{"id":901,"date":"2009-03-12T00:00:00","date_gmt":"2009-03-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=901"},"modified":"2015-12-04T19:20:24","modified_gmt":"2015-12-04T19:20:24","slug":"criatividade-contabilistica-ilustrada-com-a-portugal-telecom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=901","title":{"rendered":"\u00abCriatividade contabil\u00edstica\u00bb ilustrada com a Portugal Telecom"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/criatividade-contabilistica-ilustrada-com-a-portugal-telecom=f499268\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE008.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. Considera-se \"criatividade contabil\u00edstica\" o efeito de atitudes deliberadas adoptadas pelos gestores e tendentes a, pelo uso da flexibilidade permitida pelas normas contabil\u00edsticas, proporcionarem nos relat\u00f3rios e contas uma imagem das empresas mais \"agrad\u00e1vel\" do que a real. Duas caracter\u00edsticas s\u00e3o habitualmente tributadas a tal criatividade: a) tende a ocorrer dentro da legalidade e, por isso, n\u00e3o se confunde com uma situa\u00e7\u00e3o de fraude. <!--more-->No entanto, a fronteira que separa estas duas realidades tende a ser difusa, n\u00e3o sendo muito f\u00e1cil saber onde termina uma e come\u00e7a a outra; b) tende a n\u00e3o ser directamente detect\u00e1vel para o utilizador da informa\u00e7\u00e3o contabil\u00edstica, caso contr\u00e1rio, sobretudo quando afecta o montante do resultado do exerc\u00edcio, seria facilmente neutralizada. Por\u00e9m, n\u00e3o raras vezes, esta \u00faltima caracter\u00edstica est\u00e1 ausente e uma vers\u00e3o que se pode adjectivar de \"soft\", por ser explicitada no relat\u00f3rio da empresa, \u00e9 utilizada por algumas empresas.<br \/>\n2. Parece um paradoxo que algu\u00e9m use de criatividade para mostrar uma melhor imagem da empresa e, simultaneamente, \"avise\" o destinat\u00e1rio da informa\u00e7\u00e3o de que tomou medidas que \"coloriram\" tal imagem. Talvez n\u00e3o seja um paradoxo. H\u00e1 raz\u00f5es que podem justificar, pelo menos em parte, tal atitude: o mercado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o eficiente como tradicionalmente se considerava e os manuais da especialidade e boa parte da investiga\u00e7\u00e3o ainda hoje pressup\u00f5em; o mercado hiper-reage em determinadas situa\u00e7\u00f5es, provocando altera\u00e7\u00f5es do valor das cota\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m das varia\u00e7\u00f5es do valor intr\u00ednseco da empresa; uma parte consider\u00e1vel dos intervenientes no mercado de capitais, em presen\u00e7a do relat\u00f3rio de uma empresa, fixa a aten\u00e7\u00e3o na \"bottom line\", isto \u00e9, no resultado reportado, n\u00e3o entrando nos detalhes da informa\u00e7\u00e3o contabil\u00edstica e nas explica\u00e7\u00f5es veiculadas por tal relat\u00f3rio. Seja qual for a efectiva raz\u00e3o, o certo \u00e9 que os gestores n\u00e3o usariam este tipo de criatividade \"soft\" nas contas das suas empresas se n\u00e3o esperassem da\u00ed ganhos e ou o evitar de perdas.<br \/>\n3. Vem este assunto \u00e0 li\u00e7a a prop\u00f3sito das contas consolidadas da Portugal Telecom relativas ao 3\u00ba trimestre de 2008. O total do capital pr\u00f3prio no final do per\u00edodo ascendia a 842,0 milh\u00f5es de Euros, por contraponto a 1338,2 milh\u00f5es no in\u00edcio do ano. Uma redu\u00e7\u00e3o de cerca de 500 milh\u00f5es nesse per\u00edodo de 9 meses de actividade, em parte justificada pela concretiza\u00e7\u00e3o do programa de aquisi\u00e7\u00e3o de ac\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias prometido aos accionistas aquando da OPA lan\u00e7ada pelo grupo SONAE. Quando se olham mais em detalhe as varia\u00e7\u00f5es ocorridas no capital pr\u00f3prio verifica-se que por duas vezes, uma no 2\u00ba trimestre, outra no 3\u00ba, a empresa tinha procedido \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o de \"alguns\" dos seus activos fixos, o que se traduziu por um efeito positivo nesse agregado de 816,5 milh\u00f5es (ap\u00f3s impostos). Ou seja, sem essas interven\u00e7\u00f5es \"por medida\" no valor de balan\u00e7o dos activos a Portugal Telecom teria apresentado um capital pr\u00f3prio quase nulo. E refor\u00e7o o \"por medida\", porque se trata de medidas avulsas, sobre determinados activos - e n\u00e3o a totalidade dos activos tang\u00edveis, como seria de esperar - e na (quase) exacta medida para obviar a uma situa\u00e7\u00e3o que, muito provavelmente, teria provocado um choque no mercado.