{"id":944,"date":"2009-12-30T00:00:00","date_gmt":"2009-12-30T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=944"},"modified":"2015-12-04T19:20:13","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:13","slug":"intermitencia-da-fraude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=944","title":{"rendered":"Intermit\u00eancia da fraude"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta, <span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span><\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/intermitencia-da-fraude=f542769\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE050.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. Segundo fontes bem informadas o conc\u00edlio dos deuses decidiu, por maioria, decretar a intermit\u00eancia da fraude durante o pr\u00f3ximo ano de 2010. Para esta decis\u00e3o hist\u00f3rica contribu\u00edram os livros de Jos\u00e9 Saramago e a consci\u00eancia divina dos profundos malef\u00edcios que as fraudes, e outros crimes financeiros, t\u00eam gerado neste mil\u00e9nio. Apesar desta decis\u00e3o hist\u00f3rica o debate foi acalorado, n\u00e3o tendo sido poss\u00edvel conciliar todas as propostas apresentadas, cristalizadas em tr\u00eas grupos.<!--more--> Um primeiro defendia que em vez da intermit\u00eancia da fraude deveriam decidir pela sua elimina\u00e7\u00e3o para toda a eternidade. Em total oposi\u00e7\u00e3o encontravam-se os c\u00e9pticos que duvidavam peremptoriamente da capacidade dos deuses decidirem sobre uma mat\u00e9ria t\u00e3o complexa, onde se jogava a influ\u00eancia da riqueza, o poder do dinheiro e os mais vis sentimentos humanos. No meio destas posi\u00e7\u00f5es extremadas, um terceiro grupo defendia a cria\u00e7\u00e3o de um per\u00edodo de experimenta\u00e7\u00e3o, um ano de interregno da pr\u00e1tica da fraude, no fim do qual, ap\u00f3s avalia\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, decidiriam em rela\u00e7\u00e3o ao futuro.<br \/>\nPara elucidar e ajudar todos a adaptarem-se a esta profunda mudan\u00e7a no mundo dos neg\u00f3cios e nas pr\u00e1ticas sociais todos os canais de televis\u00e3o e as mais conceituadas r\u00e1dios convidaram pain\u00e9is interdisciplinares de especialistas para debaterem este assunto. Essencialmente por ser novo, prestar-se a grandes diverg\u00eancias de interpreta\u00e7\u00e3o, permitir aos jornalistas perguntas capciosas e argutos argumentos sofistas. Os jornais, revistas e blogs ecoaram iguais preocupa\u00e7\u00f5es. Se alguns defenderam com s\u00f3lida argumenta\u00e7\u00e3o e ju\u00edzos convincentes que uma tal decis\u00e3o era um atentado \u00e0 liberdade humana, ao livre funcionamento dos mercados, uma quebra irrecuper\u00e1vel do empreendedorismo, a grande maioria anu\u00eda \u00e1 justeza de uma tal decis\u00e3o, apesar de terem d\u00favidas, mesmo certezas, da impossibilidade ol\u00edmpica de influenciar os homens e, sobretudo, as institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEntretanto os pol\u00edticos optaram por um quase sil\u00eancio: breves refer\u00eancias \u00e0 nobreza da \u00e9tica, reafirma\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o entre Estado e religi\u00e3o, desvalorizando a import\u00e2ncia da eventual decis\u00e3o dos deuses, dada a inobserv\u00e2ncia de fraudes nos seus territ\u00f3rios. Os rumores de uma reuni\u00e3o de emerg\u00eancia dos diversos Gs (sobretudo do G8 e do G20) para acautelarem o emprego nos territ\u00f3rios offshore, n\u00e3o tiveram confirma\u00e7\u00e3o. O mesmo se poder\u00e1 dizer da agendada reuni\u00e3o do Clube Bilderberg.<br \/>\nGrande parte da popula\u00e7\u00e3o seguia distra\u00edda esta eloquente problem\u00e1tica, entre o conseguir sobreviver com um sal\u00e1rio insuficiente, o lutar contra a situa\u00e7\u00e3o de desemprego e os resultados do campeonato de futebol. N\u00e3o era desinteresse! Resultava da fraude n\u00e3o pertencer ao seu quotidiano.<br \/>\n2. O ano iniciou-se num clima de optimismo. Entre vigil\u00e2ncia, d\u00favidas e alheamento proliferava um vago sentimento de que se estava num virar de p\u00e1gina.