{"id":49434,"date":"2025-12-04T16:12:05","date_gmt":"2025-12-04T16:12:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49434"},"modified":"2025-12-05T16:14:07","modified_gmt":"2025-12-05T16:14:07","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-381","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49434","title":{"rendered":"Portugal engana-se. Diverge, empobrece e finge crescer"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/a-europa-financia-coesao-mas-portugal-centraliza\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Nenhum pa\u00eds se renova enquanto continuar a expulsar os competentes, os \u00edntegros e a promover quem vive das conveni\u00eancias e das redes de interesse.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Portugal tem registado, nos \u00faltimos anos, alguma converg\u00eancia de n\u00edvel de vida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia (UE) nos dados oficiais da Comiss\u00e3o Europeia (CE). Contudo, esse progresso revela-se muito fr\u00e1gil \u2014 porque assenta em fatores conjunturais que mascaram fragilidades estruturais: Programa de Recupera\u00e7\u00e3o e Resili\u00eancia (PRR), turismo e a vaga de imigra\u00e7\u00e3o descontrolada, al\u00e9m da imagem de destino seguro para turismo e investimento face \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 e insuficiente para compensar a trajet\u00f3ria de diverg\u00eancia desde o in\u00edcio do mil\u00e9nio (entre 1999 e 2024), o foco da an\u00e1lise desta cr\u00f3nica. A diverg\u00eancia \u00e9 ainda maior quando se corrigem os dados para refletir n\u00fameros mais atualizados da popula\u00e7\u00e3o residente, refletindo a vaga de imigra\u00e7\u00e3o recente.<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste torna-se particularmente evidente quando comparado com o percurso das economias de leste, que protagonizaram um not\u00e1vel processo de aproxima\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel de vida europeu, ultrapassando v\u00e1rios pa\u00edses que, em 1999, se situavam claramente \u00e0 sua frente, incluindo Portugal. Acresce que estes pa\u00edses entraram bastante mais tarde na UE, tendo por isso recebido muito menos fundos \u2014 que, ao contr\u00e1rio de Portugal, souberam transformar em produtividade, rendimento e progresso para a generalidade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto no leste europeu os apoios comunit\u00e1rios foram canalizados para modernizar economias inteiras, por c\u00e1 serviram demasiadas vezes \u2014 para usar uma express\u00e3o suave \u2014 para alimentar interesses instalados, reproduzir privil\u00e9gios e fortalecer uma elite facilitadora. E o mais triste \u00e9 que nada disto \u00e9 novo: Est\u00e1, infelizmente, nos nossos \u201c<strong>genes institucionais<\/strong>\u201d. \u00c9 um padr\u00e3o antigo e persistentemente portugu\u00eas, amplamente documentado por Antero de Quental, E\u00e7a, Garrett, Ramalho Ortig\u00e3o, Fernando Pessoa, Saramago, Sophia ou Verg\u00edlio Ferreira \u2014 todos eles descrevendo, ao longo de s\u00e9culos, a mesma teia de favoritismos, patrimonialismo e captura do Estado por minorias privilegiadas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Uns investiram para criar futuro, n\u00f3s desperdi\u00e7\u00e1mos para preservar um sistema. Em suma, enquanto as economias de leste aproveitaram os fundos para convergir, Portugal continua a avan\u00e7ar aos solavancos, preso a um modelo que favorece a esperteza oportunista em detrimento do m\u00e9rito, do trabalho s\u00e9rio e da intelig\u00eancia criadora.