{"id":8930,"date":"2014-08-05T16:07:05","date_gmt":"2014-08-05T16:07:05","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=8930"},"modified":"2014-08-05T16:07:05","modified_gmt":"2014-08-05T16:07:05","slug":"sobrevidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=8930","title":{"rendered":"Sobre(vidas)"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Sobrevidas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8931 alignleft\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Sobrevidas.jpg\" alt=\"Sobrevidas\" width=\"150\" height=\"224\" \/><\/a>Colabora\u00e7\u00e3o no livro da European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza):<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ferreira, Helder, Nuno Gon\u00e7alves, and \u00d3scar Afonso. 2014. Sobre(vidas). A economia informal e a inclus\u00e3o social de p\u00fablicos desfavorecidos. Porto: EAPN Portugal.<\/strong><\/p>\n<p>\"... gostava que o que falamos aqui desse para os t\u00e9cnicos desenvolverem, para poderem aplicar na solu\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor... que fosse mais justa... e que se desse... n\u00e3o \u00e9 mais valor aos velhos, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso... mas que se valorizasse as pessoas por aquilo que elas s\u00e3o capazes de fazer e n\u00e3o por aquilo que elas t\u00eam\"<\/p>\n<p>Do Pref\u00e1cio:<\/p>\n<p>... ... ... ... ...<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ec1235;\"><!--more--><\/span><\/strong><\/p>\n<p>1. O meu primeiro contacto intelectual com a economia informal foi nos fins dos anos sessenta do s\u00e9culo passado. A Am\u00e9rica Latina era ent\u00e3o um espa\u00e7o de grandes embates sociais e te\u00f3ricos. O estruturalismo cepalista, de Ra\u00fal Prebisch, Celso Furtado e muitos outros, retratava o confronto entre um modo de vida com ra\u00edzes milenares e a r\u00e1pida e massiva penetra\u00e7\u00e3o do capitalismo americano, hegemonizado ap\u00f3s a II Guerra Mundial. Em vez da melhoria das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais das popula\u00e7\u00f5es gerava uma sociedade desintegrada, dualista, promotora de subdesenvolvimento. A economia informal significava marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o de uma parte da popula\u00e7\u00e3o por incapacidade da expans\u00e3o capitalista integrar os modos de produ\u00e7\u00e3o anteriores.<\/p>\n<p>Hoje, quando falamos em economia informal continuamos a defrontarmo-nos com manifesta\u00e7\u00f5es formalmente semelhantes: marginaliza\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o, deficientes condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Contudo h\u00e1 profundas diferen\u00e7as entre a realidade de ent\u00e3o e a de hoje.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a designa\u00e7\u00e3o \u201ceconomia informal\u201d era adoptada como sin\u00f3nimo de economia paralela (economia n\u00e3o registada como correctamente se designa neste livro). Hoje a economia informal \u00e9 apenas uma parte, qui\u00e7\u00e1 m\u00ednima, desse agregado bem mais vasto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a economia paralela era uma especificidade dos pa\u00edses designados como subdesenvolvidos pelo discurso de Truman de 1949, quase completamente ausente dos restantes (sem modos de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas, com reduzida fraude e circuitos ilegais pontuais e control\u00e1veis). Hoje \u00e9 uma realidade mundial assumindo, nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, uma import\u00e2ncia crescente, ao mesmo tempo que a economia ilegal se torna estruturante de uma criminalidade econ\u00f3mica internacional e a economia subterr\u00e2nea (n\u00e3o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es fiscais) tem hoje canais oficiais de concretiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a economia informal era