{"id":49736,"date":"2026-06-25T20:04:00","date_gmt":"2026-06-25T20:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49736"},"modified":"2026-06-28T21:09:31","modified_gmt":"2026-06-28T21:09:31","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-431","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49736","title":{"rendered":"A grande fraude da converg\u00eancia portuguesa. Somos o 6\u00ba pa\u00eds mais pobre da Europa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;Eco Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/a-grande-fraude-da-convergencia-portuguesa-somos-o-6o-pais-mais-pobre-da-ue\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o est\u00e1 condenado ao lugar que ocupa hoje, mas dificilmente conseguir\u00e1 subir ao n\u00edvel de vida europeu enquanto persistir em ignorar os sinais agora conhecidos.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>H\u00e1 imagens que valem mais do que mil palavras. As que apresento nesta cr\u00f3nica, que me custam a digerir, demonstram aquilo que a maioria dos portugueses sente no seu dia a dia: um baixo n\u00edvel de vida. \u00c9 um \u2018murro no est\u00f4mago\u2019 de uma Na\u00e7\u00e3o que foi induzida em erro quanto ao seu progresso material relativo no contexto europeu pela falta de informa\u00e7\u00e3o atualizada sobre a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo de 2025 da FEP Faculdade de Economia e Gest\u00e3o da Universidade do Porto, j\u00e1 tinha alertado, h\u00e1 sensivelmente um ano, que o PIB per capita em paridades de poder de compra (PPC) de Portugal em percentagem da Uni\u00e3o Europeia (UE), indicador que mede o n\u00edvel de vida relativo, era significativamente menor do que diziam os dados oficiais e n\u00e3o teria, afinal, sequer ultrapassado os 80% desde a pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso porque os dados administrativos revistos da popula\u00e7\u00e3o estrangeira residente da Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o Migra\u00e7\u00f5es e Asilo (AIMA) j\u00e1 apontavam para uma popula\u00e7\u00e3o total superior a 11 milh\u00f5es, bastante acima dos dados oficiais do INE usados pelas institui\u00e7\u00f5es europeias nesse c\u00e1lculo. Esta semana tivemos a confirma\u00e7\u00e3o das conclus\u00f5es do estudo da FEP, com novos dados e alguns c\u00e1lculos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Dados revistos da popula\u00e7\u00e3o colocam em causa a narrativa da converg\u00eancia para o n\u00edvel de vida da UE<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Com a revis\u00e3o em alta da popula\u00e7\u00e3o residente para 11,4 milh\u00f5es (os dados anteriores apontavam para menos de 11 milh\u00f5es), divulgada h\u00e1 poucos dias pelo INE, o PIB per capita em PPC de Portugal, uma express\u00e3o do nosso n\u00edvel de vida, fica naturalmente revisto em baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Como essa corre\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o se encontra refletida nos dados oficiais, apresento de seguida os c\u00e1lculos necess\u00e1rios e os principais resultados que deles decorrem, acompanhados da respetiva an\u00e1lise.&nbsp;<strong>O valor corrigido \u00e9 77,0% da UE em 2025, na 22\u00aa posi\u00e7\u00e3o, a 6\u00aa pior entre os 27 Estados-membros, bastante abaixo dos 81,3% nos dados originais da Comiss\u00e3o Europeia (CE) divulgados em maio, correspondentes \u00e0 19\u00aa posi\u00e7\u00e3o \u2013 ver Figura 1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No final da an\u00e1lise, na parte em que analiso a informa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, mostro que a revis\u00e3o do n\u00edvel de vida resulta de um desfasamento m\u00e1ximo de cerca de 6% em 2025 (e nos dois anos precedentes) entre os novos dados da popula\u00e7\u00e3o publicados pelo INE e os que tinha anteriormente e foram usados pela CE nesse c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, mesmo que o INE venha a rever em alta os dados do PIB de 2024 e 2025, como sinalizou recentemente o ministro das Finan\u00e7as, tender\u00e1 a ser uma corre\u00e7\u00e3o muito inferior a essa magnitude, na ordem de poucas d\u00e9cimas de ponto percentual de varia\u00e7\u00e3o, dado o hist\u00f3rico de revis\u00f5es das contas nacionais, pelo que n\u00e3o dever\u00e1 afetar de forma substancial os c\u00e1lculos aqui apresentados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Grande parte da imigra\u00e7\u00e3o foi canalizada para as atividades de baixo valor em que a economia est\u00e1 especializada, como o turismo. Por outro lado, dado o desfasamento entre a din\u00e2mica da imigra\u00e7\u00e3o e a da atividade econ\u00f3mica, n\u00e3o \u00e9 de excluir a presen\u00e7a de um n\u00famero significativo de imigrantes na economia paralela, tanto em anos anteriores como atualmente, contribuindo para as estat\u00edsticas do PIB sobretudo por via do seu consumo. Recordo que um estudo da FEP, publicado numa revista cient\u00edfica indexada, estimou em quase 35% o peso da economia n\u00e3o registada no PIB portugu\u00eas em 2022, numa fase em que a imigra\u00e7\u00e3o crescia fortemente, sugerindo que este fen\u00f3meno n\u00e3o dever\u00e1 ser negligenciado na an\u00e1lise.