{"id":49690,"date":"2026-05-07T08:00:00","date_gmt":"2026-05-07T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49690"},"modified":"2026-05-10T20:37:25","modified_gmt":"2026-05-10T20:37:25","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-423","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49690","title":{"rendered":"Muito investimento estrangeiro, pouca transforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;Eco Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/muito-investimento-estrangeiro-pouca-transformacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A pol\u00edtica de atra\u00e7\u00e3o de investimento tem de estar integrada num modelo mais amplo de transforma\u00e7\u00e3o estrutural, orientada para a produtividade e a sofistica\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Portugal surge frequentemente bem posicionado nos rankings de Investimento Direto Estrangeiro (IDE), nomeadamente no contexto europeu. Contudo, este aparente sucesso esconde um problema estrutural que importa discutir. N\u00e3o \u00e9 apenas a quantidade de investimento que importa, mas sobretudo a sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A evid\u00eancia que aqui trago revela que o stock acumulado de IDE em Portugal est\u00e1 concentrado em setores com menor capacidade de gerar produtividade, inova\u00e7\u00e3o e crescimento sustentado, o que \u00e9 consistente com um perfil de especializa\u00e7\u00e3o produtivo de baixo valor que j\u00e1 apontei em cr\u00f3nicas anteriores. Ou seja, Portugal tem at\u00e9 um montante de investimento estrangeiro acumulado bastante significativo, em termos relativos, mas n\u00e3o necessariamente o investimento certo, que transforme a economia e a leve a maiores patamares de produtividade e n\u00edvel de vida, indicadores cruciais em que o pa\u00eds continua significativamente abaixo da m\u00e9dia da UE e at\u00e9 perto do fim da tabela.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds est\u00e1 especializado em turismo e outras atividades de baixa produtividade, o que se reflete nos n\u00fameros do IDE, como mostro abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem pol\u00edticas p\u00fablicas e incentivos adequados \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do perfil de especializa\u00e7\u00e3o, continuaremos a atrair IDE que contribui para algum emprego e atividade, mas limitada capacidade de arrastamento sobre o conjunto da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mudar este padr\u00e3o exige escolhas que, at\u00e9 agora, t\u00eam sido sistematicamente adiadas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Stock de IDE face ao PIB relativamente alto, mas com pouco peso da ind\u00fastria avan\u00e7ada<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A Figura 1 mostra que Portugal tinha, no final de 2023, um stock (posi\u00e7\u00e3o) de IDE de 66,1% do PIB, correspondendo \u00e0 7\u00aa posi\u00e7\u00e3o em 22 pa\u00edses da UE com dados dispon\u00edveis (a fonte \u00e9 a OCDE).<\/p>\n\n\n\n<p>O valor est\u00e1 acima tanto da m\u00e9dia simples corrigida da UE (excluindo a Finl\u00e2ndia, por n\u00e3o ter dados completos, e o Luxemburgo por ser um outlier que distorce a m\u00e9dia, refletindo o seu papel como centro financeiro internacional), de 64,6%, como da m\u00e9dia dos pa\u00edses de Leste (53,1%).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a an\u00e1lise abaixo da composi\u00e7\u00e3o setorial do stock de IDE sugere que o n\u00edvel relativamente elevado face ao PIB n\u00e3o se traduz, necessariamente, num contributo proporcional para a produtividade agregada e o crescimento potencial de Portugal, refletindo o perfil de especializa\u00e7\u00e3o de baixo valor apontado em anteriores cr\u00f3nicas, para o qual contribuem fragilidades no desenho e na execu\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, os dados indicam que o stock de IDE de Portugal se encontra relativamente concentrado em setores menos expostos \u00e0 concorr\u00eancia internacional (n\u00e3o transacion\u00e1veis) \u2013 