{"id":6834,"date":"2013-12-05T16:15:26","date_gmt":"2013-12-05T16:15:26","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=6834"},"modified":"2015-12-04T19:14:18","modified_gmt":"2015-12-04T19:14:18","slug":"rankings-das-escolas-desordenacao-e-desigualdade-de-oportunidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=6834","title":{"rendered":"Rankings das escolas: desordena\u00e7\u00e3o e desigualdade de oportunidades"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Paulo Vasconcelos, Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/rankings-das-escolas-desordenacao-e-desigualdade-de-oportunidades=f760215\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/VisaoE255.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p>Faz sentido ordenar na mesma escala uma escola em centro urbano bem desenvolvido com outra no interior rural por desenvolver?<br \/>\n...<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>\"Todas as nossas escolas s\u00e3o escolas de guerra, pelo recrutamento, porque s\u00f3 queremos os mais aptos ou aqueles que julgamos mais aptos, pela disciplina do curso e do comportamento, e pelo nosso objectivo de, no final dos estudos, os repartirmos por armas.\". Em sintonia com este excerto de Agostinho da Silva na sua obra Espiral, fica claro que na sociedade portuguesa moderna a entrada para certas escolas tem vindo a ser uma luta fratricida, sendo que em tempo de guerra nem sempre h\u00e1 \u00e9tica no comportamento guerreiro; por outro lado, e em dessintonia com o fil\u00f3sofo atendendo \u00e0 crise socioecon\u00f3mica, n\u00e3o h\u00e1 hoje armas para repartir \u00e0 sa\u00edda da escola \u2013 n\u00e3o h\u00e1 trabalho especializado para especialista.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta trapalhada que a contemporaneidade nos confronta com a necessidade de quantificar tudo e de tudo ordenar. Os rankings das escolas pretendem comparar fortes, distinguir fortes de fracos. Talvez, permitir tirar ila\u00e7\u00f5es para melhoria. Comparar n\u00e3o \u00e9 errado, antes pelo contr\u00e1rio, todos queremos o melhor para a educa\u00e7\u00e3o; uma forma de as institui\u00e7\u00f5es melhorarem \u00e9 tamb\u00e9m pelo seu posicionamento relativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais. Tudo isto \u00e9 verdade apenas e s\u00f3 se se comparar o compar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Faz sentido ordenar na mesma escala uma escola em centro urbano bem desenvolvido com outra no interior rural por desenvolver? Escolas com corpo docente est\u00e1vel e motivado com escolas carentes de professores que abracem um projeto educativo e que sejam abra\u00e7ados pela institui\u00e7\u00e3o e sociedade envolvente? Escolas com infraestruturas com outras quase sem condi\u00e7\u00f5es de funcionamento? Ora, todos aceitamos que a existir uma ordena\u00e7\u00e3o ela deveria levar em linha de conta certos condicionalismos, formando, digamos, uma ordena\u00e7\u00e3o por patamares ou categorias. Quando analisamos o ranking das escolas vemos um rol de escolas, indiferenciadas em rela\u00e7\u00e3o a muitos destes (e outros) aspetos que teriam que ser diferenciadores e condicionadores. Mesmo que alguns fatores de diferencia\u00e7\u00e3o tenham vindo a ser inclu\u00eddos, a not\u00edcia n\u00e3o os releva. N\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o social. O processo \u00e9 que \u00e9 complexo, e n\u00e3o pode ocupar os 5 minutos de abertura de um telejornal. Exige um programa que informe e contraponha. No ranking atual o que significa ficar em primeiro lugar? \u00c9 a melhor escola? O que \u00e9 ser a melhor escola?<\/p>\n<p>Ora, quem faz verdadeiramente a escola, a melhor escola, s\u00e3o os estudantes pela capacidade que t\u00eam, pelo que trazem de casa, pelo seu conhecimento do mundo e pelas suas experi\u00eancias de vida, pelo acesso que t\u00eam \u00e0 informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e sobretudo, fora da escola. Com o for\u00e7ar da ideia que todos devem ter igualdade de oportunidades em escolher a escola em que querem estudar, criou-se a falsa ideia de que o \u201cmodelo\u201d atual proporciona aos nossos filhos a melhor oferta poss\u00edvel. Todos percebem que no limite haver\u00e1 uma escola que \u00e9 melhor que todas as outras e que portanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel satisfazer todos os interessados. Mas quem tem acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o? Quem