{"id":896,"date":"2009-01-08T00:00:00","date_gmt":"2009-01-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=896"},"modified":"2018-04-30T17:02:35","modified_gmt":"2018-04-30T17:02:35","slug":"fraude-ganancia-e-desconfianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=896","title":{"rendered":"Fraude, gan\u00e2ncia e (des)confian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/fraude-ganancia-e-desconfianca=f497133\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2010\/01\/VisaoE003.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. Bernard Madoff. At\u00e9 h\u00e1 poucos dias, este nome dizia pouco, ou nada, ao cidad\u00e3o comum. De repente tornou-se o centro de todas as aten\u00e7\u00f5es, de todas as cr\u00f3nicas, de todas as impreca\u00e7\u00f5es. A fama (ou inf\u00e2mia?) associada ao nome tem a ver com o facto de Bernard Madoff, um corretor e gestor de fundos nova-iorquino, ter perpetrado uma das maiores, se n\u00e3o a maior, fraude financeira de todos os tempos. O n\u00famero avan\u00e7ado \u00e9 astron\u00f3mico. Cerca de cinquenta mil milh\u00f5es de d\u00f3lares. <!--more-->Um pouco por todo o mundo os indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es afectados v\u00e3o dando sinal de si. Portugal, e alguns portugueses, tamb\u00e9m aparecem na lista, embora numa modesta posi\u00e7\u00e3o, em termos de grandeza. Segundo o Banco de Portugal, que efectuou um levantamento das posi\u00e7\u00f5es dos investidores nacionais, a exposi\u00e7\u00e3o nacional \u00e0 fraude rondar\u00e1 os 85 milh\u00f5es de euros. No entanto, eu, modesto funcion\u00e1rio p\u00fablico, tamb\u00e9m me considero v\u00edtima desta fraude e, nem por isso, o Banco de Portugal teve em considera\u00e7\u00e3o tal facto na sua an\u00e1lise. Limitou-se a somar as potenciais perdas dos ricos (um termo que passou a estar muito em voga ultimamente).<br \/>\n2. O valor da fraude deixa-nos relativamente indiferentes, embora represente cerca de um quarto da riqueza produzida em Portugal durante um ano. Tal indiferen\u00e7a dever-se-\u00e1, sem d\u00favida, ao facto da opini\u00e3o p\u00fablica ter vindo a ser anestesiada nos meses mais recentes com n\u00fameros da ordem das centenas de milhares de milh\u00e3o de d\u00f3lares, por virtude da crise financeira mundial que se est\u00e1 a viver e das consequentes interven\u00e7\u00f5es que os governos t\u00eam efectuado para estimularem a economia e apoiarem o sistema banc\u00e1rio. Tendemos a prestar mais aten\u00e7\u00e3o aos detalhes que nos possam fazer perceber como foi concretizada tal fraude, do que \u00e0 dimens\u00e3o da mesma. Com efeito, a acreditar no que se ouve e l\u00ea nos media, esta fraude parece desafiar aquela velha m\u00e1xima de que \u00e9 imposs\u00edvel enganar todos todo o tempo. N\u00e3o s\u00f3 parece ter-se desenrolado ao longo de dezenas de anos, como foi levada a efeito nas barbas de institui\u00e7\u00f5es financeiras, reguladoras e de controlo que julg\u00e1vamos acima de qualquer possibilidade de serem ludibriadas deste modo e em tal dimens\u00e3o. Espero, ansiosamente, por detalhes que me fa\u00e7am perceber como tudo aconteceu, pois, no momento, n\u00e3o consigo sequer imaginar o modus operandi da fraude. A minha curiosidade n\u00e3o se inclui no que habitualmente se designa por curiosidade m\u00f3rbida, isto \u00e9, na apet\u00eancia do ser humano pelos \u00ednfimos detalhes de desastres e cat\u00e1strofes. Considero que a minha curiosidade \u00e9 de natureza positiva. Os detalhes de cada fraude, os desta em particular, fornecem informa\u00e7\u00e3o importante para ajudar a precaver