<br \/>\nOs agricultores continuaram a plantar e a colher. As empresas continuaram todas as manh\u00e3s a abrir as portas, a p\u00f4r a funcionar as cadeias de produ\u00e7\u00e3o e a comercializar a sua produ\u00e7\u00e3o. Os transportes, de pessoas e mercadorias continuaram a cumprir os hor\u00e1rios e a responder \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es. As lojas exp\u00f5em as suas roupas, cal\u00e7ados e outras utilidades agu\u00e7ando os apetites dos clientes. Nos ateliers combinam-se cores e formas e as orquestras obedecem \u00e0 gin\u00e1stica dos maestros. Os estudantes estudam, os oper\u00e1rios trabalham, os investidores investem, os consumidores consomem, quando lhes sobeja dinheiro depois das presta\u00e7\u00f5es das d\u00edvidas, os administradores administram, os accionistas compram e vendem t\u00edtulos, os jogadores jogam. Erguem-se andaimes e crescem pr\u00e9dios, rasgam-se estradas. Todos os dias os barcos chegam com o pescado de mais uma faina. Os centros comerciais juntam visitantes, os hospitais continuam com doentes em listas de espera, os jornais publicam-se, as televis\u00f5es lutam por audi\u00eancias, os reguladores produzem leis e normas com pouca ader\u00eancia \u00e0 realidade, a Assembleia da Rep\u00fablica continua a ser palco de debates e argumentos pouco dignos, o governo governa sempre que h\u00e1 evolu\u00e7\u00f5es positivas, e sofre os desvarios vindos do exterior, quando as din\u00e2micas s\u00e3o nefastas.<br \/>\nNo quotidiano n\u00e3o parece notar-se qualquer altera\u00e7\u00e3o ao que sempre acontece. Nada de espantar sendo a fraude comportamento oculto e enganoso. Oculto para existir, oculto para desaparecer. Oculto para o bem e para o mal. Contudo um olhar mais atento do observador rapidamente detectaria comportamentos est\u00f3icos, altera\u00e7\u00f5es de vontade, muta\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas, adapta\u00e7\u00f5es de institui\u00e7\u00f5es. At\u00e9 encontraria planos alternativos perante a d\u00favida da concretiza\u00e7\u00e3o da intermit\u00eancia da fraude, an\u00e1lise do risco da suspens\u00e3o da fraude.<br \/>\n3. Muitos excluindo os que j\u00e1 se integravam em rela\u00e7\u00f5es sociais mais in\u00f3cuas \u00e0 fraude aperceberam-se que algo se passava com a sua personalidade. Jubilavam inopinadamente com emo\u00e7\u00f5es desprezadas at\u00e9 ent\u00e3o, alterava-se a sua apregoada \"racionalidade econ\u00f3mica\". Graduavam de forma inovadora as suas op\u00e7\u00f5es de vida: quase desprezavam prioridades a que estavam habituados e enalteciam novos olhares sobre a realidade. Sem que se apercebessem das causas primeiras de tais metamorfoses estavam a ser o terreno de aplica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o dos deuses. Se \u00e9 certo que eles n\u00e3o dispensam nos assuntos terrenos a presen\u00e7a de alguns conselheiros e pol\u00edcias, a sua forma genu\u00edna de intervir socialmente \u00e9 atrav\u00e9s de uma mudan\u00e7a de atitudes de cada um. N\u00e3o se lhes podia exigir uma altera\u00e7\u00e3o dos condicionalismos sociais, do funcionamento do sistema econ\u00f3mico, quer porque era para al\u00e9m da sua sapi\u00eancia plena quer porque mesmo no Olimpo existiam op\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-sociais para todos os gostos. As press\u00f5es e oportunidades para se cometerem fraudes continuariam a existir. Haveria que alterar a vontade de cada um, a compreens\u00e3o das suas fun\u00e7\u00f5es sociais, as no\u00e7\u00f5es de honradez e de dever, os cen\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o do futuro, a subvaloriza\u00e7\u00e3o do imediato. A \u00e9tica ganhava terreno nas op\u00e7\u00f5es individuais, apesar de cada um optar por card\u00e1pios de princ\u00edpios, direitos e deveres variegados. A vaidade encontrou um novo terreno para germinar: ter um comportamento \u00e9tico.