{"id":49590,"date":"2026-03-05T17:08:32","date_gmt":"2026-03-05T17:08:32","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49590"},"modified":"2026-03-08T17:12:13","modified_gmt":"2026-03-08T17:12:13","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-408","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49590","title":{"rendered":"O pa\u00eds que serve \u00e0 mesa e importa o \u2018prato\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/o-pais-que-serve-a-mesa-e-importa-o-prato\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Sem um diagn\u00f3stico claro de onde estamos e um rumo estrat\u00e9gico inequ\u00edvoco, o pa\u00eds continuar\u00e1 \u00e0 deriva<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Neste primeiro quarto de s\u00e9culo do mil\u00e9nio, a economia portuguesa alcan\u00e7ou alguns reequil\u00edbrios macroecon\u00f3micos importantes, mas estruturalmente continua desequilibrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pass\u00e1mos do maior d\u00e9fice da balan\u00e7a de bens e servi\u00e7os face ao PIB da Uni\u00e3o Europeia (UE) em 1999 \u2013 que persistia passada uma d\u00e9cada, a refletir o descontrolo or\u00e7amental e m\u00e1s pol\u00edticas p\u00fablicas, levando-nos a uma quase bancarrota e \u00e0 necessidade do doloroso programa de ajustamento 2011-2014 \u2013 para um excedente ligeiro em 2024, mas totalmente dependente do turismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o reequil\u00edbrio externo e (de forma associada) das contas p\u00fablicas recuperamos estabilidade macroecon\u00f3mica e credibilidade externa. Na economia, ap\u00f3s 2015 tem-se verificado uma especializa\u00e7\u00e3o crescente em servi\u00e7os predominantemente de baixo valor acrescentado, para responder ao crescente consumo de servi\u00e7os pelas fam\u00edlias e, sobretudo, ao \u2018boom\u2019 de procura tur\u00edstica. Ao mesmo tempo,perdemos capacidade produtiva na ind\u00fastria e de investimento no futuro, como mostro nesta cr\u00f3nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto com o alto patroc\u00ednio dos governos de Ant\u00f3nio Costa e, mais recentemente, os de Lu\u00eds Montenegro, cujo Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, parece tamb\u00e9m \u2018enfeiti\u00e7ado\u2019 pelo turismo e interessado em acentuar essa especializa\u00e7\u00e3o, o que me motivou a escrever esta cr\u00f3nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em declara\u00e7\u00f5es recentes na 36.\u00aa feira BTL \u2014 Better Tourism Lisbon Travel Market, em Lisboa, o Ministro afirmou: \u201ceu fa\u00e7o parte do grupo dos que defendem que n\u00e3o h\u00e1 turismo a mais, de maneira nenhuma. O turismo ainda tem espa\u00e7o para crescer (\u2026). N\u00e3o nego que numa ou outra zona do pa\u00eds, numa ou outra semana do ano, possam ter uma sobrecarga excessiva de turistas. Mas isso s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta cr\u00f3nica mostro alguns dados que deveriam levar o Ministro a refletir:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>O pa\u00eds que em 1999 investia 29% do PIB, em 2024 investiu apenas 20%, penalizando a produtividade e o n\u00edvel de vida, mesmo num per\u00edodo em que est\u00e1 em execu\u00e7\u00e3o um PRR particularmente generoso. Parte desta evolu\u00e7\u00e3o resulta tamb\u00e9m da perda de peso da ind\u00fastria, um setor capital-intensivo por excel\u00eancia.<\/li>\n\n\n\n<li>O pa\u00eds que tinha 46% do PIB assente em despesa com servi\u00e7os tem hoje 61%.<\/li>\n\n\n\n<li>O pa\u00eds que registava o maior d\u00e9fice da balan\u00e7a de bens e servi\u00e7os da UE passou a ter excedente, mas dependente do turismo \u2014 muito massificado, de baixa produtividade e sujeito a fortes oscila\u00e7\u00f5es da procura externa, incluindo fatores tempor\u00e1rios favor\u00e1veis nos anos recentes \u2014, que tem compensado\u00a0od\u00e9fice\u00a0estrutural elevado na balan\u00e7a de bens, correspondente a quase 30% desse consumo das fam\u00edlias.