{"id":49984,"date":"2026-11-05T09:02:00","date_gmt":"2026-11-05T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49984"},"modified":"2026-11-03T11:07:54","modified_gmt":"2026-11-03T11:07:54","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-160","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49984","title":{"rendered":"Fraude acad\u00e9mica: a intelig\u00eancia \u00e9 artificial, mas a fraude \u00e9 bem humana"},"content":{"rendered":"\n<p><span><span style=\"font-weight: bold; color: rgb(216, 7, 15);\">Miguel Viegas, <span style=\"color: #ff0000;\"><span style=\"color: #005500;\"><span style=\"color: #ff0000;\">OBEGEF<\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/facebook155.pdf\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2032\" style=\"width:26px;height:auto\" title=\"Ficheiro PDF\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A intelig\u00eancia artificial permite fabricar trabalhos acad\u00e9micos, inventar refer\u00eancias e multiplicar publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas a uma velocidade sem precedentes. Mas at\u00e9 que ponto um sistema obcecado com indicadores de produtividade n\u00e3o criou as condi\u00e7\u00f5es ideais para esta nova ind\u00fastria da fraude?<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia artificial chegou \u00e0s universidades e trouxe consigo uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa. Trabalhos acad\u00e9micos escritos em segundos, disserta\u00e7\u00f5es produzidas por encomenda, refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas inventadas e artigos cient\u00edficos em catadupa tendem a transformar-se no novo normal. A m\u00e1quina escreve, o estudante assina e o professor avalia. Tudo aparentemente leg\u00edtimo. Mas n\u00e3o haver\u00e1 raz\u00f5es fundadas para questionar a integridade de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que est\u00e1 por detr\u00e1s desta aparente normalidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros impressionam. Em abril de 2024, a Turnitin, empresa especializada na dete\u00e7\u00e3o de pl\u00e1gio, revelou que, entre mais de 200 milh\u00f5es de trabalhos analisados, cerca de 22 milh\u00f5es apresentavam pelo menos 20% de texto identificado como gerado por intelig\u00eancia artificial. Em mais de seis milh\u00f5es, essa propor\u00e7\u00e3o ultrapassava os 80%. Naturalmente, nem toda a utiliza\u00e7\u00e3o de IA constitui fraude, e os pr\u00f3prios sistemas de dete\u00e7\u00e3o est\u00e3o longe de ser infal\u00edveis. Mas a dimens\u00e3o do fen\u00f3meno n\u00e3o pode deixar de inquietar. O problema, contudo, n\u00e3o se limita aos estudantes. Em maio de 2026, a revista <em>Nature<\/em>&nbsp;divulgou uma investiga\u00e7\u00e3o que identificou quase tr\u00eas mil artigos cient\u00edficos com refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas aparentemente fict\u00edcias, numa amostra de 2,5 milh\u00f5es de publica\u00e7\u00f5es biom\u00e9dicas. E h\u00e1 casos ainda mais caricatos. O investigador Diomidis Spinellis descobriu um artigo cient\u00edfico inteiramente fabricado e publicado em seu nome, sem nunca o ter escrito. A fraude j\u00e1 n\u00e3o precisa sequer de um autor verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante esta realidade, multiplicam-se os c\u00f3digos de conduta, as declara\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias de utiliza\u00e7\u00e3o de IA e os programas inform\u00e1ticos de dete\u00e7\u00e3o. Uma nova ind\u00fastria de vigil\u00e2ncia acad\u00e9mica cresce \u00e0 sombra da ind\u00fastria da fraude. Mas estaremos a combater as causas ou apenas a sofisticar os mecanismos de controlo? A quest\u00e3o fundamental est\u00e1 no pr\u00f3prio funcionamento do sistema cient\u00edfico. Durante d\u00e9cadas, universidades e ag\u00eancias de financiamento transformaram a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento numa corrida aos indicadores: n\u00famero de artigos, cita\u00e7\u00f5es, fatores de impacto, rankings e m\u00e9tricas de produtividade. Publicar tornou-se uma obriga\u00e7\u00e3o permanente, frequentemente mais valorizada do que ensinar, investigar com profundidade ou produzir conhecimento socialmente relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o inventou esta l\u00f3gica. Limitou-se a oferecer-lhe uma ferramenta extraordinariamente eficiente. Quando a quantidade vale mais do que a qualidade, a tenta\u00e7\u00e3o de fabricar conhecimento torna-se quase uma consequ\u00eancia natural dos incentivos existentes. Combater a fraude acad\u00e9mica exige transpar\u00eancia, responsabiliza\u00e7\u00e3o e novas formas de avalia\u00e7\u00e3o. Mas exige tamb\u00e9m questionar um modelo que confunde produtividade cient\u00edfica com contabilidade de publica\u00e7\u00f5es. Caso contr\u00e1rio, continuaremos a aperfei\u00e7oar os detetores enquanto multiplicamos os incentivos \u00e0 fraude. Afinal, a intelig\u00eancia pode ser artificial, mas a fraude, essa, continua a ser profundamente humana.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Viegas, OBEGEF A intelig\u00eancia artificial permite fabricar trabalhos acad\u00e9micos, inventar refer\u00eancias e multiplicar publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas a uma velocidade sem precedentes. 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