<br \/>\nA percep\u00e7\u00e3o dos conflitos de interesse tornou-se mais n\u00edtida para muitos e, sobretudo, passou a promover comportamentos individuais e organizacionais dissemelhantes em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, e ao anterior do anterior. O aproveitamento da situa\u00e7\u00e3o, a utiliza\u00e7\u00e3o da \"cunha\", a justifica\u00e7\u00e3o da op\u00e7\u00e3o feita atrav\u00e9s da ideia peregrina de que a rela\u00e7\u00e3o de parentesco ou neg\u00f3cio nada tinha influenciado na decis\u00e3o, deram lugar \u00e0 declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica das suas \"incompatibilidades\". Surgiram, um pouco por toda a parte, situa\u00e7\u00f5es anteriormente inimagin\u00e1veis que os \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o empolaram entusiasticamente: funcion\u00e1rios superiores de uma multinacional vieram publicamente informar que tinham capital em empresas concorrentes e em empresas fornecedoras, com sede num offshore, apesar de nem a legisla\u00e7\u00e3o do pa\u00eds nem os regulamentos da institui\u00e7\u00e3o em que trabalhavam exigisse tal declara\u00e7\u00e3o. Alguns deputados dum Parlamento abandonaram o hemiciclo no momento da vota\u00e7\u00e3o de uma lei que interessava a clientes seus no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o liberal. Um Presidente da Rep\u00fablica remodelou um \u00f3rg\u00e3o consultivo do seu gabinete de forma a excluir todos aqueles que lhe tinham fornecido no passado informa\u00e7\u00f5es privilegiadas para a aquisi\u00e7\u00e3o de ac\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEnfim, os funcion\u00e1rios, p\u00fablicos e privados, cumpriram mais escrupulosamente as suas fun\u00e7\u00f5es; os empres\u00e1rios concentraram a sua aten\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de valor e nos planos estrat\u00e9gicos, enaltecendo a forma\u00e7\u00e3o dos recursos humanos e a inova\u00e7\u00e3o; os conselhos de administra\u00e7\u00e3o retiraram todos os entraves \u00e0s auditorias; os auditores sentiram-se, alguns pela primeira vez, independentes. Algumas ind\u00fastrias melhoraram a qualidade dos seus produtos, adaptando as suas caracter\u00edsticas \u00e0 descri\u00e7\u00e3o e outras abandonaram a cria\u00e7\u00e3o de bens contrafeitos. Os bancos alteraram radicalmente os produtos financeiros oferecidos, tornando as descri\u00e7\u00f5es percept\u00edveis para o comum dos mortais. As companhias de seguros deixaram de invocar sem an\u00e1lise o argumento da preexist\u00eancia das doen\u00e7as assim como os clientes n\u00e3o tentaram declarar falsos acidentes ou provocar inc\u00eandios fabris. As descri\u00e7\u00f5es nas alf\u00e2ndegas tornaram-se sempre fidedignas, as declara\u00e7\u00f5es fiscais limitaram-se ao neg\u00f3cio efectivo, a cria\u00e7\u00e3o de empresas em para\u00edsos fiscais atenuou, as receitas do Estado aumentaram significativamente, desde a data de apresenta\u00e7\u00e3o da primeira declara\u00e7\u00e3o do IVA. A percep\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o revelou que esta se reduzia abrupta e intensamente gerando um \"efeito de bola de neve\" no sentido da sua redu\u00e7\u00e3o. O spam escasseou, os v\u00edrus inform\u00e1ticos atenuaram a sua actividade, os espi\u00f5es de palavras-chave deixaram de ser produzidos, os roubos de dados pessoais caiu em mais de cinquenta por cento, o phishing n\u00e3o mais ultrapassou uma v\u00edtima di\u00e1ria por pa\u00eds.<br \/>\nNa sequ\u00eancia destas profundas altera\u00e7\u00f5es - apesar do crime organizado associado \u00e0 fraude ter continuado a existir e a actuar, quer porque a fraude era apenas um dos seus \"ramos de neg\u00f3cios\", quer porque camuflaram a organiza\u00e7\u00e3o em empresas legais e promotoras da responsabilidade social -, surgiram algumas pr\u00e1ticas novas: em algumas capitais passou-se a realizar uma feira semanal de obras de arte falsas, de antiguidades que eram modernas, de apostas com manipula\u00e7\u00e3o de resultados, de medicamentos e outros bens falsificados, de contadores de \u00e1gua e luz viciados e, obviamente, de dinheiro falso: feiras de escroquerias.<br \/>\nLevados pelo entusiasmo (\"esquecendo\" que a intermit\u00eancia da fraude n\u00e3o \u00e9 o seu fim e que nada estava garantido na futura decis\u00e3o dos deuses, mas tamb\u00e9m aproveitando para ac\u00e7\u00f5es de marketing), os Governos anunciaram a futura redu\u00e7\u00e3o dos impostos. As margens de risco dos bancos tendem a descer, assim como os pr\u00e9mios dos seguros e os pre\u00e7os de muitos outros contratos e bens.