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a medida da insufici\u00eancia da nossa ind\u00fastria, que continua a n\u00e3o ser uma aposta dos sucessivos governos. O turismo tornou-se politicamente confort\u00e1vel: gera receita imediata, cria emprego r\u00e1pido e n\u00e3o exige reformas estruturais profundas. Mas \u00e9 precisamente por isso que pode estar a atrasar uma transforma\u00e7\u00e3o mais exigente da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>O que parece um sucesso \u00e9, afinal, motivo de preocupa\u00e7\u00e3o, pois o perfil predominantemente industrial dos pa\u00edses de leste, conducente a uma maior produtividade, \u00e9 uma das raz\u00f5es por que v\u00e1rios desses pa\u00edsesnos ultrapassaram em n\u00edvel de vida, tendo aderido muito depois \u00e0 UE e recebido muito menos fundos europeus, que t\u00eam sabido aproveitar melhor.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A decomposi\u00e7\u00e3o do PIB entre bens e servi\u00e7os e a evolu\u00e7\u00e3o entre 1999 e 2024<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A Figura 1 sumariza o peso das componentes de despesa no PIB de Portugal em 2024, permitindo destacar os rankings elevados na UE ao n\u00edvel do consumo privado (3\u00ba lugar: 60,9% do PIB) \u2013 em particular na componente de servi\u00e7os (4\u00ba: 29,9%; 9\u00ba nos bens: 31,0%) \u2013 e total (8\u00ba: 77,8%). Realce ainda para as exporta\u00e7\u00f5es l\u00edquidas de servi\u00e7os (6\u00ba: 10,8%), refletindo um peso relativamente alto dessas exporta\u00e7\u00f5es (12\u00ba: 19,7%), assentes no turismo, e reduzido nas importa\u00e7\u00f5es (22\u00ba: 8,9%). \u00c9 precisamente o turismo que permite contrariar o saldo estruturalmente negativo da balan\u00e7a de bens (22\u00ba: -9,1%) \u2013 em resultado de um peso baixo dessas exporta\u00e7\u00f5es (20\u00ba: 26,0%) e interm\u00e9dio nas importa\u00e7\u00f5es (15\u00ba: 35,1%) \u2013, conduzindo a um excedente na balan\u00e7a de bens e servi\u00e7os (18\u00ba: 1,8%).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1. Pesos das principais componentes de procura no PIB (%) em 2024 e respetivos rankings na UE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/03\/img-0007.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1835367\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>:&nbsp;<em>Eurostat e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. F\u00f3rmulas em percentagem do PIB a pre\u00e7os correntes, Y, e nota\u00e7\u00e3o usada: Y=C+I+X-M=100, C=Consumo, I=Investimento, X=Exporta\u00e7\u00f5es, e M=Importa\u00e7\u00f5es; C=Cf+Cp, f=fam\u00edlias e ISFLSF (institui\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos ao servi\u00e7o das fam\u00edlias), e p=p\u00fablico; Cf=Cfb+Cfs, b= bens, e s=servi\u00e7os; I=Ib+Is; X=Xb+Xs; M=Mb+Ms; (X-M)=(X-M)b + (X-M)s. Nota: Is diz respeito a investimento em propriedade intelectual, por resultar de servi\u00e7os de Investiga\u00e7\u00e3o &amp;Desenvolvimento (I&amp;D), tratando-se de um valor relativamente pequeno, pelo que a grande parcela da componente de investimento (I) \u00e9 Investimento em bens (Ib), calculado por diferen\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A principal diferen\u00e7a para a situa\u00e7\u00e3o relativa em 1999 (ver Figura 2), que traduz uma ineg\u00e1vel melhoria em termos de reequil\u00edbrio macroecon\u00f3mico, \u00e9 termos passado de um elevado d\u00e9fice da balan\u00e7a de bens e servi\u00e7os nesse ano (10,3% do PIB, o pior resultado na UE; Fig. 2) para um excedente em 2024 (<strong>1,8% do PIB, o 18\u00ba, como referido; Fig. 1<\/strong>).