{"id":49447,"date":"2025-12-11T16:17:00","date_gmt":"2025-12-11T16:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49447"},"modified":"2025-12-13T18:20:02","modified_gmt":"2025-12-13T18:20:02","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-384","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49447","title":{"rendered":"A fuga de talento jovem continua, apesar da narrativa \u2018cor-de-rosa\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/a-fuga-de-talento-jovem-continua-apesar-da-narrativa-cor-de-rosa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A ideia de que Portugal deixou para tr\u00e1s o problema da emigra\u00e7\u00e3o jovem e da fuga l\u00edquida de talento n\u00e3o resiste a uma an\u00e1lise s\u00e9ria dos dados completos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>esta cr\u00f3nica procuro desmontar uma narrativa recente \u2014 e agora convenientemente repescada \u2014 que retrata a economia portuguesa como estando numa trajet\u00f3ria excecionalmente favor\u00e1vel.&nbsp;<strong>Trata-se de uma leitura profundamente deslocada da realidade e enviesada, assente em dados incompletos e interpreta\u00e7\u00f5es apressadas<\/strong>. Entre os seus argumentos mais repetidos est\u00e1 a ideia de que Portugal estaria finalmente a inverter o seu padr\u00e3o de especializa\u00e7\u00e3o, alegadamente sustentado por fluxos migrat\u00f3rios positivos e pelo regresso de jovens emigrantes altamente qualificados. Se tal fosse verdade, significaria que o pa\u00eds teria ultrapassado o problema estrutural da emigra\u00e7\u00e3o jovem e da cont\u00ednua fuga de talento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada poderia estar mais distante dos factos. O saldo migrat\u00f3rio positivo recentemente observado \u00e9 essencialmente tempor\u00e1rio e artificial, resultando de fatores extraordin\u00e1rios e n\u00e3o de uma mudan\u00e7a estrutural do modelo econ\u00f3mico. A fuga de talento n\u00e3o s\u00f3 persiste como continua a refletir o baixo perfil de especializa\u00e7\u00e3o da economia portuguesa, incapaz de oferecer, de forma consistente, oportunidades qualificadas e bem remuneradas. As leituras otimistas que sugerem o contr\u00e1rio assentam em dados incompletos e em an\u00e1lises que ignoram dimens\u00f5es essenciais do fen\u00f3meno migrat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>PUBLICIDADE<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, este retrato \u201ccor-de-rosa\u201d est\u00e1 muito longe de corresponder \u00e0 realidade. Como mostrarei de seguida, a evid\u00eancia aponta no sentido inverso, revelando um quadro que contraria de forma quase absoluta essa vis\u00e3o simplista e auto-complacente. E a verdade \u00e9 dura, mas incontorn\u00e1vel: Sem reformas profundas que elevem o perfil de especializa\u00e7\u00e3o da economia e criem oportunidades qualificadas em todo o territ\u00f3rio, Portugal continuar\u00e1 a perder jovens e qualificados, prolongando a sangria demogr\u00e1fica e comprometendo o seu potencial de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Saldo migrat\u00f3rio dos \u2018naturais\u2019 positivo apenas conjuntural, j\u00e1 diminuto e dependente de apoios<\/h2>\n\n\n\n<p>Decompor o saldo migrat\u00f3rio total \u2014 entradas menos sa\u00eddas \u2014 entre o contributo dos estrangeiros e o dos nacionais, que inclui tanto os nascidos em Portugal como os que adquiriram a nacionalidade pelos mecanismos previstos na lei, com destaque para a naturaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 tarefa simples. Mais dif\u00edcil ainda \u00e9 isolar, dentro desse conjunto, o saldo migrat\u00f3rio daqueles que efetivamente nasceram em Portugal, a que me refiro ao longo desta cr\u00f3nica como \u201c<strong>naturais<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os principais resultados da an\u00e1lise encontram-se representados nas&nbsp;<strong>Figuras 1 e 2.<\/strong>&nbsp;Os valores dos saldos migrat\u00f3rios \u2014 n\u00e3o inclu\u00eddos nas Figuras \u2014 podem ser consultados na parte C da Tabela 1 (<strong>que passarei a designar Tabela 1C<\/strong>), constru\u00edda a partir dos dados de imigrantes (<strong>Tabela 1A<\/strong>) e de emigrantes (<strong>Tabela 1B<\/strong>). A Tabela 1 apresenta ainda (nas suas tr\u00eas partes), na \u00faltima linha antes dos dados, o detalhe dos c\u00e1lculos efetuados, e \u00e9 acompanhada de notas explicativas, incluindo sobre as assun\u00e7\u00f5es relevantes utilizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;<strong>Tabela 1<\/strong>&nbsp;\u00e9 autoexplicativa, pelo que passo \u00e0 extra\u00e7\u00e3o das principais conclus\u00f5es das Figuras 1 e 2 com indica\u00e7\u00e3o de valores e pormenores relevantes que s\u00e3o detalhados nas v\u00e1rias partes da tabela.