{"id":975,"date":"2010-08-05T00:00:00","date_gmt":"2010-08-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=975"},"modified":"2015-12-04T19:19:26","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:26","slug":"roubo-praticado-por-quem-nao-e-ladrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=975","title":{"rendered":"Roubo praticado por quem n\u00e3o \u00e9 \u00abladr\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/roubo-praticado-por-quem-nao-e-ladrao=f568374\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/VisaoE081.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>Uma sala bonita, impecavelmente decorada com pe\u00e7as originais nas paredes e sobre os m\u00f3veis. Um conjunto de pessoas de meia-idade, de ambos os sexos, com profiss\u00f5es liberais ou ligadas ao ensino. Uma tarde amena, prop\u00edcia a um encontro para \"dois dedos de conversa\" defronte de uma bebida e alguns aperitivos.<!--more--><br \/>\nJ\u00e1 se haviam abordado tantos assuntos que n\u00e3o surpreendeu ningu\u00e9m que uma das convivas tivesse \"puxado\" para a conversa as novidades cinematogr\u00e1ficas que seriam lan\u00e7adas no circuito comercial nas pr\u00f3ximas semanas.<br \/>\n- Li ontem que para a semana vai estrear o filme \"A Origem\", com o Leonardo DiCaprio. A cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 muito favor\u00e1vel, mas recomenda o filme pelo desempenho do actor principal.<br \/>\n- J\u00e1 o vi! \u00c9 bom - disse o dono da casa com tom de voz moderadamente baixo, destinado a impressionar a audi\u00eancia que se tinha virado para ele.<br \/>\n- Mas como \u00e9 que j\u00e1 o viste se ele ainda n\u00e3o estreou?! Foi quando foste a Madrid, a semana passada? - perguntou, admirada, a conviva que havia introduzido o tema.<br \/>\n- N\u00e3o! Vi-o aqui em casa \u2026 Empresto-te se quiseres. Saqueio-o da Internet.<br \/>\nE sem esperar pela resposta levantou-se e dirigiu para o m\u00f3vel que albergava o televisor, de onde voltou com um conjunto de DVD que tinham em comum, para al\u00e9m do tradicional visual cinzento met\u00e1lico, o facto de conterem inscrito a marcador, numa das faces, o nome do filme que continham. Uma r\u00e1pida pesquisa nos discos permitiu-lhe encontrar o que procurava.<br \/>\n- Podes lev\u00e1-lo para ver - disse, estendendo-lhe o disco. - Se quiseres faz uma c\u00f3pia. S\u00f3 te pe\u00e7o que mo devolvas pois j\u00e1 disse ao meu sobrinho que lho emprestava.<br \/>\n- \u00c9 claro que to devolvo - disse ela sorridente, enquanto passava pelo bordo do disco, distraidamente, o dedo indicador ornado de unha bem envernizada.<br \/>\nPorque estas cr\u00f3nicas t\u00eam que ser curtas, sob pena de assustarem o potencial leitor, escuso-me a continuar a reproduzir a conversa. Direi apenas que ela continuou em torno das virtualidades da Internet, de onde se podiam sacar n\u00e3o s\u00f3 filmes, como m\u00fasicas, programas inform\u00e1ticos e at\u00e9 livros. E a constata\u00e7\u00e3o a que chegaria um observador, que se mantivesse invis\u00edvel, a um canto da sala, \u00e9 que todos os convivas tinham algum tipo de \"know how\" - ou, como costuma dizer-se, \"expertise\" - sobre o tema. E os s\u00edtios mais apropriados para fazer tais \"downloads\" foram sendo trocados, cada um adjectivado como sendo melhor do que o do vizinho. Os convivas que pensavam que apenas se podiam sacar m\u00fasicas, ficaram dotados do conhecimento para chegarem aos filmes; os que conseguiam chegar aos materiais mas n\u00e3o os conseguiam desproteger ficaram a saber como forjar senhas de acesso; os que tinham conhecimentos multivariados, e utilizavam correntemente a ferramenta, aproveitaram para criar uma esp\u00e9cie de ascendente sobre os restantes.<br \/>\nImagine agora o leitor que o suposto observador invis\u00edvel se materializava e lan\u00e7ava uma simples pergunta na roda de convivas: \"Ent\u00e3o, mas esses 'downloads' ilegais n\u00e3o s\u00e3o um crime?\".<br \/>\nA mais veemente nega\u00e7\u00e3o jorraria em un\u00edssono daquelas bocas. Que n\u00e3o, porque s\u00e3o as empresas detentoras dos direitos que fomentam os \"downloads\" ilegais, como forma de publicitarem os seus produtos. (Impl\u00edcita nesta vis\u00e3o est\u00e1 a ideia de que tais comportamentos constituem um favor que se faz a essas empresas.) Que n\u00e3o, porque as grandes empresas capitalistas ganham muito dinheiro. (O \"sacan\u00e7o\" da Internet aparece, assim, como um instrumento da luta de classes, com not\u00f3rios contornos de redistribui\u00e7\u00e3o do rendimento ao n\u00edvel global.) Que n\u00e3o, porque a Internet \u00e9 o paradigma da moderna democracia e, por isso, tudo o que por l\u00e1 se encontra \u00e9 perten\u00e7a de todos. (\u00c9 bom de ver que este tipo de justifica\u00e7\u00e3o tem sempre uma excep\u00e7\u00e3o, que se aplica aos eventuais direitos de autor de que o sujeito seja detentor.)<br \/>\nEstas (pseudo) justifica\u00e7\u00f5es, e umas quantas mais que se lhe poderiam facilmente ajuntar, n\u00e3o s\u00e3o nem mais nem menos do que o aspecto vis\u00edvel da racionaliza\u00e7\u00e3o que cada sujeito tem necessidade de efectuar para conseguir viver de consci\u00eancia tranquila quando quebra as regras sociais ou legais institu\u00eddas. N\u00e3o lhe passa pela ideia perpetrar um roubo, pois vai contra os valores que lhe foram incutidos. Como a posi\u00e7\u00e3o social e n\u00edvel de rendimento que possui tamb\u00e9m n\u00e3o permite a justifica\u00e7\u00e3o do roubo, h\u00e1 que procurar solu\u00e7\u00f5es mais rebuscadas, mas igualmente destinadas a apaziguar a consci\u00eancia.<br \/>\nFace aos resultados, n\u00e3o se pode dizer que a mente humana n\u00e3o opera milagres, ao conseguir transformar um roubo (com todas as letras) num acto que pode, no limite, ser percebido pelo sujeito como positivo para a sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line, Uma sala bonita, impecavelmente decorada com pe\u00e7as originais nas paredes e sobre os m\u00f3veis. Um conjunto de pessoas de meia-idade, de ambos os sexos, com profiss\u00f5es liberais ou ligadas ao ensino. 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