{"id":933,"date":"2009-10-22T00:00:00","date_gmt":"2009-10-22T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=933"},"modified":"2015-12-04T19:20:16","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:16","slug":"o-silencio-ensurdecedor-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=933","title":{"rendered":"O sil\u00eancio ensurdecedor do crime"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/o-silencio-ensurdecedor-do-crime=f534021\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE040.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. \"Os escravos de Lake Placid [EUA] eram invis\u00edveis, pe\u00e7as da nossa economia que se desenvolve num universo paralelo\". \"Enquanto os membros da comunidade de reformados jogavam golfe, havia ali atr\u00e1s um campo de escravos. Dois mundos, falando l\u00ednguas diferentes\", refere-se no important\u00edssimo artigo publicado no Geographic Magazine de Setembro de 2003, onde se denuncia a escravatura contempor\u00e2nea. <!--more-->O autor, conhecedor da tend\u00eancia humana para ignorar o que n\u00e3o quer conhecer, afirma categoricamente n\u00e3o se tratar de uma met\u00e1fora: \"Falamos mesmo de escravos. N\u00e3o de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um sal\u00e1rio miser\u00e1vel. N\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m os escravos de h\u00e1 200 anos. Falamos dos 27 milh\u00f5es de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal [e portuguesas], s\u00e3o compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro\".<br \/>\nNa apresenta\u00e7\u00e3o recente dos primeiros resultados do Observat\u00f3rio do Tr\u00e1fico de Seres Humanos em Portugal refere-se que foram sinalizados 231 casos, para al\u00e9m dos muitos casos que nem chegaram a dar sinais de exist\u00eancia. \u00c9 poss\u00edvel que um dos traficantes seja algu\u00e9m nosso conhecido, bem instalado na vida, muito af\u00e1vel e simp\u00e1tico, excelente contador de anedotas, e por quem nos afei\u00e7o\u00e1mos. Talvez a v\u00edtima que abdicou, \"volunt\u00e1ria\" ou for\u00e7adamente, de um \u00f3rg\u00e3o por uma centena de euros seja um nosso vizinho ou aquela mo\u00e7a contratada para uma festa de despedida de solteiro.<br \/>\nDez por cento do volume de vendas das empresas a actuar em Portugal nunca chegam a ser registados como vendas da empresa. Esse montante astron\u00f3mico \u00e9 fraudulentamente desviado para os bolsos de alguns, para contas banc\u00e1rias, de prefer\u00eancia em offshores, onde a sua identifica\u00e7\u00e3o seja quase imposs\u00edvel e esteja livre de qualquer investiga\u00e7\u00e3o e pagamento de impostos. Talvez todos os domingos, no fim da missa, nos cruzemos com um desses defraudadores, qui\u00e7\u00e1 elemento do crime internacional organizado. A sua vida \u00e9 modesta, a solidez da sua fam\u00edlia garantida, os \"elevados princ\u00edpios \u00e9ticos\" incontest\u00e1veis.<br \/>\nTodos os dias circulam notas de euro falsas e poder\u00e1 acontecer que tenha na sua carteira algum exemplar fabricado no m\u00eas passado numa tipografia cuidadosamente montada numa garagem. Adquiriu-a num qualquer processo de troco e colaborou, obviamente de forma inconsciente, no eficaz funcionamento da rede de falsificadores ao utilizar essa nota no caixa do supermercado.<br \/>\n2. Apesar destas, e muitas outras situa\u00e7\u00f5es que se atravessam no nosso caminho, continuamos a pretender ignorar esta realidade, a n\u00e3o inscrever estas realidades nas nossas experi\u00eancias, nas pr\u00e1ticas sociais, nos comportamentos pol\u00edticos.<br \/>\nOs princ\u00edpios orientadores s\u00e3o de fuga \u00e0 realidade, de n\u00e3o assun\u00e7\u00e3o das responsabilidades:<br \/>\n* \"Portugal \u00e9 um pa\u00eds de brandos costumes, estas desgra\u00e7as s\u00e3o em pa\u00edses distantes\".<br \/>\n* \"Sabemos que h\u00e1 fraude nas empresas, mas n\u00e3o \u00e9 na minha\".<br \/>\n* \"Se h\u00e1 alguma fraude contra a minha empresa a responsabilidade \u00e9 dos clientes e fornecedores\".<br \/>\n* \"Se alguma fraude for cometida por um funcion\u00e1rio, certamente que n\u00e3o \u00e9 pelo pessoal da minha confian\u00e7a\".<br \/>\n* \"Por acaso aconteceu uma fraude na institui\u00e7\u00e3o que dirijo, mas \u00e9 melhor resolver isto internamente, em segredo\".<br \/>\n* \"Detectamos uma grande fraude fiscal, mas desde que pague ao Estado o que deve \u00e9 melhor n\u00e3o instaurar nenhum processo crime\".<br \/>\n* \"Parece haver ind\u00edcios de crime, mas o senhor X \u00e9 t\u00e3o influente... Vamos esperar\".