express\u00e3o de uma n\u00e3o integra\u00e7\u00e3o capitalista. Hoje \u00e9 um (sub)produto do capitalismo globalizado e hegem\u00f3nico ap\u00f3s a simb\u00f3lica queda do muro de Berlim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com um crescimento econ\u00f3mico assente na industrializa\u00e7\u00e3o e no consumo de massas, a economia informal expressava privil\u00e9gios remotos e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o estruturadas na propriedade da terra. Hoje \u00e9 o capitalismo (assente na hegemonia dos bancos, da bolsa, da livre circula\u00e7\u00e3o do capital, enfim na financeiriza\u00e7\u00e3o) que transforma a apropria\u00e7\u00e3o de rendimentos (sem os produzir) numa das formas dominantes de enriquecimento de uma estreita minoria.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a redu\u00e7\u00e3o da economia informal era um objectivo e tinha como alternativa metaf\u00f3rica o acesso a novos bens, at\u00e9 porque esse ex\u00e9rcito de consumidores marginalizados representavam expans\u00e3o dos mercados. Hoje a economia informal \u00e9 um dos suportes do funcionamento do capitalismo, \u00e9 um ex\u00e9rcito contra o aumento dos sal\u00e1rios e pelo nivelamento remunerat\u00f3rio \u00e0 escala mundial pelo valor mais baixo.<\/p>\n<p>Quando a Uni\u00e3o Europeia adiou recentemente a aplica\u00e7\u00e3o de uma taxa sobre as transac\u00e7\u00f5es financeiras, e j\u00e1 antes tinha exigido que os pequenos agricultores que colocam os restos da sua produ\u00e7\u00e3o no mercado local obede\u00e7am \u00e0s regras contabil\u00edsticas e fiscais como se empresas fossem, n\u00e3o estamos perante um equ\u00edvoco ou uma aus\u00eancia de lideran\u00e7a pol\u00edtica. \u00c9 o capitalismo globalizado no seu esplendor.<\/p>\n<p>2. Quando abrimos um jornal o peso das not\u00edcias sobre economia \u00e9 muito grande. At\u00e9 as cat\u00e1strofes naturais n\u00e3o s\u00e3o medidas em mortes, perturba\u00e7\u00e3o da vida das fam\u00edlias, car\u00eancias alimentares e habitacionais, mas em milh\u00f5es de d\u00f3lares, ou euros, de preju\u00edzo. O economicismo \u00e9 o vector \u00a0estruturante da presente ideologia dominante, copulado no fide\u00edsmo dos mercados.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do quotidiano \u00e9 narrada na perspectiva dos vencedores. As cota\u00e7\u00f5es da bolsa, os grandes neg\u00f3cios, a pol\u00edtica e a diplomacia econ\u00f3micas preenchem muitas colunas, marginadas entre a verdade e a mentira. A interpreta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos nas lucubra\u00e7\u00f5es de administradores executivos, de ministros e presidentes, parlamentares, porta-vozes e fazedores de opini\u00e3o sobrep\u00f5e-se \u00e0 an\u00e1lise rigorosa dos dados, a uma leitura totalizante e interligada. Uma mentira pol\u00edtica ocupa mais espa\u00e7o noticioso que uma verdade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a liberdade democr\u00e1tica, mesmo sem a seiva de uma democracia econ\u00f3mico-social, permite que haja jornalismo id\u00f3neo, que os anseios populares se espalhem nos relatos, que algumas leituras alternativas surjam, mas nada disso impede uma tend\u00eancia inevit\u00e1vel: o dom\u00ednio do relato dos vencedores, do economicismo (ideologia da inevitabilidade, ideologia aparentemente desideologizada), que bloqueia a transpar\u00eancia de que \u201cum cidad\u00e3o um voto\u201d pode representar \u201cum euro um voto\u201d em sociedades contempor\u00e2neas. \u201cUm euro\u201d que por vezes traz o odor da corrup\u00e7\u00e3o e da fraude, do branqueamento de capitais, enfim, das infrac\u00e7\u00f5es econ\u00f3mico-financeiras.