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, tal aconteceu \u00e0 custa da depend\u00eancia do turismo (que justificou a melhoria do saldo da balan\u00e7a de servi\u00e7os de 2,0% para 10,8% do PIB, de 16\u00aa para 6\u00ba; Fig. 2 e Fig. 1, respetivamente), pois o saldo da balan\u00e7a de bens continuou bastante negativo, apenas com um pequeno desagravamento (de -12,4% em 1999 para -9,1% em 2024; Fig. 2 e Fig. 1, respetivamente) e perdendo duas posi\u00e7\u00f5es (de 20\u00ba para 22\u00ba), porque outros pa\u00edses progrediram mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda grande diferen\u00e7a entre as duas figuras, esta inegavelmente negativa, \u00e9 o pa\u00eds ter perdido capacidade de investimento, com o seu peso no PIB a passar de 29,0% em 1999 (Fig. 2) para 20,4% (Fig. 1) em 2024, de 4\u00ba para 19\u00ba (nono pior) na UE. Este fraco desempenho do investimento, mesmo num per\u00edodo em que decorre um PRR particularmente generoso, diz muito sobre o estado da nossa produtividade e sobre fragilidades estruturais da economia: um padr\u00e3o de especializa\u00e7\u00e3o marcado pela perda de relev\u00e2ncia da ind\u00fastria (setor capital-intensivo por excel\u00eancia), a elevada fiscalidade, a morosidade da justi\u00e7a e o excesso de burocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira diferen\u00e7a a apontar \u00e9 a subida no ranking do consumo privado de 7\u00ba em 1999 (Fig. 2) para 4\u00ba em 2024 (Fig. 1) \u2013 embora com uma redu\u00e7\u00e3o do peso no PIB, de 63,3% para 60,9%, mas que foi inferior \u00e0 registada na UE \u2013, com uma altera\u00e7\u00e3o assinal\u00e1vel de composi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o consumo de servi\u00e7os ganhou protagonismo, passando de 8\u00ba para 4\u00ba na UE (de 24,8% para 29,9% do PIB) e quase atingindo o peso do consumo de bens, que baixou de 4\u00ba para 9\u00ba (de 38,5% para 31,0% do PIB).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 2. Pesos das principais componentes de procura no PIB (%) em 1999 e respetivos rankings na UE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/03\/img-0009.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1835369\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>:&nbsp;<em>Eurostat e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Ver notas da Figura anterior. No caso de Cfb e Cfs, os rankings consideram apenas 26 pa\u00edses com dados em 1999 (falta informa\u00e7\u00e3o para a Litu\u00e2nia).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em face da an\u00e1lise anterior, reorganizando as componentes de despesa anteriormente referidas de modo a repartir o PIB percentualmente entre as relativas a bens e a servi\u00e7os (em que \u00e9 inserido o consumo p\u00fablico por facilidade de an\u00e1lise, pois integra fundamentalmente servi\u00e7os), a Figura 3 permite concluir que o PIB portugu\u00eas era constitu\u00eddo em 61% por despesa em servi\u00e7os em 2024, muito acima da UE (54%) e da m\u00e9dia dos pa\u00edses de leste (52%) \u2013 que seria ainda menor se fosse exclu\u00edda a Cro\u00e1cia, cuja especializa\u00e7\u00e3o no turismo destoa da tend\u00eancia de especializa\u00e7\u00e3o industrial deste grupo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 3. Reparti\u00e7\u00e3o do PIB a pre\u00e7os correntes entre despesa em bens e despesa em servi\u00e7os (%)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/03\/img-0010.