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uns investiram para criar futuro, n\u00f3s desperdi\u00e7\u00e1mos para preservar um sistema. Em suma, enquanto as economias de leste aproveitaram os fundos para convergir, Portugal continua a avan\u00e7ar aos solavancos, preso a um modelo que favorece a esperteza oportunista em detrimento do m\u00e9rito, do trabalho s\u00e9rio e da intelig\u00eancia criadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Somos um pa\u00eds onde demasiadas portas se abrem n\u00e3o pelo que se sabe ou pelo que se faz, mas por quem se conhece \u2014 um padr\u00e3o que os nossos maiores escritores denunciaram, com uma precis\u00e3o quase prof\u00e9tica, muito antes de existir UE. E assim, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, mantemo-nos ref\u00e9ns dos mesmos bloqueios estruturais, enquanto outros que come\u00e7aram muito atr\u00e1s j\u00e1 v\u00e3o muito \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados aqui apresentados mostram tamb\u00e9m que este cen\u00e1rio de empobrecimento relativo continuar\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos se n\u00e3o elevarmos o potencial de crescimento econ\u00f3mico atrav\u00e9s de reformas estruturais profundas. As previs\u00f5es corrigidas da CE (com dados mais atualizados da popula\u00e7\u00e3o) indicam que, at\u00e9 2027, Portugal dever\u00e1 ser ultrapassado por v\u00e1rias economias de leste \u2014 e importa sublinhar que a nossa diverg\u00eancia s\u00f3 n\u00e3o foi ainda maior porque esses pa\u00edses foram, naturalmente, mais afetados pela guerra na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, as maiores economias da Europa Ocidental, com n\u00edveis de vida mais elevados \u2014 como Fran\u00e7a, Alemanha e It\u00e1lia \u2014 t\u00eam sido fortemente penalizadas pela concorr\u00eancia acrescida da China, pela desglobaliza\u00e7\u00e3o e pelas tarifas impostas pelos EUA, o que torna ainda mais evidente a fragilidade do nosso desempenho relativo. Com o prov\u00e1vel fim da guerra, o dinamismo das economias de leste dever\u00e1 recuperar, acelerando um processo de ultrapassagem que j\u00e1 est\u00e1 em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo que os n\u00fameros oficiais parecem contar como progresso \u00e9, na verdade, uma grande ilus\u00e3o: Portugal continua a divergir da Europa, a empobrecer em termos relativos e a expulsar os seus melhores, enquanto a narrativa pol\u00edtica insiste em proclamar sucessos que a realidade desmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a fic\u00e7\u00e3o estat\u00edstica que nos faz parecer mais ricos do que somos, a estagna\u00e7\u00e3o estrutural que impede qualquer salto de produtividade e a m\u00e1 moeda que continua a afastar a boa, o pa\u00eds transforma um surto conjuntural de crescimento num autoengano confort\u00e1vel, mas perigoso. \u00c9 este o pano de fundo da an\u00e1lise que se segue: a verdade proibida sobre um pa\u00eds que finge crescer enquanto afunda, que se engana a si pr\u00f3prio e que esconde, atr\u00e1s de dados polidos, um processo silencioso de decl\u00ednio, diverg\u00eancia e desperd\u00edcio de talento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A diverg\u00eancia do n\u00edvel de vida europeu de Portugal desde 1999: Os n\u00fameros oficiais da CE<\/h2>\n\n\n\n<p>A Figura 1 mostra que, al\u00e9m da Irlanda e de Malta, os pa\u00edses de leste foram os que mais melhoraram o seu n\u00edvel de vida relativo na atual UE (27) entre 1999 e 2024, explicando, em grande medida, o processo de converg\u00eancia a n\u00edvel europeu. Portugal encontra-se no grupo de 12 pa\u00edses que registou uma diminui\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida relativo nesse per\u00edodo (2,8 pontos percentuais, p.p., de 85,0% para 82,2% da UE nos dados oficiais) e entre os tr\u00eas que divergiram do padr\u00e3o europeu \u2013 Portugal, Espanha e Gr\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com efeito, o grupo mais alargado de 12 pa\u00edses integra nove das economias mais ricas em 1999, com um n\u00edvel de vida bem acima da m\u00e9dia da UE, pelo que a sua aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia partindo de valores superiores faz parte do processo de converg\u00eancia real que se espera na ci\u00eancia econ\u00f3mica e no ramo do crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, desse conjunto de 12 pa\u00edses, sobram apenas tr\u00eas \u2014 j\u00e1 referidos \u2014 que, apesar de partirem de n\u00edveis de vida abaixo da m\u00e9dia europeia, ainda conseguiram piorar a sua posi\u00e7\u00e3o: Portugal, Espanha e Gr\u00e9cia, todos eles no sul da Europa. De notar que Portugal era o \u00fanico na segunda metade da tabela em 1999 (15\u00aa