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(i)<\/strong>&nbsp;Tal como o saldo migrat\u00f3rio global excedent\u00e1rio, o balan\u00e7o positivo recente (de 2021 a 2023) dos \u2018naturais\u2019 (regressos menos sa\u00eddas) \u00e9 muito influenciado pelo maior ritmo de crescimento econ\u00f3mico no mesmo per\u00edodo \u2013 a refletir a retoma p\u00f3s-pandemia e efeitos extraordin\u00e1rios, com realce para o PRR (Programa de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia), o surto de turismo p\u00f3s-confinamento e a imagem de pa\u00eds bonito e seguro, longe da guerra \u2013, esperando-se o regresso \u00e0 tend\u00eancia de apenas 1%\/ano neste mil\u00e9nio se n\u00e3o houver reformas relevantes, como tenho alertado. A pandemia e a infla\u00e7\u00e3o foram tamb\u00e9m fatores relevantes para o saldo positivo neste per\u00edodo conturbado, ao contribu\u00edrem, respetivamente, para travagem do fluxo de emigra\u00e7\u00e3o (na pandemia, muitos ter\u00e3o preferido ficar junto das fam\u00edlias) e o regresso de emigrantes (o aumento do custo de vida nos pa\u00edses de destino certamente ter\u00e1 tido um papel relevante), mesmo que temporariamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(ii)<\/strong>&nbsp;A naturaliza\u00e7\u00e3o de estrangeiros, que se acentuou com o descontrolo de entradas gerado pelo regime de Manifesta\u00e7\u00e3o de Interesse, iniciado em 2017, explica grande parte da diferen\u00e7a crescente entre o saldo dos nacionais (c\u00e1 nascidos ou n\u00e3o) e o dos \u2018naturais\u2019 ap\u00f3s esse ano que se observa nas duas figuras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(iii)<\/strong>&nbsp;O saldo migrat\u00f3rio positivo dos \u2018naturais\u2019 j\u00e1 praticamente se tinha extinguido em 2023, tanto no cen\u00e1rio C1 (hip\u00f3tese de que 10% dos estrangeiros que adquirem a nacionalidade emigram ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o da nacionalidade Portuguesa \u2013 ver Tabela 1B e 1C), atingindo 26 pessoas (Figura 1), como no cen\u00e1rio C2 (25%), com um valor de 2 035 (Figura 2).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(iv)<\/strong>&nbsp;Sem o efeito do Programa Regressar (PR) \u2013 criado em 2019 \u2013 nos regressos de emigrantes (linhas a tracejado), o saldo dos \u2018naturais\u2019 seria j\u00e1 negativo em 2023 (-4 031 em C1 e -2 022 em C2; os valores, extra\u00eddos da Tabela 1C, refletem a assun\u00e7\u00e3o de que a propor\u00e7\u00e3o de nacionais regressados, para os quais h\u00e1 dados, se aplica tamb\u00e9m aos \u2018naturais\u2019, como explicado nas notas da Tabela 1A). Esse Programa, tal como o regime de residente n\u00e3o habitual (e o IFICI e IFICI+, que lhe sucedem) e o IRS Jovem geram desigualdades graves entre contribuintes (por pa\u00eds de resid\u00eancia anterior e idade) e uma grande perda de receita p\u00fablica. Continuo, por isso, a defender um regime unificado de reten\u00e7\u00e3o e atra\u00e7\u00e3o de talento focado e justo, como o&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/irs-novo-talento-mais-impacto-abrangencia-e-equidade\/\" rel=\"noreferrer noopener\">IRS Novo Talento<\/a>&nbsp;que defendo: uma dedu\u00e7\u00e3o \u00e0 coleta em IRS sobre rendimentos do trabalho obtidos em Portugal que seria acess\u00edvel a todos os trabalhadores ap\u00f3s novas qualifica\u00e7\u00f5es superiores (realizadas c\u00e1 ou no estrangeiro), aplicando-se por isso a residentes jovens \u2013 com maior incid\u00eancia, pela maior propens\u00e3o \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de estudos superiores \u2013 e menos jovens \u2013 precisamente onde h\u00e1 um d\u00e9fice de qualifica\u00e7\u00f5es em Portugal \u2013, bem como a imigrantes e a emigrantes regressados eleg\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1. Saldos migrat\u00f3rios, incluindo o do cen\u00e1rio C1, e crescimento econ\u00f3mico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/captura-de-ecra-2025-12-11-as-093611.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1778230\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Notas: SM = saldo migrat\u00f3rio (valores na Tabela 1, parte C; o cen\u00e1rio C1 \u00e9 descrito na parte B).