a ocorr\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas no futuro. Para j\u00e1, aquilo que parece ser um ingrediente b\u00e1sico desta fraude \u00e9 a aus\u00eancia de divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es no neg\u00f3cio de Bernard Madoff: o seu grupo era, simultaneamente, o corrector que fazia as compras e vendas dos activos no mercado e o gestor dos fundos de investimento e das fortunas dos clientes deixadas a seu cargo. Estava criada a condi\u00e7\u00e3o primeira para que o sistema de controlo interno n\u00e3o funcionasse e, por consequ\u00eancia, o ambiente para a ocorr\u00eancia da fraude. Ningu\u00e9m, ou quase, parece ter dado import\u00e2ncia a tal facto.<br \/>\n3. \"Gan\u00e2ncia\", do Castelhano ganancia, lucro (dicion\u00e1rio Texto Editores). Em portugu\u00eas, o primeiro dos significados propostos para gan\u00e2ncia \u00e9 ambi\u00e7\u00e3o de ganho. Com o explodir da crise financeira internacional, em Agosto do corrente ano, a origem da mesma foi assacada por determinadas correntes ideol\u00f3gicas \u00e0 gan\u00e2ncia dos banqueiros, que ter\u00e3o for\u00e7ado a concess\u00e3o de cr\u00e9dito a quem n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es para o obter. N\u00e3o fui subscritor de tal explica\u00e7\u00e3o. Considerei e considero que a gan\u00e2ncia, a ser a raz\u00e3o principal, estava tanto do lado dos banqueiros como de quem tomava os cr\u00e9ditos. Basta pensar, por exemplo, que parte do cr\u00e9dito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o que veio a ser incorporado nos denominados produtos t\u00f3xicos teve por detr\u00e1s a expectativa dos investidores na valoriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis a curto prazo. Em minha opini\u00e3o, todo o ser humano tem o seu bocadinho de gan\u00e2ncia. A dimens\u00e3o desse bocadinho, ou o modo como este \u00e9 controlado, depender\u00e1 dos valores \u00e9ticos de que cada um est\u00e1 imbu\u00eddo. Os brasileiros costumam usar, a t\u00edtulo de m\u00e1xima, a express\u00e3o quando um n\u00e3o quer dois n\u00e3o dan\u00e7am. No caso de uma qualquer transac\u00e7\u00e3o financeira, a gan\u00e2ncia de uma das partes s\u00f3 ser\u00e1 satisfeita se da outra parte existir um sentimento de id\u00eantica natureza.<br \/>\n4. No caso da fraude em apre\u00e7o, nenhum dos intervenientes fica bem na fotografia. Bernard Madoff, obviamente, por ter sido o perpetrador do acontecimento. Aquilo que se intui \u00e9 que a sua gan\u00e2ncia n\u00e3o foi de \u00edndole estritamente financeira, mas sobretudo de \u00edndole social e de preserva\u00e7\u00e3o de uma imagem de sucesso pessoal. Do lado dos intervenientes passivos - reguladores, auditores, investidores -, os dois primeiros pecaram por incapacidade em interpretarem os sinais de fraude que ao longo do tempo vieram \u00e0 superf\u00edcie - o que \u00e9 espantoso, pois se trata de institui\u00e7\u00f5es dotadas dos t\u00e9cnicos mais qualificados. Os investidores s\u00e3o culpados em primeira linha por excesso de gan\u00e2ncia. Segundo a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, os fundos de Madoff pagaram ao longo de muitos, muitos anos, independente do ciclo dos mercados, retornos anuais relativamente est\u00e1veis entre os 12 e os 15%, superando a tend\u00eancia de longo prazo da rentabilidade do mercado de ac\u00e7\u00f5es americano, que n\u00e3o chega ao 12%. Se adicionalmente se tiver em considera\u00e7\u00e3o que os retornos pagos apresentavam entre si uma correla\u00e7\u00e3o temporal positiva quase perfeita, quando a teoria financeira apresenta evid\u00eancia de que