posi\u00e7\u00e3o), pois a Gr\u00e9cia era o pa\u00eds mediano, em 14\u00ba, e a Espanha o 12\u00ba. A Gr\u00e9cia foi particularmente penalizada durante a crise de d\u00edvidas soberanas e perdeu 12 lugares entre 1999 e 2024 (de 14\u00ba para 26\u00ba), enquanto a Espanha perdeu tr\u00eas (de 12\u00ba para 15\u00ba), tal como Portugal (de 15\u00ba para 18\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que, apesar de ambos os pa\u00edses terem perdido posi\u00e7\u00e3o relativa, Espanha manteve sempre um n\u00edvel de vida substancialmente superior ao de Portugal: em 2024 situava-se nos 91,1% da m\u00e9dia da UE, face aos nossos 82,2% (depois de 95,7% vs. 85,0% em 1999). A diferen\u00e7a praticamente n\u00e3o se estreitou ao longo de 25 anos \u2014 e isso tem efeitos muito concretos: Espanha continua a atrair uma parte significativa da nossa m\u00e3o-de-obra mais jovem, qualificada e trabalhadora, aquela que aqui, demasiadas vezes, v\u00ea o seu esfor\u00e7o bloqueado por jogos de influ\u00eancia e pequenos poderes instalados, que tratam o pa\u00eds como um tabuleiro de xadrez onde movem as pe\u00e7as a seu bel-prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, com exce\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia, Portugal \u00e9 o pa\u00eds da UE cujo processo de converg\u00eancia real mais desiludiu desde o in\u00edcio do mil\u00e9nio \u2014 em absoluto contraste com o percurso dos pa\u00edses de leste, v\u00e1rios dos quais j\u00e1 nos ultrapassaram em n\u00edvel de vida (Ch\u00e9quia, Eslov\u00e9nia e Litu\u00e2nia). Estes pa\u00edses aderiram muito mais tarde \u00e0 UE, receberam muito menos fundos, mas souberam aplic\u00e1-los de forma incomparavelmente mais eficaz, orientando-os para modernizar a economia, aumentar a produtividade e melhorar o bem-estar coletivo. N\u00e3o se trata, pois, de terem \u2018aparentado\u2019 usar melhor os recursos: usaram-nos efetivamente ao servi\u00e7o da sociedade, enquanto Portugal desperdi\u00e7ou oportunidades e perpetuou bloqueios estruturais que travam o nosso desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 1. N\u00edvel de vida relativo nos pa\u00edses da UE, 1999 e 2024 (UE=100)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/imagem1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1774828\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: Comiss\u00e3o Europeia (base de dados AMECO, com base no European Economy de nov-25) e AIMA (relat\u00f3rio final Migra\u00e7\u00f5es e Asilo 2024, de out-25). Notas: pa\u00edses ordenados pela varia\u00e7\u00e3o (p.p. do PIB) do n\u00edvel de vida relativo (medido pelo PIB per capita em paridade de poderes de compra, PPC) entre 1999 e 2024; L = pa\u00edses de leste integrantes da UE (27): pa\u00edses b\u00e1lticos (Est\u00f3nia, Let\u00f3nia, Litu\u00e2nia), pa\u00edses da Europa central e oriental (Ch\u00e9quia, Hungria, Pol\u00f3nia e Eslov\u00e9nia); e pa\u00edses dos Balc\u00e3s (Cro\u00e1cia, Bulg\u00e1ria e Rom\u00e9nia); a linha a tracejado representa o n\u00edvel de vida relativo de Portugal em 2024, para mais f\u00e1cil inspe\u00e7\u00e3o visual dos pa\u00edses de leste que nos ultrapassaram, enquanto a linha cont\u00ednua representa a refer\u00eancia UE=100; o n\u00edvel de vida corrigido de Portugal (assinalado a cor violeta) em 2024 resulta da substitui\u00e7\u00e3o, no c\u00e1lculo do PIB (em PPC) per capita, da popula\u00e7\u00e3o considerada pelo Eurostat (10 694,7 milh\u00f5es) pelo valor (11 016,2 milh\u00f5es) que resulta da revis\u00e3o em alta da 321,5 milhares de estrangeiros residentes no relat\u00f3rio da AIMA face \u00e0 informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel do INE (que depois a transmite ao Eurostat) usando a metodologia de estima\u00e7\u00e3o descrita no Flash n\u00ba 3\/2025 do Gabinete de Estudos da FEP (G3E2P \u2013 Gabinete de Estudos Econ\u00f3micos, Empresariais e de pol\u00edticas P\u00fablicas), que fez uma an\u00e1lise similar, mas com base no anterior relat\u00f3rio intercalar da AIMA.