{"id":49620,"date":"2026-03-19T19:13:08","date_gmt":"2026-03-19T19:13:08","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49620"},"modified":"2026-03-22T19:17:25","modified_gmt":"2026-03-22T19:17:25","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-140","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49620","title":{"rendered":"Portugal: um caso de auto-sabotagem"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><span style=\"color: #d8070f;\">Pedro Moura, Expresso online<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2026-03-19-portugal-um-caso-de-auto-sabotagem-0f935abf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A reforma exige algo mais dif\u00edcil: institui\u00e7\u00f5es que valorizem m\u00e9rito e resultados, que responsabilizem neglig\u00eancia e incompet\u00eancia, e que reduzam espa\u00e7o para redes de influ\u00eancia, captura e&nbsp;lobbying&nbsp;pouco transparente<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Portugal tem um talento curioso: conseguimos frequentemente criar sistemas que tornam dif\u00edcil fazer aquilo que todos dizem ser necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de burocracia no sentido mais banal da palavra. Trata-se de algo mais profundo - uma combina\u00e7\u00e3o de regras acumuladas, estruturas administrativas pesadas e culturas organizacionais que, ao longo do tempo, aprenderam sobretudo a&nbsp;evitar riscos, mesmo quando isso significa agir mais devagar do que o pa\u00eds precisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 um fen\u00f3meno relativamente raro: sistemas que acabam por dificultar a vida de&nbsp;tr\u00eas grupos ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro \u00e9 o mais vis\u00edvel:&nbsp;o cidad\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem j\u00e1 tentou resolver um assunto simples com a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica conhece a sensa\u00e7\u00e3o. Um processo que exige documentos que o pr\u00f3prio Estado j\u00e1 possui. Um pedido que passa por v\u00e1rios servi\u00e7os sem que seja claro quem pode decidir&nbsp;ou resolver cabalmente a situa\u00e7\u00e3o. Procedimentos que exigem pareceres sucessivos antes de chegar a uma conclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria das vezes ningu\u00e9m est\u00e1 propriamente a bloquear nada. Cada servi\u00e7o cumpre as regras que lhe foram atribu\u00eddas. Cada t\u00e9cnico procura garantir que fez tudo \u201ccomo manda o procedimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o resultado \u00e9 conhecido: processos lentos, responsabilidades difusas e frustra\u00e7\u00e3o crescente.<\/p>\n\n\n\n<p>Este tipo de sistemas tem tamb\u00e9m um efeito menos discutido. Quando as regras s\u00e3o muitas, os processos s\u00e3o opacos e as decis\u00f5es est\u00e3o fragmentadas, surgem inevitavelmente pequenas zonas de discricionariedade. Para a maioria dos profissionais isso \u00e9 apenas mais uma dificuldade do sistema. Mas para alguns pode transformar-se numa sensa\u00e7\u00e3o de&nbsp;\u201cpequeno poder\u201d: a capacidade de atrasar, desbloquear ou interpretar procedimentos de forma que outros dificilmente conseguem contestar.&nbsp;E noutras, raras vezes, encontra-se algu\u00e9m mais generoso que \u2018magicamente\u2019 resolve um problema que parecia insol\u00favel. Comme \u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno generalizado, nem explica o funcionamento da maioria dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Mas sistemas excessivamente complexos tendem a criar estes espa\u00e7os \u2014 e esses espa\u00e7os s\u00e3o sempre terreno f\u00e9rtil para comportamentos menos escrutin\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo grupo que sofre com isto \u00e9 menos vis\u00edvel:&nbsp;os decisores pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>No debate p\u00fablico discute-se legisla\u00e7\u00e3o e reformas anunciadas. Mas governar um sistema complexo \u00e9 muito mais do que aprovar leis.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a decis\u00e3o pol\u00edtica e a realidade existe um territ\u00f3rio vasto de regulamenta\u00e7\u00e3o, pareceres jur\u00eddicos e culturas administrativas sedimentadas ao longo de d\u00e9cadas, devidamente mantidas e observadas por camadas e camadas de funcion\u00e1rios e diretores&nbsp;aparentemente&nbsp;com pouca&nbsp;vontade de&nbsp;resolver problemas e fazer acontecer.&nbsp;\u00c9 nesse territ\u00f3rio que muitas reformas acabam por perder velocidade&nbsp;--&nbsp;ou simplesmente ficar pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso, sempre que surgem crises s\u00e9rias, o pr\u00f3prio Estado reconhece implicitamente o problema. Em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia surgem medidas excecionais para&nbsp;(tentar)&nbsp;simplificar procedimentos e acelerar decis\u00f5es. De repente, aquilo que parecia indispens\u00e1vel revela-se afinal dispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro grupo \u00e9 frequentemente ignorado:&nbsp;os funcion\u00e1rios p\u00fablicos&nbsp;que querem fazer melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Em qualquer servi\u00e7o p\u00fablico existem profissionais competentes que identificam formas de simplificar processos e melhorar decis\u00f5es. Mas muitas vezes encontram um sistema&nbsp;e uma cultura&nbsp;onde a iniciativa pode transformar-se num risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Se algo correr mal depois de uma mudan\u00e7a, a responsabilidade individual surge rapidamente. Se nada mudar, dificilmente algu\u00e9m ser\u00e1 responsabilizado.