pode \u201cpagar\u201d a entrada na melhor escola? A resposta \u00e9: uma parte pequena da sociedade, no fundo um conjunto de eleitos. Afinal quando pens\u00e1vamos que t\u00ednhamos uma escola democr\u00e1tica, o que temos \u00e9 uma escola verdadeiramente elitista. A escola que antes era para alguns, porque os outros n\u00e3o tinham possibilidades intelectuais e\/ou econ\u00f3micas para a frequentarem, permanece agora para poucos, porque h\u00e1 muitas escolas mas em muitas delas n\u00e3o se consegue ensinar\/aprender. Mesmo em muitas das escolas de excel\u00eancia, porque o contingente de progress\u00e3o \u00e9 limitado a um conjunto de notas muito elevadas, h\u00e1 a invers\u00e3o completa do \u00f3nus: o importante n\u00e3o \u00e9 formar, ajudar a explorar e enriquecer mas antes o preparar para ultrapassar determinadas provas e obst\u00e1culos espec\u00edficos otimizando t\u00e9cnicas de resposta. Ensina-se a responder, n\u00e3o a perguntar. Aprende-se a contornar n\u00e3o a dominar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ora, atendendo a que<\/p>\n<ul>\n<li>A escola n\u00e3o \u00e9 mais um espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 um neg\u00f3cio.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o est\u00e1 excelentemente retratada por Joaquim Almeida Santos (2013) quando refere \u201cTransformada em empresa, a escola vende uma mercadoria a que uns chamam educa\u00e7\u00e3o e outros simplesmente instru\u00e7\u00e3o. Estabelece-se, de forma crescente, uma rela\u00e7\u00e3o comercial e jur\u00eddica que envolve, como em qualquer neg\u00f3cio, duas partes, um vendedor (que \u00e9 a escola) e um comprador, um cliente (que \u00e9, diretamente, o aluno e, de forma entreposta, a fam\u00edlia desse aluno). No meio h\u00e1 um \u201cbem\u201d. Intang\u00edvel mas que se quer for\u00e7osamente que tenha caracter\u00edsticas de uma mercadoria tang\u00edvel, palp\u00e1vel, observ\u00e1vel e facilmente mensur\u00e1vel em termos de qualidade.\u201d<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a institui\u00e7\u00e3o escola que surge como agente econ\u00f3mico, tamb\u00e9m livros e material de apoio s\u00e3o mercadorias que fazem movimentar muito dinheiro. Todos tivemos de comprar para os nossos filhos tintas, pinceis e canetas especiais de pequeno tra\u00e7o mas de grande custo. Muito deste material nem chega a ser usado. Lembro-me tamb\u00e9m de uma cole\u00e7\u00e3o de livros de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica que continuam embrulhados. Entregar para que outros os usem \u00e9 louv\u00e1vel e por vezes ajuda a resolver o problema de fam\u00edlias mais carenciadas que querem proporcionar boa educa\u00e7\u00e3o aos filhos. As editoras produzem manuais com papel caro, folhas h\u00edper coloridas, fazendo-os acompanhar de cadernos de atividades e E-manuais - que vendem como blocos pedag\u00f3gicos. As escolas optam por certos livros e t\u00eam de os manter, embora por um per\u00edodo curto. Mas claro, na senda da reforma da reforma, eis sen\u00e3o que os sucessivos minist\u00e9rios v\u00e3o alterando os curricula; mesmo que pouco, faz com que o livro do irm\u00e3o mais velho ou do primo n\u00e3o possam ser reutilizados. Em pa\u00edses mais evolu\u00eddos, os livros s\u00e3o entregues pelas escolas aos estudantes. Terminado o ano letivo, estes s\u00e3o obrigados a devolv\u00ea-los em condi\u00e7\u00f5es de reutiliza\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3ximo ano por outros estudantes. S\u00f3 h\u00e1 aquisi\u00e7\u00e3o, a posteriori, caso o estudante os tenha inutilizado. Aqui h\u00e1 muitos anos falava-se na dificuldade de sobreviv\u00eancia das editoras, agora o sucesso de vendas tem levado a fus\u00f5es, aquisi\u00e7\u00f5es, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de grandes e poderosos grupos editoriais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E a que<\/p>\n<ul>\n<li>O sucesso escolar \u00e9 um decreto e n\u00e3o o fruto do esfor\u00e7o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O sucesso escolar foi decretado. Sim, desencadeado pelo despacho 98-A\/92, aquele em que a palavra \u201creprovado\u201d n\u00e3o consta; apenas a de \u201cn\u00e3o aprovado\u201d no final de um ciclo de estudos \u2026 como pode a escola produzir resultados e consequ\u00eancias do processo educativo se \u00e9 for\u00e7ada a transitar impreparados? Falar de modelos de recupera\u00e7\u00e3o, sim faz sentido. Mas a n\u00e3o exig\u00eancia faz da escola um recreio de brincadeiras e de vaidades; n\u00e3o passa de um espelho das frustra\u00e7\u00f5es que uns trazem de casa e da frustra\u00e7\u00e3o daqueles que querem aprender mas n\u00e3o podem porque o n\u00edvel \u00e9 gritantemente baixo, a qualidade subestimada e o ritmo perigosamente brando.