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Comparando o valor de 2025 com o de pr\u00e9-pandemia, i.e., 2019 (77,2%, na 19\u00aa posi\u00e7\u00e3o) verifica-se mesmo uma ligeira descida do indicador de n\u00edvel de vida relativo, mas que significa a perda de 4 posi\u00e7\u00f5es no ranking, contrariando, assim, a narrativa que os \u00faltimos governos nos queriam passar, de que a economia estava a crescer bem, acima da UE, devido a progressos estruturais com impacto na melhoria do n\u00edvel de vida relativo.<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa economia cresceu mais, de facto, mas muito pouco atendendo a v\u00e1rios fatores excecionais de que beneficiou: uma forte expans\u00e3o do turismo p\u00f3s-pandemia, um PRR generoso, a atra\u00e7\u00e3o de algum investimento e de mais turistas por raz\u00f5es de seguran\u00e7a, face \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia \u2013 que, pelo contr\u00e1rio, penalizou bastante a Alemanha e os pa\u00edses de leste (PL) \u2013, bem como um forte aumento da imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte da imigra\u00e7\u00e3o foi canalizada para as atividades de baixo valor em que a economia est\u00e1 especializada, como o turismo. Por outro lado, dado o desfasamento entre a din\u00e2mica da imigra\u00e7\u00e3o e a da atividade econ\u00f3mica, n\u00e3o \u00e9 de excluir a presen\u00e7a de um n\u00famero significativo de imigrantes na economia paralela, tanto em anos anteriores como atualmente, contribuindo para as estat\u00edsticas do PIB sobretudo por via do seu consumo. Recordo que um estudo da FEP, publicado numa revista cient\u00edfica indexada, estimou em quase 35% o peso da economia n\u00e3o registada no PIB portugu\u00eas em 2022, numa fase em que a imigra\u00e7\u00e3o crescia fortemente, sugerindo que este fen\u00f3meno n\u00e3o dever\u00e1 ser negligenciado na an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 milagres. Se cada portugu\u00eas tem uma produtividade relativamente baixa, em m\u00e9dia \u2013 Portugal continua perto da cauda da UE nesse indicador \u2013, n\u00e3o espanta que o n\u00edvel de vida seja tamb\u00e9m baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejamos claros. Enquanto o pa\u00eds n\u00e3o mudar os incentivos para tornar a especializa\u00e7\u00e3o produtiva mais intensiva em conhecimento e tecnologia, n\u00e3o pode esperar maior produtividade e n\u00edvel de vida, continuando a assistir \u00e0 sa\u00edda dos jovens mais talentosos para o exterior por falta de postos de trabalho qualificados e bem remunerados. Assim, o crescimento recente acima da UE, que contribuiu tamb\u00e9m para a subida do n\u00edvel de vida \u2013 mas diminuta em termos reais, como mostro abaixo \u2013, deve-se sobretudo a um conjunto de fatores excecionais e n\u00e3o a progressos estruturais como nos queriam fazer crer.<\/p>\n\n\n\n<p>Os novos dados evidenciam, de forma clara, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar a adiar reformas estruturais se quisermos elevar de forma substantiva e sustentada a produtividade e o n\u00edvel de vida tanto em termos absolutos como relativos, comparando com o espa\u00e7o europeu em que nos inserimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros corrigidos mostram ainda uma forte diverg\u00eancia face ao n\u00edvel de vida da UE desde o in\u00edcio do mil\u00e9nio, passando de 85,0% em 1999, na 15\u00aa posi\u00e7\u00e3o, para 77,0% em 2025, na 22\u00aa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior, as proje\u00e7\u00f5es da CE corrigidas para Portugal nos anos 2026 e 2027 apontam para a estabiliza\u00e7\u00e3o em cerca de 77%, mas com a perda de mais uma posi\u00e7\u00e3o em 2027, como evidenciado mais abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os portugueses t\u00eam de exigir mais dos governantes de cada vez que v\u00e3o \u00e0s urnas e no espa\u00e7o p\u00fablico. \u00c9 esse o prop\u00f3sito das minhas an\u00e1lises. N\u00e3o nos podemos resignar, enquanto povo, a sermos ultrapassados sucessivamente pelos pa\u00edses mais pobres da UE. Devemos aspirar a muito mais e recusar a ideia de que Portugal \u00e9 um pa\u00eds onde as oportunidades e a prosperidade parecem estar reservadas apenas para alguns, como tantas vezes a distribui\u00e7\u00e3o dos fundos p\u00fablicos d\u00e1 a entender.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1. PIB per capita de Portugal em Paridade de Poderes de Compra (PPC), UE=100: valor oficial da CE e valor corrigido pelos novos dados da popula\u00e7\u00e3o (INE)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/1-31.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914267\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>:&nbsp;<em>Comiss\u00e3o Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, jun-26) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Para assinalar que os n\u00fameros de 2026 e 2027 s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es, as colunas foram assinaladas com um padr\u00e3o ponteado. A corre\u00e7\u00e3o efetuada resultou da divis\u00e3o dos dados originais de n\u00edvel de vida relativo de Portugal face \u00e0 UE da CE pelo fator de corre\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o evidenciado na Figura 8 abaixo (o r\u00e1cio entre os dados do INE, na \u00f3tica das contas nacionais, e os usados pela CE no c\u00e1lculo).