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 2. Saldos migrat\u00f3rios, incluindo o do cen\u00e1rio C2, e crescimento econ\u00f3mico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/captura-de-ecra-2025-12-11-as-093702.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1778231\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Notas: SM = saldo migrat\u00f3rio (valores na Tabela 1, parte C; o cen\u00e1rio C1 \u00e9 descrito na parte B).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 1A. Fluxos migrat\u00f3rios por nacionalidade e naturalidade \u2013 Parte A: imigrantes permanentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/captura-de-ecra-2025-12-11-as-093744.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1778233\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Notas: as f\u00f3rmulas usadas est\u00e3o descritas na \u00faltima linha antes dos dados da Tabela (nesta parte A e nas partes B e C). Para estimar os naturais portugueses (c\u00e1 nascidos) que estavam emigrados e regressaram via Programa Regressar (PR), assume-se que a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma da do conjunto de emigrantes com nacionalidade portuguesa (adquirida por nascen\u00e7a ou pelas formas previstas na lei, onde se real\u00e7a a naturaliza\u00e7\u00e3o) regressados por essa via (valor calculado na Tabela).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 1B. Fluxos migrat\u00f3rios por nacionalidade e naturalidade \u2013 Parte B: emigrantes permanentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/captura-de-ecra-2025-12-11-as-093817.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1778234\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Notas: * O n\u00famero de desconhecidos \u00e9 residual: 206 (2014); 101 (2016); 91 (2017); 2 (2019); 17 (2020). ** \u00c9 conhecido que h\u00e1 imigrantes residentes que saem para outros pa\u00edses da UE de maior n\u00edvel de vida ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o da nacionalidade portuguesa, fen\u00f3meno descrito por especialistas na \u00e1rea das migra\u00e7\u00f5es. Considerou-se dois cen\u00e1rios plaus\u00edveis, um moderado (10% emigram ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o da nacionalidade) e outro mais severo (25%) \u2013 de notar que a imigra\u00e7\u00e3o pode ocorrer nos anos seguintes ao da obten\u00e7\u00e3o da nacionalidade, mas a metodologia empregue, por simplicidade, n\u00e3o exclui essa possibilidade (basta admitir que a emigra\u00e7\u00e3o em cada ano depende da dos anos anteriores, como num modelo ARIMA).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 1C. Fluxos migrat\u00f3rios por nacionalidade e naturalidade \u2013 Parte C: saldo migrat\u00f3rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/captura-de-ecra-2025-12-11-as-093851.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1778235\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: INE e c\u00e1lculos pr\u00f3prios. Nota: a descri\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios C1 e C2 \u00e9 fornecida na Tabela 1B.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A sa\u00edda l\u00edquida dos jovens, jovens qualificados e dos qualificados em geral persiste, apesar das fal\u00e1cias<\/h2>\n\n\n\n<p>Outra fal\u00e1cia do discurso \u2018cor-de-rosa\u2019 \u00e9 o de que est\u00e3o a regressar maioritariamente jovens, que s\u00f3 se verifica em condi\u00e7\u00f5es muito particulares como mostram os dados adicionais apresentados abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez que, entre os residentes com nacionalidade portuguesa, emigram sobretudo jovens (60,8% na faixa dos 15-35 anos e 70,8% nos 15-39 anos em 2023, ou 20 482 e 23 844 pessoas; 61% e 71,7%, ou 20 967 e 24 324, em 2024, respetivamente; dados do INE) \u2013 neste caso, seria ainda mais dif\u00edcil distinguir se s\u00e3o nascidos ou n\u00e3o em Portugal \u2013, \u00e9 natural que os que regressem sejam relativamente jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que os regressados s\u00e3o proporcionalmente menos jovens do que os que saem, e o n\u00famero \u00e9 menor (mesmo considerando os fatores extraordin\u00e1rios ainda em curso, referidos anteriormente):<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(i)<\/strong>&nbsp;Entre os naturais, regressaram 41,3% na faixa dos 15-34 anos e 53,4% na dos 15-39 anos em 2023 (\u00faltimo ano com dados dispon\u00edveis), o equivalente a 11 677 e 15 107 pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(ii)<\/strong>&nbsp;Entre os nacionais (nascidos em Portugal ou n\u00e3o), regressaram 25% e 33,2% nessas faixas et\u00e1rias, respetivamente, o correspondente a 14 027 e 18 609 pessoas, ou seja, em menor n\u00famero do que os nacionais que sa\u00edram, acima referidos, traduzindo-se em saldos de -6 455 (=14 027-20 482) e de -5 235 (=18 609 \u2013 23 844).