{"id":924,"date":"2009-08-20T00:00:00","date_gmt":"2009-08-20T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=924"},"modified":"2015-12-04T19:20:19","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:19","slug":"o-admiravel-mundo-velho-da-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=924","title":{"rendered":"O admir\u00e1vel mundo \u00abvelho\u00bb da academia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Aurora Teixeira, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/o-admiravel-mundo-velho-da-academia=f526349\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE031.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>What is a cynic? A man who knows the price of everything and the value of nothing (Oscar Wilde, Lady Windermere's Fan, 1892, Act III)<br \/>\nComo habitualmente, neste s\u00e1bado (de Agosto), iniciei o meu dia tomando o pequeno-almo\u00e7o acompanhado da leitura de um seman\u00e1rio. Neste constava com um artigo sobre o crescimento e uso generalizado da compra de disserta\u00e7\u00f5es de mestrado no seio da academia portuguesa.<!--more--><br \/>\nA compra (e venda, claro est\u00e1!) de disserta\u00e7\u00f5es e teses constitui um dos muitos (e mais s\u00e9rios) tipos de fraude ou desonestidade acad\u00e9mica. N\u00e3o \u00e9 (infelizmente) um fen\u00f3meno novo. Sempre existiu, mas a difus\u00e3o das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, nomeadamente da Internet, 'democratizou-o', tornando-o mais acess\u00edvel, f\u00e1cil e r\u00e1pido.<br \/>\nSempre me questionei como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel, do ponto de vista legal, a exist\u00eancia '\u00e0 descarada', \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique, de neg\u00f3cios de compra e venda de disserta\u00e7\u00f5es cujos retornos observam crescimentos exponenciais inversamente relacionados com a crise econ\u00f3mica mas directamente relacionado com a crise de valores que nos assola e que teima em se tornar um fen\u00f3meno estrutural da sociedade portuguesa \u2026<br \/>\nArriscamo-nos vertiginosamente a nos tornar (se j\u00e1 n\u00e3o o somos) numa sociedade \u00e0 la Huxley (este autor publicou em 1932 a obra 'Admir\u00e1vel Mundo Novo', que descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos gen\u00e9ticos e psicol\u00f3gicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes), mas 'velha', onde a 'n\u00e3o-inscri\u00e7\u00e3o' \u00e9 o tra\u00e7o dominante na psicologia nacional (ver Jos\u00e9 Gil, 'Portugal, Hoje - O Medo de Existir', publicado pela 1\u00aa vez em 2004). As coisas passam mas n\u00e3o mexem verdadeiramente com as pessoas, n\u00e3o se inscrevem, resultando da\u00ed uma inac\u00e7\u00e3o, uma falta de afirma\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de responsabiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPossivelmente mais do que na sociedade em geral, o mundo 'velho' da academia portuguesa est\u00e1, a meu ver, inexoravelmente conspurcado da 'n\u00e3o-inscri\u00e7\u00e3o'. Os fen\u00f3menos de fraude acad\u00e9mica no seu seio s\u00e3o recorrentes (embora 'abafados'), quer nas suas formas, supostamente mais 'brandas', de 'copian\u00e7os' nos exames, de assinar por outros em sala de aulas, quer nas suas formas mais 'ousadas' e dispendiosas, como o pl\u00e1gio de trabalhos e a compra\/venda de ensaios, disserta\u00e7\u00f5es e teses. N\u00e3o obstante, na sua generalidade, as escolas de ensino superior e os seus principais actores - estudantes, corpo docente e \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o - teimam em persistir no imobilismo na falta de reflex\u00e3o, no ref\u00fagio defensivo e 'legalista' de que o pl\u00e1gio (e a fraude acad\u00e9mica) \u00e9 algo dif\u00edcil de definir, cujas fronteiras n\u00e3o s\u00e3o facilmente determinadas, e de que nada se pode fazer (\u00e0 luz dos 'regulamentos') a n\u00e3o ser, por exemplo, que o(s) autor(es) vitima(s) de pl\u00e1gio iniciem uma ac\u00e7\u00e3o legal contra o perpetrador\u2026<br \/>\n\u00c9 (tristemente) c\u00e9lebre o caso, magnificamente relatado por Carlos Cabral-Cardoso e publicado, em 2004, no Journal of Business Ethics, de pl\u00e1gio numa disserta\u00e7\u00e3o de mestrado em que os incentivos pessoais de alguns membros do j\u00fari, a estrutura e cultura extremamente hier\u00e1rquica do sistema universit\u00e1rio, e os mecanismos institucionais (in)dispon\u00edveis para lidar com casos de comportamentos n\u00e3o \u00e9ticos ditaram o 'arquivamento' do processo e a consequente n\u00e3o revoga\u00e7\u00e3o da inicial decis\u00e3o de atribui\u00e7\u00e3o do grau de mestre ao plagiador.