{"id":49776,"date":"2026-08-06T11:00:34","date_gmt":"2026-08-06T11:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49776"},"modified":"2026-08-09T11:05:48","modified_gmt":"2026-08-09T11:05:48","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-436","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49776","title":{"rendered":"Entre o \u201cmiminho\u201d e a contrapresta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><span><span style=\"color: rgb(255, 0, 0); font-weight: bold;\">Sofia Barbosa, Jornal SOL<\/span><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/sol.iol.pt\/geral\/noticias\/sofia-nair-barbosa-entre-o-miminho-e-a-contraprestacao\/20260806\/6a744b9a0cf2f6a1a1e7323e\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Uma oferta genu\u00edna pressup\u00f5e, em princ\u00edpio, que quem a recebe n\u00e3o fica obrigado a prestar algo em troca<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Um perfume chega pelo correio acompanhado de um cart\u00e3o, sem qualquer pedido de divulga\u00e7\u00e3o. Um hotel oferece uma estadia, mas solicita, em troca, dois v\u00eddeos e v\u00e1rias fotografias. Nas redes sociais, ambos podem ser apresentados como um \u201cmiminho\u201d. \u00c0 luz da lei, por\u00e9m, podem corresponder a realidades muito diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesta diferen\u00e7a que reside uma das quest\u00f5es mais interessantes da economia da influ\u00eancia. O pagamento nem sempre assume a forma de dinheiro e a atividade profissional nem sempre come\u00e7a com um contrato. Muitas vezes, nasce gradualmente: primeiro, uma oferta; depois, um c\u00f3digo de desconto; mais tarde, uma campanha remunerada.<\/p>\n\n\n\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o portuguesa n\u00e3o prev\u00ea um regime fiscal espec\u00edfico para influenciadores digitais. Aplicam-se as regras gerais, que procuram identificar a realidade econ\u00f3mica para al\u00e9m do nome escolhido pelas partes. Mais do que saber se determinada colabora\u00e7\u00e3o foi chamada \u201coferta\u201d, \u201cparceria\u201d ou \u201cmiminho\u201d, importa perceber se existiu um servi\u00e7o, uma contrapartida e uma atividade ocasional ou regular.<\/p>\n\n\n\n<p>I \u2013 Quando uma oferta pode ser rendimento<\/p>\n\n\n\n<p>Uma oferta genu\u00edna pressup\u00f5e, em princ\u00edpio, que quem a recebe n\u00e3o fica obrigado a prestar algo em troca. Se uma marca envia um produto sem exigir qualquer publica\u00e7\u00e3o, o criador poder\u00e1 experiment\u00e1-lo, ignor\u00e1-lo ou critic\u00e1-lo. A mera rece\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite concluir que existiu uma rela\u00e7\u00e3o comercial.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente quando o produto ou a experi\u00eancia dependem da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados. Se um restaurante oferece uma refei\u00e7\u00e3o mediante o compromisso de publicar um v\u00eddeo, existe uma troca econ\u00f3mica: uma parte disponibiliza algo com valor e a outra presta um servi\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de uma transfer\u00eancia banc\u00e1ria n\u00e3o elimina essa realidade. Quando o bem ou a experi\u00eancia constituem a contrapartida de um servi\u00e7o, a vantagem recebida poder\u00e1, em princ\u00edpio, qualificar-se como rendimento em esp\u00e9cie. O artigo 24.\u00ba do C\u00f3digo do IRS estabelece<\/p>\n\n\n\n<p>as regras para determinar o respetivo valor pecuni\u00e1rio, recorrendo, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ao valor de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o significa que todos os produtos recebidos por um influenciador sejam automaticamente rendimento. O que importa \u00e9 perceber se a vantagem foi concedida livremente ou se funcionou como o pre\u00e7o de um servi\u00e7o. A palavra \u201cmiminho\u201d vale, para este efeito, menos do que aquilo que foi efetivamente acordado.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>II \u2013 Do epis\u00f3dio ocasional \u00e0 atividade profissional<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o existe um n\u00famero de seguidores a partir do qual algu\u00e9m se torna profissional. O elemento decisivo \u00e9 a realidade da atividade: as colabora\u00e7\u00f5es repetem-se, s\u00e3o negociadas e destinam-se a gerar rendimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Os rendimentos obtidos atrav\u00e9s da presta\u00e7\u00e3o independente de servi\u00e7os s\u00e3o, em termos gerais, enquadr\u00e1veis na categoria B do IRS. Uma colabora\u00e7\u00e3o verdadeiramente pontual poder\u00e1, dependendo das circunst\u00e2ncias, ser tratada como ato isolado. Segundo a Autoridade Tribut\u00e1ria, consideram-se atos isolados aqueles que n\u00e3o resultam de uma pr\u00e1tica previs\u00edvel ou reiterada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as campanhas deixam de ser epis\u00f3dicas e revelam um prop\u00f3sito de obten\u00e7\u00e3o continuada de rendimentos, torna-se, em regra, necess\u00e1ria a declara\u00e7\u00e3o de in\u00edcio de atividade e o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es fiscais e contributivas aplic\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa n\u00e3o confundir isen\u00e7\u00e3o de IVA ou dispensa de reten\u00e7\u00e3o na fonte com aus\u00eancia de rendimento: uma opera\u00e7\u00e3o pode continuar sujeita a fatura\u00e7\u00e3o e declara\u00e7\u00e3o, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 IVA a liquidar ou imposto a reter.