como servi\u00e7os imobili\u00e1rios e parte dos servi\u00e7os empresariais e atividades financeiras \u2013, bem como em setores de rede (por exemplo, eletricidade e g\u00e1s), em detrimento de setores transacion\u00e1veis de maior intensidade tecnol\u00f3gica e maior produtividade, como a ind\u00fastria transformadora e determinados servi\u00e7os intensivos em conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura emp\u00edrica mostra que os efeitos positivos do IDE \u2013 designadamente spillovers tecnol\u00f3gicos, difus\u00e3o de conhecimento e integra\u00e7\u00e3o em cadeias de valor globais \u2013 s\u00e3o, em m\u00e9dia, mais fortes em setores transacion\u00e1veis e tecnologicamente mais avan\u00e7ados, o que ajuda a explicar por que raz\u00e3o a atual composi\u00e7\u00e3o do IDE em Portugal, detalhada abaixo, pode limitar esses benef\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>De notar que o stock de IDE traduz o investimento acumulado ao longo do tempo que permanece na economia, ou seja, n\u00e3o foi ainda alvo de desinvestimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A Figura 1 permite constatar que Portugal ocupa tamb\u00e9m a 7\u00aa posi\u00e7\u00e3o no r\u00e1cio do stock de IDE dos servi\u00e7os (44,3% do PIB) e a 2\u00aa posi\u00e7\u00e3o (15,3%, apenas abaixo do valor de 17,6% registado em Espanha) num conjunto agregado de setores (sec\u00e7\u00f5es A, B, C e E da CAE) para os quais n\u00e3o h\u00e1 dados separados. Este agregado inclui atividades heterog\u00e9neas, entre as quais setores de rede (eletricidade, g\u00e1s e saneamento), agricultura e ind\u00fastrias extrativas, o que limita a interpreta\u00e7\u00e3o desagregada dos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos setores de rede, a presen\u00e7a de capital estrangeiro est\u00e1 associada a ativos regulados e intensivos em capital, como \u00e9 o caso da REN \u2013 Redes Energ\u00e9ticas Nacionais, enquanto nos restantes setores (agricultura e ind\u00fastria extrativa) o peso relativo do IDE ser\u00e1, em geral, mais reduzido e\/ou recente, nomeadamente no caso de projetos associados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de l\u00edtio. Importa ainda assinalar que Portugal ocupa a 4\u00aa posi\u00e7\u00e3o no setor da Constru\u00e7\u00e3o (1,3% do PIB), mas o valor \u00e9 relativamente reduzido, da\u00ed ser pouco vis\u00edvel na Figura 1. Esta posi\u00e7\u00e3o relativa mais favor\u00e1vel estar\u00e1, em parte, associada \u00e0 din\u00e2mica do IDE em atividades conexas, em particular no setor imobili\u00e1rio, analisado abaixo em detalhe.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1. Stock de IDE (% do PIB) em 22 pa\u00edses da UE no final de 2023: total e principais setores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/05\/captura-de-ecra-2026-05-06-as-192455.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1880075\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>:&nbsp;<em>OCDE (FDI in Figures, October 2025; OECD Data Explorer \u2013 FDI positions by economic activity, BMD4) e c\u00e1lculos dos autores. Notas: dados ordenados pelo total. A coluna de valores do Luxemburgo (1107,6% do PIB) n\u00e3o aparece completamente porque foi escolhido um limite superior que permita visualizar melhor o resto da distribui\u00e7\u00e3o. M.s. = M\u00e9dia simples. Os valores de Portugal est\u00e3o assinalados em caixas de bordo vermelho, acompanhados do ranking na UE a cinza. A seguir a designa\u00e7\u00e3o de cada setor est\u00e1 indicada entre par\u00eantesis a respetiva sec\u00e7\u00e3o da CAE.