{"id":49611,"date":"2026-03-13T21:19:37","date_gmt":"2026-03-13T21:19:37","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49611"},"modified":"2026-03-14T21:26:08","modified_gmt":"2026-03-14T21:26:08","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-410","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49611","title":{"rendered":"Os dois equil\u00edbrios da pobreza"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><span><span style=\"color: rgb(255, 0, 0); font-weight: bold;\">\u00d3scar Afonso, Jornal SOL<\/span><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/sol.iol.pt\/opiniao\/noticias\/oscar-afonso-os-dois-equilibrios-da-pobreza\/20260313\/69b4003f0cf27cac6fcef9e9\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Hoje, ao contr\u00e1rio do Estado Novo, a estabilidade n\u00e3o assenta na escassez imposta nem na repress\u00e3o, mas antes numa combina\u00e7\u00e3o de crescimento lento, redistribui\u00e7\u00e3o interna e apoio europeu, que funciona como amortecedor macroecon\u00f3mico e pol\u00edtico.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Portugal tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de aceitar a mod\u00e9stia como destino se vier embrulhada em ordem, previsibilidade e paz social. Ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, em regimes muito diferentes, \u00e9 poss\u00edvel identificar momentos de equil\u00edbrio econ\u00f3mico politicamente confort\u00e1vel, mas sem ambi\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro foi o Estado Novo. O segundo parece ser o Portugal de hoje. N\u00e3o se trata de comparar uma ditadura com uma democracia, pois s\u00e3o o oposto. Contudo, encontro uma semelhan\u00e7a preocupante: nos dois casos, a estabilidade pol\u00edtica parece compatibilizar-se bem com a resigna\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a turbul\u00eancia da Primeira Rep\u00fablica, entre 1910 e 1926 \u2212 instabilidade pol\u00edtica, governos ef\u00e9meros, infla\u00e7\u00e3o, descontrolo or\u00e7amental e crises cambiais \u2212, seguiu-se a disciplina do Estado Novo. Quando Salazar chega \u00e0s Finan\u00e7as, em 1928, a sua receita era simples, a disciplina or\u00e7amental.<\/p>\n\n\n\n<p>O equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas torna-se o centro da governa\u00e7\u00e3o, para controlar a infla\u00e7\u00e3o e estabilizar a moeda, e o d\u00e9fice passa a ser visto quase como desvio moral. O controlo or\u00e7amental resultou e o Estado Novo conseguiu durante largos per\u00edodos uma estabilidade que a Primeira Rep\u00fablica n\u00e3o tivera.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas o pre\u00e7o foi alto. A prud\u00eancia passou a valer mais do que a expans\u00e3o. O crescimento era admiss\u00edvel, desde que n\u00e3o perturbasse a ordem. O regime controlou a industrializa\u00e7\u00e3o, limitou a concorr\u00eancia, travou a iniciativa econ\u00f3mica e manteve os sal\u00e1rios baixos. O condicionamento industrial foi um trav\u00e3o. O investimento p\u00fablico foi contido, e a economia ficou atrasada, dependente e pouco produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A tudo isto somou-se um investimento insuficiente na educa\u00e7\u00e3o. Uma popula\u00e7\u00e3o pouco escolarizada \u00e9 mais pobre, menos reivindicativa e mais f\u00e1cil de controlar. O atraso educativo portugu\u00eas n\u00e3o foi um acidente, serviu um modelo de poder. O resultado foi um pa\u00eds de contas certas e ambi\u00e7\u00e3o curta, est\u00e1vel por fora e acanhado por dentro. Um equil\u00edbrio de austeridade estrutural que manteve a ordem, mas tamb\u00e9m a pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>O Portugal contempor\u00e2neo \u00e9, felizmente, outra coisa. \u00c9 uma democracia, tem liberdade pol\u00edtica, uma popula\u00e7\u00e3o jovem qualificada e uma inser\u00e7\u00e3o europeia impens\u00e1vel h\u00e1 50 anos. Os fundos comunit\u00e1rios financiaram infraestruturas, educa\u00e7\u00e3o, moderniza\u00e7\u00e3o empresarial e, temporariamente, permitiram converg\u00eancia com a Europa mais rica. Durante algum tempo, o pa\u00eds pareceu finalmente em marcha.