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es de ensino est\u00e3o transformadas em m\u00e1quinas de fornecimento de diplomas e n\u00e3o em espa\u00e7os de provimento de qualifica\u00e7\u00f5es. Quem perde ent\u00e3o? Perde a sociedade e perdem as fam\u00edlias e os estudantes que, \u00e9brios pelo sucesso f\u00e1cil, alimentados pelo sistema, se deixam ludibriar. Investem a sociedade e as fam\u00edlias, tempo e dinheiro num processo que converge para a fal\u00eancia. Agora perante a crise financeira, tudo vem ao de cima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que seria importante evidenciar seria que<\/p>\n<ul>\n<li>N\u00e3o importa se p\u00fablico ou privado: o sistema educativo deve potenciar-se com ambos<\/li>\n<\/ul>\n<p>Quando o estado entrega cheques dentista a cidad\u00e3os para se tratarem no privado, procede de forma inteligente aproveitando potencial instalado, dado que o servi\u00e7o nacional de sa\u00fade n\u00e3o disp\u00f5e de uma rede de m\u00e9dicos dentistas. P\u00fablico e privado convergem num sistema de sa\u00fade nacional.<\/p>\n<p>Mas o que se pretende quando se patrocina escolas privadas, quando se aumenta o n\u00famero de estudantes por turma no p\u00fablico, quando se avalia professores ap\u00f3s a estes ter sido reconhecida compet\u00eancia para exercer a profiss\u00e3o? O que se espera de um estado que tem uma rede escola vasta, que ainda recentemente investiu, imenso, na moderniza\u00e7\u00e3o dessa rede? O que esperar da entrega de escolas p\u00fablicas \u00e0 gest\u00e3o privada? Receio responder, de t\u00e3o evidente que \u00e9 a resposta. N\u00e3o seria de o p\u00fablico e o privado, tamb\u00e9m no ensino, convergirem num sistema de educa\u00e7\u00e3o nacional?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infere-se pois que<\/p>\n<ul>\n<li>A escola \u00e9 cada vez menos um espa\u00e7o de oportunidade<\/li>\n<\/ul>\n<p>Tal como na guerra o vencedor n\u00e3o deve humilhar nunca o vencido, tamb\u00e9m um sistema que se quer educativo deve premiar o sucesso e apontar altera\u00e7\u00f5es para inverter o insucesso. Nas palavras de Fran\u00e7ois Dubet (2004) \u201cA igualdade de oportunidades pode ser de grande crueldade para os perdedores de uma competi\u00e7\u00e3o escolar encarregada de distinguir os indiv\u00edduos segundo o seu m\u00e9rito. Uma escola justa n\u00e3o pode limitar-se a selecionar os que t\u00eam mais m\u00e9rito; deve preocupar-se tamb\u00e9m com a sorte dos vencidos\u201d. Se assim n\u00e3o for, tudo \u00e9 uma grande fraude encapsulada debaixo de (falso) sucesso escolar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>Joaquim Almeida Santos, Estudar, \u00e9 preciso? \u2026 Percursos e pr\u00e1ticas de constru\u00e7\u00e3o do sucesso escolar no quotidiano de jovens na escola p\u00fablica, Edi\u00e7\u00f5es H\u00famus, Lda., 2013<br \/>\nFran\u00e7ois Dubet, L'\u00e9cole des chances : Qu'est-ce qu'une \u00e9cole juste?, Seuil, 2004<br \/>\nRui Santiago, Maria Fernanda Correia, Orlanda Tavares, Carlos Pimenta, Um olhar sobre os rankings, CIPES, 2004<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/ranking-das-escolas\">http:\/\/www.publico.pt\/ranking-das-escolas<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Vasconcelos, Vis\u00e3o on line, Faz sentido ordenar na mesma escala uma escola em centro urbano bem desenvolvido com outra no interior rural por desenvolver? &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,123],"tags":[],"class_list":["post-6834","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-visao-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6834","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6834"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6834\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7006,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6834\/revisions\/7006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6834"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6834"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6834"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}