{"id":49734,"date":"2026-06-25T20:57:11","date_gmt":"2026-06-25T20:57:11","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49734"},"modified":"2026-06-28T21:02:05","modified_gmt":"2026-06-28T21:02:05","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-430","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49734","title":{"rendered":"Criptografia com acesso excecional: uma ingenuidade perigosa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><span><span style=\"color: rgb(255, 0, 0); font-weight: bold;\">Miguel Diaz Gon\u00e7alves, Jornal SOL<\/span><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/sol.iol.pt\/opiniao\/noticias\/miguel-diaz-goncalves-criptografia-com-acesso-excecional-uma-ingenuidade-perigosa\/20260625\/6a3d64850cf2d0ed34b871b4\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>O conflito entre a necessidade de proteger informa\u00e7\u00e3o de forma robusta e a pretens\u00e3o de garantir acesso excecional para fins de investiga\u00e7\u00e3o criminal n\u00e3o \u00e9 um mero problema t\u00e9cnico (\u2026) A criptografia forte \u00e9 o mecanismo que permite a cidad\u00e3os, empresas e institui\u00e7\u00f5es confiar que as suas comunica\u00e7\u00f5es e dados n\u00e3o ser\u00e3o expostos a abuso, espionagem ou manipula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A criptografia \u00e9 indispens\u00e1vel ao funcionamento das sociedades modernas. Permite operar com seguran\u00e7a os servi\u00e7os digitais que suportam atividades essenciais de cidad\u00e3os, empresas, institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e infraestruturas cr\u00edticas, protegendo informa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel durante a sua transmiss\u00e3o e armazenamento. Quando corretamente concebida e aplicada, assenta em algoritmos amplamente analisados e em protocolos consolidados, garantindo n\u00edveis elevados de confidencialidade e restringindo o acesso ao conte\u00fado a utilizadores devidamente autorizados.<\/p>\n\n\n\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o da Internet como infraestrutura cr\u00edtica tornou a criptografia muito mais do que um tema t\u00e9cnico especializado. Hoje, \u00e9 um pilar da prote\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais, da confian\u00e7a na economia digital e da seguran\u00e7a do Estado. Sem mecanismos robustos de prote\u00e7\u00e3o de dados, ficariam comprometidas \u00e1reas t\u00e3o diversas como as comunica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, o sistema financeiro, a integridade dos processos eleitorais, os servi\u00e7os p\u00fablicos e privados, as cadeias de decis\u00e3o e a prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais. A criptografia forte, integrada em protocolos de comunica\u00e7\u00e3o, sistemas de armazenamento e dispositivos pessoais, tornou-se um requisito b\u00e1sico para sociedades altamente digitalizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a crescente utiliza\u00e7\u00e3o de meios digitais por Estados hostis, organiza\u00e7\u00f5es terroristas e redes de criminalidade organizada alterou profundamente a natureza da prova. Uma parte significativa das intera\u00e7\u00f5es relevantes para a investiga\u00e7\u00e3o criminal ocorre hoje em ambientes digitais. Comunica\u00e7\u00f5es entre suspeitos, coordena\u00e7\u00e3o de atividades il\u00edcitas, circula\u00e7\u00e3o de fundos e prepara\u00e7\u00e3o de atos violentos s\u00e3o frequentemente mediadas por plataformas online e dispositivos m\u00f3veis. Por isso, o acesso a dados e conte\u00fados digitais tornou-se central para o apuramento da verdade material e para a responsabiliza\u00e7\u00e3o penal, levando as autoridades a depender cada vez mais da interce\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00f5es, da apreens\u00e3o de dispositivos e da coopera\u00e7\u00e3o com prestadores de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste ponto que surge a tens\u00e3o estrutural. Por um lado, a lei pode autorizar o acesso a determinados conte\u00fados, em condi\u00e7\u00f5es rigorosas de legalidade, necessidade e proporcionalidade. Por outro, a criptografia forte, concebida para assegurar sigilo mesmo perante advers\u00e1rios poderosos, pode impedir tecnicamente