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Figura 2 d\u00e1 conta de que, em 2025, Portugal tinha sido ultrapassado em n\u00edvel de vida pela maioria das economias de leste, que entraram bem mais tarde na UE e receberam muito menos fundos europeus, mas parecem ter aproveitado esses apoios muito melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os pa\u00edses que nos ultrapassaram consta a Rom\u00e9nia (77,9%), que ainda h\u00e1 n\u00e3o muitos anos era a economia mais pobre da UE, como apontava o estudo da FEP, o que na altura gerou espanto e variadas cr\u00edticas. A verdade \u00e9 que a Rom\u00e9nia ultrapassou j\u00e1 tamb\u00e9m a Cro\u00e1cia, pa\u00eds especializado no turismo tal como Portugal, destoando da especializa\u00e7\u00e3o industrial da m\u00e9dia dos Pa\u00edses de Leste (PL), o que contribuiu para uma converg\u00eancia assinal\u00e1vel desse grupo neste mil\u00e9nio, atingindo 81,3% da UE nesse ano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 2. PIB per capita em PPC (UE=100) nos pa\u00edses da UE em 2025, incluindo o valor oficial de Portugal e o valor corrigido face aos dados revistos da popula\u00e7\u00e3o do INE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/2-10.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914281\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;Comiss\u00e3o Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, jun-26) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Nota: o agregado dos PL corresponde \u00e0 m\u00e9dia simples dos valores desses pa\u00edses, assinalados com a letra L no final dos respetivos nomes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em perspetiva, o cen\u00e1rio piora, como referido. As proje\u00e7\u00f5es da CE apontam para que, em 2027, Portugal seja ainda ultrapassado em n\u00edvel de vida pela Hungria (77,0% vs. 77,7% nesse ano, respetivamente), passando para a 23\u00aa posi\u00e7\u00e3o, a 5\u00aa pior, cada vez mais perto da cauda da UE \u2013 ver Figura 3.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 3. PIB per capita em PPC (UE=100) nos pa\u00edses da UE previsto para 2027, incluindo o valor oficial de Portugal e o valor corrigido face aos dados revistos da popula\u00e7\u00e3o do INE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/3-15.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914282\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: Comiss\u00e3o Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, jun-26) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da evolu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida relativo em percentagem da UE, releva analisar as din\u00e2micas subjacentes de cada um dos agregados de base, primeiro em termos nominais e depois em termos reais.<\/p>\n\n\n\n<p>A Figura 4 permite perceber a evolu\u00e7\u00e3o comparada do valor do n\u00edvel de vida de Portugal (taxa de varia\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida medido em euros com a corre\u00e7\u00e3o PPC, ou seja, em termos nominais, pelo que inclui a varia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os), com e sem corre\u00e7\u00e3o pelos novos dados da popula\u00e7\u00e3o, da UE e da m\u00e9dia dos PL.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1999 e 2025, o n\u00edvel de vida portugu\u00eas cresceu 3,0% ao ano, em termos nominais, nos dados corrigidos (3,2% nos n\u00e3o corrigidos, uma diferen\u00e7a de duas d\u00e9cimas, mas que se torna significativa, em termos compostos, ao longo de 25 anos), apenas o 20\u00ba desempenho na UE (18\u00ba nos dados sem corre\u00e7\u00e3o), 3,4% na UE e 5,7% nos PL, em m\u00e9dia. Este grupo de pa\u00edses teve, assim, quase o dobro do progresso material de Portugal neste mil\u00e9nio em termos nominais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Na m\u00e9dia de 2019 e 2025, alisando os efeitos da pandemia e da guerra na Ucr\u00e2nia, o n\u00edvel de vida de Portugal cresceu nominalmente 4,56% ao ano (18\u00aa posi\u00e7\u00e3o), menos do que nos dados n\u00e3o corrigidos (5,5%, na 10\u00aa posi\u00e7\u00e3o), mas bastante acima do per\u00edodo 1999-2019 (2,6%, na 21\u00aa posi\u00e7\u00e3o), a refletir os efeitos extraordin\u00e1rios referidos, mais o efeito da infla\u00e7\u00e3o, que foi mais elevada ap\u00f3s 2019, em m\u00e9dia (sobretudo pelo impacto da guerra na Ucr\u00e2nia), raz\u00e3o pela qual expurgo este fator na figura seguinte.