{"id":907,"date":"2009-04-23T00:00:00","date_gmt":"2009-04-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=907"},"modified":"2015-12-04T19:20:23","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:23","slug":"o-paradoxo-da-confianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=907","title":{"rendered":"O Paradoxo da Confian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/o-paradoxo-da-confianca=f505721\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE014.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. Todos os cursos de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Economia reservam espa\u00e7o para discutir a rela\u00e7\u00e3o macroecon\u00f3mica entre poupan\u00e7a e investimento. Sem poupan\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 investimento, e na aus\u00eancia deste as economias n\u00e3o crescem. Neste assunto, chega, sempre, a altura de discutir o denominado \"paradoxo da poupan\u00e7a\".<!--more--> \u00c9 momento \"alto\" para o docente, que facilmente consegue o sil\u00eancio nas hostes que o escutam: se as fam\u00edlias poupassem todo o rendimento dispon\u00edvel, n\u00e3o haveria consumo, as empresas deixariam de produzir e, por conseguinte, seria desnecess\u00e1rio haver investimento. Ou seja, a aparente contradi\u00e7\u00e3o subjacente \u00e0 express\u00e3o \"a economia deve poupar\" - o dito paradoxo - reside no facto de, no limite, demasiada poupan\u00e7a ser prejudicial ao crescimento econ\u00f3mico.<br \/>\n2. \"Deve existir confian\u00e7a pessoal entre os membros de uma organiza\u00e7\u00e3o\". Trata-se de uma afirma\u00e7\u00e3o que n\u00e3o merece, \u00e0 primeira vista, qualquer tipo de reparo. Basta pensar no que seria a vida humana, o que seriam as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, se a confian\u00e7a no outro estivesse ausente. Por exemplo, se um homem n\u00e3o tivesse confian\u00e7a no seu barbeiro, certamente n\u00e3o conseguiria sentar-se na respectiva cadeira e, relaxadamente, deixar que ele lhe escanhoasse a face. Ou, sendo tesoureiro de uma empresa, a sua vida seria \"complicada\" se n\u00e3o tivesse um m\u00ednimo de confian\u00e7a no(a) seu(sua) assistente e o(a) proibisse de gerir os fundos na sua aus\u00eancia. Por\u00e9m, tamb\u00e9m agora, tal afirma\u00e7\u00e3o tem subjacente um paradoxo. Sem confian\u00e7a as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o funcionam, mas excesso de confian\u00e7a pessoal entre os seus membros pode colocar em causa a sobreviv\u00eancia das mesmas.<br \/>\n3. J\u00e1 passaram cerca de 25 anos. Na ag\u00eancia do Banco B. de uma pequena cidade de prov\u00edncia fora detectada uma situa\u00e7\u00e3o an\u00f3mala. Um cliente queixou-se \u00e0 ger\u00eancia que da sua conta desaparecera um dep\u00f3sito que alguns dias antes havia efectuado. Confrontado o justificativo em seu poder com os documentos contabil\u00edsticos do dia da opera\u00e7\u00e3o, a ger\u00eancia verificou que esta havia sido anulada internamente, no pr\u00f3prio dia em que fora registada. Comunicado o facto ao departamento de Inspec\u00e7\u00e3o, a auditoria a que se procedeu veio a permitir detectar uma fraude financeira que ascendia a cerca de 5 000 contos. O contexto em que ocorreu \u00e9 f\u00e1cil de descrever. Ao longo de um per\u00edodo de quase tr\u00eas anos, um funcion\u00e1rio-caixa, o sr. F., foi gradualmente subtraindo dinheiro, escondendo a situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da anula\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de dep\u00f3sito. O esquema funcionava em pir\u00e2mide: as opera\u00e7\u00f5es era anuladas e o produto dos dep\u00f3sitos revertia para o funcion\u00e1rio. Alguns dias mais tarde estes eram repostos, com valores recebidos de outros clientes cujos dep\u00f3sitos eram, por sua vez, anulados. E assim sucessivamente. Quando o caso foi despoletado o dito funcion\u00e1rio estava de f\u00e9rias e, tendo em considera\u00e7\u00e3o a motiva\u00e7\u00e3o invocada pelo cliente para ter efectuado o dep\u00f3sito - a constitui\u00e7\u00e3o de uma empresa -, n\u00e3o esperaria, certamente, que este tivesse necessidade de movimentar os fundos antes de passadas algumas semanas. Por conseguinte, a descoberta da situa\u00e7\u00e3o naquele preciso momento foi obra do acaso.