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1835371\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>Eurostat e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Nota: em 1999, os rankings consideram apenas 26 pa\u00edses com dados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Esse peso de 61% da gera\u00e7\u00e3o de riqueza assente nos servi\u00e7os em Portugal \u00e9 o 7\u00ba maior valor na UE, mas passa para 4\u00ba maior \u2013 apenas abaixo de Gr\u00e9cia (69,0%), Cro\u00e1cia (68,2%) e Espanha (61,4%), pa\u00edses tamb\u00e9m especializados em turismo \u2013 excluindo pa\u00edses de pequena dimens\u00e3o (Malta, com 81,3%; Chipre, com 75,5%; e Luxemburgo, com 65,7%), que n\u00e3o s\u00e3o diretamente compar\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, pa\u00edses insulares ou de pequena dimens\u00e3o territorial e demogr\u00e1fica tendem a apresentar um peso estruturalmente mais elevado dos servi\u00e7os no PIB e (consequentemente) um menor peso dos bens devido a restri\u00e7\u00f5es de escala, de mercado interno e de dota\u00e7\u00e3o de recursos.<\/p>\n\n\n\n<p>A reduzida dimens\u00e3o limita a viabilidade de atividades industriais diversificadas e intensivas em capital, que requerem economias de escala e integra\u00e7\u00e3o em cadeias produtivas complexas. Em contrapartida, os servi\u00e7os \u2014 pouco sofisticados, como o turismo de massas, ou mais avan\u00e7ados (com maior gera\u00e7\u00e3o de valor), como servi\u00e7os financeiros e empresariais \u2014 exigem menor escala m\u00ednima eficiente e menor intensidade material, podendo orientar-se para o exterior mesmo a partir de territ\u00f3rios reduzidos. Estas considera\u00e7\u00f5es aconselham, por isso, prud\u00eancia em compara\u00e7\u00f5es diretas com economias de maior escala.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tanto o peso elevado dos servi\u00e7os, pois seria de enaltecer se fossem predominantemente sofisticados e com grande capacidade de gera\u00e7\u00e3o de valor \u2013 por exemplo, Malta tem um elevado peso de servi\u00e7os financeiros e um n\u00edvel de vida bem superior ao portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema reside no modelo de crescimento e de especializa\u00e7\u00e3o assente em servi\u00e7os de baixo valorOacrescentado, intensivos em m\u00e3o-de-obra pouco qualificada e fortemente concentrados no territ\u00f3rio, orientados simultaneamente para o consumo dos residentes \u2014 sobretudo no consumo privado de servi\u00e7os \u2014 e para o turismo, predominantemente massificado e associado a visitantes com baixo poder de compra m\u00e9dio, muitas vezes servido nos mesmos estabelecimentos, como restaurantes e alojamento local. A altera\u00e7\u00e3o estrutural e relativa face a 1999 \u00e9 enorme, pois nesse ano o peso dos servi\u00e7os no PIB era apenas 46%, na 20\u00aa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O d\u00e9fice de oferta de bens, fruto da desindustrializa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 tamb\u00e9m o que foi sendo abandonado para sustentar esse modelo: Os setores industrial e agr\u00edcola. A perda de capacidade produtiva nestas \u00e1reas ajuda a explicar a persist\u00eancia de um d\u00e9fice elevado na balan\u00e7a de bens, express\u00e3o de um d\u00e9fice estrutural de oferta. Se em 2024 o d\u00e9fice da balan\u00e7a comercial de produtos agr\u00edcolas e agroalimentares (exceto bebidas) foi 5,17 mil milh\u00f5es de euros, segundo o INE, ou 1,7% do PIB, ent\u00e3o o d\u00e9fice de bens finais industriais ser\u00e1 pr\u00f3ximo do remanescente do d\u00e9fice da balan\u00e7a de bens (7,4% do PIB = 9,1%-1,7%), ou seja, a maior parte.<\/p>\n\n\n\n<p>A metade esquerda da Figura 4 permite constatar que, em 2024, essa insufici\u00eancia de oferta (medida pelo saldo da balan\u00e7a de bens, que corresponde a exporta\u00e7\u00f5es l\u00edquidas negativas) correspondeu a 12,3% da procura total de bens e a 29,3% do consumo privado de bens, em ambos os casos na 23\u00aa posi\u00e7\u00e3o na UE (5\u00aa pior), onde, pelo contr\u00e1rio, se registou um excedente (de 3,0% e 2,8%, respetivamente) \u2013 no caso dos pa\u00edses de leste, a insufici\u00eancia de oferta \u00e9 bastante menor (5,5% e 13,3%). Excluindo Malta e Chipre pelas raz\u00f5es acima indicadas, Portugal est\u00e1 na 3\u00aa pior posi\u00e7\u00e3o em ambos os indicadores, apenas abaixo da Cro\u00e1cia e da