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O stock de IDE face ao PIB relativamente elevado nos servi\u00e7os e no grupo de setores sem dados individualizados contrasta com o valor reduzido na ind\u00fastria transformadora \u2013 um setor tipicamente associado a economias de escala, maior intensidade tecnol\u00f3gica e maior potencial de difus\u00e3o de ganhos de produtividade para o conjunto da economia -, o que tende a limitar o impacto estrutural do IDE sobre o crescimento da produtividade em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2023, o stock de IDE da IT situava-se em 5,2% do PIB, o que corresponde \u00e0 17\u00aa posi\u00e7\u00e3o em 22 pa\u00edses da UE com dados (ver Figura 1 e Figura 2). Trata-se de um valor que \u00e9 menos de metade da m\u00e9dia simples corrigida da UE (12,8%) e da m\u00e9dia dos pa\u00edses de Leste (10,6%) \u2013 ver Figura 2. O contraste \u00e9 ainda maior face a economias com elevado n\u00edvel de rendimento e\/ou forte integra\u00e7\u00e3o em cadeias de valor internacionais, como Irlanda (67,5%), Su\u00e9cia, Pa\u00edses Baixos (20,9%), B\u00e9lgica (20,2%) e Rep\u00fablica Checa (16,4%), o que sugere uma menor capacidade de Portugal para atrair IDE orientado para atividades industriais de maior valor acrescentado.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura sobre cadeias de valor globais evidencia que a participa\u00e7\u00e3o em segmentos a montante (upstream) e a jusante (downstream) de maior intensidade tecnol\u00f3gica e de conhecimento est\u00e1 associada a maior captura de valor acrescentado e a efeitos de aprendizagem mais significativos. Neste contexto, a evid\u00eancia que apresentei em anteriores cr\u00f3nicas sobre a especializa\u00e7\u00e3o produtiva de Portugal sugere que o pa\u00eds se posiciona predominantemente em segmentos interm\u00e9dios das cadeias de valor, caracterizados por menor intensidade tecnol\u00f3gica e menor capacidade de apropria\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o IDE presente na IT portuguesa, embora relevante em termos absolutos, \u00e9 pequeno em termos relativos e parece concentrar-se em atividades de menor sofistica\u00e7\u00e3o relativa, o que limita o seu contributo potencial para a transforma\u00e7\u00e3o estrutural da economia, nomeadamente ao n\u00edvel da produtividade, inova\u00e7\u00e3o e progress\u00e3o (upgrading) nas cadeias de valor globais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 2. Stock de IDE na Ind\u00fastria Transformadora (% do PIB) em 22 pa\u00edses da UE no final de 2023<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/05\/captura-de-ecra-2026-05-06-as-192642.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1880078\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>:&nbsp;<em>OCDE (FDI in Figures, October 2025; OECD Data Explorer \u2013 FDI positions by economic activity, BMD4) e c\u00e1lculos dos autores. Notas: Dados ordenados. O valor de Portugal est\u00e1 assinalado numa caixa de bordo vermelho, acompanhado do ranking na UE a cinza. M.s. = M\u00e9dia simples.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Elevado stock de IDE nos servi\u00e7os concentrado em \u00e1reas de menor valor acrescentado, como imobili\u00e1rio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Quanto ao stock de IDE face ao PIB dos servi\u00e7os, os dados dispon\u00edveis mostram que para a 7\u00aa posi\u00e7\u00e3o de Portugal em 22 pa\u00edses da UE (44,3%, como j\u00e1 referido) contribuem sobretudo os setores de Atividades Profissionais, Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas (sec\u00e7\u00e3o M da CAE), na 6\u00aa posi\u00e7\u00e3o (11,6%), o Imobili\u00e1rio (L), na 5\u00aa posi\u00e7\u00e3o (5,4%) e um grupo residual de servi\u00e7os sem dados individualizados, na 4\u00aa posi\u00e7\u00e3o (6,0%) \u2013 ver Figura 3.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos casos do imobili\u00e1rio e de parte dos servi\u00e7os n\u00e3o desagregados, a literatura econ\u00f3mica associa estes setores a menor exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 concorr\u00eancia internacional e a n\u00edveis mais reduzidos de produtividade e difus\u00e3o tecnol\u00f3gica, o que tende a implicar um contributo mais limitado para o crescimento de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>De assinalar ainda que, no imobili\u00e1rio, a entrada de capital estrangeiro \u2013 muito associada ao crescimento do turismo \u2013 dinamiza a atividade econ\u00f3mica, mas pode tamb\u00e9m contribuir para press\u00f5es ascendentes