esse acesso, ainda que exista autoriza\u00e7\u00e3o judicial. O despacho de um juiz j\u00e1 n\u00e3o garante, por si s\u00f3, o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, porque a barreira deixou de ser apenas jur\u00eddica e passou a ser tamb\u00e9m matem\u00e1tica e computacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta realidade alimenta a perce\u00e7\u00e3o de um d\u00e9fice de acesso. As autoridades veem-se confrontadas com situa\u00e7\u00f5es em que sabem que a prova pode existir, mas n\u00e3o a conseguem obter em prazo \u00fatil. A opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 confrontada com casos medi\u00e1ticos em que dispositivos apreendidos a suspeitos de terrorismo ou criminalidade grave permanecem inacess\u00edveis por estarem cifrados. Da\u00ed nasce a ideia de que a criptografia se transformou num escudo absoluto para criminosos, criando um espa\u00e7o de impunidade dentro de sistemas que foram concebidos para proteger cidad\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante este cen\u00e1rio, ganha for\u00e7a a narrativa segundo a qual seria necess\u00e1rio corrigir a arquitetura dos sistemas criptogr\u00e1ficos para restaurar uma capacidade de acesso controlado. A proposta apresenta-se como um compromisso: manter a prote\u00e7\u00e3o da generalidade dos utilizadores, mas introduzir mecanismos especiais que permitam \u00e0s autoridades, em situa\u00e7\u00f5es excecionais e com autoriza\u00e7\u00e3o judicial, aceder ao conte\u00fado de comunica\u00e7\u00f5es ou dados cifrados. Pretende-se, assim, replicar no mundo digital a l\u00f3gica tradicional de medidas como buscas domicili\u00e1rias ou escutas telef\u00f3nicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas propostas assumem formas t\u00e9cnicas variadas, mas partilham o mesmo objetivo. Algumas defendem a cria\u00e7\u00e3o de chaves de acesso especiais, guardadas por entidades de confian\u00e7a, que permitiriam aceder a comunica\u00e7\u00f5es ou dispositivos quando devidamente autorizado. Outras prop\u00f5em funcionalidades obrigat\u00f3rias de descodifica\u00e7\u00e3o ou recupera\u00e7\u00e3o de chaves, embutidas em sistemas operativos, aplica\u00e7\u00f5es de mensagens ou hardware. Mais recentemente, surgiram modelos que prometem identificar conte\u00fados il\u00edcitos antes de serem cifrados, atrav\u00e9s de mecanismos de an\u00e1lise do lado do cliente, integrados nos dispositivos dos utilizadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A linguagem usada para justificar estas solu\u00e7\u00f5es \u00e9, quase sempre, a do equil\u00edbrio e da proporcionalidade. Afirma-se que o objetivo n\u00e3o \u00e9 fragilizar a seguran\u00e7a de todos, mas apenas impedir que alguns se escondam atr\u00e1s de uma prote\u00e7\u00e3o excessiva. Argumenta-se que, se os mecanismos forem desenhados com rigor, usados apenas em casos graves e sujeitos a fiscaliza\u00e7\u00e3o judicial e parlamentar, ser\u00e1 poss\u00edvel preservar a privacidade dos cidad\u00e3os cumpridores da lei, ao mesmo tempo que se refor\u00e7a a investiga\u00e7\u00e3o criminal e a preven\u00e7\u00e3o do terrorismo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, a proposta parece razo\u00e1vel. Responde a casos dram\u00e1ticos em que a impossibilidade de aceder a dados cifrados \u00e9 associada, real ou simbolicamente, \u00e0 incapacidade de evitar um atentado ou de desmantelar uma rede criminosa. A promessa de uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica capaz de conciliar seguran\u00e7a p\u00fablica e prote\u00e7\u00e3o de dados exerce, por isso, um forte apelo pol\u00edtico junto de decisores e da opini\u00e3o p\u00fablica. O problema \u00e9 que esta aparente modera\u00e7\u00e3o assenta em pressupostos t\u00e9cnicos e institucionais que n\u00e3o resistem a um escrut\u00ednio rigoroso.