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mas o f\u00f4lego esmoreceu. Desde o in\u00edcio do novo mil\u00e9nio, o crescimento tem sido d\u00e9bil e a produtividade arrasta-se. \u00c9 aqui que entra a armadilha do rendimento m\u00e9dio. Portugal \u00e9 demasiado desenvolvido para competir pelo barato, mas insuficientemente transformado para competir pelo melhor, continuando sem produzir, em escala suficiente, bens e servi\u00e7os de elevado valor acrescentado.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrutura econ\u00f3mica ajuda a explicar isso. Empresas pequenas, pouca escala, baixa intensidade tecnol\u00f3gica e fraco valor acrescentado. A novidade \u00e9 o contexto pol\u00edtico em que a mediocridade se torna suport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, ao contr\u00e1rio do Estado Novo, a estabilidade n\u00e3o assenta na escassez imposta nem na repress\u00e3o, mas antes numa combina\u00e7\u00e3o de crescimento lento, redistribui\u00e7\u00e3o interna e apoio europeu, que funciona como amortecedor macroecon\u00f3mico e pol\u00edtico. Permite substituir investimento p\u00fablico nacional, adiando a reforma do Estado, e distribuir o pouco que resta pela economia de forma repartida, maximizando a absor\u00e7\u00e3o de fundos para n\u00e3o os perder e agradar a grupos de interesse, mas tamb\u00e9m sem priorizar e sem transformar.<a href=\"https:\/\/premium.iol.pt\/?cta=underpub&amp;site=https:\/\/sol.iol.pt\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Distribuir sem transformar levou o pa\u00eds a um equil\u00edbrio de baixa ambi\u00e7\u00e3o reformista.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um equil\u00edbrio confort\u00e1vel para quem governa. A economia n\u00e3o colapsa, a sociedade n\u00e3o explode e o poder vai sobrevivendo entre pequenos an\u00fancios, subs\u00eddios, programas e prendas. N\u00e3o \u00e9 preciso reformar a s\u00e9rio, basta gerir a escassez sem lhe chamar escassez, mantendo o pa\u00eds suficientemente est\u00e1vel para n\u00e3o se revoltar e suficientemente atrasado para continuar a precisar de ajuda. \u00c9 a economia das \u2018migalhas\u2019 e de m\u00ednimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o Estado Novo manteve durante d\u00e9cadas um pa\u00eds muito pobre para garantir ordem financeira e controlo pol\u00edtico, o atual equil\u00edbrio de poder baseado na economia das \u2018migalhas\u2019, que evita reformas e ruturas, leva a um n\u00edvel de vida relativamente baixo que sustenta a depend\u00eancia de apoios. Antes, a estabilidade vinha da disciplina. Hoje, depende da almofada europeia. Em ambos os casos, a ambi\u00e7\u00e3o nacional fica reduzida.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta decisiva \u00e9 simples: queremos continuar a ser um pa\u00eds govern\u00e1vel ou passar a ser um pa\u00eds exigente? Porque h\u00e1 momentos em que a estabilidade deixa de ser virtude e passa a ser desculpa. E um pa\u00eds que se habitua a viver de equil\u00edbrios pobres acaba, quase sempre, por empobrecer tamb\u00e9m a sua ideia de futuro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Jornal SOL Hoje, ao contr\u00e1rio do Estado Novo, a estabilidade n\u00e3o assenta na escassez imposta nem na repress\u00e3o, mas antes numa combina\u00e7\u00e3o de crescimento lento, redistribui\u00e7\u00e3o interna e apoio europeu, que funciona como amortecedor macroecon\u00f3mico e pol\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,303],"tags":[],"class_list":["post-49611","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-sol"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49611","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49611"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49611\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49612,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49611\/revisions\/49612"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49611"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49611"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49611"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}