{"id":954,"date":"2010-03-11T00:00:00","date_gmt":"2010-03-11T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=954"},"modified":"2015-12-04T19:20:11","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:11","slug":"publicar-ou-morrer-publicar-e-matar-a-fraude-e-a-esquizofrenia-na-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=954","title":{"rendered":"\u00abPublicar ou morrer\u00bb &#8211; \u00abPublicar e matar\u00bb: a fraude e a esquizofrenia na academia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Aurora Teixeira, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/publicar-ou-morrer-publicar-e-matar-a-fraude-e-a-esquizofrenia-na-academia=f551300\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/03\/VisaoE060.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>\"What we must decide is perhaps how we are valuable, rather than how valuable we are.\"<br \/>\n(F. Scott Fitzgerald, escritor norte-americano, n.1896-m.1940)<br \/>\nN\u00e3o obstante todos os terr\u00edveis acontecimentos dos \u00faltimos tempos (sismos no Haiti e Chile, enxurradas na Madeira) que frequentemente nos obrigam a sair do nosso pequeno mundo, deixar de olhar (ainda que por alguns momentos) exclusivamente para o nosso umbigo e relativizar os nossos problemas , um outro acontecimento, a uma escala muito mais reduzida e aparentemente distante, concentrou parte da minha aten\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o esta semana, levando-me, ainda que de forma relutante, a olhar para dentro, para o meu umbigo, o meu mundo... a academia.<!--more--><br \/>\nNo passado dia 12 de Fevereiro, Amy Bishop, 44 anos, uma investigadora formada em Harvard e professora auxiliar de Biologia na Universidade de Alabama-Huntsville (E.U.A) assassinou a tiro tr\u00eas colegas e feriu tr\u00eas outros (dois gravemente) durante uma reuni\u00e3o de trabalho do departamento. Diversos relatos sobre t\u00e3o tresloucado acto associam-no ao facto da Universidade ter recusado \u00e0 investigadora a sua tenure , ou seja, o v\u00ednculo permanente \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. Para se ter uma no\u00e7\u00e3o das implica\u00e7\u00f5es (danosas, em termos pessoais) de tal recusa, \u00e9 importante reter que nos E.U.A (e, em certa medida, em Portugal) o resultado mais prov\u00e1vel para algu\u00e9m a quem lhe seja negado a tenure \u00e9 o de deixar de ter mercado de trabalho no ensino superior, ou seja, deixar de poder exercer a fun\u00e7\u00e3o de professor. Nas palavras do presidente da Associa\u00e7\u00e3o Americana de Professores Universit\u00e1rios, Cary Nelson, uma pessoa nestas circunst\u00e2ncias dificilmente conseguir\u00e1 um outro emprego no ensino.<br \/>\nApesar de circular na Internet um conjunto de relatos bastante contradit\u00f3rios sobre a personalidade, comportamento, desempenho pedag\u00f3gico e cient\u00edfico de Amy Bishop, um aspecto problem\u00e1tico \u00e9 incontorn\u00e1vel neste processo: um dos seus artigos, publicado em 2009, levantou suspeitas de fabrica\u00e7\u00e3o (uma das formas mais censuradas de fraude acad\u00e9mica nas \u00e1reas das ci\u00eancias da vida) na medida em que a autora refere um laborat\u00f3rio fict\u00edcio como local para as suas experi\u00eancias e entre os seus co-autores constam os seus filhos de idades compreendidas entre os 10 e os 18 anos.<br \/>\n\u00c9 um facto quase indiscut\u00edvel que a competi\u00e7\u00e3o pelas posi\u00e7\u00f5es de tenure na academia tem colocado uma press\u00e3o crescente nos acad\u00e9micos para a publica\u00e7\u00e3o dos seus trabalhos de forma prol\u00edfera e frequente. A express\u00e3o \"Publish or Perish\" (Publica ou Morre) \u00e9 (tristemente) conhecida no meio acad\u00e9mico e refere-se a essa sufocante press\u00e3o para publicar constantemente de modo a progredir ou mesmo manter uma carreira acad\u00e9mica. Um acad\u00e9mico que n\u00e3o publique ou publique com pouca frequ\u00eancia, com elevada probabilidade falha na obten\u00e7\u00e3o da tenure , independentemente do seu desempenho pedag\u00f3gico. Isto \u00e9 t\u00e3o verdade nos E.U.A como em Portugal.<br \/>\nPoder-se-\u00e1 anuir que \u00e9 preciso um pouco de uma natureza m\u00e1 e pregui\u00e7osa, combinada com circunst\u00e2ncias extremas, como enorme competi\u00e7\u00e3o por fundos de investiga\u00e7\u00e3o, press\u00e3o para publica\u00e7\u00e3o e luta pelo reconhecimento dos pares, para se praticar a fraude, em concreto a fraude acad\u00e9mica.<br \/>\nA prop\u00f3sito do car\u00e1cter dos indiv\u00edduos, Gerard Reve (n.1923-m.2006), um famoso escritor holand\u00eas, referia frequentemente que a maior parte dos seres humanos tem uma natureza maldosa. Para este autor, metade da maldade num indiv\u00edduo era inata e a outra metade resultaria de uma op\u00e7\u00e3o pessoal. Adicionalmente, reconhece que sobre esta \u00faltima o contexto pode exercer uma influ\u00eancia n\u00e3o negligenci\u00e1vel: at\u00e9 as pessoas mais decentes e civilizadas podem se tornar (muito) m\u00e1s em circunst\u00e2ncias extremas. Assim, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para crer que os acad\u00e9micos sejam uma excep\u00e7\u00e3o, tal como o caso de Amy Bishop dramaticamente comprova...