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro equ\u00edvoco \u00e9 acreditar que se pode introduzir uma fragilidade controlada num sistema criptogr\u00e1fico, acess\u00edvel apenas a atores considerados leg\u00edtimos. Do ponto de vista t\u00e9cnico, um sistema que cont\u00e9m uma via extraordin\u00e1ria de acesso fica, por defini\u00e7\u00e3o, comprometido. A cria\u00e7\u00e3o desse mecanismo aumenta o n\u00famero de entidades em quem \u00e9 necess\u00e1rio confiar: quem det\u00e9m a chave adicional, quem a gere, quem supervisiona o seu uso e todas as organiza\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pela sua prote\u00e7\u00e3o. Cada novo ponto de confian\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m um novo ponto potencial de falha, seja t\u00e9cnica, organizacional ou humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos peritos independentes \u00e9 clara neste ponto. Uma chave adicional, uma funcionalidade oculta de descodifica\u00e7\u00e3o ou um componente dedicado de acesso extraordin\u00e1rio aumentam inevitavelmente a superf\u00edcie de ataque. Criam novos vetores de explora\u00e7\u00e3o e novas oportunidades para advers\u00e1rios com capacidade t\u00e9cnica. Qualquer vulnerabilidade associada a esse mecanismo ser\u00e1, mais cedo ou mais tarde, procurada e explorada por Estados hostis, grupos criminosos ou outros atores maliciosos.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria confirma este padr\u00e3o. A proposta do Clipper Chip, nos anos 90, demonstrou como um modelo de cust\u00f3dia de chaves, concebido para permitir o acesso das autoridades, acabava por enfraquecer a confidencialidade das comunica\u00e7\u00f5es e por ser tecnicamente contorn\u00e1vel. O incidente da Vodafone na Gr\u00e9cia mostrou como funcionalidades de interce\u00e7\u00e3o legal integradas em equipamentos de rede puderam ser comprometidas e usadas para escutas clandestinas de comunica\u00e7\u00f5es de membros do Governo. O esc\u00e2ndalo de escutas da Telecom Italia revelou a utiliza\u00e7\u00e3o il\u00edcita de capacidades internas de acesso a registos de tr\u00e1fego, por elementos dos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es e da pr\u00f3pria operadora, para vigiar milhares de pessoas fora de qualquer quadro legal. O caso Dual_EC_DRBG exp\u00f4s como uma norma internacional de gera\u00e7\u00e3o de n\u00fameros pseudoaleat\u00f3rios, suspeita de incorporar um canal excecional de acesso promovido por servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es, acabou por minar a confian\u00e7a numa infraestrutura criptogr\u00e1fica que deveria ser neutra e robusta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, a campanha atribu\u00edda ao grupo Salt Typhoon, associado ao Estado chin\u00eas, ter\u00e1 comprometido infraestruturas de operadores de telecomunica\u00e7\u00f5es norte-americanos destinadas ao cumprimento de ordens judiciais de interce\u00e7\u00e3o e pedidos legais de dados. Esse comprometimento ter\u00e1 permitido acesso n\u00e3o autorizado a dados de localiza\u00e7\u00e3o e, em alguns casos, ao conte\u00fado das comunica\u00e7\u00f5es. O padr\u00e3o \u00e9 evidente: canais de acesso extraordin\u00e1rio criados para fins leg\u00edtimos tornam-se pontos de vulnerabilidade explor\u00e1veis por terceiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Num contexto global, em que sistemas criptogr\u00e1ficos s\u00e3o utilizados em milh\u00f5es de dispositivos e em m\u00faltiplos ambientes, a probabilidade de comprometimento cresce de forma significativa. Perante o atual clima geopol\u00edtico, com guerra no continente europeu, democracias ocidentais sujeitas a opera\u00e7\u00f5es hostis no ciberespa\u00e7o e alian\u00e7as tradicionais menos previs\u00edveis, aumentar deliberadamente a superf\u00edcie de ataque \u00e9 uma decis\u00e3o de elevado risco. O que \u00e9 apresentado como instrumento cir\u00fargico de investiga\u00e7\u00e3o pode transformar-se num risco sist\u00e9mico para cidad\u00e3os, empresas, infraestruturas cr\u00edticas e at\u00e9 para as pr\u00f3prias entidades que pretendem refor\u00e7ar a seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A estes riscos soma-se um segundo equ\u00edvoco, de natureza pol\u00edtica e institucional. Criar mecanismos de acesso extraordin\u00e1rio pressup\u00f5e um grau muito elevado de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es que gerem as chaves, operam os sistemas ou supervisionam a sua utiliza\u00e7\u00e3o. Essa depend\u00eancia j\u00e1 seria problem\u00e1tica dentro de uma \u00fanica jurisdi\u00e7\u00e3o. Torna-se ainda mais grave num ambiente digital global, onde