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio de uma vez por todas que os actores envolvidos reconhe\u00e7am as suas responsabilidades.<br \/>\nOs princ\u00edpios da integridade exigem que os estudantes nos seus ensaios escritos (artigos, disserta\u00e7\u00f5es, teses): 1) iniciem a sua investiga\u00e7\u00e3o e escrita atempadamente e de forma gradual assegurando que realizam o seu melhor no tempo estipulado; 2) entreguem um trabalho que \u00e9 da sua autoria e n\u00e3o efectuado por outrem ou 'reciclado' de um trabalho anterior; 3) atribuam os cr\u00e9ditos devidos \u00e0s fontes utilizadas; 4) re\u00fanam, procurem conselhos e aprendam com o seu orientador, discutindo ideias e clarificando argumentos.<br \/>\nRelativamente aos orientadores, os princ\u00edpios da integridade acad\u00e9mica exigem que: 1) seja, desde o inicio, perfeitamente clarificado o que \u00e9 esperado do estudante em termos de quantidade\/qualidade de trabalho a desenvolver, quais os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o associados, bem como os comportamentos \u00e9ticos expect\u00e1veis; 2) sejam mantidas, ao longo do desenvolvimento dos ensaios, reuni\u00f5es regulares de discuss\u00e3o (efectiva) do trabalho em curso, co-adjuvadas de entrega de v\u00e1rias vers\u00f5es por parte do estudante e concomitantes entregas de coment\u00e1rios a essas mesmas vers\u00f5es por parte dos orientadores; 3) sempre que suspeite que uma vers\u00e3o do trabalho foi plagiada ou que n\u00e3o \u00e9 da autoria do estudante, o orientador deve confrontar este \u00faltimo e tentar sensibiliz\u00e1-lo(a) para corrigir o seu comportamento; 4) no caso de reincid\u00eancia e persist\u00eancia de comportamentos de desonestidade acad\u00e9mica, deve comunicar aos \u00f3rg\u00e3os adequados (Director do Curso, Director da Escola).<br \/>\nPor \u00faltimo, os princ\u00edpios da integridade exigem que os Org\u00e3os de Gest\u00e3o das Escolas: 1) sejam pr\u00f3-activos, recusando uma abordagem 'legalista' ao problema, substituindo sistemas disciplinares meramente administrativos e 'c\u00f3digos de sil\u00eancio' por c\u00f3digos de honra, onde se articulem claramente as expectativas por parte da Escola relativamente a estudantes e corpo docente, visando estabelecer e manter os mais elevados padr\u00f5es de qualidade e rigor do trabalho acad\u00e9mico; 2) devem adequadamente reconhecer o trabalho de orienta\u00e7\u00e3o como servi\u00e7o docente efectivo, n\u00e3o menosprezando ou desvalorizando a sua import\u00e2ncia para o processo de forma\u00e7\u00e3o e aprendizagem dos estudantes; 3) devem evitar que as hierarquias e a 'cultura do medo' se entranhem na organiza\u00e7\u00e3o, promovendo e estimulando discuss\u00f5es abertas e transparentes no seio da comunidade acad\u00e9mica.<br \/>\nA integridade acad\u00e9mica, como muitas mais coisas na vida, envolvem um sistema de direitos e responsabilidade interligados que reflectem a nossa m\u00fatua depend\u00eancia. O sucesso dos nossos esfor\u00e7os individuais est\u00e1, neste contexto, intimamente dependente em cada um de n\u00f3s exercer tais direitos e assumir tais responsabilidades de forma s\u00e9ria e consciente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aurora Teixeira, Vis\u00e3o on line, What is a cynic? A man who knows the price of everything and the value of nothing (Oscar Wilde, Lady Windermere&#8217;s Fan, 1892, Act III) Como habitualmente, neste s\u00e1bado (de Agosto), iniciei o meu dia tomando o pequeno-almo\u00e7o acompanhado da leitura de um seman\u00e1rio. 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