sobre os pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando nos segmentos de maior valor, mas que se repercute depois aos demais. Isto porque incentiva a constru\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o da oferta nos segmentos de maior valor em detrimento das gamas m\u00e9dia e baixa, reduzindo a sua oferta e contribuindo para diminuir a acessibilidade \u00e0 habita\u00e7\u00e3o de uma franja crescente da popula\u00e7\u00e3o \u2013 o que refor\u00e7a a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas com incentivos adequados para reequilibrar o mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao investimento estrangeiro nas Atividades Profissionais, Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas, apesar de se tratar de um setor potencialmente intensivo em conhecimento, a evid\u00eancia dispon\u00edvel sugere que uma parte relevante do IDE tem incidido em atividades de servi\u00e7os empresariais de menor valor acrescentado relativo \u2013 nomeadamente, centros de servi\u00e7os partilhados e apoio administrativo de multinacionais -, que beneficiam de m\u00e3o de obra portuguesa relativamente qualificada a custos salariais comparativamente mais baixos no contexto europeu. Este padr\u00e3o \u00e9 consistente com estrat\u00e9gias de efici\u00eancia de IDE (efficiency-seeking), em detrimento de investimento orientado para inova\u00e7\u00e3o (asset-seeking), o que limita os efeitos estruturais sobre a produtividade e a sofistica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 3. Stock de IDE nos Servi\u00e7os (% do PIB) em 22 pa\u00edses da UE no final de 2023: total e principais setores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/05\/captura-de-ecra-2026-05-06-as-192820.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1880081\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>:&nbsp;<em>OCDE (FDI in Figures, October 2025; OECD Data Explorer \u2013 FDI positions by economic activity, BMD4) e c\u00e1lculos dos autores. Notas: Dados ordenados pelo total. Os valores de Portugal est\u00e3o assinalados em caixas de bordo vermelho, acompanhados do ranking na UE a cinza. M.s. = M\u00e9dia simples.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos demais setores de servi\u00e7os identificados na Figura 3, Portugal encontra-se sensivelmente a meio da tabela: 10\u00aa posi\u00e7\u00e3o em 22 pa\u00edses com dados no Com\u00e9rcio e repara\u00e7\u00e3o autom\u00f3vel; 11\u00aa posi\u00e7\u00e3o nas Atividades Financeiras e Seguradoras (14,2% do PIB; sec\u00e7\u00e3o K da CAE) e 10\u00aa posi\u00e7\u00e3o nos servi\u00e7os de Informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o (2,5%; sec\u00e7\u00e3o J).<\/p>\n\n\n\n<p>Estes dois \u00faltimos setores s\u00e3o tipicamente intensivos em conhecimento e com elevado potencial exportador, pelo que o investimento estrangeiro poderia desempenhar um papel mais relevante na cria\u00e7\u00e3o de valor e na sofistica\u00e7\u00e3o da estrutura produtiva, mesmo que o seu peso no stock de IDE seja apenas interm\u00e9dio. Contudo, a evid\u00eancia sugere que, tal como nas Atividades Profissionais, Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas, o contributo do IDE nestes setores para as exporta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os intensivos em conhecimento permanece limitado.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso das atividades financeiras, n\u00e3o se observa uma especializa\u00e7\u00e3o significativa em servi\u00e7os transacion\u00e1veis de maior valor acrescentado (como servi\u00e7os financeiros internacionais), sugerindo antes uma predomin\u00e2ncia de modelos de neg\u00f3cio mais orientados para o mercado interno e atividades tradicionais da banca. De modo similar, Portugal n\u00e3o apresenta uma express\u00e3o relevante nas exporta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os digitais, o que sugere que o IDE nos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sido predominantemente orientado para atividades exportadoras de maior valor acrescentado, mas antes para segmentos mais voltados para o mercado interno ou de menor intensidade tecnol\u00f3gica relativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, Portugal apresenta um dos pesos mais baixos da UE de servi\u00e7os intensivos em conhecimento no total das exporta\u00e7\u00f5es de servi\u00e7os (28,1%, o 3.