{"id":899,"date":"2009-01-29T00:00:00","date_gmt":"2009-01-29T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=899"},"modified":"2018-04-30T17:11:13","modified_gmt":"2018-04-30T17:11:13","slug":"a-mentira-da-verdade-a-fraude-na-satyam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=899","title":{"rendered":"A mentira da \u00abverdade\u00bb: a fraude na Satyam"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, <\/strong><\/span><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/a-mentira-da-verdade-a-fraude-na-satyam=f497130\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE006.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. \"satyam\", \"verdade\" em s\u00e2nscrito. Em 1987 Ramalinga Raju, um jovem empres\u00e1rio indiano, deve ter achado o termo deveras apelativo e pass\u00edvel de penetrar facilmente no mundo globalizado dos neg\u00f3cios. Decidiu inclui-lo no nome da sua novel empresa, a Satyam Computer Services, Ltd. <!--more-->Fosse pelo nome, fosse pelo engenho do empres\u00e1rio, ou por efeito de ambos, o facto \u00e9 que a empresa, dedicada ao \"outsourcing\" inform\u00e1tico e \u00e0 venda de \"software\" empresarial por medida, verificou desde ent\u00e3o um crescimento assombroso. Foram 20 anos de cont\u00ednua ascens\u00e3o. Os \u00faltimos n\u00fameros falam por si: opera\u00e7\u00f5es em mais de 60 pa\u00edses, mais de 50 000 empregados, volume de neg\u00f3cios superior a mil milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, carteira de clientes que inclui as maiores empresas mundiais.<!--more--><span style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\">O reverso desta hist\u00f3ria paradigm\u00e1tica de \"sucesso\" aconteceu, subitamente, no in\u00edcio de Janeiro, quando o presidente e fundador da empresa, Raju, enviou uma carta ao seu conselho de administra\u00e7\u00e3o dizendo que as contas publicadas pela empresa estavam inflacionadas e que, dos cerca de 1,1 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares de dep\u00f3sitos e caixa referidos no balan\u00e7o, cerca de mil milh\u00f5es pura e simplesmente n\u00e3o existiam, eram um mero registo contabil\u00edstico sem suporte real. As ac\u00e7\u00f5es da empresa, cotadas em v\u00e1rias bolsas, ca\u00edram a pique. A \u00cdndia entrou em estado de choque ao constatar que o seu \u00eddolo, o \"self-made man\" Raju, afinal tinha p\u00e9s de barro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em id=\"__mceDel\"> 2. Uma grande fraude, com o ingrediente habitual: perpetrada por uma pessoa que estava acima de qualquer suspeita. Foi assim com Bernard Madoff, muito recentemente, foi agora com Ramalinga Raju. Para se ter ideia da imagem social e empresarial deste homem tenha-se presente que \u00e9 um filantropo com obra feita na ajuda a popula\u00e7\u00f5es carenciadas, tem v\u00e1rios doutoramentos \"honoris causa\", foi eleito em 2007 pela Ernest &amp; Young o empres\u00e1rio do ano. Era considerado, pela popula\u00e7\u00e3o, como sendo modesto e honesto. O que se conhece do \"modus operandi\" da fraude, a partir da carta que endere\u00e7ou aos seus administradores, n\u00e3o coloca em causa a sua honestidade pessoal - chegou a tomar empr\u00e9stimos pessoais para manter a empresa a funcionar -, mas t\u00e3o s\u00f3 a sua honestidade como empres\u00e1rio. Com efeito, os \"buracos\" nas contas ter\u00e3o come\u00e7ado, h\u00e1 v\u00e1rios anos, com um pequeno ajuste nos resultados da empresa, de modo a n\u00e3o defraudar as expectativas do mercado bolsista e seus analistas. Aquilo que na g\u00edria se designa por um \"dourar dos resultados\" e que, com mais frequ\u00eancia do que seria desej\u00e1vel, muitas empresas praticam. O objectivo desse tipo de actua\u00e7\u00e3o \u00e9, em geral, divulgar resultados superiores aos que a empresa efectivamente verificou no per\u00edodo, a partir de uma escolha criteriosa das regras contabil\u00edsticas adoptadas ou, ent\u00e3o, de uma escolha do \"timing\" das transac\u00e7\u00f5es. Por exemplo, a contabiliza\u00e7\u00e3o no per\u00edodo corrente (\"per\u00edodo 0\") de uma venda pertencente ao per\u00edodo seguinte, ou o \"atirar\" para per\u00edodos futuros de custos de opera\u00e7\u00e3o que seriam de considerar no per\u00edodo a que as contas respeitam. S\u00e3o o tipo de actua\u00e7\u00e3o que, em geral, at\u00e9 por falta de uma fronteira bem definida entre o que \u00e9 fraude e o que \u00e9 uma actua\u00e7\u00e3o dentro das regras contabil\u00edsticas geralmente aceites, se considera cair dentro desta \u00faltima categoria. Da\u00ed a pouca import\u00e2ncia que se tende a tributar a tais casos, mesmo quando o respectivo impacto \u00e9 vis\u00edvel para o destinat\u00e1rio da informa\u00e7\u00e3o. Veja-se, no caso em apre\u00e7o, que um membro da Bolsa de Bombaim, onde as ac\u00e7\u00f5es da empresa tamb\u00e9m est\u00e3o cotadas, refere que sempre tinha havia a sensa\u00e7\u00e3o de que a Satyam usava uma \"contabilidade criativa\" - outro termo correspondente a \"dourar dos resultados\" -, mas que n\u00e3o se julgava compaginar uma situa\u00e7\u00e3o de fraude. Isto \u00e9, fechavam-se os olhos, descansavam-se as consci\u00eancias, porque, \"apenas\", se tratava de \"contabilidade criativa\".<br \/>\n3. O perigo associado ao uso de criatividade na contabilidade das empresas est\u00e1 naquilo que tecnicamente se designa como \"revers\u00e3o dos efeitos\". A contabilidade n\u00e3o cria valor, limitando-se a registar este num ou noutro per\u00edodo, consoante as solu\u00e7\u00f5es preconizadas pelo preparador da informa\u00e7\u00e3o. O valor \u00e9 criado pelas opera\u00e7\u00f5es efectuadas pela empresa. Portanto, quando se antecipa a escritura\u00e7\u00e3o de resultados num dado per\u00edodo, eles ir\u00e3o faltar no ou nos per\u00edodos seguintes. Trata-se de um \"empr\u00e9stimo\" de resultados. Voltando ao exemplo anterior, se no per\u00edodo 0 se contabiliza uma venda que pertenceria ao per\u00edodo 1, o volume de neg\u00f3cios deste ir\u00e1 ressentir-se negativamente dessa falta. E aqui duas situa\u00e7\u00f5es podem ocorrer. Primeira, as vendas do per\u00edodo 1 cresceram independentemente da criatividade aplicada no per\u00edodo 0, e a revers\u00e3o do efeito manipulativo tende a ser acomodada, passando desapercebida. \u00c9 este pressuposto de crescimento do neg\u00f3cio que tende a estar presente no esp\u00edrito de quem adopta este tipo de actua\u00e7\u00e3o, assumindo o per\u00edodo 0 como um ano excepcionalmente mau e o per\u00edodo 1 como um ano excepcionalmente bom. Segunda, infelizmente nem sempre tal pressuposto se concretiza e o volume de neg\u00f3cios do per\u00edodo 1 pode ser t\u00e3o decepcionante ou mais do que o do per\u00edodo anterior. \u00c9 o que tende a acontecer, por exemplo, em tempos de crise econ\u00f3mica e financeira. Agora, a n\u00e3o se fazer nada, o efeito da revers\u00e3o nos resultados torna-se vis\u00edvel, pois parte daquilo que devia ser reportado como resultado do per\u00edodo 1 j\u00e1 constou do resultado do per\u00edodo anterior. O gestor tem de fazer uma escolha dif\u00edcil: ou divulga o resultado do per\u00edodo 1 tal como ele \u00e9, com todas as consequ\u00eancias que da\u00ed podem advir para a cota\u00e7\u00e3o das suas ac\u00e7\u00f5es em bolsa; ou volta a usar de criatividade contabil\u00edstica, agora para esconder o efeito cumulativo dos maus resultados dos per\u00edodos 0 e 1. No caso da Satyam, segundo Ramalinga Raju, esta segunda op\u00e7\u00e3o foi escolhida. Tudo come\u00e7ou com um pequeno ajustamento dos resultados, que nos anos seguintes se foi repetindo, procurando esconder uma realidade cada vez mais desfasada dos n\u00fameros contabil\u00edsticos divulgados aos investidores em cada per\u00edodo. Portanto, este caso \u00e9 um exemplo paradigm\u00e1tico de que o uso de criatividade nos n\u00fameros contabil\u00edsticos, n\u00e3o legalmente pun\u00edvel e muitas vezes com efeitos iniciais moderados nos resultados, pode vir a ser o embri\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de fraude de elevada dimens\u00e3o. A partir de determinada altura o processo de esconder o \"buraco contabil\u00edsico-financeiro\" deixa de ser control\u00e1vel, e passa a impor o seu pr\u00f3prio ritmo ao gestor. Isso mesmo p\u00f4de comprovar Raju, que descreve tal processo como sendo semelhante ao \"cavalgar de um tigre sem saber como sair de cima dele sem ser comido\". E tudo come\u00e7ou com um pequeno ajuste contabil\u00edstico.