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na m\u00e9dia de 2019 e 2025, alisando os efeitos da pandemia e da guerra na Ucr\u00e2nia, o n\u00edvel de vida de Portugal cresceu nominalmente 4,56% ao ano (18\u00aa posi\u00e7\u00e3o), menos do que nos dados n\u00e3o corrigidos (5,5%, na 10\u00aa posi\u00e7\u00e3o), mas bastante acima do per\u00edodo 1999-2019 (2,6%, na 21\u00aa posi\u00e7\u00e3o), a refletir os efeitos extraordin\u00e1rios referidos, mais o efeito da infla\u00e7\u00e3o, que foi mais elevada ap\u00f3s 2019, em m\u00e9dia (sobretudo pelo impacto da guerra na Ucr\u00e2nia), raz\u00e3o pela qual expurgo este fator na figura seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa subida de 4,56% ao ano ficou ligeiramente abaixo do valor da UE (4,63%), explicando a diverg\u00eancia de n\u00edvel de vida relativo assinalada anteriormente. Ficou bem mais longe da progress\u00e3o dos PL (5,9%), que at\u00e9 aumentou ligeiramente neste per\u00edodo, mas motivada pelo efeito pre\u00e7o como mostro a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais importante para os portugueses \u00e9 a an\u00e1lise da Figura 5, que expurga o efeito da infla\u00e7\u00e3o (medida pela evolu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual do deflator do PIB, que agrega os efeitos pre\u00e7o das suas v\u00e1rias componentes), traduzindo de forma mais aproximada a evolu\u00e7\u00e3o real do seu n\u00edvel de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se verifica \u00e9 que, com os dados corrigidos, o progresso do n\u00edvel de vida em termos reais foi muito reduzido, de apenas 0,4% ao ano entre 1999 e 2025 (0,6% nos dados n\u00e3o corrigidos, em ambos os casos na 23\u00aa posi\u00e7\u00e3o), que compara com 1,3% na UE e 1,5% nos PL, que quase quadruplicam o nosso progresso real, evidenciando uma enorme discrep\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sucede que, no per\u00edodo de 2019 a 2025, a melhoria do indicador corrigido de Portugal, de 0,3% ao ano, foi ainda menor (face a 0,4% em 1999-2025, como referido, e 0,5% de 1999 a 2019), bastante abaixo da UE (0,9%), embora acima dos PL (-0,2%) \u2013 que registaram um retrocesso neste per\u00edodo, tendo sido muito mais afetados pelo fim da energia barata russa, que implicou um maior impacto na infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados n\u00e3o corrigidos apontavam para um ganho real de n\u00edvel de vida dos portugueses de 1,2% ao ano entre 2019 e 2025, acima dos 0,9% na UE, percebendo-se, assim, a grande diferen\u00e7a que faz ter em conta os dados atualizados da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, mesmo com os fatores extraordin\u00e1rios que beneficiaram a economia portuguesa neste per\u00edodo, o n\u00edvel de vida real dos portugueses continuou a crescer menos que o da UE e, inclusivamente, abaixo do registado em 1999-2019, pois grande parte do ganho nominal foi perdido para a infla\u00e7\u00e3o. Isso ao contr\u00e1rio do que os dados n\u00e3o corrigidos mostravam e era propalado pelos governantes, que assentavam a sua an\u00e1lise em dados desatualizados por n\u00e3o refletirem adequadamente a realidade demogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um falhan\u00e7o estat\u00edstico que os poderes p\u00fablicos demoraram demasiado tempo a corrigir, com a perversidade de alimentar o discurso pol\u00edtico de um pa\u00eds \u2018cor-de-rosa\u2019, assente na ideia de uma economia particularmente din\u00e2mica \u2013 em termos estruturais, n\u00e3o meramente conjunturais \u2013 e de uma aproxima\u00e7\u00e3o sustentada ao n\u00edvel de vida da UE, uma narrativa que os novos dados colocam seriamente em causa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta a economia do ano para a revista The Economist em 2025, uma distin\u00e7\u00e3o bastante celebrada pelo governo que prontamente critiquei por usar crit\u00e9rios desadequados e pouco condicentes com o prest\u00edgio que a publica\u00e7\u00e3o chegou a ter no passado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Houve mais dinheiro nos bolsos dos portugueses \u2013 o contr\u00e1rio seria de espantar face ao enorme afluxo de fundos da UE neste per\u00edodo, com o PRR a acrescer ao final do PT 2020 e in\u00edcio do PT 2030. Mas, infelizmente, n\u00e3o houve progresso em termos relativos face \u00e0 UE, e esse dinheiro foi em grande medida perdido para a infla\u00e7\u00e3o, acabando por se verificar um progresso real um pouco menor do que na m\u00e9dia entre 1999 e 2019.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise conjunta das Figuras 4 e 5 significa que houve mais dinheiro nos bolsos dos portugueses \u2013 o contr\u00e1rio seria de espantar face ao enorme afluxo de fundos da UE neste per\u00edodo, com o PRR a acrescer ao final do PT 2020 e in\u00edcio do PT 2030. Mas, infelizmente, n\u00e3o houve progresso em termos relativos face \u00e0 UE, e esse dinheiro foi em grande medida perdido para a infla\u00e7\u00e3o, acabando por se verificar um progresso real um pouco menor do que na m\u00e9dia entre 1999 e 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de avan\u00e7os efetivos no n\u00edvel de vida portugu\u00eas \u2013 em termos absolutos e relativos, tanto nominais como reais \u2013 leva muitos dos nossos jovens mais qualificados a procurar melhores condi\u00e7\u00f5es de vida no exterior, o que empobrece o pa\u00eds e limita o nosso futuro coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma vez, n\u00e3o podemos esperar progressos superiores aos dos restantes pa\u00edses se n\u00e3o evoluirmos no perfil de especializa\u00e7\u00e3o produtiva da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo continuando a receber avultados fundos europeus, dificilmente os aplicaremos t\u00e3o eficazmente