{"id":910,"date":"2009-05-14T00:00:00","date_gmt":"2009-05-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=910"},"modified":"2015-12-04T19:20:22","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:22","slug":"falencias-em-tempos-de-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=910","title":{"rendered":"Fal\u00eancias em tempos de crise"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/falencias-em-tempos-de-crise=f508505\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE017.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. A temperatura estava amena, o sol brilhava no c\u00e9u azul da manh\u00e3, a viatura deslizava suavemente numa das auto-estradas portuguesas. N\u00e3o sei quem introduzira o tema, que versava sobre um document\u00e1rio que os meus companheiros de viagem haviam visionado no dia anterior, num dos canais da televis\u00e3o por cabo. <!--more-->Segundo explicaram, contava a vida de um empres\u00e1rio americano cujo neg\u00f3cio consistia em comprar empresas em estado de pr\u00e9-fal\u00eancia que, posteriormente, liquidava por venda separada dos activos. Confessaram que o que mais os irritara no dito programa foi o \u00e0-vontade com que o empres\u00e1rio falava do seu \"know-how\" e da efici\u00eancia com que executava cada um dos seus projectos, enquanto demonstrava insensibilidade para com o drama humano que atingia os trabalhadores das empresas que liquidava.<br \/>\nEntrei na conversa. Reconheci que em tempos de crise como os que se vivem estamos todos mais sens\u00edveis para os problemas humanos e sociais associados ao desemprego. Ajuntei, no entanto, que o dito empres\u00e1rio estava, tamb\u00e9m, a seu modo, a desempenhar uma importante fun\u00e7\u00e3o social, que consistia em reciclar recursos improdutivos que, mais tarde, reintroduzia na economia. Desse modo, sublinhei, ainda que indirectamente, ele fomentava a cria\u00e7\u00e3o de novas empresas e de emprego.<br \/>\nEsta vis\u00e3o pragm\u00e1tica n\u00e3o teve acolhimento da parte dos meus companheiros, a quem incomoda sempre, qualquer que seja o contexto, a simples men\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra \"lucro\". Pese o meu esfor\u00e7o, n\u00e3o consegui faz\u00ea-los compreender que o drama dos trabalhadores nunca tem origem na liquida\u00e7\u00e3o de empresas invi\u00e1veis, mas nos antecedentes que levaram a que elas tivessem chegado a tal situa\u00e7\u00e3o. E acrescentei que o pior que podia acontecer a todos - trabalhadores, propriet\u00e1rios, credores, etc. - era um processo de liquida\u00e7\u00e3o de empresa demorar mais de um dezena de anos, como tantas vezes acontece em Portugal. N\u00e3o se deram por convencidos. A viatura, insens\u00edvel ao pesado sil\u00eancio que se instalara no seu interior, suavemente desfazia as curvas e como uma seta percorria as rectas.<br \/>\n2. Tal como os seres vivos, tamb\u00e9m as empresas t\u00eam um ciclo de vida que se inicia com o \"nascimento\" (funda\u00e7\u00e3o), se prolonga por um per\u00edodo de actividade que pode ser mais ou menos longo e termina com a \"morte\" (liquida\u00e7\u00e3o). Portanto, por muito que custe a quem a elas est\u00e1 mais directamente ligado, o desaparecimento de empresas n\u00e3o deve ser encarado como um drama pessoal e social mas, t\u00e3o s\u00f3, como fazendo parte do ciclo de rejuvenescimento do tecido empresarial, uma etapa essencial \u00e0 reafecta\u00e7\u00e3o dos recursos econ\u00f3micos e humanos ineficientemente empregues nas unidades desaparecidas. Mais, toda a actividade que possa ajudar nesse ciclo - por exemplo, tornar o processo de liquida\u00e7\u00e3o mais expedito, facilitar a cria\u00e7\u00e3o de novas empresas - deve ser encarada como positiva para a sociedade e como pass\u00edvel de reduzir o sofrimento humano que est\u00e1 associado a tal reafecta\u00e7\u00e3o reafecta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPortanto, n\u00e3o deve \"chorar-se\" pelas empresas que desaparecem, mas sim por aquelas que \"n\u00e3o nascem\".<br \/>\n3. Segundo o Di\u00e1rio Econ\u00f3mico de 13 de Abril \u00faltimo, no primeiro trimestre do ano 1.207 empresas iniciaram uma ac\u00e7\u00e3o de insolv\u00eancia, o que significa um crescimento de mais de 80% face ao n\u00famero cong\u00e9nere do ano precedente. Estat\u00edsticas que n\u00e3o deixam ningu\u00e9m indiferente, sobretudo quando se pensa no que de sofrimento humano, de expectativas desfeitas, est\u00e1 subjacente a tais n\u00fameros.<br \/>\nPor\u00e9m, \u00e9 de admirar que sejam t\u00e3o diminutos, sobretudo tendo em considera\u00e7\u00e3o o per\u00edodo de crise econ\u00f3mica que se vive. Com efeito, segundo estimativas do Minist\u00e9rio do Trabalho e da Solidariedade Social, Gabinete de Estrat\u00e9gia e Planeamento, de 2000 a 2006 mais de 30.000 empresas \"desapareceram\" anualmente, i.e. cerca de 10,8% das empresas nacionais. No mesmo per\u00edodo, a cria\u00e7\u00e3o de novas empresas foi, em m\u00e9dia, superior ao das desaparecidas, permitindo um saldo positivo de cerca de 1,8%.