<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, s\u00f3 se consideramos jovens os naturais nascidos at\u00e9 aos 39 anos \u2013 no IRS Jovem, por exemplo, s\u00f3 \u00e9 abrangida a faixa et\u00e1ria at\u00e9 aos 35 anos \u2013 \u00e9 que verificamos que a maioria regressa, mas por pequena margem (53,4%) e, nesse caso, estaremos a descurar um n\u00famero significativo de jovens (cerca de 3 mil) que adquiriram a nacionalidade e podem tamb\u00e9m ser \u00fateis no mercado de trabalho e a melhorar a nossa depauperada demografia, por estarem em idade f\u00e9rtil, o que torna o discurso \u2018rosa\u2019 ainda mais ins\u00f3lito.<\/p>\n\n\n\n<p>O pior \u00e9 que, quando terminar o PRR, o surto de turismo e a guerra, que nos tem permitido crescer acima da Uni\u00e3o Europeia (UE), mas apenas marginalmente, assim como a imigra\u00e7\u00e3o descontrolada \u2013 uma boa parte da qual estar\u00e1 na economia paralela, mas ainda assim estimula o consumo \u2013, retornaremos \u00e0 tend\u00eancia de crescimento an\u00e9mico que tem marcado o primeiro quarto de s\u00e9culo deste mil\u00e9nio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O facto de, mesmo beneficiando simultaneamente de todos esses \u201cventos favor\u00e1veis\u201d, a economia portuguesa conseguir crescer apenas marginalmente acima da m\u00e9dia da UE \u2014 precisamente num per\u00edodo em que as principais economias europeias, como a Alemanha e a Fran\u00e7a, atravessam crises profundas e em que as economias de leste perderam dinamismo devido \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 revela de forma inequ\u00edvoca a limita\u00e7\u00e3o estrutural do nosso potencial de crescimento. Em circunst\u00e2ncias t\u00e3o excecionalmente prop\u00edcias, seria expect\u00e1vel um descolamento muito mais significativo. Que tal n\u00e3o aconte\u00e7a exp\u00f5e, com particular nitidez, a fragilidade do nosso modelo econ\u00f3mico, que nos continuar\u00e1 a empurrar para a cauda do indicador de n\u00edvel de vida na UE, como mostrei na cr\u00f3nica anterior.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O facto de, mesmo beneficiando simultaneamente de todos esses \u201cventos favor\u00e1veis\u201d, a economia portuguesa conseguir crescer apenas marginalmente acima da m\u00e9dia da UE \u2014 precisamente num per\u00edodo em que as principais economias europeias, como a Alemanha e a Fran\u00e7a, atravessam crises profundas e em que as economias de leste perderam dinamismo devido \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 revela de forma inequ\u00edvoca a limita\u00e7\u00e3o estrutural do nosso potencial de crescimento. Em circunst\u00e2ncias t\u00e3o excecionalmente prop\u00edcias, seria expect\u00e1vel um descolamento muito mais significativo. Que tal n\u00e3o aconte\u00e7a exp\u00f5e, com particular nitidez, a fragilidade do nosso modelo econ\u00f3mico, que nos continuar\u00e1 a empurrar para a cauda do indicador de n\u00edvel de vida na UE, como mostrei na cr\u00f3nica anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a deteriora\u00e7\u00e3o esperada da economia, os fluxos migrat\u00f3rios positivos ir\u00e3o inverter-se (menos entradas e mais sa\u00eddas) e o saldo de \u2018naturais\u2019 \u2014 jovens e menos jovens \u2014 ficar\u00e1 ainda mais negativo do que hoje descontando o efeito do Programa Regressar, cujo m\u00e9rito no regresso de emigrantes se perde face \u00e0s injusti\u00e7as criadas em rela\u00e7\u00e3o aos que c\u00e1 continuaram a criar riqueza e a pagar impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Boletim Econ\u00f3mico de outubro de 2025 do Banco de Portugal (BdP) \u2013 essencialmente preparado pela equipa t\u00e9cnica sob a dire\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Centeno, embora tenha sido divulgado no dia seguinte \u00e0 tomada de posse do novo Governador, \u00c1lvaro Santos Pereira \u2013 incluiu como tema em destaque a emigra\u00e7\u00e3o jovem nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A meu ver, o resultado mais relevante (mas j\u00e1 conhecido) que \u00e9 apresentado na an\u00e1lise do BdP \u00e9 a de que Portugal tem das maiores taxas de emigra\u00e7\u00e3o jovem para pa\u00edses europeus (15,4% em 2021 \u2013 na 3\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses da UE27 mais o Reino Unido \u2013, que compara com 11,6% em 2011) e que a emigra\u00e7\u00e3o dos jovens de nacionalidade portuguesa (15-34 anos) tem vindo a aumentar desde 2021 (ap\u00f3s uma descida acentuada desde o fim do programa de ajustamento 2011-2014).