<br \/>\nDe facto, diversas circunst\u00e2ncias institucionais podem contribuir, e mesmo incitar, a fraude acad\u00e9mica: uma estrutura fortemente hier\u00e1rquica onde o chefe (indiv\u00edduo ou grupo de indiv\u00edduos com poder de decis\u00e3o) \u00e9 soberano (e muitas vezes ditador) e a competi\u00e7\u00e3o extrema que for\u00e7a investigadores com mentes mais fracas a secumbir \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o de atalhos eticamente question\u00e1veis e, em regra, fatais em termos de reputa\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica (\"Plagiar - publicar - morrer\").<br \/>\nNum registo complementar a Reve, mas de forma ainda mais apocal\u00edptica, Plat\u00e3o defendeu que apenas de forma involunt\u00e1ria um indiv\u00edduo age com integridade. Ele ilustra qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 agir com integridade atrav\u00e9s da hist\u00f3ria m\u00edtica de Gl\u00e1ucon e o Anel de Giges. O anel tornava Giges invis\u00edvel e uma vez invis\u00edvel Giges mudava o seu comportamento. Com o anel, a integridade de Giges desaparecia como o orvalho da manh\u00e3. Segundo Plat\u00e3o, quando algu\u00e9m est\u00e1 seguro de que as suas ac\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o descobertas e efectua as mesmas decis\u00f5es que efectuaria no caso de estar seguro que seriam descobertas, estar\u00edamos perante uma pessoa que age com integridade. A integridade baseia-se assim no compromisso pessoal \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de uma ac\u00e7\u00e3o correcta, opera num espa\u00e7o entre o est\u00edmulo e a ac\u00e7\u00e3o onde a pessoa exerce a liberdade de realizar a escolha correcta.<br \/>\nMuitos investigadores\/professores, tal como Amy Bishop, mergulhados num mundo acad\u00e9mico de publica ou morre , agem como Giges, na esperan\u00e7a dos seus actos (menos l\u00edcitos) permanecerem invis\u00edveis no seio das suas comunidades, ficando presos na (Alegoria da) Caverna de Plat\u00e3o. Na l\u00f3gica do publica ou morre , a competi\u00e7\u00e3o (desenfreada) dos membros da faculdade pela sobreviv\u00eancia n\u00e3o reside na qualidade da publica\u00e7\u00e3o ou na sua contribui\u00e7\u00e3o para a sociedade, mas unicamente no seu n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es. Cada um acredita que \u00e9 o n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es que constitui a medida do sucesso acad\u00e9mico. S\u00e3o incapazes de ver para al\u00e9m das sombras e de reconhecer que pode existir uma verdade maior para al\u00e9m da caverna .<br \/>\nA clausura de Amy na caverna n\u00e3o \u00e9 apenas da sua inteira responsabilidade. Tende a ser criada e promovida por uma cultura acad\u00e9mica que defende a integridade e a qualidade da investiga\u00e7\u00e3o mas cuja pr\u00e1tica recompensa os n\u00fameros, a quantidade. \u00c9 um facto que a cultura acad\u00e9mica do publica ou morre tem gerado a publica\u00e7\u00e3o de artigos inconsequentes, n\u00e3o lidos e n\u00e3o citados por outros acad\u00e9micos.<br \/>\nAcredito que Amy, e os seus pares em geral, poderiam efectuar melhores escolhas e acolher um sentido de mutualidade onde os membros da faculdade trabalhassem de forma colaborativa no sentido de preservar a integridade pessoal, profissional e institucional. Cada membro da comunidade acad\u00e9mica tem a responsabilidade de criar e manter este clima. Num determinado n\u00edvel tal pode exigir a ajuda de um mentor: um membro da faculdade que entende as press\u00f5es associadas \u00e0 cultura acad\u00e9mica do publica ou morre. O mentor guiaria Amy para fora da caverna em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 luz. Ela necessitaria de ultrapassar as suas cren\u00e7as e valores correntes num processo doloroso pois implicaria uma perda; no entanto, se o seu mentor fosse capaz de substituir o seu anterior sistema de cren\u00e7as por um mais cred\u00edvel baseado na integridade pessoal, Amy possivelmente entenderia os benef\u00edcios de tornar mais \u00edntegras as suas ac\u00e7\u00f5es e valores. Infelizmente, no caso de Amy, o caminho da caverna para a luz desmoronou-se e com isso a vida de tr\u00eas potenciais mentores...<br \/>\nSeria bom que tamb\u00e9m na academia portuguesa pud\u00e9ssemos aprender com as nossas fraquezas, vaidades e erros, nos ajud\u00e1ssemos mutuamente a sair da caverna e encontrar a luz de modo a impedir a fraude acad\u00e9mica e a esquizofrenia do publica ou morre e, no limite, do publica e mata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aurora Teixeira, Vis\u00e3o on line, &#8220;What we must decide is perhaps how we are valuable, rather than how valuable we are.&#8221; (F. Scott Fitzgerald, escritor norte-americano, n.1896-m.1940) N\u00e3o obstante todos os terr\u00edveis acontecimentos dos \u00faltimos tempos (sismos no Haiti e Chile, enxurradas na Madeira) que frequentemente nos obrigam a sair do nosso pequeno mundo, deixar&hellip; <a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=954\">Ler mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,123],"tags":[],"class_list":["post-954","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-visao-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=954"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/954\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8209,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/954\/revisions\/8209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}