<br \/>\n4. No in\u00edcio de Fevereiro a morte do pequeno Filipe chocou o mundo. Com uma doen\u00e7a cong\u00e9nita, filho de casal de parcos recursos, num pa\u00eds de fortes desigualdades sociais e sem um sistema de sa\u00fade universal, tinha conseguido sobreviver at\u00e9 aos quatro anos porque a m\u00e3e, caixa de uma grande superf\u00edcie, periodicamente sonegava o suficiente para garantir a assist\u00eancia m\u00e9dica ao seu filho. Sonegava numa empresa para entregar noutra empresa que pertencia ao mesmo grupo econ\u00f3mico. Apesar de atormentada pelas consequ\u00eancias que poderia ter para o filho, com o dinheiro na m\u00e3o e as l\u00e1grimas no rosto, cumpriu os des\u00edgnios dos deuses enquanto no seu leito caseiro a crian\u00e7a morria. Os dilemas morais saltaram para a pra\u00e7a p\u00fablica.<br \/>\nEste acontecimento voltou a ser referido no in\u00edcio da segunda metade do ano de intermit\u00eancia da fraude, sobretudo nas fastidiosas e enganosas an\u00e1lises dos pr\u00f3s e contras da fraude e da sua intermit\u00eancia. Muitas empresas, consideradas s\u00f3lidas, mesmo exemplos de empreendedorismo e de gest\u00e3o adequada, apresentaram resultados negativos. A apar\u00eancia de solidez era o resultado de manipula\u00e7\u00f5es contabil\u00edsticas durante anos, associadas frequentemente \u00e0 fraude fiscal. A sua hegemonia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 concorr\u00eancia era o fruto de esquemas de corrup\u00e7\u00e3o que lhes permitiam ganhar concursos p\u00fablicos e privados, alguns deles com total desfasamento entre os pre\u00e7os e os respectivos custos. O desemprego aumentou nesses meses, conselhos de administra\u00e7\u00e3o rolaram, produtos escassearam e colocou-se a possibilidade de uma interven\u00e7\u00e3o do Estado. As bolsas de valores agravaram o seu comportamento ca\u00f3tico e exigiu dos analistas financeiros mais imagina\u00e7\u00e3o para explicarem o que nem sonhavam. N\u00e3o eram apenas as surpresas resultantes da contabilidade criativa, e abusiva, mas tamb\u00e9m a falta de consist\u00eancia e ader\u00eancia \u00e0 actividade econ\u00f3mica produtiva de muitos t\u00edtulos em circula\u00e7\u00e3o, do que se negociava em mercados de derivados. Os esquemas de Ponzi sofreram devastadoramente da interrup\u00e7\u00e3o do processo de entrada de capitais. Algumas institui\u00e7\u00f5es financeiras especializadas em \"exporta\u00e7\u00e3o\" de capitais reformularam a sua actividade, os centros financeiros offshore reduziram drasticamente a sua actividade, apesar dos apoios velados decididos numa reuni\u00e3o de emerg\u00eancia do G8. O Reino Unido sentiu o impacto dessa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs investigadores criminais, na s\u00e1bia gest\u00e3o de recursos limitados para tantos crimes a investigar, deslocaram muitos dos seus quadros do crime econ\u00f3mico-financeiro, da fraude e da corrup\u00e7\u00e3o para a investiga\u00e7\u00e3o dos crimes tradicionais, crescentemente violentos. Esta decis\u00e3o parecia a acertada nos primeiros meses, mas rapidamente revelou-se desajustada: os canais de den\u00fancia de fraude foram explosivamente utilizados, come\u00e7aram a rebentar esc\u00e2ndalos de fraude nos sectores mais diversos da actividade econ\u00f3micas, nos interst\u00edcios mais inusitados da pol\u00edtica, n\u00e3o poupando os organismos internacionais. As fraudes em curso h\u00e1 meses e anos deixaram no \u00faltimo dia de 2009 de ser \"carinhosamente\" mantidas longe da percep\u00e7\u00e3o alheia e eclodiram por todos os lados. Fraudes de todo o tipo, contra as institui\u00e7\u00f5es e delas pr\u00f3prias, algumas delas com uma tipologia desconhecida at\u00e9 ent\u00e3o. Porque houve que reorientar recursos policiais, porque voltou a deixar-se a descoberto o crime tradicional, porque o crime organizado - \u00fanica franja da sociedade que parece ter escapado aos des\u00edgnios dos deuses, como se disse anteriormente - aproveitou o desnorte tempor\u00e1rio para intensificar a sua actividade em espa\u00e7os estrat\u00e9gicos. A popula\u00e7\u00e3o sentiu um aumento de inseguran\u00e7a, aproveitado por muitos discursos pol\u00edticos.