<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo do BdP peca por escasso nesta parte, como \u00e9 admitido: \u201cum conhecimento mais profundo desta quest\u00e3o exigiria informa\u00e7\u00e3o sobre o poss\u00edvel retorno destes jovens emigrantes permanentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa an\u00e1lise em falta foi precisamente a que efetuei anteriormente, concluindo que os jovens emigrantes nascidos em Portugal que regressam s\u00e3o proporcionalmente menos do que os que saem, at\u00e9 aos 35 anos regressam menos de metade e at\u00e9 aos 39 anos pouco mais de metade, sendo o balan\u00e7o entre sa\u00eddas e regressos negativo para o total de jovens de jovens portuguesa (c\u00e1 nascidos ou n\u00e3o) mesmo com os fatores extraordin\u00e1rios ainda em curso que favorecem o regresso se descontarmos o Programa Regressar, que devia ser substitu\u00eddo por um regime unificado mais justo e focado, como referi.<\/p>\n\n\n\n<p>Passo agora \u00e0 parte do Boletim sobre a emigra\u00e7\u00e3o de jovens qualificados, que suporta parte do discurso \u2018cor-de-rosa\u2019 de que n\u00e3o h\u00e1 uma fuga l\u00edquida de talento.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa das partes do Boletim, usando uma \u201cabordagem de contraparte\u201d (estat\u00edsticas dos pa\u00edses de destino) com \u201cuma boa cobertura do n\u00famero de emigrantes jovens\u201d, \u00e9 afirmado que \u201c<strong>o peso dos emigrantes jovens com ensino superior (\u2026) foi inferior ao da popula\u00e7\u00e3o residente (em 2021, 31% face a 39%) e que o peso dos emigrantes com menos qualifica\u00e7\u00f5es era superior em 2021 (35% face a 24%). Assim, a decis\u00e3o de emigrar n\u00e3o parece estar enviesada para os jovens com maiores qualifica\u00e7\u00f5es, dado que os jovens mais qualificados est\u00e3o menos representados entre os emigrantes do que nos jovens residentes em Portugal<\/strong>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta estat\u00edstica conta apenas uma parte da realidade e gera uma conclus\u00e3o enviesada. Isto porque a emigra\u00e7\u00e3o portuguesa dirige-se sobretudo a pa\u00edses mais desenvolvidos, e estes precisam proporcionalmente mais de trabalhadores menos qualificados \u2013 para trabalhar em profiss\u00f5es que a popula\u00e7\u00e3o, maioritariamente qualificada, j\u00e1 n\u00e3o quer.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta perspetiva, se os nossos jovens com ensino superior emigram porque encontram oportunidades de emprego qualificado bem pago no estrangeiro que escasseiam em Portugal, devido ao baixo perfil de especializa\u00e7\u00e3o da nossa economia \u2013 muito focado em atividades de baixo valor acrescentado, como o turismo \u2013, a verdade \u00e9 que, pelo motivo acima referido, os trabalhadores menos qualificados ter\u00e3o at\u00e9 proporcionalmente mais oportunidades de trabalho pouco qualificado muito melhor pago no exterior do que em Portugal. Tal explicar\u00e1 os padr\u00f5es encontrados pelo BdP, que n\u00e3o surpreendem quando assim explicados, mas conduzem a uma conclus\u00e3o diferente da apresentada no Boletim Econ\u00f3mico de outubro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Segundo um estudo recente da Federa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica do Porto (FAP), cerca de 73% dos estudantes do ensino superior na academia do Porto consideram prov\u00e1vel ou muito prov\u00e1vel emigrar. \u00c9 razo\u00e1vel admitir que a realidade n\u00e3o seja muito diferente no restante territ\u00f3rio, ainda que menos acentuada em Lisboa, onde existe maior concentra\u00e7\u00e3o de oportunidades de emprego qualificado \u2014 tanto no setor p\u00fablico como no privado. Mas isso deve-se, em grande medida, a um centralismo persistente que asfixia o desenvolvimento das restantes regi\u00f5es, drenando-lhes o talento que nelas \u00e9 formado.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mais interessante teria sido o BdP estudar qual a propor\u00e7\u00e3o de jovens qualificados que emigra.