enquanto uma parte significativa dos recursos continuar a ser canalizada para atividades de menor produtividade e pouco valor acrescentado, um problema para o qual tem contribu\u00eddo a degrada\u00e7\u00e3o da qualidade institucional do pa\u00eds, tema que abordei em cr\u00f3nicas anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Dos dados da Figura 4 real\u00e7o ainda que, em 2025, o n\u00edvel de vida de Portugal cresceu j\u00e1 bem menos: 2,8%, na 24\u00aa posi\u00e7\u00e3o, usando a s\u00e9rie revista. Este valor acaba por ser marginalmente superior ao valor n\u00e3o corrigido (2,7%, na mesma na 24\u00aa posi\u00e7\u00e3o), devido ao ajustamento. \u00c9, por isso, muito estranho que este tenha sido o \u00fanico aspeto sobre os dados ajustados do n\u00edvel de vida de Portugal, na sequ\u00eancia da divulga\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o corrigida pelo INE, salientado pelo ministro da Presid\u00eancia, Ant\u00f3nio Leit\u00e3o Amaro, tanto quanto eu tenha conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que positivo, \u00e9 um aspeto menor comparado com a revis\u00e3o em baixa de 3 posi\u00e7\u00f5es no ranking de n\u00edvel de vida de Portugal na UE em 2025, passando a ser o 6\u00ba pior, face aos novos dados, e a diverg\u00eancia (ligeira) face \u00e0 UE desde 2019 \u2013 em vez da converg\u00eancia evidenciada pelos dados n\u00e3o corrigidos e t\u00e3o celebrada pelos governos PS e desta AD \u2013, alargando a registada desde 1999, conforme destaquei acima.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, essa progress\u00e3o do n\u00edvel de vida em termos nominais em 2025 \u00e9 apenas aparente, pois a Figura 5 revela que, descontando o efeito da infla\u00e7\u00e3o, ocorreu uma perda de 1,1% em termos reais (a descida \u00e9 de 1,2% nos dados n\u00e3o corrigidos).<\/p>\n\n\n\n<p>As declara\u00e7\u00f5es do ministro implicam que o governo estar\u00e1 ciente do n\u00edvel de vida revisto e, presumo, da perda de posi\u00e7\u00f5es com os novos dados, mas ainda n\u00e3o corrigiu a narrativa \u2018cor-de-rosa\u2019 que j\u00e1 vinha dos \u00faltimos governos PS quanto \u00e0 real situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do pa\u00eds, algo que deveria ser feito pelo ministro das Finan\u00e7as ou pelo ministro da Economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em particular, o pa\u00eds aguarda que o executivo forne\u00e7a, quanto antes, um retrato atualizado em mat\u00e9ria de converg\u00eancia de n\u00edvel de vida com a UE \u2013 como o que aqui apresento, mas oficial \u2013, que \u00e9 um des\u00edgnio estrat\u00e9gico que tem atravessado os sucessivos governos desde a nossa ades\u00e3o em 1986.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se, contudo, de um des\u00edgnio muito insuficiente. Isto porque o crescimento econ\u00f3mico da UE, que os sucessivos governos visam superar \u2013 o que aconteceu apenas de forma pontual e por margens reduzidas entre 1999 e 2025, pois Portugal cresceu pouco mais de metade da m\u00e9dia da UE, como mostrei noutras cr\u00f3nicas \u2013, h\u00e1 muito deixou de constituir um objetivo ambicioso, dada a estagna\u00e7\u00e3o das maiores economias.<\/p>\n\n\n\n<p>Defendo, por isso, que devemos antes ambicionar entrar na metade dos pa\u00edses com maior n\u00edvel de vida da UE num horizonte aceit\u00e1vel, o que requer reformas estruturais para aumentar o potencial de crescimento econ\u00f3mico em, pelo menos, 1,4 pontos percentuais acima do crescimento da UE, segundo um estudo da FEP.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, como Leit\u00e3o Amaro est\u00e1 com a pasta da imigra\u00e7\u00e3o e \u00e9 respons\u00e1vel pela mudan\u00e7a das regras nessa \u00e1rea, \u00e9 justo reconhecer que contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o e maior controlo das entradas j\u00e1 observados em 2025, o aspeto mais relevante da sua interven\u00e7\u00e3o e que evidencio abaixo com n\u00fameros concretos. Embora as medidas adotadas tenham sido positivas, em geral, precisam de ser calibradas como defendo abaixo, caso contr\u00e1rio poder\u00e3o limitar o crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 4. Taxa de varia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual do valor do PIB per capita em PPC (%) de Portugal em termos nominais \u2013 com e sem corre\u00e7\u00e3o pelos novos dados da popula\u00e7\u00e3o do INE \u2013, dos PL e da UE, e rankings de Portugal na UE com e sem corre\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/2-10.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914281\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>Comiss\u00e3o Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, jun-26) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 5. Taxa de varia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual do valor do PIB per capita em PPC (%) de Portugal em termos reais (expurgando a evolu\u00e7\u00e3o do deflator do PIB) \u2013 com e sem corre\u00e7\u00e3o pelos novos dados da popula\u00e7\u00e3o do INE \u2013, dos PL e da UE, e rankings de Portugal na UE com e sem corre\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/5-12.