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos admitir que as Universidades seriam uma contratend\u00eancia, enquanto institui\u00e7\u00f5es de reflex\u00e3o cr\u00edtica, inova\u00e7\u00e3o e rigor. De facto s\u00e3o-no, mas com um crescente monolitismo te\u00f3rico. No ensino da Economia, salvo algumas excep\u00e7\u00f5es, os modelos solipsistas sobrep\u00f5e-se \u00e0s vis\u00f5es sociais; a concorr\u00eancia, a efici\u00eancia e os \u00a0mercados valem muito mais que a solidariedade e a \u00e9tica; a optimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave do sucesso, mesmo que contra tudo e todos. O monolitismo te\u00f3rico obstaculiza a cr\u00edtica, o debate de ideias, a esplendidez humana dos desafios heterodoxos, irreverentes porque democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Os estudantes, \u00e0 partida sem qualquer experi\u00eancia da actividade econ\u00f3mica, imbu\u00eddos da informa\u00e7\u00e3o dominante e moldados por esse mundo conceptual substituem a leitura da sociedade pela sua filtragem atrav\u00e9s dos modelos que aprenderam. Quem ensina reproduz o que aprendeu, a progress\u00e3o na carreira exige investiga\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00f5es que sejam concordantes com os col\u00e9gios invis\u00edveis das revistas e editoras. Toda esta depend\u00eancia dos vencedores faz-se desapercebidamente para presentes e futuros economistas.<\/p>\n<p>3. Este livro tem de ser lido e entendido dentro deste contexto, para que se fa\u00e7a jus \u00e0 sua import\u00e2ncia \u00c9 uma leitura da sociedade portuguesa pelos olhos de quem n\u00e3o acede ao poder pol\u00edtico, n\u00e3o controla os mercados, n\u00e3o financia as campanhas eleitorais e n\u00e3o compra favores. \u00c9 uma leitura dos destro\u00e7ados pelo econ\u00f3mico. De quantos viver \u00e9 sobreviver.<\/p>\n<p>Este livro permite-nos conhecer uma parte da realidade que se esconde \u00e0 nossa consci\u00eancia poss\u00edvel. \u00c9 relevante e dilacerante, profundo e inquietante, rigoroso e alternativo, enfim, \u00e9 um pouco da hist\u00f3ria dos vencidos. Vencidos mas cidad\u00e3os, vencidos mas indispens\u00e1veis, vencidos mas em grande n\u00famero. E porque s\u00e3o os vencidos que est\u00e3o hoje no centro da renova\u00e7\u00e3o que o mundo actualmente exige, como frequentemente tem sido explicitado pelo Papa Francisco:<\/p>\n<p>\u201cEnquanto n\u00e3o forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando \u00e0 autonomia absoluta dos mercados e da especula\u00e7\u00e3o financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, n\u00e3o se resolver\u00e3o os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade \u00e9 a raiz dos males sociais.\u201d (<em>Evangelii Gaudium<\/em>)<\/p>\n<p>4. Economia n\u00e3o-regisitada informal <em>versus<\/em> economia n\u00e3o-registada subterr\u00e2nea ou ilegal, trabalho n\u00e3o declarado versus trabalho declarado, exclus\u00e3o versus inclus\u00e3o, p\u00fablicos desfavorecidos versus favorecidos, sobreviver versus viver. \u00c9 o tra\u00e7ar de uma \u201cfronteira\u201d que une as duas faces de uma mesma moeda, que n\u00e3o se compagina satisfatoriamente com os modelos, que n\u00e3o se transforma por decreto, que existe mesmo que as elites o queiram negar ou vilipendiar, que tem express\u00f5es quantitativas alarmantes, alastrando-se a novos espa\u00e7os que a crise econ\u00f3mico-financeira e a miopia financiarizada da Europa t\u00eam sabido invadir. A nudez forte da verdade ressalta neste livro.<\/p>\n<p>Podem alguns dizer que a economia vai bem, mas muitos mais sentir\u00e3o que as pessoas v\u00e3o mal. Um mau estar que exige e aconselha uma interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica e moral cujas linhas de for\u00e7a sobressaem de cada linha deste livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colabora\u00e7\u00e3o no livro da European Anti Poverty Network (Rede Europeia Anti-Pobreza): Ferreira, Helder, Nuno Gon\u00e7alves, and \u00d3scar Afonso. 2014. Sobre(vidas). A economia informal e a inclus\u00e3o social de p\u00fablicos desfavorecidos. 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