<br \/>\nO Estado teve muitas solicita\u00e7\u00f5es para apoiar as grandes empresas que viram os seus processos de fraude interrompidos. Contudo manteve-se firmemente afastado dessas decis\u00f5es. Diga-se, em abono da verdade, que n\u00e3o consubstanciaram tal decis\u00e3o em s\u00f3lida argumenta\u00e7\u00e3o doutrinal. As receitas fiscais at\u00e9 tinham aumentado muit\u00edssimo. O governo limitou-se a constatar que essas empresas serem geridas por colegas de estudo, golfo ou partido dos ministros em exerc\u00edcio n\u00e3o era raz\u00e3o suficiente para as apoiar. Limitou-se a constatar que apoiar defraudadores, em detrimento da ajuda a outros sectores, seria eticamente reprov\u00e1vel.<br \/>\nNo fim do ano da intermit\u00eancia da fraude, muitos outros efeitos perversos se revelaram: aumento dos div\u00f3rcios, maus resultados de alguns clubes de futebol, mais reprova\u00e7\u00f5es de alunos em alguns pa\u00edses e certas institui\u00e7\u00f5es de ensino, etc. Contudo a sua constata\u00e7\u00e3o ultrapassa o \u00e2mbito desta cr\u00f3nica.<br \/>\n5. Relatada em poucas palavras a intermit\u00eancia da fraude, h\u00e1 que encontrar resposta \u00e0 seguinte pergunta: a intermit\u00eancia da fraude \u00e9 prejudicial?<br \/>\nA resposta \u00e9 simples. Os acontecimentos nefastos registados em 2010 n\u00e3o resultaram da intermit\u00eancia da fraude, mas da exist\u00eancia desta no per\u00edodo anterior. Tamb\u00e9m contribuiu para tal a expectativa de que est\u00e1vamos numa fase anormal e que no ano seguinte a fraude retomaria o seu percurso \"normal\". Moral da hist\u00f3ria: \u00e9 necess\u00e1rio o fim da fraude, n\u00e3o a sua suspens\u00e3o durante um per\u00edodo.<br \/>\nAdmitindo como verdadeira esta conclus\u00e3o, a nossa mais sacrossanta racionalidade \u00e9 assaltada por uma outra d\u00favida: apostar no fim da fraude n\u00e3o ser\u00e1 uma utopia?<br \/>\nTamb\u00e9m aqui a resposta \u00e9 simples. A fraude, incluindo nesta designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica a corrup\u00e7\u00e3o, provavelmente nunca poder\u00e1 ser eliminada. H\u00e1 factores individuais e microsociais que a promovem e a sustentam que s\u00e3o imposs\u00edveis de eliminar, pelo menos no actual n\u00edvel civilizacional. Contudo \u00e9 poss\u00edvel reduzi-la significativamente modificando os contextos sociais de viv\u00eancia de todos n\u00f3s. \u00c9 poss\u00edvel faz\u00ea-la recuar at\u00e9 aos n\u00edveis, bastante inferiores, dos anos 70 do s\u00e9culo passado. Fica, no entanto, um alerta: para tal n\u00e3o basta prevenir, detectar e combater a fraude. \u00c9 imperioso e urgente uma modifica\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica e multi-referencial do sistema social em que vivemos.<br \/>\nQue ir\u00e3o os deuses decidir para o futuro? E os homens?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, Vis\u00e3o on line, 1. Segundo fontes bem informadas o conc\u00edlio dos deuses decidiu, por maioria, decretar a intermit\u00eancia da fraude durante o pr\u00f3ximo ano de 2010. Para esta decis\u00e3o hist\u00f3rica contribu\u00edram os livros de Jos\u00e9 Saramago e a consci\u00eancia divina dos profundos malef\u00edcios que as fraudes, e outros crimes financeiros, t\u00eam gerado neste&hellip; <a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=944\">Ler mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,123],"tags":[],"class_list":["post-944","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-visao-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/944","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=944"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/944\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8190,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/944\/revisions\/8190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}