\u00ba valor mais baixo da UE, face a uma m\u00e9dia de 43,3%; dados do Eurostat), o que \u00e9 consistente com a especializa\u00e7\u00e3o relativa da economia no turismo e noutros servi\u00e7os menos intensivos em conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o: Mais importante do que atrair investimento \u00e9 orient\u00e1-lo para a transforma\u00e7\u00e3o da economia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o tem um problema de quantidade de IDE \u2014 tem um problema de composi\u00e7\u00e3o. Apesar do n\u00edvel relativamente elevado de IDE em percentagem do PIB, a sua concentra\u00e7\u00e3o em setores menos produtivos, menos transacion\u00e1veis e com menor intensidade tecnol\u00f3gica limita os ganhos em produtividade, inova\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o nas cadeias de valor globais. Assim, o contributo do investimento estrangeiro para a converg\u00eancia real da economia portuguesa fica aqu\u00e9m do seu potencial.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta n\u00e3o passa por atrair mais investimento indiscriminadamente, mas por reorientar a sua natureza. Isso implica, desde logo, refor\u00e7ar a competitividade fiscal, tornando Portugal mais atrativo para capital e talento em setores de maior valor acrescentado. Exige tamb\u00e9m maior seletividade estrat\u00e9gica na capta\u00e7\u00e3o de IDE, privilegiando projetos com conte\u00fado tecnol\u00f3gico, voca\u00e7\u00e3o exportadora e capacidade de gerar spillovers relevantes na economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o chega. Os instrumentos de pol\u00edtica p\u00fablica devem estar alinhados com este objetivo, favorecendo investimento que promova transfer\u00eancia de conhecimento, liga\u00e7\u00f5es ao tecido empresarial nacional e desenvolvimento de compet\u00eancias. Ao mesmo tempo, \u00e9 essencial garantir estabilidade e previsibilidade no enquadramento fiscal e regulat\u00f3rio \u2014 condi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas para investimento de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta estrat\u00e9gia deve ser complementada por pol\u00edticas estruturais: refor\u00e7o do capital humano, aposta em \u00e1reas STEM, maior articula\u00e7\u00e3o entre universidades e empresas e apoio efetivo \u00e0 inova\u00e7\u00e3o empresarial. Sem estas condi\u00e7\u00f5es, Portugal continuar\u00e1 a atrair sobretudo investimento orientado para efici\u00eancia de custos, e n\u00e3o para cria\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, importa evitar enviesamentos que favore\u00e7am excessivamente o IDE em setores protegidos ou n\u00e3o transacion\u00e1veis, assegurando uma aloca\u00e7\u00e3o mais eficiente de recursos na economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, a pol\u00edtica de atra\u00e7\u00e3o de investimento tem de estar integrada numa estrat\u00e9gia mais ampla de transforma\u00e7\u00e3o estrutural, orientada para a produtividade e a sofistica\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es. Porque o verdadeiro desafio n\u00e3o \u00e9 captar capital \u2014 \u00e9 garantir que ele transforma a economia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;Eco Magazine A pol\u00edtica de atra\u00e7\u00e3o de investimento tem de estar integrada num modelo mais amplo de transforma\u00e7\u00e3o estrutural, orientada para a produtividade e a sofistica\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49690","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49690"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49690\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49691,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49690\/revisions\/49691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}