os retornos de mercado t\u00eam correla\u00e7\u00e3o negativa - se num ano aumentam, no seguinte tendem a diminuir -, n\u00e3o se pode atribuir a atitude passiva dos investidores dos fundos de Madoff, onde se incluem bancos como o Santander ou fundos de investimento e sociedades gestoras de fortunas, a outra raz\u00e3o que n\u00e3o fosse a gan\u00e2ncia. Esta, condicionou-os nas suas decis\u00f5es financeiras. Um psiquiatra norte-americano, questionado para explicar a atitude de tais investidores, atribui o respectivo comportamento ao que denominou de euforia irracional. A rentabilidade obtida nas suas aplica\u00e7\u00f5es era o \u00f3pio dessa euforia, toldando-lhes o discernimento para se aperceberem de que alguma coisa estaria mal em fundos que pagavam tais retornos, e que diziam usar estrat\u00e9gias de investimento que nenhum outro fundo conseguia reproduzir em termos de rentabilidades. Gan\u00e2ncia da mais elevada pureza. Hoje, muitos desses investidores aparecem a reclamar judicialmente os seus cr\u00e9ditos transvestidos de virgens enganadas. O cidad\u00e3o comum sente-se revoltado, at\u00e9 porque receia que, no limite, tenha de ser ele a pagar as euforias de um conjunto de (gananciosos) investidores.<br \/>\n5. Tudo o mais constante - ou usando a celebre express\u00e3o t\u00e3o do agrado dos economistas, ceteris paribus -, em termos econ\u00f3micos a fraude \u00e9 in\u00f3cua. N\u00e3o implica destrui\u00e7\u00e3o de riqueza, mas t\u00e3o s\u00f3 a respectiva redistribui\u00e7\u00e3o. Por isso, Bernard Madoff poderia ser considerado uma variante moderna do lend\u00e1rio Robin dos Bosques. O que ele fez, na ess\u00eancia, foi roubar alguns dos seus ricos clientes, distribuindo o produto pelos restantes (igualmente ricos) clientes. Faltou nesta redistribui\u00e7\u00e3o um cheirinho de luta de classes, em que os ricos fossem espoliados em favor dos pobres. Tivesse isso acontecido e possivelmente o modo como hoje olhar\u00edamos para este caso seria diferente. Ter\u00edamos, certamente, um olhar mais complacente para com a actua\u00e7\u00e3o de Madoff. Mas n\u00e3o foi assim. O crit\u00e9rio da redistribui\u00e7\u00e3o foi mais ass\u00e9ptico. Os prejudicados foram os \u00faltimos a entrar nos fundos, para benef\u00edcio dos que entraram primeiro. Tal como nos banquetes, chegar primeiro compensou.<br \/>\n6. Pelo que acabo de referir, o leitor poder\u00e1 ser levado a concluir que as fraudes em geral, a que se vem discutindo em particular, n\u00e3o s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es a temer dada a aus\u00eancia de efeitos econ\u00f3micos. N\u00e3o \u00e9 correcto. Aliviando o pressuposto redutor que est\u00e1 subjacente ao ceteris paribus, verifica-se que h\u00e1 efeitos sociais e econ\u00f3micos resultantes da fraude. Para o caso em apre\u00e7o, o principal desses efeitos ocorreu, e vai continuar a produzir impacto, ao n\u00edvel da confian\u00e7a dos agentes econ\u00f3micos. Sejam estes investidores activos, sejam meros aforradores, a confian\u00e7a que depositavam no sistema financeiro, e nas institui\u00e7\u00f5es que regulam e supervisionam o respectivo funcionamento, saiu necessariamente enfraquecida. Tendo em considera\u00e7\u00e3o que a fid\u00facia (confian\u00e7a) \u00e9 o cimento agregador desse sistema, escusado ser\u00e1 discutir as consequ\u00eancias econ\u00f3micas resultantes da exist\u00eancia de fraudes como a perpetrada por Madoff. No per\u00edodo que estamos a viver, com uma crise financeira que est\u00e1 longe de estar resolvida, tais impactos negativos na confian\u00e7a correspondem a mais um tiro no casco de