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um estudo recente da Federa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica do Porto (FAP), cerca de 73% dos estudantes do ensino superior na academia do Porto consideram prov\u00e1vel ou muito prov\u00e1vel emigrar. \u00c9 razo\u00e1vel admitir que a realidade n\u00e3o seja muito diferente no restante territ\u00f3rio, ainda que menos acentuada em Lisboa, onde existe maior concentra\u00e7\u00e3o de oportunidades de emprego qualificado \u2014 tanto no setor p\u00fablico como no privado. Mas isso deve-se, em grande medida, a um centralismo persistente que asfixia o desenvolvimento das restantes regi\u00f5es, drenando-lhes o talento que nelas \u00e9 formado.<\/p>\n\n\n\n<p>O ideal seria termos um pa\u00eds capaz de operar como um avi\u00e3o com v\u00e1rios motores econ\u00f3micos distribu\u00eddos pelo territ\u00f3rio, cada um contribuindo para a sustenta\u00e7\u00e3o e velocidade do conjunto. Em vez disso, dependemos quase exclusivamente de um \u00fanico motor \u2014 Lisboa \u2014, enquanto o resto do pa\u00eds permanece subaproveitado, vulner\u00e1vel e estruturalmente limitado.<\/p>\n\n\n\n<p>Teria sido tamb\u00e9m relevante analisar se h\u00e1 uma sa\u00edda l\u00edquida de jovens qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal pode ser feito de forma indireta para os qualificados em geral e com limita\u00e7\u00f5es para os jovens, mas de forma s\u00e9ria, usando dados completos em vez dos parciais empregues para suportar o discurso \u2018cor-de-rosa\u2019, que voltou \u00e0 carga recentemente neste tipo de an\u00e1lise, agora centrado num horizonte mais curto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tal atualizo, com mais dados, um estudo que efetuei&nbsp;<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/senhor-governador-a-fuga-de-talento-e-mesmo-real\/\" rel=\"noreferrer noopener\">numa cr\u00f3nica de novembro de 2024<\/a>. Na altura, o Governador da altura do BdP, M\u00e1rio Centeno, causou pol\u00e9mica ao afirmar que Portugal tinha sido um \u201crecetor l\u00edquido de diplomados\u201d ente 2015 e 2023. A conclus\u00e3o era errada devido \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o parcial, considerando apenas os licenciados e excluindo da an\u00e1lise os mestres (e.g., m\u00e9dicos e engenheiros com mestrado integrado) e doutores.<\/p>\n\n\n\n<p>Estendo agora essa an\u00e1lise a 2015-2024 e adiciono o per\u00edodo mais recente, de 2021-2024, para desmontar as narrativas mais recentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode constatar na Tabela 2, a varia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual da popula\u00e7\u00e3o ativa com forma\u00e7\u00e3o superior entre 2015 e 2024 (64 mil) \u00e9 inferior em 18 mil \u00e0 m\u00e9dia dos novos diplomados nesse per\u00edodo (82 mil), verificando-se uma situa\u00e7\u00e3o similar no per\u00edodo 2021 (70 vs. 89 mil) \u2013 evidenciando assim uma perda do talento gerado no Ensino Superior tendo em conta o que est\u00e1 dispon\u00edvel no mercado de trabalho, deduzindo-se que est\u00e1 ser perdido para o exterior via emigra\u00e7\u00e3o, sobretudo dos nosso jovem talento.<\/p>\n\n\n\n<p>O diferencial negativo m\u00e9dio \u00e9 at\u00e9 ligeiramente mais gravoso no per\u00edodo recente (-19 mil em 2021-2024 vs. -18 mil em 2015-2024), pois apesar da varia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de ativos com forma\u00e7\u00e3o superior ser maior do que em 2015-2024 (70 vs. 64 mil) \u2013 com a subida na faixa de 35 anos e mais (de 49 para 63 mil) a contrariar a baixa nos 25-34 anos (de 12 para 4) \u2013, o valor m\u00e9dio novos diplomados tamb\u00e9m aumentou (89 vs. 82 mil) e com uma diferen\u00e7a um pouco maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Em agregado, no per\u00edodo mais recente verifica-se uma descida m\u00e9dia anual de 8 mil ativos qualificados (face ao per\u00edodo mais alargado) entre os 16 e os 34 anos \u2013 embora contrariada por uma subida de 14 mil nos 35 e mais anos, muito provavelmente com origem na imigra\u00e7\u00e3o e, em menor medida, no regresso de emigrantes, atendendo \u00e0 an\u00e1lise anterior \u2013, apesar de uma subida de 7 mil na m\u00e9dia de novos diplomados, o que aponta para um agravamento da fuga de talento jovem, que \u00e9 consistente com o estudo da FAP.