{"id":963,"date":"2010-05-13T00:00:00","date_gmt":"2010-05-13T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=963"},"modified":"2015-12-04T19:19:28","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:28","slug":"a-carta-da-nigeria-que-veio-da-africa-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=963","title":{"rendered":"A \u00abcarta da Nig\u00e9ria\u00bb que veio da \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Mariana Costa, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" title=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/a-carta-da-nigeria-que-veio-da-africa-do-sul=f558938\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/a-carta-da-nigeria-que-veio-da-africa-do-sul=f558938\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/05\/VisaoE069.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>Escrevo hoje na primeira pessoa do singular.<br \/>\nRecentemente, no regresso a casa depois de um normal dia de trabalho, fui, como habitualmente, \u00e0 caixa de correio buscar a correspond\u00eancia. No meio de um conjunto amorfo de envelopes brancos com janela e endere\u00e7os escritos a computador encontrava-se um envelope vindo da \u00c1frica do Sul, com uma esp\u00e9cie de moldura tracejada de azul, branco e vermelho e tr\u00eas selos de cores fortes e desenhos de flores, completado pela identifica\u00e7\u00e3o manuscrita do destinat\u00e1rio: eu.<!--more--><br \/>\nPousadas as coisas, dirigi de imediato a minha aten\u00e7\u00e3o para o envelope em causa e abri-o. Dentro, encontrava-se uma folha A4 escrita a computador, que apresentava como cabe\u00e7alho a identifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade de advogados situada em Joanesburgo.<br \/>\nA carta vinha redigida em Ingl\u00eas e no assunto constava a promissora express\u00e3o \"Acordo Leg\u00edtimo\" (Legitimate Arrangement).<br \/>\nResumindo o conte\u00fado da extensa missiva, o Sr. Advogado X tinha a pesada tarefa de me informar que o Sr. Engenheiro Y, empreiteiro h\u00e1 longos anos estabelecido na \u00c1frica do Sul, tinha falecido juntamente com a mulher e os seus tr\u00eas filhos num acidente de via\u00e7\u00e3o. Apesar de v\u00e1rias tentativas efectuadas, n\u00e3o tinha sido poss\u00edvel encontrar nenhum parente sobrevivo do referido senhor, raz\u00e3o pela qual eu estava a ser contactada.<br \/>\nA proposta era simples: apresentar-me como leg\u00edtima herdeira do de cuius e sua fam\u00edlia e assim reclamar o direito aos quase US$20,000,000.00 que este detinha numa conta banc\u00e1ria no First National Bank of South Africa. Para tal, eu tinha apenas que me deslocar \u00e0 \u00c1frica do Sul para assinar alguns documentos (apenas?!) ou, caso n\u00e3o pudesse deslocar-me (ah!), o sol\u00edcito autor da carta trataria de tudo em meu nome, pedindo em troca apenas uma pequena parcela do montante envolvido, se eu nada tivesse a opor.<br \/>\nA carta termina afirmando que a transac\u00e7\u00e3o em causa est\u00e1 isenta de qualquer risco legal, visto o funcion\u00e1rio do banco respons\u00e1vel pela gest\u00e3o da conta estar tamb\u00e9m envolvido e pedindo a minha resposta, o mais rapidamente poss\u00edvel, atrav\u00e9s de telefonema, fax ou email.<br \/>\nO esquema associado \u00e0 carta que recebi n\u00e3o \u00e9 novo e \u00e9 habitualmente designado, nos meandros do estudo da fraude, como \"Carta da Nig\u00e9ria\". O modus operandi, se bem que com ocasionais varia\u00e7\u00f5es, \u00e9 o seguinte: a v\u00edtima \u00e9 contactada (actualmente com maior frequ\u00eancia atrav\u00e9s do envio de um email ou atrav\u00e9s das redes sociais na Internet) e aliciada a participar numa opera\u00e7\u00e3o il\u00edcita de desvio de dinheiro, seja proveniente de supostas heran\u00e7as (como foi o caso), seja de falsas transac\u00e7\u00f5es, seja dinheiro de empres\u00e1rios de sucesso ou antigos pol\u00edticos que pretendem assim acautelar o seu patrim\u00f3nio contra a corrup\u00e7\u00e3o e incerteza instaladas no pa\u00eds, ou at\u00e9 mesmo, num rasgo de imagina\u00e7\u00e3o que faria corar Hollywood, de soldados Norte-Americanos no Iraque ou Afeganist\u00e3o, que, numa qualquer rusga, se depararam com uma elevada quantia monet\u00e1ria, qual caverna escondida do Aladino.<br \/>\nSe a v\u00edtima retribuir o contacto, recebe ent\u00e3o diversos documentos falsos para assinar e, com frequ\u00eancia, para preencher com o fornecimento de dados pessoais. Por fim, quando a v\u00edtima se encontra j\u00e1 suficientemente envolvida no processo, \u00e9-lhe solicitado que envie uma contribui\u00e7\u00e3o financeira para a liberta\u00e7\u00e3o final do dinheiro, sendo esta contribui\u00e7\u00e3o financeira o principal objectivo do esquema.<br \/>\nUma outra variante desta fraude, mais perigosa pela sua apar\u00eancia de licitude, \u00e9 a publicita\u00e7\u00e3o da concess\u00e3o de cr\u00e9ditos banc\u00e1rios a taxas de juros muito apelativas, para cuja obten\u00e7\u00e3o a v\u00edtima teria apenas de disponibilizar pequenas quantias de dinheiro para cobrir custos administrativos. O cr\u00e9dito vem a revelar-se fict\u00edcio e a v\u00edtima v\u00ea-se despojada do dinheiro que adiantou.<br \/>\nQuanto a mim, n\u00e3o fosse a fict\u00edcia morte de uma fam\u00edlia de cinco inocentes que nunca existiram, o fict\u00edcio envolvimento de um funcion\u00e1rio de uma institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria de prest\u00edgio na \u00c1frica do Sul, a publicitada impunidade de um esquema jur\u00eddico il\u00edcito e a perda de US$20,000,000.00 que nunca foram meus, poderia encontrar alguma ironia po\u00e9tica na escolha do destinat\u00e1rio daquela carta, que me permite agora partilhar estas linhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Costa, Vis\u00e3o on line, Escrevo hoje na primeira pessoa do singular. Recentemente, no regresso a casa depois de um normal dia de trabalho, fui, como habitualmente, \u00e0 caixa de correio buscar a correspond\u00eancia. 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