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O empobrecimento ainda maior corrigindo os n\u00fameros da CE com dados atualizados da popula\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A desilus\u00e3o torna-se ainda mais profunda quando, em vez do valor oficial publicado pela CE em novembro \u2014 claramente sobrestimado no caso portugu\u00eas \u2014, utilizamos o valor corrigido, que assenta num n\u00famero de residentes muito mais pr\u00f3ximo da realidade, como detalho adiante. Com esta corre\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel, a verdadeira dimens\u00e3o da diverg\u00eancia desde 1999 revela-se muito mais grave: em vez da queda oficial de 2,8 p.p. no nosso n\u00edvel de vida relativo, para 82,2% da m\u00e9dia da UE, a descida real \u00e9 de 5,2 p.p. (de 85,0% em 1999 para o valor corrigido de 79,8% em 2024). Os valores assinalados a violeta na Figura 1 mostram, sem margem para d\u00favidas, que o nosso atraso \u00e9 bem maior do que o retratado pelas estat\u00edsticas oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto porque a popula\u00e7\u00e3o \u2014 que constitui o denominador do indicador de n\u00edvel de vida medido pelo PIB per capita em PPC \u2014 \u00e9 j\u00e1 hoje significativamente superior aos valores utilizados pela CE, que replica os dados fornecidos pelo INE. No c\u00e1lculo aqui apresentado, considerou-se uma revis\u00e3o em alta de 321,5 mil residentes (ver notas da Figura 2), justamente para refletir a realidade demogr\u00e1fica. O problema \u00e9 que o INE ainda n\u00e3o incorporou nas suas estat\u00edsticas a revis\u00e3o massiva da popula\u00e7\u00e3o estrangeira residente revelada pelo relat\u00f3rio Migra\u00e7\u00f5es e Asilo 2024 da AIMA. Esta omiss\u00e3o distorce o retrato do pa\u00eds, inflaciona artificialmente o nosso n\u00edvel de vida aparente e esconde uma diverg\u00eancia econ\u00f3mica bem mais profunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Usando os dados da AIMA, a Figura 2 evidencia que a revis\u00e3o em baixa do nosso n\u00edvel de vida em 2024 \u2014 de 82,2% para 79,8% da m\u00e9dia da UE \u2014, apesar de n\u00e3o alterar a posi\u00e7\u00e3o relativa formal de Portugal (permanecemos em 18.\u00ba, o 10.\u00ba pior registo da Uni\u00e3o), revela um afastamento muito mais profundo do pa\u00eds face ao pelot\u00e3o da frente e uma situa\u00e7\u00e3o pior face aos pa\u00edses mais pr\u00f3ximos neste indicador. Ficamos agora claramente distantes do 17.\u00ba lugar, ocupado pela Litu\u00e2nia (87,6%), e temos o 19.\u00ba j\u00e1 praticamente em cima de n\u00f3s: a Est\u00f3nia surge nos 79,4%. Logo atr\u00e1s, alinham-se Pol\u00f3nia (78,7%), Cro\u00e1cia (78,0%), Rom\u00e9nia (77,9%) e Hungria (76,1%), todas economias din\u00e2micas e em trajet\u00f3ria de converg\u00eancia real.<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro problema \u00e9 que esta discrep\u00e2ncia resulta apenas de corrigirmos o denominador \u2014 a popula\u00e7\u00e3o residente \u2014 com dados mais fidedignos da AIMA. O facto de o INE, um organismo do Estado, ainda n\u00e3o ter integrado nas suas estat\u00edsticas demogr\u00e1ficas a revis\u00e3o substancial apresentada por outro organismo do pr\u00f3prio Estado levanta uma de duas hip\u00f3teses graves: ou existe uma incomunicabilidade institucional inadmiss\u00edvel da interoperabilidade digital e da intelig\u00eancia artificial, ou estamos perante uma forma de mascarar \u2014 ainda que por omiss\u00e3o \u2014 a verdadeira dimens\u00e3o do atraso relativo do pa\u00eds. Qualquer das hip\u00f3teses \u00e9 alarmante; ambas comprometem a transpar\u00eancia e a credibilidade das estat\u00edsticas nacionais, base fundamental para pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 2. N\u00edvel de vida relativo nos pa\u00edses da UE em 2024 (UE=100), incluindo o valor de Portugal corrigido pela popula\u00e7\u00e3o revista em fun\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros de estrangeiros residentes da AIMA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/imagem2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1774830\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: Comiss\u00e3o Europeia (base de dados AMECO, com base no European Economy de nov-25) e AIMA (relat\u00f3rio final Migra\u00e7\u00f5es