Gr\u00e9cia, pa\u00edses ainda mais especializados em turismo do que Portugal. Face a 1999, apesar de uma melhoria ligeira em ambos os indicadores, o ranking piorou (de 20\u00ba para 23\u00ba e de 19\u00ba para 23\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste \u00e9 enorme com a metade direita da Figura 4, onde se observa que Portugal conseguiu alargar substancialmente o mercado de servi\u00e7os devido \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o crescente no turismo, com o excedente de servi\u00e7os (onde predomina o turismo) a passar de 3,9% para 15,5% da procura total de servi\u00e7os (da 15\u00aa para a 5\u00aa posi\u00e7\u00e3o) e de 8,0% para 36,2% do consumo privado de servi\u00e7os (da 15\u00aa para a 7\u00aa posi\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 4. Peso das exporta\u00e7\u00f5es l\u00edquidas na procura total e no consumo privado de bens e de servi\u00e7os (%)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2026\/03\/img-0012.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1835373\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte:<\/strong>&nbsp;<em>Eurostat e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Mesmas nota\u00e7\u00f5es de Figuras anteriores. Nota: em 1999, os rankings consideram apenas 26 pa\u00edses com dados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o: O \u2018milagre tur\u00edstico\u2019 esconde um d\u00e9fice estrutural nos bens que trava a converg\u00eancia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Foi muito positivo Portugal eliminar o elevado d\u00e9fice comercial que marcou as d\u00e9cadas anteriores. O pa\u00eds ganhou estabilidade e credibilidade, mas estabilidade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual excedente da balan\u00e7a de bens e servi\u00e7os assenta numa forte especializa\u00e7\u00e3o tur\u00edstica que compensa uma insufici\u00eancia estrutural de produ\u00e7\u00e3o de bens \u2014 o d\u00e9fice da balan\u00e7a de bens corresponde a quase 30% do consumo privado de bens, um indicador claro de fragilidade produtiva. Entre os pa\u00edses compar\u00e1veis da UE, apenas Cro\u00e1cia e Gr\u00e9cia registam valores mais elevados neste indicador.<\/p>\n\n\n\n<p>O turismo tem m\u00e9ritos evidentes. Temos vantagens comparadas naturais que devemos aproveitar. Mas trata-se de um setor que, em Portugal, \u00e9 em m\u00e9dia muito intensivo em m\u00e3o-de-obra pouco qualificada, com baixa produtividade e gerador de pouco valor, muito concentrado territorialmente e sujeito a forte sazonalidade. Igualmente importante, est\u00e1 sujeito a uma volatilidade elevada da procura externa \u2013 como se viu com a pandemia, com uma contra\u00e7\u00e3o in\u00e9dita seguida de um boom tamb\u00e9m excecional \u2013, sendo ainda de assinalar o impacto sobre o ambiente do turismo de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a baixa produtividade do setor exige muitos trabalhadores, muitos deles imigrantes \u2013 dado o envelhecimento da sociedade portuguesa \u2013, o que, por sua vez, acarreta outros desafios. Al\u00e9m da integra\u00e7\u00e3o na economia e sociedade desses imigrantes, h\u00e1 ainda a destacar a forte press\u00e3o do turismo e da imigra\u00e7\u00e3o sobre as infraestruturas \u2013 com realce para a habita\u00e7\u00e3o \u2013 e os servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Acresce que parte do dinamismo recente do setor refletiu fatores tempor\u00e1rios \u2014 procura reprimida p\u00f3s-pandemia, perce\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a face \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 que se ir\u00e3o dissipar a prazo. O setor j\u00e1 tem vindo a abrandar e, dado o peso que adquiriu, est\u00e1 a contribuir para a desacelera\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o ir\u00e1 convergir com os pa\u00edses mais ricos mantendo uma