um porta-avi\u00f5es que os l\u00edderes pol\u00edticos e financeiros da generalidade das economias mais desenvolvidas se esfor\u00e7am por manter a flutuar no meio de ondas alterosas. Mesmo quando os efeitos da fraude n\u00e3o extravasam do interior das empresas onde s\u00e3o produzidas, os efeitos negativos sobre a confian\u00e7a tendem a ocorrer, minando as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas. A fraude tem, portanto, efeitos sociais e, por essa via, efeitos econ\u00f3micos. \u00c9, pois, um mal a combater por todos os meios. No caso Madoff n\u00e3o faltam, infelizmente, \u00e1reas - da regula\u00e7\u00e3o \u00e0 auditoria - a necessitar de interven\u00e7\u00e3o imediata profunda, aut\u00eanticos campos de batalha onde se ir\u00e1 jogar a estabilidade e credibilidade futuras do sistema financeiro e econ\u00f3mico mundial.<br \/>\n7. N\u00e3o consigo traduzir em euros as minhas perdas com a fraude. \u00c9 um facto que n\u00e3o tenho aplica\u00e7\u00f5es directas em tais fundos. A estreiteza do meu rendimento n\u00e3o me permitiria, mesmo que o desejasse, ter acesso ao selecto clube dos investidores que colocavam as suas fortunas nas m\u00e3os de Madoff. No entanto, j\u00e1 n\u00e3o estou completamente seguro de que algum do dinheiro que nos \u00faltimos anos investi num PPR (Plano Poupan\u00e7a Reforma) n\u00e3o tenha sido para a\u00ed canalizado. Independentemente do que a este \u00faltimo n\u00edvel tenha acontecido, a minha principal perda ocorreu no dom\u00ednio da confian\u00e7a no sistema financeiro e nas institui\u00e7\u00f5es onde deposito as minhas magras poupan\u00e7as. J\u00e1 dei comigo a pensar se n\u00e3o far\u00e1 mais sentido voltar aos tempos da minha inf\u00e2ncia, replicando a estrat\u00e9gia de investimento dos cidad\u00e3os da aldeia onde ent\u00e3o morava, que guardavam o magro p\u00e9-de-meia no meio do folhelho de um qualquer colch\u00e3o l\u00e1 de casa. Nas minhas cogita\u00e7\u00f5es, quando estou mais por baixo e os mais negros pensamentos me avassalam, dou por mim a pensar que talvez nem valha a pena manter um estilo de vida que se baseia na conten\u00e7\u00e3o dos gastos, para reter uns euros que me possam ajudar a viver esse futuro incerto em que serei reformado. Quando o Governo aparece a propor-se ajudar tudo e todos, independentemente dos seus comportamentos financeiros actuais e passados, eu mais me conven\u00e7o que a melhor estrat\u00e9gia de consumo a seguir \u00e9 a que se costuma traduzir, em linguagem popular, por chapa ganha, chapa batida. No futuro, o Estado, atrav\u00e9s do Governo, l\u00e1 estar\u00e1 para me estender a m\u00e3o generosa e me apoiar financeiramente atrav\u00e9s de um qualquer subs\u00eddio social destinado \u00e0s v\u00edtimas da sociedade de consumo ou de investimentos financeiros arrojados. Nessa altura, engolirei a minha actual descren\u00e7a num Estado omnipresente que sufoca a sociedade, tomarei um Alka Sezer para ajudar \u00e0 digest\u00e3o, e gozarei os proventos recebidos por essa via.<br \/>\n8. Reli a cr\u00f3nica. Estou mesmo em baixo. Os acontecimentos dos \u00faltimos tempos, da crise financeira \u00e0 fraude de Madoff, colocaram a minha confian\u00e7a no sistema financeiro, no Estado e nos outros, de rastos. Isso nota-se.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Vis\u00e3o on line, 1. Bernard Madoff. At\u00e9 h\u00e1 poucos dias, este nome dizia pouco, ou nada, ao cidad\u00e3o comum. De repente tornou-se o centro de todas as aten\u00e7\u00f5es, de todas as cr\u00f3nicas, de todas as impreca\u00e7\u00f5es. 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