{"id":913,"date":"2009-06-04T00:00:00","date_gmt":"2009-06-04T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=913"},"modified":"2015-12-04T19:20:21","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:21","slug":"o-tempo-foge-e-a-fraude-agarra-o","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=913","title":{"rendered":"O tempo foge e a fraude agarra-o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta, <span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span><\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/o-tempo-foge-e-a-fraude-agarra-o=f511534\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE020.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. \"O tempo escapa-se-me entre os dedos\" \u00e9 considerado pelo chefe de tribo de uma ilha Samoa, no s\u00e9culo XIX quando de uma visita \u00e0 Europa, como uma doen\u00e7a do homem branco, que ele nunca entendeu.<!--more--><br \/>\nEstudos antropol\u00f3gicos posteriores revelaram inequivocamente a exist\u00eancia de diferentes concep\u00e7\u00f5es de tempo entre os povos, moldados pela sucess\u00e3o de acontecimentos sociais, ora impostos por din\u00e2micas f\u00edsicas e biol\u00f3gicas (dia e noite, esta\u00e7\u00f5es do ano, sucess\u00e3o de colheitas, etc.), ora por culturas e cren\u00e7as (festividades, acontecimentos religiosos, etc.), ora por pr\u00e1ticas sociais institucionalizadas (nascimentos, mortes, substitui\u00e7\u00e3o de chefias, etc.). De tal modo diferentes que algumas l\u00ednguas n\u00e3o t\u00eam palavras para designar o tempo enquanto outras as t\u00eam em abund\u00e2ncia. Tempos diferentes entre culturas, entre povos, entre pessoas integradas no mesmo espa\u00e7o social, mas com pr\u00e1ticas quotidianas diferentes.<br \/>\nAinda hoje \u00e9 poss\u00edvel dizer com toda a propriedade que \"um africano vive metade do tempo de um europeu; mas paradoxalmente, tem muito mais tempo\" (\"Vagamundos\", Tabu, 29\/05\/2009).<br \/>\nO tempo \u00e9, em alguma medida, imposto ao homem, mas tamb\u00e9m \u00e9, em grande medida constru\u00eddo pelo Homem. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o vital que marca a configura\u00e7\u00e3o do futuro e o usufruto do presente.<br \/>\n2. O tempo circular - repetitivo, que nos permite fazer amanh\u00e3 ou que n\u00e3o fizemos hoje - articula-se com o tempo linear - \u00fanico, que introduz o \"atraso\" no que dev\u00edamos ter feito hoje e n\u00e3o fizemos. No primeiro o presente \u00e9 comandado pelo passado. No segundo o presente \u00e9 comandado pelo futuro. O tempo linear \u00e9 irrevers\u00edvel porque visa atingir um objectivo futuro, porque se molda pelo prazo das tarefas e o valor dos recursos do projecto a construir, porque se concretiza em pr\u00e1ticas institucionais.<br \/>\nA correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre o \"tempo circular\" e o \"tempo linear\" marca a forma de funcionamento das sociedades. A entrada das crian\u00e7as no sistema educativo marca o in\u00edcio da aprendizagem da irreversibilidade e da import\u00e2ncia de se construir o futuro.<br \/>\nA hegemonia do tempo linear nas sociedades coloca uma quest\u00e3o central nas estrat\u00e9gias colectivas e individuais: qual \u00e9 o prazo do futuro que nos mobiliza no presente?<br \/>\nNa actividade econ\u00f3mica esta \u00e9 uma quest\u00e3o central: estou dispon\u00edvel a consumir hoje menos para poupar e viver melhor daqui a quantos anos? A quantos anos fixo as metas a serem atingidas pela empresa? Duas entre muitas outras quest\u00f5es.<br \/>\nA IBM das d\u00e9cadas de 60 e 70, multinacional, lidando com funcion\u00e1rios, concorrentes e Estados inseridos em diversas culturas sentiu a necessidade de compreender algumas vari\u00e1veis de Psicologia Social para se organizar. Geert Hofstede esteve associado a esses estudos e nunca mais foi poss\u00edvel deixar de relacionar culturas nacionais, culturas organizacionais e organiza\u00e7\u00e3o da economia.<br \/>\nInicialmente o tempo social n\u00e3o foi considerado uma vari\u00e1vel relevante, mas o contacto com o ser e estar de diferentes povos acabou por imp\u00f4-la. A orienta\u00e7\u00e3o de longo prazo versus a orienta\u00e7\u00e3o de curto prazo surge hoje como um indicador fundamental para compreender o mundo contempor\u00e2neo.