e Asilo 2024, de out-25). Notas: valores ordenados do maior para o menor; ver notas da figura anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 alegada aproxima\u00e7\u00e3o recente ao n\u00edvel de vida m\u00e9dio da UE, os dados corrigidos mostram, de forma inequ\u00edvoca, qu\u00e3o ilus\u00f3ria ela \u00e9. \u00c0 luz dos fatores absolutamente extraordin\u00e1rios de que a economia portuguesa beneficiou \u2014 um PRR generoso, um boom tur\u00edstico sem paralelo e uma vaga de imigra\u00e7\u00e3o descontrolada entre 2017 e 2024 decorrente do Regime de Manifesta\u00e7\u00e3o de Interesse, boa parte dela na economia paralela, como os pr\u00f3prios dados sugerem \u2014 o progresso obtido \u00e9, no m\u00ednimo, dececionante. Com tamanha inje\u00e7\u00e3o de procura, investimento e m\u00e3o-de-obra, teria sido de esperar uma converg\u00eancia robusta e sustentada. O que obtivemos? Uns magros pontos decimais.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa ainda reconhecer uma verdade inc\u00f3moda: parte do nosso \u2018avan\u00e7o relativo\u2019 face \u00e0 m\u00e9dia europeia n\u00e3o resulta de m\u00e9rito pr\u00f3prio, mas sim de uma conjuntura tr\u00e1gica \u2014 a guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 que penalizou severamente as economias mais din\u00e2micas e industrialmente intensivas do leste, e tamb\u00e9m v\u00e1rias economias centrais da UE (como Alemanha, Fran\u00e7a e It\u00e1lia), atualmente sob forte press\u00e3o competitiva da China e sob a sombra das tarifas anunciadas por Trump. Ou seja, subimos porque outros ca\u00edram: \u00e9 uma converg\u00eancia t\u00e3o artificial quanto enganadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos os n\u00fameros: partimos de um n\u00edvel de vida de 77,2% da m\u00e9dia da UE em 2019 (pr\u00e9-pandemia) e chegamos a 2024 com um valor oficial de 82,2%. Mas, corrigindo o denominador \u2014 a popula\u00e7\u00e3o efetivamente residente, que o INE teima em n\u00e3o atualizar com os dados da AIMA \u2014, o valor verdadeiro n\u00e3o passa de 79,8%. Isto significa uma converg\u00eancia real de apenas 2,6 p.p. em cinco anos (e n\u00e3o 5 p.p.). Uma melhoria irris\u00f3ria quando comparada com a dimens\u00e3o dos fatores positivos envolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dito de forma simples: com todo este vento de cauda, Portugal deveria ter disparado; limit\u00e1mo-nos a mover-nos uns mil\u00edmetros. Esta incapacidade estrutural \u2014 persistente, teimosa, quase heredit\u00e1ria \u2014 diz muito mais sobre o pa\u00eds do que qualquer narrativa otimista embalada em valores oficiais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A esperada ultrapassagem por ainda mais pa\u00edses de leste nos pr\u00f3ximos anos, rumo \u00e0 cauda da UE<\/h2>\n\n\n\n<p>As perspetivas da CE s\u00e3o inequ\u00edvocas: nos pr\u00f3ximos anos, Portugal continuar\u00e1 a progredir pouco e a perder posi\u00e7\u00f5es no ranking europeu do n\u00edvel de vida. Segundo as previs\u00f5es oficiais (Figura 3), a nossa melhoria at\u00e9 2027 \u00e9 praticamente nula (82,5% da m\u00e9dia da UE, face a 82,2% em 2024) e, mesmo com estes dados n\u00e3o corrigidos, seremos ultrapassados pela Pol\u00f3nia (83,7%), descendo para a 19.\u00aa posi\u00e7\u00e3o \u2014 a 9.\u00aa pior da Uni\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o quadro real \u00e9 ainda mais desfavor\u00e1vel. Usando dados corrigidos e mais fi\u00e1veis sobre a popula\u00e7\u00e3o residente \u2014 e n\u00e3o a fic\u00e7\u00e3o estat\u00edstica que Portugal continua a apresentar a Bruxelas \u2014, o n\u00edvel de vida relativo em 2027 dever\u00e1 situar-se apenas em 80,1%. Nesse cen\u00e1rio ajustado, perdemos mais duas posi\u00e7\u00f5es e recuamos para 21.\u00ba lugar, superados tamb\u00e9m pela Cro\u00e1cia (81,5%) e pela Est\u00f3nia (80,6%). E vemos j\u00e1 coladas a n\u00f3s outras economias din\u00e2micas de leste: Rom\u00e9nia (78,1%) e Hungria (77,3%).