<\/p>\n\n\n\n<p>Em qualquer dos per\u00edodos, a din\u00e2mica dos novos ativos qualificados s\u00f3 supera a dos diplomados se os restringirmos aos licenciados, ou seja, se for usada informa\u00e7\u00e3o parcial, enviesando a conclus\u00e3o. Estranhamente, nessa an\u00e1lise \u2018cor-de-rosa\u2019 s\u00e3o exclu\u00eddos os mais qualificados de todos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela 2. Varia\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ativa com ensino superior (por faixa et\u00e1ria) e n\u00famero de diplomados (por ciclo de estudos), m\u00e9dia anual entre 2015 e 2024 e entre 2021 e 2024, em milhares<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/captura-de-ecra-2025-12-11-as-095002.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1778261\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: INE (dados dos diplomados e da popula\u00e7\u00e3o ativa atualizados em julho e agosto de 2024, respetivamente) e c\u00e1lculos pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, outra an\u00e1lise ainda mais rebuscada para tentar demonstrar o indemonstr\u00e1vel \u00e9 o de que, supostamente, desde 2019 o n\u00famero de jovens de pa\u00edses de elevados sal\u00e1rios (UE, Reino Unido e EUA) a virem trabalhar para Portugal supera o n\u00famero de portugueses que v\u00e3o para estes pa\u00edses, o que evidenciaria a capacidade de atra\u00e7\u00e3o l\u00edquida de talento.<\/p>\n\n\n\n<p>Admitindo que esta an\u00e1lise s\u00f3 pode ser feita com dados do INE, o primeiro problema \u00e9 que apenas \u00e9 poss\u00edvel considerando a UE e Reino Unido (i.e., usando a UE-28 excluindo Portugal) nas s\u00e9ries dispon\u00edveis, pois n\u00e3o h\u00e1 dados espec\u00edficos para os EUA. Mesmo admitindo que tenha sido um lapso a inclus\u00e3o dos EUA, vejamos o que parece ter sido feito considerando apenas esses destinos, para demonstrar o artif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023 sa\u00edram de Portugal para a UE e Reino Unido 21 778 pessoas e entraram em Portugal 8 576 jovens estrangeiros at\u00e9 aos 34 anos dessas proveni\u00eancias e 10 345 at\u00e9 aos 39 anos, o que desmonta logo a tese. A diferen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o grande que a inclus\u00e3o dos dados dos EUA, mesmo que poss\u00edvel e em sentido contr\u00e1rio, n\u00e3o conseguiria contrapor o resultado referido numa an\u00e1lise global.<\/p>\n\n\n\n<p>Diga-se que o mais correto seria comparar jovens com jovens, mas tal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel porque, ao contr\u00e1rio da imigra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma s\u00e9rie de emigra\u00e7\u00e3o do INE que cruze simultaneamente idade e grupos de pa\u00edses, pelo que o exerc\u00edcio proposto seria uma demonstra\u00e7\u00e3o por maioria de raz\u00e3o, que n\u00e3o se verifica.<\/p>\n\n\n\n<p>O artif\u00edcio que parece ter sido usado consiste em somar a esses jovens estrangeiros o total de jovens portugueses regressados nesse ano dessas e de outras proveni\u00eancias (20 033 at\u00e9 aos 34 anos e 24 615 at\u00e9 aos 39 anos) \u2013 que foi relativamente elevado por fatores an\u00f3malos, como explicado acima \u2013, num total de 28 789 e 34 960, respetivamente (qualquer dos dois valores supera as 21 778 pessoas que sa\u00edram de Portugal para UE e Reino Unido).<\/p>\n\n\n\n<p>Indo para tr\u00e1s e admitindo que reconstitu\u00ed bem os passos seguidos, s\u00f3 consigo verificar parcialmente a afirma\u00e7\u00e3o usando valores para os jovens at\u00e9 aos 39 anos e come\u00e7ando em 2021 (nesse ano sa\u00edram 15 936 portugueses com destino \u00e0 UE e Reino Unido e entraram dessas proveni\u00eancias 7 214 jovens at\u00e9 aos 39 anos, que somados ao total de 14 584 jovens nessa faixa et\u00e1ria regressados a Portugal perfaz 21 798).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, a ser assim, trata-se de um exerc\u00edcio intelectualmente desonesto, pois n\u00e3o demonstra capacidade de atra\u00e7\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o de talento \u2013 acima refutado em geral \u2013 face a pa\u00edses ricos, al\u00e9m de outras defici\u00eancias que podem ser apontadas, como n\u00e3o ser demonstr\u00e1vel com dados de fluxos migrat\u00f3rios que os entrantes est\u00e3o c\u00e1 a trabalhar (por exemplo, podem estar desempregados, a trabalhar \u00e0 dist\u00e2ncia para uma empresa estrangeira, pagando impostos sobre o rendimento no exterior, ou serem reformados).