<br \/>\n\u00c9 esta \"pol\u00edtica de avestruz\", de faz de conta, que explica algumas situa\u00e7\u00f5es que vivemos no Portugal recente, quando a for\u00e7a dos factos era mais forte que a \"bondade\", exigindo uma interven\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m ela que justifica que grande parte da economia \"sombra\" continue a prosperar, que as fraudes prossigam e os defraudadores enrique\u00e7am alegremente.<br \/>\nA \u00fanica excep\u00e7\u00e3o a esta condescend\u00eancia, talvez seja a postura face ao \"tr\u00e1fico de droga\", tal \u00e9 a devasta\u00e7\u00e3o que gerou em muitos lares.<br \/>\n3. Algumas perguntas se imp\u00f5em. Eis algumas, a t\u00edtulo de exemplo:<br \/>\n* Se os defraudadores e os traficantes s\u00e3o menos de 1% da popula\u00e7\u00e3o, como se justifica que os restantes 99% andem t\u00e3o distra\u00eddos?<br \/>\n* Se a grande maioria das empresas e outras institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00edtimas de fraude e \u00e9 um bom neg\u00f3cio evitar que elas aconte\u00e7am porque n\u00e3o tomam as medidas adequadas?<br \/>\n* Se a solidez de uma institui\u00e7\u00e3o \u00e9 mais mensur\u00e1vel pela capacidade de detectar e prevenir fraudes que pela sua aparente aus\u00eancia, porque se insiste em encobrir as situa\u00e7\u00f5es verificadas, incluindo da pol\u00edcia?<br \/>\n* Se a fuga intencional aos impostos prejudica todos os cidad\u00e3os e o Estado n\u00e3o se deveria ir mais al\u00e9m do que a mera exig\u00eancia de pagamento?<br \/>\n* Se todos os dias recebemos correio electr\u00f3nico que nos pretende burlar porque n\u00e3o promover iniciativas de uma mais regular e eficaz esclarecimento?<br \/>\nH\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es para este voltar de costas, este faz de conta:<br \/>\n* Pela sua pr\u00f3pria natureza a economia \"sombra\" n\u00e3o \u00e9 imediatamente vis\u00edvel e a fraude utiliza a simula\u00e7\u00e3o.<br \/>\n* As informa\u00e7\u00f5es sobre estes assuntos s\u00e3o escassas, e h\u00e1 receio de se abordar publicamente estes temas.<br \/>\n* A nossa distrac\u00e7\u00e3o, condescend\u00eancia e \"bondade\" inscrevem-se em raz\u00f5es sociol\u00f3gicas profundas, vis\u00edveis nos indicadores de psicologia social, n o \"Medo de Existir\" (Jos\u00e9 Gil) ou nos inqu\u00e9ritos sobre a corrup\u00e7\u00e3o e as pr\u00e1ticas pol\u00edticas (vide os trabalhos dirigidos por Lu\u00eds de Sousa).<br \/>\n* O brotar de um individualismo acompanhado de uma relativa degeneresc\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, enfraquecendo os referenciais de interven\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nPerante uma tal situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 uma actua\u00e7\u00e3o civicamente respons\u00e1vel: Informar, formar, moralizar. Forjar uma sensibilidade colectiva, fornecer conhecimentos para uma pr\u00e1tica de detec\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o, educar moralmente os cidad\u00e3os. Estimular o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es de forma que a responsabilidade social (efectiva) e a honestidade sejam estimuladas, ao mesmo tempo que as pr\u00e1ticas perniciosas e a fraude sejam exemplarmente condenadas.<br \/>\n4. Um apontamento final. Frequentemente os investigadores de crimes, em geral, e de fraudes, em particular, s\u00e3o muito avessos \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o p\u00fablica da informa\u00e7\u00e3o, argumentando que aquela poderia fazer aumentar as pr\u00e1ticas criminosas, poderia ensinar potenciais defraudadores.<br \/>\nN\u00e3o negamos que h\u00e1 que ter alguns cuidados, a analisar em cada caso concreto, mas esse secretismo desinforma mais os que deveriam estar precavidos que os criminosos. Estes t\u00eam as suas fontes de informa\u00e7\u00e3o e os seus meios de experimenta\u00e7\u00e3o montados. Essa postura generalizada tem exactamente o efeito contr\u00e1rio ao pretendido: refor\u00e7a a fuga \u00e0 realidade dos cidad\u00e3os e das institui\u00e7\u00f5es cumpridores dos seus deveres; n\u00e3o funciona como aviso aos criminosos de que h\u00e1 vigil\u00e2ncia. Enfim, reproduz-se o ambiente favor\u00e1vel para os traficantes e os defraudadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, Vis\u00e3o on line, 1. &#8220;Os escravos de Lake Placid [EUA] eram invis\u00edveis, pe\u00e7as da nossa economia que se desenvolve num universo paralelo&#8221;. &#8220;Enquanto os membros da comunidade de reformados jogavam golfe, havia ali atr\u00e1s um campo de escravos. 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