<\/p>\n\n\n\n<p>O que tudo isto significa \u00e9 simples e preocupante: assim que desaparecerem os efeitos tempor\u00e1rios que maquilharam os \u00faltimos anos \u2014 PRR generoso, turismo em m\u00e1ximos, imigra\u00e7\u00e3o em massa e a penaliza\u00e7\u00e3o conjuntural de v\u00e1rias economias europeias devido \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia \u2014, Portugal regressar\u00e1 ao seu crescimento estruturalmente an\u00e9mico e retomar\u00e1 a inevit\u00e1vel marcha para o fundo da tabela europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2027, estaremos novamente \u00e0s portas da cauda da Europa em n\u00edvel de vida: 21.\u00ba entre 27 pa\u00edses, 7.\u00ba pior, ap\u00f3s d\u00e9cadas de fundos estruturais e oportunidades desperdi\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um retrato duro, mas fiel: se nada mudar, o pa\u00eds n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o converge como se afasta \u2014 lenta, silenciosa e persistentemente \u2014 da prosperidade europeia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Figura 3. N\u00edvel de vida relativo previsto nos pa\u00edses da UE em 2027 (UE=100), incluindo o valor de Portugal corrigido pela popula\u00e7\u00e3o revista em fun\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros de estrangeiros residentes da AIMA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/12\/imagem3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1774831\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Fontes<\/strong>: As mesmas da figura anterior.&nbsp;<strong>Notas<\/strong>: neste caso, os valores apresentados representam previs\u00f5es; ver notas das figuras anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Acresce que, com o desej\u00e1vel fim da guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 um choque externo que n\u00e3o est\u00e1 refletido nas previs\u00f5es e que tem penalizado de forma particularmente dura as economias mais expostas do leste europeu \u2014, \u00e9 muito prov\u00e1vel que esses pa\u00edses recuperem um dinamismo bem superior ao atualmente antecipado pela Comiss\u00e3o. Se tal acontecer, Portugal ser\u00e1 ultrapassado por ainda mais economias at\u00e9 2027. Lamento diz\u00ea-lo, mas os dados apontam precisamente nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em paralelo, a imagem de Portugal como pa\u00eds seguro e distante do conflito \u2014 al\u00e9m de belo e est\u00e1vel \u2014 funcionou circunstancialmente como um \u00edman de turistas e de alguns investimentos. Mas esse efeito desaparecer\u00e1 inevitavelmente quando a guerra terminar, retirando-nos uma vantagem relativa que n\u00e3o resulta de m\u00e9rito interno, mas sim de circunst\u00e2ncias externas. E essa perda representar\u00e1 mais um risco para uma economia fr\u00e1gil, pouco diversificada e estruturalmente incapaz de gerar crescimento sustentado.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 reformas estruturais profundas \u2014 e n\u00e3o medidas paliativas, cosm\u00e9ticas ou meramente discursivas \u2014 poder\u00e3o elevar o nosso potencial de crescimento e travar esta trajet\u00f3ria de empobrecimento relativo. Venho alertando repetidamente para esta necessidade. Mas, infelizmente, como tenho denunciado, n\u00e3o vejo qualquer sinal de que as reformas que o pa\u00eds precisa estejam sequer a ser preparadas, quanto mais adotadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem coragem pol\u00edtica, sem vis\u00e3o estrat\u00e9gica e sem compromisso com o interesse p\u00fablico, Portugal continuar\u00e1 a deslizar para o fundo da Europa \u2014 e n\u00e3o ser\u00e1 por falta de avisos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os v\u00edcios institucionais apontados pelos nossos grandes escritores persistem at\u00e9 aos dias de hoje<\/h2>\n\n\n\n<p>A incapacidade de Portugal se libertar de um conjunto de v\u00edcios institucionais \u2014 que penalizam, de m\u00faltiplas formas, o nosso n\u00edvel de vida relativo \u2014 atravessa gera\u00e7\u00f5es e foi diagnosticada, com uma lucidez quase dolorosa, pelos nossos maiores escritores. Em par\u00e1frase do seu pensamento, dir-se-ia que Antero de Quental denunciou o Estado como reprodutor de desigualdades; E\u00e7a viu no Estado uma f\u00e1brica de privil\u00e9gios; Garrett denunciou o regime de afilhados; Ramalho Ortig\u00e3o ridicularizou o funcion\u00e1rio privilegiado e improdutivo; Pessoa identificou na pol\u00edtica o ref\u00fagio dos med\u00edocres; Saramago exp\u00f4s como os poderosos moldam as leis em causa pr\u00f3pria; Sophia lembrou que a justi\u00e7a deve ser fundamento e n\u00e3o exce\u00e7\u00e3o; e Verg\u00edlio Ferreira revelou a mediocridade instalada que se autoprotege.