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>III \u2013 Comiss\u00f5es e pagamentos estrangeiros<\/p>\n\n\n\n<p>O rendimento tamb\u00e9m pode surgir atrav\u00e9s de c\u00f3digos de desconto, liga\u00e7\u00f5es de afiliado, subscri\u00e7\u00f5es ou receitas distribu\u00eddas pelas plataformas. Uma comiss\u00e3o continua a ser uma remunera\u00e7\u00e3o, ainda que corresponda a uma pequena percentagem de cada venda ou seja creditada numa conta digital.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo sucede quando o pagamento vem do estrangeiro. Quem reside fiscalmente em Portugal encontra-se, em regra, sujeito a IRS pela totalidade dos rendimentos, incluindo os obtidos fora do pa\u00eds. A tributa\u00e7\u00e3o desses rendimentos pode, contudo, levantar quest\u00f5es adicionais, nomeadamente quanto ao IVA aplic\u00e1vel \u00e0s presta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os internacionais e \u00e0 eventual elimina\u00e7\u00e3o da dupla tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>IV \u2013 Documentar para proteger<\/p>\n\n\n\n<p>A informalidade das redes sociais n\u00e3o deve prolongar-se para a rela\u00e7\u00e3o comercial. Um acordo escrito dever\u00e1 identificar o conte\u00fado a produzir, a remunera\u00e7\u00e3o em dinheiro ou em esp\u00e9cie, os prazos e os direitos de utiliza\u00e7\u00e3o da imagem e do material criado.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Esta documenta\u00e7\u00e3o protege ambas as partes e facilita o correto tratamento fiscal da opera\u00e7\u00e3o. A responsabilidade, ali\u00e1s, n\u00e3o pertence apenas ao influenciador. Marcas e ag\u00eancias devem formalizar as campanhas, atribuir um valor claro \u00e0s contrapartidas e exigir a documenta\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando n\u00e3o exista uma contrapresta\u00e7\u00e3o fiscalmente relevante, a divulga\u00e7\u00e3o de um produto oferecido pode continuar sujeita a deveres de identifica\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia publicit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m o p\u00fablico beneficia da transpar\u00eancia. Quando uma publica\u00e7\u00e3o tem natureza comercial, essa circunst\u00e2ncia deve ser identificada de forma clara. Uma recomenda\u00e7\u00e3o remunerada n\u00e3o \u00e9 necessariamente menos honesta; o consumidor tem apenas o direito de conhecer a rela\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que existe por detr\u00e1s do conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>A fronteira relevante n\u00e3o separa grandes e pequenos influenciadores, nem pagamentos e ofertas. Separa aquilo que \u00e9 verdadeiramente gratuito do que \u00e9 entregue em troca de um servi\u00e7o; o que \u00e9 ocasional do que se tornou habitual; e o que permanece pessoal do que adquiriu natureza econ\u00f3mica.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Um \u201cmiminho\u201d pode ser apenas um gesto de uma marca. Tamb\u00e9m pode constituir a remunera\u00e7\u00e3o de um trabalho. A literacia fiscal come\u00e7a precisamente a\u00ed: na capacidade de dar o nome certo \u00e0 realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sofia Barbosa, Jornal SOL Uma oferta genu\u00edna pressup\u00f5e, em princ\u00edpio, que quem a recebe n\u00e3o fica obrigado a prestar algo em troca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"footnotes":"","_members_access_role":[],"_members_access_error":""},"categories":[72,303],"tags":[],"class_list":["post-49776","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-sol"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49776","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49776"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49776\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49777,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49776\/revisions\/49777"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49776"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49776"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49776"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}