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>A ideia de que Portugal deixou para tr\u00e1s o problema da emigra\u00e7\u00e3o jovem e da fuga l\u00edquida de talento para o exterior n\u00e3o resiste a uma an\u00e1lise s\u00e9ria dos dados completos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os saldos positivos recentes entre os nascidos em Portugal que emigram e os que regressam s\u00e3o apenas conjunturais, pois dependem de fatores extraordin\u00e1rios \u2013 PRR, turismo, infla\u00e7\u00e3o, guerra \u2013 e, em 2023, j\u00e1 s\u00f3 s\u00e3o explicados pelo efeito do Programa Regressar, que gera desigualdades injustific\u00e1veis entre contribuintes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Persistem sa\u00eddas l\u00edquidas de jovens com nacionalidade portuguesa, de jovens qualificados e de qualificados em geral, como aqui demonstrei. Pior: mesmo com ventos favor\u00e1veis externos que n\u00e3o controlamos, crescemos apenas marginalmente acima da UE, revelando um potencial de crescimento estruturalmente baixo. Quando esses impulsos cessarem, a economia voltar\u00e1 a evidenciar fragilidades e os saldos migrat\u00f3rios positivos inverter-se-\u00e3o, agravando ainda mais a perda de talento e a sangria demogr\u00e1fica. O discurso \u201ccor-de-rosa\u201d que emerge de leituras parciais \u2013 como ler os dados de forma enviesada, considerar apenas diplomados licenciados, ignorando mestres e doutores, ou construir compara\u00e7\u00f5es intelectualmente desonestas \u2013 pode ser politicamente conveniente, mas \u00e9 tecnicamente errado e estrategicamente perigoso.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Persistem sa\u00eddas l\u00edquidas de jovens com nacionalidade portuguesa, de jovens qualificados e de qualificados em geral, como aqui demonstrei. Pior: mesmo com ventos favor\u00e1veis externos que n\u00e3o controlamos, crescemos apenas marginalmente acima da UE, revelando um potencial de crescimento estruturalmente baixo. Quando esses impulsos cessarem, a economia voltar\u00e1 a evidenciar fragilidades e os saldos migrat\u00f3rios positivos inverter-se-\u00e3o, agravando ainda mais a perda de talento e a sangria demogr\u00e1fica. O discurso \u201ccor-de-rosa\u201d que emerge de leituras parciais \u2013 como ler os dados de forma enviesada, considerar apenas diplomados licenciados, ignorando mestres e doutores, ou construir compara\u00e7\u00f5es intelectualmente desonestas \u2013 pode ser politicamente conveniente, mas \u00e9 tecnicamente errado e estrategicamente perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p>O Pa\u00eds s\u00f3 deixar\u00e1 verdadeiramente de perder talento quando deixar de depender de conjunturas externas e tiver coragem para enfrentar o essencial: criar condi\u00e7\u00f5es para elevar o perfil de especializa\u00e7\u00e3o da economia, alavancando de forma sustentada o valor acrescentado e a produtividade, o que passa tamb\u00e9m por corrigir o centralismo que esvazia o territ\u00f3rio fora da \u00e1rea de influ\u00eancia da capital e criar oportunidades de emprego qualificados e bem remunerado em todo o pa\u00eds, de modo a que os nossos jovens possam construir a sua vida em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto continuarem a ser celebradas estat\u00edsticas incompletas, estaremos apenas a adiar o inevit\u00e1vel: ou reformamos a s\u00e9rio o nosso modelo econ\u00f3mico, ou continuaremos a assistir \u00e0 sa\u00edda silenciosa de uma gera\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Por \u00faltimo, face ao retrato aqui apresentado, sobre os fatores extraordin\u00e1rios que n\u00e3o sabemos aproveitar e a sangria demogr\u00e1fica e de talento que persiste, concluir que Portugal tem a economia do ano da OCDE em 2025 s\u00f3 pode ser mesmo para rir. Isto para n\u00e3o chorarmos o estado a que o pa\u00eds chegou, nomeadamente nas \u00e1reas da sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 para citar algumas das mais problem\u00e1ticas. Deixo para outro espa\u00e7o de opini\u00e3o que vou ocupar nesta semana a an\u00e1lise do ranking enviesado da The Economist, do qual emergiu semelhante conclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine A ideia de que Portugal deixou para tr\u00e1s o problema da emigra\u00e7\u00e3o jovem e da fuga l\u00edquida de talento n\u00e3o resiste a uma an\u00e1lise s\u00e9ria dos dados completos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49447","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49447"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49447\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49448,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49447\/revisions\/49448"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}