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Temos portugueses brilhantes em todas as \u00e1reas, e figuras p\u00fablicas que, em momentos cr\u00edticos, mostraram compet\u00eancia, coragem e uma integridade rara. Mas h\u00e1, entre todos, um caso particularmente revelador: algu\u00e9m que, tendo servido o pa\u00eds em circunst\u00e2ncias extraordinariamente exigentes, permanece hoje afastado, silencioso, quase invis\u00edvel \u2014 n\u00e3o porque tenha falhado, mas precisamente porque n\u00e3o falhou. Porque n\u00e3o se vendeu. Porque n\u00e3o aceitou o conforto f\u00e1cil do p\u00f3s-poder. Porque n\u00e3o \u00e9 compr\u00e1vel.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Efetivamente, em Portugal, a m\u00e1 moeda expulsa a boa \u2014 e n\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora: basta observar o nosso sistema pol\u00edtico. Temos portugueses brilhantes em todas as \u00e1reas, e figuras p\u00fablicas que, em momentos cr\u00edticos, mostraram compet\u00eancia, coragem e uma integridade rara. Mas h\u00e1, entre todos, um caso particularmente revelador: algu\u00e9m que, tendo servido o pa\u00eds em circunst\u00e2ncias extraordinariamente exigentes, permanece hoje afastado, silencioso, quase invis\u00edvel \u2014 n\u00e3o porque tenha falhado, mas precisamente porque n\u00e3o falhou. Porque n\u00e3o se vendeu. Porque n\u00e3o aceitou o conforto f\u00e1cil do p\u00f3s-poder. Porque n\u00e3o \u00e9 compr\u00e1vel. A sua mera exist\u00eancia \u00e9 um inc\u00f3modo para quem prefere um ambiente onde a conveni\u00eancia vale mais do que o car\u00e1cter.<\/p>\n\n\n\n<p>E o mais impressionante \u00e9 que este exemplo n\u00e3o est\u00e1 sozinho \u2014 representa, antes, a express\u00e3o mais n\u00edtida de um padr\u00e3o mais vasto. Todos conhecemos outros casos, quase m\u00edticos, de pessoas que, depois de servirem o pa\u00eds, recusaram integrar conselhos de administra\u00e7\u00e3o, rejeitaram transformar influ\u00eancia em proveito pessoal, n\u00e3o se deixaram seduzir pelo circuito medi\u00e1tico da opini\u00e3o paga ou pelo labirinto das aven\u00e7as que sustenta tantos carreiristas. Gente que n\u00e3o vive da pol\u00edtica, mas que vive para princ\u00edpios. Pessoas para quem a coer\u00eancia, a conten\u00e7\u00e3o e o servi\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o s\u00e3o etiquetas, mas uma forma de estar. E s\u00e3o precisamente esses \u2014 os que elevam a fasquia moral \u2014 que o sistema tende a descartar, porque a sua presen\u00e7a exp\u00f5e sem piedade a mediocridade moral dos que mandam.<\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia, o rigor, a independ\u00eancia e a integridade tornam-se, assim, amea\u00e7as existenciais para um ecossistema pol\u00edtico habituado ao conforto das conveni\u00eancias, aos equil\u00edbrios t\u00e1citos entre grupos instalados e \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de um condom\u00ednio de interesses que funciona sempre em circuito fechado. Num pa\u00eds onde a esperteza se confunde demasiadas vezes com compet\u00eancia, e o oportunismo com m\u00e9rito, n\u00e3o admira que a \u2018boa moeda\u2019 seja afastada \u2014 n\u00e3o por falta de valor, mas por excesso de inc\u00f3modo. Porque lembrar que \u00e9 poss\u00edvel fazer melhor \u00e9, para muitos, imperdo\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds onde os valores deveriam ser b\u00fassola \u2014 integridade, m\u00e9rito, responsabilidade, servi\u00e7o p\u00fablico \u2014 impera frequentemente a l\u00f3gica inversa: valorizam-se lealdades, n\u00e3o compet\u00eancias; proximidades, n\u00e3o autonomia; utilidades moment\u00e2neas, n\u00e3o vis\u00e3o estrat\u00e9gica. \u00c9 a \u00e9tica substitu\u00edda por c\u00e1lculo, a exig\u00eancia substitu\u00edda por arranjos, a verdade substitu\u00edda por narrativas convenientes.