<br \/>\nMuito facilmente se constata, a partir destas estat\u00edsticas e assumindo que o n\u00famero m\u00e9dio de desaparecimentos se mant\u00e9m, que apenas cerca de 15% do total destas empresas se ir\u00e3o apresentar a tribunal para efeitos de abertura de processo de insolv\u00eancia. Neste contexto, surgem d\u00favidas quanto \u00e0 transpar\u00eancia do encerramento dos restantes 85%. D\u00favidas que, diga-se, se v\u00e3o avolumando com as not\u00edcias que sobre o assunto diariamente s\u00e3o divulgadas pelos \"media\" e apontam no sentido de que muitos desses encerramentos t\u00eam, de algum modo, natureza fraudulenta.<br \/>\n4. \"Tr\u00eas meses de sal\u00e1rios em atraso. O patr\u00e3o desapareceu. Os trabalhadores montaram uma vig\u00edlia \u00e0 porta da f\u00e1brica para impedir que as m\u00e1quinas sejam retiradas da f\u00e1brica. Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o que se vive nas confec\u00e7\u00f5es Lad\u00e1rio, em Paredes.\" (Di\u00e1rio Econ\u00f3mico, 13\/4\/2009). Neste pequeno extracto - um exemplo entre muitos outros que se poderiam apresentar - h\u00e1 tr\u00eas aspectos, correspondendo \u00e0s tr\u00eas primeiras frases, que deveriam merecer uma pequena reflex\u00e3o da parte de cada um, da parte das autoridades em particular.<br \/>\nAs dificuldades econ\u00f3micas e financeiras que levam uma empresa ao desaparecimento n\u00e3o surgem da noite para o dia. S\u00e3o o resultado de um processo gradativo, qual doen\u00e7a que vai piorando com o tempo. \u00c0s primeiras dificuldades, a ger\u00eancia deveria tra\u00e7ar um plano de ac\u00e7\u00e3o destinado a debelar o problema. Na impossibilidade de este ser resolvido, um pedido de insolv\u00eancia deveria ser apresentado a tribunal. Nunca, por nunca, deveria ser poss\u00edvel a uma empresa continuar a laborar sem remunerar os factores de produ\u00e7\u00e3o envolvidos, particularmente o trabalho, gerando os famigerados \"sal\u00e1rios em atraso\". Se outra raz\u00e3o n\u00e3o existisse - mas h\u00e1! - a continua\u00e7\u00e3o em labora\u00e7\u00e3o de tais empresas \u00e9 pass\u00edvel de distorcer a concorr\u00eancia no mercado e \"contaminar\" empresas s\u00e3s, que correr\u00e3o o risco de vir a ter o mesmo destino das doentes.<br \/>\n\u00c9-se confrontado muitas (demasiadas) vezes com o facto do patr\u00e3o, que na maior parte das empresas \u00e9 tamb\u00e9m o gerente, n\u00e3o ter sequer coragem para olhar cara na cara os seus funcion\u00e1rios e comunicar-lhes a real situa\u00e7\u00e3o da empresa. Quantas vezes os trabalhadores chegam \u00e0s instala\u00e7\u00f5es da empresa pela manh\u00e3, supostamente para iniciarem mais um dia de trabalho, e \u00e9 ent\u00e3o que, face \u00e0 porta fechada, s\u00e3o confrontados com a dura realidade de terem perdido o seu posto de trabalho, por encerramento da empresa. Em termos \u00e9ticos e humanos, tal tipo de atitude da parte da ger\u00eancia \u00e9, no m\u00ednimo, repugnante.<br \/>\nO ep\u00edlogo deste drama \u00e9 consubstanciado na necessidade dos trabalhadores assegurarem, por si pr\u00f3prios - j\u00e1 que as autoridades s\u00e3o incapazes de o fazer -, a preserva\u00e7\u00e3o dos bens da empresa (\"a massa falida\"), ap\u00f3s o respectivo fecho, evitando que o \"empres\u00e1rio\" (entre aspas) indevidamente deles se aproprie. Imagino como se sentir\u00e3o revoltados por, depois de tudo o que lhes \"caiu em cima\", ainda terem de exercer o papel de \"pol\u00edcias\" para salvaguardar aquilo que por Lei devia estar automaticamente salvaguardado. Qualquer cidad\u00e3o se sentir\u00e1 envergonhado por viver numa sociedade onde isto acontece e o comportamento fraudulento dos \"empres\u00e1rios\" \u00e9 tolerado.<br \/>\n5. Falir \u00e9, como acima se defendeu, mais uma etapa - a \u00faltima - na vida das empresas, um modo de libertar recursos ineficientemente empregues e os reafectar a novos projectos. N\u00e3o deve ser, pois, motivo de vergonha para o empres\u00e1rio, nem a sociedade o deve discriminar por tal. Tudo o que se exige \u00e9 que o respectivo processo de fal\u00eancia seja transparente. Encerramentos de empresas em que esta \u00faltima caracter\u00edstica n\u00e3o esteja presente - de modo particular, os casos em que o \"empres\u00e1rio\" adopta comportamentos fraudulentos - deveriam ser motivo de condena\u00e7\u00e3o legal e de censura social. Para al\u00e9m de outras penalidades que a Lei impusesse, o \"empres\u00e1rio\" n\u00e3o deveria ter possibilidade de voltar \u00e0 vida empresarial \u2026 sem antes ter frequentado ac\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica, c\u00edvica e t\u00e9cnica que fornecessem \u00e0 sociedade um m\u00ednimo de garantias de que, em id\u00eanticas situa\u00e7\u00f5es futuras, o seu comportamento seria necessariamente diferente, para melhor.<br \/>\nP.S.: Releio a parte final do \u00faltimo par\u00e1grafo. Tenho de concluir que sou um sonhador, num pa\u00eds de \"brandos costumes\".<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line, 1. 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