solu\u00e7\u00f5es embutidas em produtos comerciais tendem a disseminar-se por pa\u00edses com padr\u00f5es distintos de Estado de direito, separa\u00e7\u00e3o de poderes e prote\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais. Uma funcionalidade concebida num contexto democr\u00e1tico pode ser apropriada por regimes autorit\u00e1rios para vigil\u00e2ncia pol\u00edtica, controlo de dissidentes e repress\u00e3o de minorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo dentro de Estados de direito consolidados, existe o risco de alargamento progressivo da finalidade. Instrumentos criados para combater amea\u00e7as extremas podem, ao longo do tempo, passar a ser usados em investiga\u00e7\u00f5es de menor gravidade. Altera\u00e7\u00f5es legislativas, press\u00f5es conjunturais, mudan\u00e7as pol\u00edticas ou simples in\u00e9rcia institucional podem enfraquecer os mecanismos de controlo. O que come\u00e7a como exce\u00e7\u00e3o para terrorismo ou criminalidade organizada pode tornar-se pr\u00e1tica corrente. Esta expans\u00e3o silenciosa corr\u00f3i o princ\u00edpio da proporcionalidade e contribui para normalizar a vigil\u00e2ncia, com efeitos dissuasores sobre a liberdade de express\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a atividade jornal\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro equ\u00edvoco \u00e9 operativo e regulat\u00f3rio. Parte-se da premissa de que uma obriga\u00e7\u00e3o de acesso excecional seria exequ\u00edvel e eficaz contra os alvos mais relevantes. Na pr\u00e1tica, a sua aplica\u00e7\u00e3o seria dif\u00edcil de garantir e f\u00e1cil de contornar por advers\u00e1rios tecnicamente competentes. A criptografia moderna assenta em primitivas matem\u00e1ticas implement\u00e1veis por software. Pode ser usada atrav\u00e9s de bibliotecas de c\u00f3digo aberto, aplica\u00e7\u00f5es desenvolvidas fora da jurisdi\u00e7\u00e3o relevante ou ferramentas criadas \u00e0 medida, sem depend\u00eancia de fornecedores regulados. Quem tiver inten\u00e7\u00e3o deliberada de ocultar comunica\u00e7\u00f5es tender\u00e1 a migrar para solu\u00e7\u00f5es alternativas fora do alcance dessa obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado prov\u00e1vel seria, portanto, paradoxal. Os agentes mais sofisticados encontrariam formas de contornar os mecanismos impostos, enquanto cidad\u00e3os, empresas e organiza\u00e7\u00f5es cumpridoras ficariam sujeitos a sistemas estruturalmente fragilizados. A seguran\u00e7a geral diminuiria, mas o ganho operacional sobre os alvos de maior valor seria marginal e incerto.<\/p>\n\n\n\n<p>O conflito entre a necessidade de proteger informa\u00e7\u00e3o de forma robusta e a pretens\u00e3o de garantir acesso excecional para fins de investiga\u00e7\u00e3o criminal n\u00e3o \u00e9 um mero problema t\u00e9cnico. \u00c9 um dilema estrutural sobre o tipo de sociedade que queremos construir num contexto de digitaliza\u00e7\u00e3o total. A criptografia forte \u00e9 o mecanismo que permite a cidad\u00e3os, empresas e institui\u00e7\u00f5es confiar que as suas comunica\u00e7\u00f5es e dados n\u00e3o ser\u00e3o expostos a abuso, espionagem ou manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Este dilema torna-se ainda mais exigente num momento em que a ordem de seguran\u00e7a europeia se degradou e em que a depend\u00eancia de garantias externas se tornou mais incerta. A prote\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00f5es, cadeias de decis\u00e3o e infraestruturas cr\u00edticas deixou de ser apenas uma boa pr\u00e1tica t\u00e9cnica. Passou a ser um requisito de resili\u00eancia estrat\u00e9gica. Enfraquecer a criptografia por desenho, mesmo em nome de fins leg\u00edtimos, \u00e9 aceitar uma vulnerabilidade duradoura num ambiente em que a press\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e9 cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p>As propostas que ambicionam introduzir canais de acesso extraordin\u00e1rio partem de uma premissa sedutora: a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel enfraquecer seletivamente a prote\u00e7\u00e3o apenas quando tal for considerado necess\u00e1rio e leg\u00edtimo. Mas esse enfraquecimento nunca \u00e9 verdadeiramente seletivo. Qualquer fragilidade