<br \/>\n4. Tanto quanto me foi dado perceber, o mercado n\u00e3o penalizou a empresa pela criatividade que usou para mostrar um balan\u00e7o com \"melhor cor\". Em termos estritamente econ\u00f3micos, supondo que a reavalia\u00e7\u00e3o assentou no valor intr\u00ednseco dos activos reavaliados, o mercado actuou de forma correcta. A empresa n\u00e3o passou a valer mais ou menos do que valeria se n\u00e3o tivesse existido a reavalia\u00e7\u00e3o. Aquilo que aconteceu foi que esta trouxe \u00e0 luz do dia parte de uma reserva de valor que estava oculta, mas que o mercado j\u00e1 teria antecipadamente reflectido no valor das ac\u00e7\u00f5es. Mas fica a pergunta: e como teria o mercado reagido se a empresa apresentasse capitais pr\u00f3prios nulos ou negativos? Apesar do respectivo valor intr\u00ednseco permanecer o mesmo, como atr\u00e1s se referiu, muito provavelmente o mercado teria reagido mal. Da\u00ed o incentivo para que a gest\u00e3o actuasse do modo que actuou.<br \/>\n5. A press\u00e3o do mercado, onde sobressaem as expectativas dos analistas, tende a afectar o comportamento dos gestores e leva a actua\u00e7\u00f5es que, numa vers\u00e3o \"soft\", podem ser ilustradas pelo caso acabado de referir. Essa press\u00e3o tende a ser amplificada quando os interesses pessoais dos gestores est\u00e3o associados \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da cota\u00e7\u00e3o das ac\u00e7\u00f5es em bolsa. Mesmo quando tais actua\u00e7\u00f5es ocorrem estritamente dentro da legalidade, n\u00e3o parece ser de desculpar a atitude dos gestores \"criativos\". Aceit\u00e1-la \u00e9 condescender com um comportamento que faz da informa\u00e7\u00e3o contabil\u00edstica aquilo que eles desejam ela seja em cada momento, tornando as reservas ocultas de valor na paleta usada para \"colorir\" a gosto a imagem da empresa. Quando o mercado n\u00e3o reage a tais situa\u00e7\u00f5es est\u00e1 a transmitir um duplo sinal: por um lado, que \u00e9 eficiente e j\u00e1 havia inclu\u00eddo no pre\u00e7o das ac\u00e7\u00f5es o valor oculto; por outro, que os gestores podem \"colorir\" as contas com as cores que desejarem sem risco de penaliza\u00e7\u00e3o. A atitude do mercado muda diametralmente quando aparecem \"buracos\" onde antes se esperava existisse valor oculto. Ent\u00e3o, surgem os queixumes do costume: \"\u2026 havia a sensa\u00e7\u00e3o de que a empresa usava de algum tipo de criatividade nas contas \u2026 mas n\u00e3o se esperava que da\u00ed pudessem resultar 'buracos' e situa\u00e7\u00f5es fraudulentas\". Ser\u00e1 que um \"pux\u00e3o de orelhas\" aos gestores na altura certa n\u00e3o poderia evitar a necessidade de se tomarem medidas dr\u00e1sticas mais tarde?<br \/>\n6. Com as devidas adapta\u00e7\u00f5es, esta era a pergunta que se fazia em tempos idos quando se discutia a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Hoje em dia n\u00e3o \u00e9 politicamente correcto dar \"pux\u00f5es de orelhas\", mesmo que verbais \u2026 apesar de termos consci\u00eancia da falta que fazem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line. 1. Considera-se &#8220;criatividade contabil\u00edstica&#8221; o efeito de atitudes deliberadas adoptadas pelos gestores e tendentes a, pelo uso da flexibilidade permitida pelas normas contabil\u00edsticas, proporcionarem nos relat\u00f3rios e contas uma imagem das empresas mais &#8220;agrad\u00e1vel&#8221; do que a real. 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