especializa\u00e7\u00e3o dominante em servi\u00e7os pouco sofisticados \u2014 para responder \u00e0 procura de turistas e residentes de baixo poder de compra m\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>A evid\u00eancia hist\u00f3rica mostra que a converg\u00eancia sustentada tem estado associada a processos de transforma\u00e7\u00e3o estrutural com maior intensidade tecnol\u00f3gica, industrial e exportadora de bens e servi\u00e7os transacion\u00e1veis de alto valor acrescentado. Os pa\u00edses da Europa de Leste que nos ultrapassaram em n\u00edvel de vida fizeram-no refor\u00e7ando a sua base industrial e exportadora; em alguns casos, como a Est\u00f3nia, combinando-a com servi\u00e7os digitais transacion\u00e1veis de elevado valor.<\/p>\n\n\n\n<p>O turismo n\u00e3o ir\u00e1 desaparecer, devendo evoluir em qualifica\u00e7\u00e3o, produtividade, gera\u00e7\u00e3o de valor e dispers\u00e3o no espa\u00e7o (aposta no interior desertificado) e no tempo (redu\u00e7\u00e3o da sazonalidade).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, n\u00e3o pode substituir uma estrat\u00e9gia de diversifica\u00e7\u00e3o produtiva. Portugal precisa de apostar naind\u00fastria e servi\u00e7os (conexos e outros) transacion\u00e1veis de elevada produtividade e gera\u00e7\u00e3o de valor, com forte intensidade em tecnologia e conhecimento, inovando e aproveitando o talento do pa\u00eds, retendo-o. Precisa ainda de modernizar a agricultura \u2014 onde a fragmenta\u00e7\u00e3o da propriedade deve ser contrariada, pois constitui um obst\u00e1culo estrutural ao aumento da produtividade e do valor acrescentado no setor.<\/p>\n\n\n\n<p>Se assim for, o reflexo na balan\u00e7a comercial ser\u00e1 a elimina\u00e7\u00e3o do d\u00e9fice nos bens e a gera\u00e7\u00e3o, a prazo, de um excedente, bem como um saldo positivo mais sustent\u00e1vel na balan\u00e7a de servi\u00e7os, assente em servi\u00e7os de elevado valor acrescentado e num turismo gerador de maior valor por turista e por trabalhador, e menos concentrado no tempo e no territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, precisamos de elevar o nosso perfil de especializa\u00e7\u00e3o para uma maior intensidade em tecnologia e conhecimento se quisermos progredir em produtividade e n\u00edvel de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Face \u00e0s declara\u00e7\u00f5es referidas do Ministro da Economia, infelizmente temo que o pa\u00eds continue a usar fundos estruturais da UE para refor\u00e7ar o atual perfil de especializa\u00e7\u00e3o assente sobretudo em servi\u00e7os de baixo valor, com o turismo \u00e0 cabe\u00e7a, precisamente o oposto do que a ci\u00eancia econ\u00f3mica recomenda.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a pol\u00edtica econ\u00f3mica continuar nesta trajet\u00f3ria, poderemos manter estabilidade no curto prazo, mas dificilmente alcan\u00e7aremos converg\u00eancia. Insisto que a entrada de Portugal na metade de pa\u00edses de maior n\u00edvel de vida da atual UE num prazo aceit\u00e1vel deve ser um des\u00edgnio estrat\u00e9gico nacional, mobilizador da sociedade e aceite por todo o espectro pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem um diagn\u00f3stico claro de onde estamos e um rumo estrat\u00e9gico inequ\u00edvoco, o pa\u00eds continuar\u00e1 \u00e0 deriva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine Sem um diagn\u00f3stico claro de onde estamos e um rumo estrat\u00e9gico inequ\u00edvoco, o pa\u00eds continuar\u00e1 \u00e0 deriva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49590","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49590"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49590\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49591,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49590\/revisions\/49591"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}