<br \/>\n4. Veio a apurar-se que, por detr\u00e1s deste caso, que come\u00e7ara com o desvio inicial de 5 contos e chegara ao valor referido, estivera o n\u00e3o funcionamento do sistema de controlo interno. Com efeito, este impunha que a anula\u00e7\u00e3o de qualquer opera\u00e7\u00e3o fosse autorizada pelo sub-gerente da ag\u00eancia, atrav\u00e9s de um cart\u00e3o magn\u00e9tico de uso pessoal que deveria inserir no terminal do funcion\u00e1rio que necessitasse de efectuar um movimento de anula\u00e7\u00e3o. A excessiva confian\u00e7a pessoal existente entre a equipa da ag\u00eancia, de modo particular entre a ger\u00eancia e o restante pessoal, levava a que o dito sub-gerente, no in\u00edcio de cada dia de trabalho, colocasse no tampo da sua secret\u00e1ria o referido cart\u00e3o, com autoriza\u00e7\u00e3o t\u00e1cita para que quem dele necessitasse o usasse. Portanto, o controlo por via da participa\u00e7\u00e3o de uma segunda pessoa em opera\u00e7\u00f5es que implicavam \"sa\u00edda\" de fundos pura e simplesmente deixou de existir. Questionado sobre as raz\u00f5es de tal procedimento, o sub-gerente justificou-se com o facto de \"haver sempre muito trabalho para fazer e pouco tempo para atender ao pedido dos funcion\u00e1rios que necessitavam de usar o cart\u00e3o\" e, sobretudo, com o facto destes serem \"gente de confian\u00e7a, honesta e acima de qualquer suspeita\".<br \/>\n5. Quando na pequena cidade se espalhou a not\u00edcia de que tinha havido uma fraude (\"um desfalque\", como se dizia) perpetrada pelo sr. F., foi um choque. Ele gozava de uma estima imensa entre os seus concidad\u00e3os e era considerado como sendo de uma honestidade imaculada e inquestion\u00e1vel. Tendo em conta a imagem p\u00fablica do sr. F., e supondo que a dos restantes funcion\u00e1rios da ag\u00eancia n\u00e3o fosse diferente, uma pergunta se imp\u00f5e: n\u00e3o seria tal imagem evid\u00eancia suficiente para justificar o comportamento do sub-gerente na falta de controlo do seu cart\u00e3o de anula\u00e7\u00e3o?<br \/>\n6. N\u00e3o era. Sendo certo que a confian\u00e7a se alicer\u00e7a nas qualidades humanas que cada um percebe nos outros, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esquecer tr\u00eas aspectos que aconselham prud\u00eancia no n\u00edvel de confian\u00e7a depositado em rela\u00e7\u00f5es pessoais de natureza profissional: i) mesmo tendo em considera\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m \u00e9 capaz de enganar todo o mundo durante todo o tempo, pode haver diferen\u00e7a entre as qualidades percebidas e aquelas que s\u00e3o intr\u00ednsecas ao sujeito; ii) h\u00e1 investiga\u00e7\u00e3o que aponta no sentido de que o sujeito que pratica uma fraude, muitas vezes, f\u00e1-lo sem questionar a sua honestidade, pois admite no seu \u00edntimo que os meios desviados s\u00e3o um mero empr\u00e9stimo que rapidamente ir\u00e1 repor. Portanto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que o perpetrador de uma fraude seja intrinsecamente desonesto para cometer tal acto; iii) qualidades pessoais como a honestidade, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o independentes do contexto em que decorre a vida do sujeito. Quando tal contexto muda, as qualidades pessoais intr\u00ednsecas do sujeito podem alterar-se de modo radical. No caso em apre\u00e7o, como se veio a apurar, o sr. F. tinha iniciado pouco tempo antes da primeira retirada de fundos uma rela\u00e7\u00e3o amorosa extra-conjugal que, supostamente, lhe impunha gastos mensais acrescidos. O contexto subjacente \u00e0 sua vida mudara e com isso mudou tamb\u00e9m o seu comportamento profissional.<br \/>\n7. \u00c9 sobretudo este aspecto contextual do comportamento humano que torna imposs\u00edvel modelizar, em abstracto, as determinantes gen\u00e9ricas da fraude. E \u00e9-o, particularmente, porque as altera\u00e7\u00f5es que ocorrem em tal contexto tendem, em geral, a n\u00e3o ser do conhecimento p\u00fablico at\u00e9 muito tarde, isto \u00e9, tal informa\u00e7\u00e3o tende a permanecer no foro estritamente pessoal do sujeito. N\u00e3o fosse assim e, conhecida no interior da organiza\u00e7\u00e3o tal altera\u00e7\u00e3o, haveria condi\u00e7\u00f5es para que se tomassem medidas, ao n\u00edvel do controlo interno, que pudessem servir de ant\u00eddoto \u00e0 potencial altera\u00e7\u00e3o comportamental daquele. Isto \u00e9, haveria condi\u00e7\u00f5es para \"colocar trancas na porta\" \u2026 antes da casa roubada.<br \/>\n8. O sr. F. fugiu para o Brasil e foi condenado \u00e0 revelia em tribunal. O sub-gerente foi compulsivamente reformado. Os restantes gerentes foram deslocados para outras ag\u00eancias do banco. Este, teve de ressarcir os seus clientes pelos danos financeiros que sofreram. Todos os envolvidos no tratamento deste caso, onde me inclu\u00eda, constataram na pr\u00e1tica o qu\u00e3o pernicioso pode ser para as organiza\u00e7\u00f5es o excesso de confian\u00e7a pessoal entre os seus membros. O paradoxo da confian\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line, 1. Todos os cursos de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Economia reservam espa\u00e7o para discutir a rela\u00e7\u00e3o macroecon\u00f3mica entre poupan\u00e7a e investimento. Sem poupan\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 investimento, e na aus\u00eancia deste as economias n\u00e3o crescem. 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