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914290\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>Comiss\u00e3o Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, jun-26) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Nota: para expurgar o efeito da infla\u00e7\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o do PIB per capita em PPC, aos dados do gr\u00e1fico anterior foi deduzida a evolu\u00e7\u00e3o dos respetivos deflatores do PIB em cada um dos per\u00edodos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Popula\u00e7\u00e3o residente atinge 11,4 milh\u00f5es, 14% estrangeira, mas o fluxo de entrada baixou em 2025<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Importa agora analisar os principais n\u00fameros revistos da popula\u00e7\u00e3o residente, que demoraram a sair. Ap\u00f3s mais de meio ano de atraso na divulga\u00e7\u00e3o das estat\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o residente de 2025 e da pol\u00e9mica sobre os n\u00fameros corretos, decorrente da diferen\u00e7a significativa de valores entre organismos p\u00fablicos desarticulados, esta semana o INE divulgou finalmente os n\u00fameros oficiais para esse ano e a revis\u00e3o da s\u00e9rie desde 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>As altera\u00e7\u00f5es s\u00e3o bastante significativas (mais abaixo apresento dados nesse sentido, ao evidenciar os n\u00fameros usados para corrigir o n\u00edvel de vida) e mostram como h\u00e1 v\u00e1rios anos os poderes p\u00fablicos estavam a tomar decis\u00f5es de pol\u00edtica com base em n\u00fameros bastante desfasados da realidade, com origem em informa\u00e7\u00e3o muito desatualizada da imigra\u00e7\u00e3o, para o que ter\u00e1 contribu\u00eddo o fim do Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a atribulada passagem para a AIMA.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficamos a saber que, em 2025, o pa\u00eds tinha 11,4 milh\u00f5es de residentes \u2013 valor pr\u00f3ximo das estimativas da AIMA, que estavam assim bem mais perto da realidade do que os anteriores dados do INE \u2013, dos quais 14% eram estrangeiros, significando que o seu peso subiu muito em poucos anos (de 3,8% em 2017 para 14,0% em 2025 \u2013 ver Figura 6).<\/p>\n\n\n\n<p>Tal deveu-se ao descontrolo das entradas \u2013 desligadas da atividade econ\u00f3mica, que n\u00e3o subiu em propor\u00e7\u00e3o mesmo tendo beneficiado de fatores extraordin\u00e1rios, j\u00e1 referidos \u2013 provocado pelo Regime de Manifesta\u00e7\u00e3o de Interesse (RMI) que vigorou entre 2017 e 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade e as entidades p\u00fablicas n\u00e3o estavam preparadas para um fluxo de tal magnitude, incluindo as que produzem os n\u00fameros oficiais da popula\u00e7\u00e3o, levando ao que designei de \u2018descontrolo estat\u00edstico\u2019 decorrente do descontrolo das entradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Face \u00e0 revis\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do n\u00edvel de vida, outros indicadores per capita tamb\u00e9m ter\u00e3o de ser revistos e j\u00e1 vamos com um grande atraso, como referi. \u00c9 bastante \u00f3bvio que, com informa\u00e7\u00e3o desatualizada, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um diagn\u00f3stico adequado da realidade que permita tomar as medidas de pol\u00edtica mais adequadas para resolver os problemas da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 essa a quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o fim do RMI e a altera\u00e7\u00e3o das regras da imigra\u00e7\u00e3o \u2013 a \u00fanica reforma com esse nome dos governos desta AD, embora com os problemas que j\u00e1 abordei noutras cr\u00f3nicas e reitero abaixo \u2013 j\u00e1 permitiu uma redu\u00e7\u00e3o expressiva das entradas em 2025, para 59 mil em 2025, ap\u00f3s valores muito superiores nos anos anteriores (ver Figura 7).<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que agora corremos o risco de passar de um excesso para um d\u00e9fice de entradas, devido a uma calibra\u00e7\u00e3o inadequada das regras, que deveriam estar mais estreitamente alinhadas com as necessidades da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o mecanismo da Via Verde vai nesse sentido, ao depender da exist\u00eancia pr\u00e9via de um contrato de trabalho, o que \u00e9 positivo, a sua execu\u00e7\u00e3o continua a ser burocr\u00e1tica e de alcance limitado. Torna-se, por isso, dif\u00edcil compreender a atual pol\u00edtica complementar de vistos de trabalho. Em vez de restringir este instrumento a profiss\u00f5es altamente qualificadas, faria mais sentido articul\u00e1-lo com as entidades representativas das empresas, que melhor conhecem as necessidades de cada setor e tipo de profiss\u00e3o, como tenho vindo a alertar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se assim n\u00e3o for, corremos um risco de \u2018passar do 80 para o 8\u2019 e limitar a capacidade de crescimento da economia j\u00e1 no curto prazo, pois h\u00e1 setores que dependem muito de m\u00e3o-de-obra estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Se \u00e9 certo que precisamos de evoluir a especializa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica para setores de maior intensidade em conhecimento e tecnologia, com maior produtividade e menos intensivas em m\u00e3o-de-obra, isso n\u00e3o se decreta atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica de vistos pouco compat\u00edvel com o perfil de especializa\u00e7\u00e3o atual. Tal demora tempo a acontecer e exige reformas e mudan\u00e7a de incentivos que n\u00e3o se vislumbram nas atuais pol\u00edticas desta AD, como tenho vindo a apontar em diversos espa\u00e7os de opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ainda necess\u00e1rio assegurar capacidade de absor\u00e7\u00e3o pela sociedade e pelos servi\u00e7os p\u00fablicos dos imigrantes que j\u00e1 entraram e dos que entrem no futuro, incluindo a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e um reconhecimento mais expedito das suas compet\u00eancias de base \u2013 h\u00e1 evid\u00eancia que aponta para uma sobrequalifica\u00e7\u00e3o dos estrangeiros face aos postos de trabalho que ocupam significativamente maior do que sucede para os trabalhadores em geral \u2013 para corresponder a uma mudan\u00e7a de especializa\u00e7\u00e3o produtiva que urge, requerendo medidas nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a Figura 8 evidencia o ajustamento da popula\u00e7\u00e3o que foi usado para corrigir a s\u00e9rie do n\u00edvel de vida relativo de Portugal face \u00e0 UE. Para tal foi calculado um fator de corre\u00e7\u00e3o, o r\u00e1cio entre os novos valores de popula\u00e7\u00e3o residente do INE e os usados pela CE no c\u00e1lculo do n\u00edvel de vida, neste caso na \u00f3tica das contas nacionais (a popula\u00e7\u00e3o em conceito nacional do INE foi obtida aplicando uma m\u00e9dia m\u00f3vel de dois anos aos dados demogr\u00e1ficos \u2013 ver notas da Figura 8), a mesma do PIB.<\/p>\n\n\n\n<p>O ajustamento efetuado consistiu em dividir o n\u00edvel de vida relativo divulgado pela CE por esse fator de corre\u00e7\u00e3o, que variou entre 1,009 em 2021 e 1,056 em 2023, 2024 e 2025. Isso significa que nesses tr\u00eas \u00faltimos anos a popula\u00e7\u00e3o agora estimada pelo INE est\u00e1 5,6% acima da que foi usada pela CE para calcular o n\u00edvel de vida, o que \u00e9 um desfasamento expressivo, provocando as altera\u00e7\u00f5es descritas anteriormente no n\u00edvel de vida relativo. Para ajustar os valores previstos pela CE para Portugal em 2026 e 2027 apliquei tamb\u00e9m o fator de 2025 (1,056), preservando assim nos dados corrigidos a varia\u00e7\u00e3o anual prevista pela CE para a popula\u00e7\u00e3o portuguesa nos dados originais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 6. Popula\u00e7\u00e3o residente revista (milh\u00f5es de pessoas) e peso dos estrangeiros (%), conceito demogr\u00e1fico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/6-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914291\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Nota: os dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, entre 2021 e 2025, est\u00e3o assinalados pelas barras de padr\u00e3o obl\u00edquo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 7. Popula\u00e7\u00e3o estrangeira residente, conceito demogr\u00e1fico: total e varia\u00e7\u00e3o anual (milh\u00f5es de pessoas)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/7-7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914293\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 8. Popula\u00e7\u00e3o residente (milh\u00f5es), conceito das contas nacionais: dados usados pela CE no c\u00e1lculo do n\u00edvel de vida, dados revistos do INE e fator de corre\u00e7\u00e3o na s\u00e9rie de 2021 a 2025<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/06\/8-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1914294\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>Comiss\u00e3o Europeia (AMECO, mai-25), INE (dados revistos da popula\u00e7\u00e3o, jun-26) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Nota: o conceito de popula\u00e7\u00e3o residente na \u00f3tica das contas nacionais difere do conceito demogr\u00e1fico. Os n\u00fameros do INE em conceito nacional resultam da aplica\u00e7\u00e3o de uma m\u00e9dia m\u00f3vel de dois anos aos dados demogr\u00e1ficos na s\u00e9rie longa de 1970-2025 usada para assegurar comparabilidade. Os dados da CE j\u00e1 est\u00e3o em conceito nacional. De notar que o valor de 2021 em conceito demogr\u00e1fico na s\u00e9rie revista 1970-2025 que foi usada difere do valor constante nas s\u00e9ries 2008-2025 e 2021-2025 usadas acima. De qualquer forma, mesmo que o valor de 2021 usado n\u00e3o seja o correto, o desvio n\u00e3o ser\u00e1 muito significativo e n\u00e3o tem implica\u00e7\u00f5es nos anos seguintes, em que as revis\u00f5es do n\u00edvel de vida s\u00e3o muito mais relevantes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o: Sem bons dados n\u00e3o h\u00e1 bons diagn\u00f3sticos nem boas decis\u00f5es<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O verdadeiro problema revelado pelos novos dados n\u00e3o \u00e9 a revis\u00e3o estat\u00edstica em si mesma, mas antes o seu atraso muito significativo, bem como o tempo prolongado em que os governantes e os agentes econ\u00f3micos assentaram as suas decis\u00f5es em informa\u00e7\u00e3o bastante desatualizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, durante v\u00e1rios anos, o pa\u00eds avaliou o seu desempenho econ\u00f3mico e tomou decis\u00f5es, p\u00fablicas e privadas, com base em informa\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica desatualizada, revelando fragilidades de governa\u00e7\u00e3o e capacidade administrativa que n\u00e3o devem ser ignoradas.