<br \/>\nCinquenta anos \u00e9 um longo prazo mobilizador na cultura chinesa enquanto cinco anos \u00e9 muito tempo para muitos americanos e europeus.<br \/>\n3. N\u00f3s, produtos da cultura greco-latina, judaico-crist\u00e3, sempre consider\u00e1mos que a \"paci\u00eancia chinesa\" n\u00e3o era para n\u00f3s. O prazo de mobiliza\u00e7\u00e3o era mais curto. O que talvez n\u00e3o nos tenhamos apercebido \u00e9 que o prazo de mobiliza\u00e7\u00e3o diminu\u00eda, a solidariedade intergeracional enfraquecia, os objectivos estrat\u00e9gicos das empresas passavam a ser, frequentemente, o amanh\u00e3.<br \/>\nNos anos 50\/60 alguns Estados capitalistas e europeus tinham planos a dez anos. John Galbraith constatava na d\u00e9cada seguinte, que os conselhos de administra\u00e7\u00e3o de grandes empresas substitu\u00edam a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro pela estabilidade das quotas de mercado, como garantia da perman\u00eancia dos seus empregos. O tempo necess\u00e1rio aos grandes investimentos exigia o longo prazo.<br \/>\nNos anos 90 imp\u00f4s-se o curto prazo. A import\u00e2ncia crescente dos mercados financeiros anula os tempos de produ\u00e7\u00e3o e imp\u00f5e a instantaneidade dos tempos de troca de capital-dinheiro e t\u00edtulos, da imaterialidade. A cota\u00e7\u00e3o das ac\u00e7\u00f5es nas bolsas - vol\u00e1til, ponto de encontro da produ\u00e7\u00e3o, da troca e da especula\u00e7\u00e3o - determina o valor das empresas e, correspondentemente, os pr\u00e9mios dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o. A rotatividade do emprego dificulta ou impossibilita uma estrat\u00e9gia de organiza\u00e7\u00e3o familiar e imp\u00f5e a defini\u00e7\u00e3o e cumprimento de objectivos, obviamente de curto prazo, como suportes da avalia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm livro de gest\u00e3o para chamar a aten\u00e7\u00e3o tem de garantir, na capa em letras garrafais, o sucesso e o enriquecimento ao fim de sete dias.<br \/>\n4. O econ\u00f3mico assume-se como valor primeiro das rela\u00e7\u00f5es sociais, subvalorizando-se, qui\u00e7\u00e1 esquecendo-se, todos os outros vectores das rela\u00e7\u00f5es entre os homens e da constru\u00e7\u00e3o da personalidade.<br \/>\nO curto prazo agrava as desigualdades sociais porque imp\u00f5e a lei dos mais fortes. As estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia sobrep\u00f5em-se \u00e0s l\u00f3gicas de vida, para muitos. O enriquecimento de curto prazo - contra natura numa economia assente na produ\u00e7\u00e3o e na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida, com respeito material pelos direitos humanos - \u00e9 o objectivo a atingir, definido no poder, na manipula\u00e7\u00e3o de resultados, nos fogos f\u00e1tuos da promo\u00e7\u00e3o social.<br \/>\nA partir dos anos 90 este encurtamento do tempo-projecto gerou uma degeneresc\u00eancias das rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. Constituiu um factor permissivo da fraude. Simultaneamente alimentou v\u00e1rios factores impulsionadores desta, anteriormente referidos.<br \/>\n5. A crise actual constitui um virar de p\u00e1gina?<br \/>\n\u00c9 cedo para dizer. O \"velho\" e o \"novo\" ainda est\u00e3o em confronto. O imprevis\u00edvel pode mudar o rumo dos acontecimentos.<br \/>\nNo meio das tend\u00eancias e contra-tend\u00eancias, a reposi\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais que estiveram na base do despoletar da crise parecem dominar.<br \/>\nQue podemos fazer para inverter a situa\u00e7\u00e3o, em nome da preven\u00e7\u00e3o e combate \u00e0 fraude?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, Vis\u00e3o on line, 1. &#8220;O tempo escapa-se-me entre os dedos&#8221; \u00e9 considerado pelo chefe de tribo de uma ilha Samoa, no s\u00e9culo XIX quando de uma visita \u00e0 Europa, como uma doen\u00e7a do homem branco, que ele nunca entendeu.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,123],"tags":[],"class_list":["post-913","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-visao-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=913"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/913\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8135,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/913\/revisions\/8135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}