{"id":7612,"date":"2014-02-21T11:04:16","date_gmt":"2014-02-21T11:04:16","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=7612"},"modified":"2015-12-04T19:07:33","modified_gmt":"2015-12-04T19:07:33","slug":"o-colorida-da-vida-e-o-carro-topo-de-gama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=7612","title":{"rendered":"O colorido da vida e o carro topo de gama"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Jornal i<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a title=\"Corrup\u00e7\u00e3o e desempenho econ\u00f3mico: o caso portugu\u00eas\" href=\"http:\/\/www.ionline.pt\/iopiniao\/colorido-da-vida-carro-topo-gama\/pag\/-1\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Economia, pol\u00edtica e conflito de interesses\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a title=\"O colorido da vida e o carro topo de gama\" href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/I_062.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Problemas estruturais da economia portuguesa\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>N\u00e3o repugne pensar que os cidad\u00e3os cumpridores possam ter algum tipo de benef\u00edcio diferenciador, j\u00e1 que n\u00e3o se afigura poss\u00edvel penalizar os infractores<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A vida \u00e9 feita de rotinas, a que pequenas quebras d\u00e3o colorido. Quebras como ir jantar num s\u00e1bado \u00e0 noite a um restaurante que esteve muito em voga h\u00e1 quarenta anos, procurando reviver as sensa\u00e7\u00f5es fortes e despreocupadas dos tempos de juventude. Quebras que nem sempre se traduzem em boas escolhas. Foi o caso. A qualidade da comida e o ambiente intelectual de ent\u00e3o tinham desaparecido completamente na voragem do tempo, ficando apenas as paredes gran\u00edticas, parcialmente revestidas de azulejos azuis. At\u00e9 o nome perdeu qualquer afinidade com a colorida ave que o empresta ao estabelecimento \u2013 papagaio.<\/p>\n<p>No decurso da refei\u00e7\u00e3o o empregado procurou inteirar-se, num gesto que pareceu desprovido de qualquer preocupa\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com o assunto, se tudo estava bem. O descontentamento dos clientes com a fraca qualidade da refei\u00e7\u00e3o foi-lhe comunicado. N\u00e3o disse nada, nem sequer esbo\u00e7ou uma desculpa que pudesse, eventualmente, deix\u00e1-los na d\u00favida de aquele ser um dia mau. Baixou a cabe\u00e7a, virou as costas e voltou a aten\u00e7\u00e3o para os restantes clientes que lhe enchiam as mesas.<\/p>\n<p>Conferiu-se a conta, pagou-se. No dia seguinte a surpresa. A factura, onde havia sido aposto o n\u00famero de contribuinte e substitu\u00eddo o detalhe dos produtos consumidos pela men\u00e7\u00e3o a \u201cduas refei\u00e7\u00f5es\u201d, estava passada por um montante arredondado quase cinquenta por cento superior ao valor pago. Ironia. Se a qualidade da comida n\u00e3o conseguira reavivar mem\u00f3rias de outros tempos, consegui-o este inesperado desacerto de n\u00fameros. Trouxe ao pensamento viv\u00eancias de uma \u00e9poca n\u00e3o muito distante, em que pedir factura num restaurante era ter de ouvir o empregado perguntar qual o montante que se queria ver inscrito no documento.<\/p>\n<p>Muito se tem dito e escrito nos \u00faltimos tempos sobre a \u201clotaria contra a evas\u00e3o\u201d, que sortear\u00e1 semanalmente a badalada viatura topo de gama entre os \u201ccoletores\u201d de facturas. A ideia subjacente \u00e0 generalidade das opini\u00f5es de cronistas e comentadores \u00e9 a de que se trata de mais um \u201cretrocesso civilizacional\u201d, pois prop\u00f5e a atribui\u00e7\u00e3o de um pr\u00e9mio a quem se limita a cumprir um dever c\u00edvico. \u00c9 verdade. N\u00e3o devia existir. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o deviam existir cidad\u00e3os que n\u00e3o cumprem os seus deveres c\u00edvicos, como pedir justificativo documental de uma transac\u00e7\u00e3o. Da\u00ed que n\u00e3o repugne pensar que os cidad\u00e3os cumpridores possam ter algum tipo de benef\u00edcio diferenciador, j\u00e1 que n\u00e3o se afigura poss\u00edvel penalizar os infractores.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, \u201cn\u00e3o lembra ao Diabo\u201d pensar num pr\u00e9mio como o referido, numa altura em que as fam\u00edlias se continuam a debater com o excessivo peso das d\u00edvidas que em tempos contra\u00edram. A ter de existir, n\u00e3o poderia o dito sorteio, por exemplo, atribuir um pr\u00e9mio monet\u00e1rio que fosse aplicado na redu\u00e7\u00e3o dessas d\u00edvidas ou, caso elas n\u00e3o existissem, fosse descontado aos impostos a pagar nos anos seguintes pelo premiado? \u201cPoder, podia! Mas n\u00e3o era a mesma coisa\u201d, para usar a express\u00e3o de um conhecido \u201cspot\u201d publicit\u00e1rio. Ao optar pelo carro, quem desenhou a \u201clotaria\u201d sabia o tipo de pr\u00e9mio que tem maior probabilidade de despertar cobi\u00e7a, por permitir ao premiado afrontar e suplantar o brilhante b\u00f3lide do vizinho. Enfim \u2026<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 factura. Por via do seu valor empolado beneficiar-se-\u00e1 indevidamente de um cr\u00e9dito de imposto dedut\u00edvel no IRS de cerca de trinta c\u00eantimos, que apenas n\u00e3o causar\u00e1 problemas de consci\u00eancia porque os cofres p\u00fablicos ir\u00e3o receber mais dois euros e trinta c\u00eantimos do que deviam. Um final feliz, em que (quase) todos ganham.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Jornal i N\u00e3o repugne pensar que os cidad\u00e3os cumpridores possam ter algum tipo de benef\u00edcio diferenciador, j\u00e1 que n\u00e3o se afigura poss\u00edvel penalizar os infractores<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,124],"tags":[],"class_list":["post-7612","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-jornal-i"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=7612"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7681,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/7612\/revisions\/7681"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=7612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=7612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=7612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}