<br \/>\n4. Diz-se frequentemente que a \"mem\u00f3ria das pessoas \u00e9 curta\". Se se admitir que o espa\u00e7o nela dispon\u00edvel - qual disco de computador - \u00e9 finito, \u00e0 medida que nova informa\u00e7\u00e3o vai sendo registada, haver\u00e1 que apagar informa\u00e7\u00e3o antiga. Neste contexto, pode-se aceitar aquela \"m\u00e1xima\". Por\u00e9m, h\u00e1 pessoas que, pelas fun\u00e7\u00f5es que executam, n\u00e3o podem ter mem\u00f3ria curta. Pelo contr\u00e1rio, t\u00eam de preservar a mem\u00f3ria de situa\u00e7\u00f5es passadas com vista a dela fazerem uso no tratamento de situa\u00e7\u00f5es actuais. \u00c9 o caso dos auditores. Na fraude da Satyam, n\u00e3o sa\u00edram bem vistos. Pelo contr\u00e1rio. A pergunta que se faz \u00e9 como foi poss\u00edvel que ao longo de v\u00e1rios anos as contas da empresa fossem certificadas quando parte dos activos constantes do balan\u00e7o - e de modo especial os dep\u00f3sitos - n\u00e3o existiam na realidade. Quer os auditores internos, quer os externos (PricewaterhouseCoopers), deixaram passar em branco, de forma sistem\u00e1tica, tal situa\u00e7\u00e3o. No entanto, o caso Satyam tem muitas semelhan\u00e7as com o caso do grupo italiano Parmalat, igualmente de triste mem\u00f3ria, onde a fraude descoberta em finais de 2003 tamb\u00e9m estava acantonada em dep\u00f3sitos que n\u00e3o existiam. Em ambos os casos, a gest\u00e3o dos dep\u00f3sitos estava adstrita a uma \u00fanica pessoa - na Satyam era ao seu presidente, Raju -, ningu\u00e9m mais tinha autoriza\u00e7\u00e3o para lhes mexer. N\u00e3o seria isto motivo de desconfian\u00e7a para os auditores internos e externos? Conhecidos casos anteriores com contornos semelhantes, n\u00e3o seria de esclarecer a situa\u00e7\u00e3o? A resposta a estas perguntas \u00e9, necessariamente, afirmativa, embora o procedimento concreto tenha sido, como resulta do desfecho conhecido, o oposto. O pior de tudo \u00e9 que a opini\u00e3o p\u00fablica, os mercados financeiros em particular, j\u00e1 parecem ter assumido que os auditores n\u00e3o auditam, que n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis, mesmo quando se trata de uma Big4. Quase n\u00e3o se comenta a respectiva responsabilidade no caso Satyam. \u00c9 como se j\u00e1 se tivesse interiorizado que a auditoria \u00e0s contas \u00e9 uma daquelas tradi\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m sabe por que ou para que existe, mas que se continua a tolerar.<br \/>\n5. As falhas da auditoria t\u00eam consequ\u00eancias graves, financeiras e sociais. Mesmo quando os processos judiciais asseguram indemniza\u00e7\u00e3o por preju\u00edzos, dificilmente compensam todos os prejudicados. As principais v\u00edtimas s\u00e3o os pequenos investidores, que v\u00eaem desaparecer as poupan\u00e7as de uma vida, ou os trabalhadores, que perdem o seu posto de trabalho com a fal\u00eancia da empresa. \u00c9 caso para se dizer: triste sina a de quem \u00e9 pequeno num mundo cada vez mais tolerante para com os comportamentos eticamente reprov\u00e1veis dos grandes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line, 1. &#8220;satyam&#8221;, &#8220;verdade&#8221; em s\u00e2nscrito. Em 1987 Ramalinga Raju, um jovem empres\u00e1rio indiano, deve ter achado o termo deveras apelativo e pass\u00edvel de penetrar facilmente no mundo globalizado dos neg\u00f3cios. 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