<\/p>\n\n\n\n<p>E a realidade econ\u00f3mica revelada pelos novos dados \u00e9 significativamente menos favor\u00e1vel do que aquela que foi transmitida pela narrativa pol\u00edtica dos \u00faltimos governos do PS e desta AD.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal surge agora como o 6\u00ba pior pa\u00eds da UE em n\u00edvel de vida, depois de ter sido sucessivamente ultrapassado por economias que, h\u00e1 poucos anos, se encontravam muito atr\u00e1s de n\u00f3s. Mais preocupante ainda, os novos dados mostram que, mesmo num per\u00edodo mais recente, marcado por fatores tempor\u00e1rios muito favor\u00e1veis \u2014 forte recupera\u00e7\u00e3o do turismo, fundos europeus abundantes, PRR, imigra\u00e7\u00e3o e maior atratividade internacional decorrente do contexto geopol\u00edtico \u2014, o n\u00edvel de vida real dos portugueses continuou a crescer menos do que o da UE e progrediu at\u00e9 relativamente menos do que entre 1999 e 2019 em termos reais, depois de expurgado o impacto da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes resultados devem servir de alerta para todos os respons\u00e1veis pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m para os cidad\u00e3os, que t\u00eam o direito \u2014 e a responsabilidade \u2014 de exigir maior rigor na avalia\u00e7\u00e3o dos resultados econ\u00f3micos e das pol\u00edticas p\u00fablicas, e sobretudo melhores resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa democracia, a qualidade das decis\u00f5es, p\u00fablicas e privadas, depende da qualidade da informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel. Sem conhecer adequadamente a realidade, os eleitores dificilmente poder\u00e3o avaliar o desempenho dos governos e escolher as for\u00e7as pol\u00edticas mais capazes de adotar as medidas necess\u00e1rias para resolver os problemas do pa\u00eds e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos portugueses. Enquanto agentes econ\u00f3micos, poder\u00e3o ainda tomar decis\u00f5es erradas \u00e0 luz de pressupostos errados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O debate p\u00fablico portugu\u00eas continua excessivamente concentrado na gest\u00e3o do curto prazo, quando o verdadeiro desafio reside na capacidade de transformar estruturalmente a economia. Sem ganhos sustentados de produtividade, sem uma especializa\u00e7\u00e3o mais intensiva em conhecimento e tecnologia, sem institui\u00e7\u00f5es mais eficazes e sem melhor utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos dispon\u00edveis, continuaremos a assistir \u00e0 sa\u00edda dos mais qualificados, \u00e0 perda de posi\u00e7\u00f5es nos rankings europeus e \u00e0 eros\u00e3o gradual das nossas perspetivas de converg\u00eancia.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O debate p\u00fablico portugu\u00eas continua excessivamente concentrado na gest\u00e3o do curto prazo, quando o verdadeiro desafio reside na capacidade de transformar estruturalmente a economia. Sem ganhos sustentados de produtividade, sem uma especializa\u00e7\u00e3o mais intensiva em conhecimento e tecnologia, sem institui\u00e7\u00f5es mais eficazes e sem melhor utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos dispon\u00edveis, continuaremos a assistir \u00e0 sa\u00edda dos mais qualificados, \u00e0 perda de posi\u00e7\u00f5es nos rankings europeus e \u00e0 eros\u00e3o gradual das nossas perspetivas de converg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros agora corrigidos, mais do que um embara\u00e7o estat\u00edstico, devem ser encarados como uma oportunidade para abandonar narrativas complacentes e enfrentar a realidade com maior exig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o est\u00e1 condenado ao lugar que ocupa hoje, mas dificilmente conseguir\u00e1 subir os degraus do n\u00edvel de vida europeu enquanto persistir em ignorar os sinais que os dados, finalmente corrigidos, agora revelam com clareza. Se d\u00favidas houvesse que o pa\u00eds precisa mudar de vida e implementar reformas econ\u00f3micas profundas, os resultados aqui apresentados dever\u00e3o dissip\u00e1-las de vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;Eco Magazine Portugal n\u00e3o est\u00e1 condenado ao lugar que ocupa hoje, mas dificilmente conseguir\u00e1 subir ao n\u00edvel de vida europeu enquanto persistir em ignorar os sinais agora conhecidos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49736","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49736"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49736\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49737,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49736\/revisions\/49737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}