introduzida deixa de ser uma exce\u00e7\u00e3o control\u00e1vel e passa a constituir um risco permanente, explor\u00e1vel por advers\u00e1rios diversos, em contextos jur\u00eddicos e pol\u00edticos que escapam ao controlo dos seus proponentes originais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem defende este tipo de solu\u00e7\u00e3o ignora a assimetria das consequ\u00eancias. Os benef\u00edcios potenciais de um mecanismo de acesso extraordin\u00e1rio s\u00e3o incertos, dependem de casos concretos e podem, em muitos cen\u00e1rios, ser substitu\u00eddos por outras t\u00e9cnicas de investiga\u00e7\u00e3o digital ou tradicional. Em contraste, os riscos s\u00e3o estruturais. Uma vez enfraquecida, a infraestrutura criptogr\u00e1fica que protege a sociedade n\u00e3o pode ser facilmente restaurada. A exposi\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de cidad\u00e3os e organiza\u00e7\u00f5es a novos vetores de ataque, a possibilidade de abuso por atores maliciosos e a eros\u00e3o gradual das garantias pr\u00f3prias de um Estado de direito s\u00e3o custos permanentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Defender sistemas criptogr\u00e1ficos robustos, sem portas especiais nem canais privilegiados, n\u00e3o significa ignorar as necessidades da investiga\u00e7\u00e3o criminal ou da seguran\u00e7a nacional. Significa reconhecer que a prote\u00e7\u00e3o consistente da confidencialidade e da integridade dos dados \u00e9 condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para a pr\u00f3pria seguran\u00e7a das sociedades abertas. Qualquer solu\u00e7\u00e3o que sacrifique esse requisito em nome de uma promessa de seguran\u00e7a n\u00e3o representa um verdadeiro equil\u00edbrio. Representa uma ced\u00eancia estrutural que fragiliza simultaneamente a privacidade dos cidad\u00e3os, a resili\u00eancia das infraestruturas e a legitimidade das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro equil\u00edbrio n\u00e3o est\u00e1 em comprometer a robustez da criptografia, mas em refor\u00e7ar as capacidades de investiga\u00e7\u00e3o dentro do quadro do Estado de direito. Isso implica investir em meios t\u00e9cnicos especializados, coopera\u00e7\u00e3o internacional eficaz, per\u00edcia digital avan\u00e7ada, an\u00e1lise forense, intelig\u00eancia orientada por garantias legais e mecanismos de controlo rigorosos. Implica tamb\u00e9m aceitar que nem todos os obst\u00e1culos t\u00e9cnicos devem ser removidos \u00e0 custa da seguran\u00e7a coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A op\u00e7\u00e3o colocada aos decisores \u00e9 clara. Ou se preserva uma infraestrutura criptogr\u00e1fica s\u00f3lida, capaz de proteger a confidencialidade, a integridade dos sistemas e a estabilidade das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, ou se aceita uma fragiliza\u00e7\u00e3o estrutural em nome de uma promessa de maior seguran\u00e7a que, na pr\u00e1tica, abre caminho a novos abusos, novas formas de vigil\u00e2ncia e maior exposi\u00e7\u00e3o a ataques. Reconhecer que a \u201csolu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil\u201d \u00e9 uma ilus\u00e3o perigosa \u00e9 o primeiro passo para construir respostas mais eficazes, mais seguras e mais compat\u00edveis com os valores fundamentais das sociedades democr\u00e1ticas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Diaz Gon\u00e7alves, Jornal SOL O conflito entre a necessidade de proteger informa\u00e7\u00e3o de forma robusta e a pretens\u00e3o de garantir acesso excecional para fins de investiga\u00e7\u00e3o criminal n\u00e3o \u00e9 um mero problema t\u00e9cnico (\u2026) A criptografia forte \u00e9 o mecanismo que permite a cidad\u00e3os, empresas e institui\u00e7\u00f5es confiar que as suas comunica\u00e7\u00f5es e dados&hellip; <a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49734\">Ler mais&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,303],"tags":[],"class_list":["post-49734","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-sol"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49734"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49735,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49734\/revisions\/49735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}