&nbsp;O&nbsp;incentivo torna-se claro: seguir procedimentos, evitar riscos, n\u00e3o mexer demasiado no que j\u00e1 existe.&nbsp;Ao longo do tempo o sistema produz um efeito silencioso mas poderoso:&nbsp;recompensa a prud\u00eancia extrema e desencoraja a iniciativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte deste fen\u00f3meno resulta de escolhas institucionais. Mas parte tem tamb\u00e9m ra\u00edzes culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<a href=\"https:\/\/mcas-proxyweb.mcas.ms\/certificate-checker?login=false&amp;originalUrl=https%3A%2F%2Fexpresso.pt.mcas.ms%2Fopiniao%2F2021-01-20-Os-grunhos%3FMcasTsid%3D15600&amp;McasCSRF=d2607830c3fb604eae6a9cc991dae9d25643aaba5acc72210796ebbffd12f67f\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">textos anteriores<\/a>&nbsp;procurei olhar para esta quest\u00e3o recorrendo \u00e0s dimens\u00f5es culturais estudadas pelo&nbsp;<a href=\"https:\/\/mcas-proxyweb.mcas.ms\/certificate-checker?login=false&amp;originalUrl=https%3A%2F%2Fwww.theculturefactor.com.mcas.ms%2Fcountry-comparison-tool%3FMcasTsid%3D15600&amp;McasCSRF=d2607830c3fb604eae6a9cc991dae9d25643aaba5acc72210796ebbffd12f67f\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Hofstede Institute<\/a>. Comparativamente a muitos pa\u00edses europeus, Portugal apresenta n\u00edveis relativamente elevados de&nbsp;dist\u00e2ncia ao poder&nbsp;e n\u00edveis relativamente baixos de&nbsp;individualismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos simples, isto significa duas coisas: uma forte orienta\u00e7\u00e3o para os&nbsp;grupos de perten\u00e7a, e uma rela\u00e7\u00e3o relativamente hier\u00e1rquica com o poder. Os cidad\u00e3os tendem a sentir pouca capacidade de influenciar a \u201cm\u00e1quina\u201d, enquanto as redes de proximidade continuam a ter um peso significativo no funcionamento das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma destas caracter\u00edsticas determina comportamentos individuais. Mas ajudam a compreender porque certas culturas organizacionais se tornam particularmente resistentes \u00e0 mudan\u00e7a.&nbsp;E ajudam tamb\u00e9m a explicar alguns paradoxos persistentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque \u00e9 que o emprego na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica continua frequentemente a ser visto como praticamente vital\u00edcio? Porque \u00e9 que despedimentos por desempenho s\u00e3o rar\u00edssimos? Porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil discutir modelos de administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que combinem&nbsp;mais exig\u00eancia, mais responsabiliza\u00e7\u00e3o e melhores sal\u00e1rios para atrair talento?<\/p>\n\n\n\n<p>Noutros pa\u00edses europeus discute-se frequentemente se n\u00e3o faria sentido ter&nbsp;menos posi\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas, melhor remuneradas e mais exigentes, capazes de atrair profissionais altamente qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal essa discuss\u00e3o continua a ser quase tabu.<\/p>\n\n\n\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o do Estado exige certamente mais digitaliza\u00e7\u00e3o e mais transpar\u00eancia. Sistemas digitais bem desenhados podem trazer maior padroniza\u00e7\u00e3o de processos e rastreabilidade das decis\u00f5es.&nbsp;Mas a tecnologia, por si s\u00f3, n\u00e3o resolve o problema. Se a cultura permanecer a mesma, a digitaliza\u00e7\u00e3o corre o risco de apenas&nbsp;replicar burocracia em formato digital.<\/p>\n\n\n\n<p>A reforma exige algo mais dif\u00edcil: institui\u00e7\u00f5es que valorizem m\u00e9rito e resultados, que responsabilizem neglig\u00eancia e incompet\u00eancia, e que reduzam espa\u00e7o para redes de influ\u00eancia, captura e lobbying pouco transparente.&nbsp;Porque quando sistemas administrativos se tornam demasiado pesados para agir, os custos n\u00e3o s\u00e3o apenas burocr\u00e1ticos.&nbsp;S\u00e3o tamb\u00e9m&nbsp;custos de oportunidade gigantescos&nbsp;\u2014 tudo aquilo que fica por fazer, tudo aquilo que nunca chega a acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>E, talvez mais grave ainda, sistemas lentos, opacos e excessivamente complexos acabam por criar um terreno f\u00e9rtil para aquilo que deveriam evitar:&nbsp;fen\u00f3menos de fraude, corrup\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o indevida de recursos.&nbsp;Quando a m\u00e1quina se torna demasiado dif\u00edcil de mover, multiplicam-se os atalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>E, nesse momento, a auto-sabotagem institucional deixa de ser apenas um problema de efici\u00eancia.&nbsp;Passa a ser um problema de integridade do pr\u00f3prio Estado&nbsp;e da coes\u00e3o nacional. Passamos \u00e0 lei da selva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Moura, Expresso online A reforma exige algo mais dif\u00edcil: institui\u00e7\u00f5es que valorizem m\u00e9rito e resultados, que responsabilizem neglig\u00eancia e incompet\u00eancia, e que reduzam espa\u00e7o para redes de influ\u00eancia, captura e&nbsp;lobbying&nbsp;pouco transparente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-49620","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49620"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49620\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49622,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49620\/revisions\/49622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}