo corrente aos medicamentos, da tecnologia e programas inform\u00e1ticos \u00e0s pe\u00e7as de avi\u00e3o), da pirataria mar\u00edtima e na sua \u00e1rea de influ\u00eancia actuam importantes redes da criminalidade internacional. Com a \"paci\u00eancia de chin\u00eas\" v\u00e3o construindo a sua rede comercial e especulativa internacional.<br \/>\nEnfraquece-se o Estado-na\u00e7\u00e3o e refor\u00e7a-se o Estado-mercado na Europa: \"Enquanto o Estado-na\u00e7\u00e3o baseou a sua legitimidade numa promessa de melhorar o bem-estar material da na\u00e7\u00e3o, o Estado-mercado promete maximizar as oportunidades [realiz\u00e1veis ou n\u00e3o, por todos ou alguns] \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de cada cidad\u00e3o individual.\"<br \/>\n5. Criminalidade, fraude, actividades econ\u00f3micas ilegais, m\u00e1fias existem h\u00e1 muito nos pa\u00edses europeus mas nos \u00faltimos trinta anos houve uma intensifica\u00e7\u00e3o imensa, acompanhada de profundas altera\u00e7\u00f5es qualitativas que todos n\u00f3s vivemos.<br \/>\nO controlo dos centros nevr\u00e1lgicos de decis\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica processa-se por vias directas (ex. adquirindo participa\u00e7\u00f5es nas empresas, injectando dinheiro nos mercados financeiros, colocando \"homens de m\u00e3o\" em certos lugares), por vias indirectas (ex. revelando um comportamento pol\u00edtico exemplar e apoiando pessoas, partidos e institui\u00e7\u00f5es; influenciando os \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o) e por vias subtis que parecem n\u00e3o revelar qualquer m\u00e1cula (ex. promovendo a ideologia do \"primado absoluto do mercado\", da \"liberdade total da circula\u00e7\u00e3o de capitais\", do \"pragmatismo da decis\u00e3o pol\u00edtica\").<br \/>\n6. O orador seguinte no Speakers' Corner chamou a aten\u00e7\u00e3o para o aumento do abstencionismo nas elei\u00e7\u00f5es, para o facto de estas se tornarem mais concursos de beleza dos sorrisos, beijos e abra\u00e7os dos pol\u00edticos que lugar de debate de ideias e defesa de ideais e apelou, porque Jos\u00e9 Saramago est\u00e1 traduzido em ingl\u00eas, ao voto nulo.<br \/>\nPublica\u00e7\u00e3o mais directamente utilizada nesta cr\u00f3nica: NAPOLEONI, L. (2009). O Lado Obscuro da Economia. Lisboa, Presen\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, Vis\u00e3o on line, 1. No Speakers&#8217; Corner o orador falava sobre o crime: &#8220;Foi encontrado morto numa margem do Tamisa o grande fil\u00f3sofo Immanuel Kant, agarrado \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o do seu livro Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica. 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