<\/p>\n\n\n\n<p>E neste terreno f\u00e9rtil para o conformismo, a intelig\u00eancia cr\u00edtica incomoda, o rigor desestabiliza, a independ\u00eancia subverte. A presen\u00e7a de pessoas verdadeiramente competentes exp\u00f5e a mediocridade instalada; a presen\u00e7a de pessoas verdadeiramente \u00edntegras denuncia os v\u00edcios do sistema; a presen\u00e7a de pessoas verdadeiramente livres amea\u00e7a as teias de influ\u00eancia que tantos tratam como se fossem patrim\u00f3nio pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 devastador: talento afastado, m\u00e9rito desvalorizado, \u00e9tica relegada. A velha m\u00e1xima volta a confirmar-se: em Portugal, quando o sistema se sente amea\u00e7ado, a m\u00e1 moeda expulsa a boa \u2014 e esta expuls\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f3mica ou institucional, \u00e9 moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds que precisa desesperadamente de elevar padr\u00f5es, acabamos muitas vezes a proteger os padr\u00f5es mais baixos, porque esses s\u00e3o os \u00fanicos que n\u00e3o perturbam o confort\u00e1vel arranjo dos instalados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disto \u00e9 novo \u2014 est\u00e1 inscrito nos genes institucionais do pa\u00eds. A incapacidade de transformar oportunidades em progresso, a tend\u00eancia para desperdi\u00e7ar choques positivos em vez de os converter em reformas, a puls\u00e3o para preservar sistemas, n\u00e3o para construir futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, mesmo com o PRR generoso, o turismo em expans\u00e3o, a entrada massiva de imigrantes e uma conjuntura externa que nos favoreceu temporariamente, Portugal manteve-se fiel ao seu velho gui\u00e3o: avan\u00e7ar pouco, avan\u00e7ar tarde, avan\u00e7ar mal. Um pa\u00eds que recebe vento de cauda e responde com vento parado.<\/p>\n\n\n\n<p>E esta \u2014 infelizmente \u2014 \u00e9 a narrativa verdadeira, mais real e mais reveladora do que qualquer gr\u00e1fico polido pela estat\u00edstica oficial.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Portugal encontra-se hoje num ponto verdadeiramente cr\u00edtico. Sem o impulso excecional \u2014 e irrepet\u00edvel \u2014 do PRR, do turismo e de uma vaga migrat\u00f3ria mal regulada que inflacionou o PIB de forma artificial, o pa\u00eds regressar\u00e1 inevitavelmente \u00e0 sua realidade estrutural: Um potencial de crescimento an\u00e9mico, que nos arrasta, ano ap\u00f3s ano, para a cauda da Uni\u00e3o Europeia em n\u00edvel de vida. Esta trajet\u00f3ria, se n\u00e3o for invertida, conduzir\u00e1 a mais emigra\u00e7\u00e3o \u2014 sobretudo dos nossos jovens mais talentosos e qualificados, que recusam continuar presos num sistema onde, demasiadas vezes, a mediocridade e os \u201cchicos-espertos\u201d expulsam quem trabalha com rigor e m\u00e9rito. O resultado ser\u00e1 um ciclo vicioso de envelhecimento acelerado, menor capacidade produtiva e uma depend\u00eancia crescente de imigra\u00e7\u00e3o apenas para suportar o funcionamento b\u00e1sico de uma economia de baixo valor acrescentado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda mais inquietante \u00e9 que, com o eventual fim da guerra na Ucr\u00e2nia \u2014 que, embora beneficie Portugal em termos absolutos, nos retira vantagens relativas que hoje distorcem as compara\u00e7\u00f5es \u2014, as economias do leste europeu recuperar\u00e3o o dinamismo que tinham antes do conflito. Ou seja: pa\u00edses que entraram muito depois na UE e receberam muito menos fundos do que n\u00f3s \u2014 mas que os aplicaram de forma muito mais eficaz e orientada para a sociedade \u2014 poder\u00e3o ultrapassar-nos em cascata. V\u00e1rios j\u00e1 o fizeram e os demais est\u00e3o cada vez mais perto de o conseguir, na sua maioria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Se queremos contrariar este empobrecimento relativo que marcou as primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo, n\u00e3o bastam discursos ou remendos. Precisamos de reformas estruturais profundas \u2014 que reforcem o investimento produtivo, valorizem o trabalho qualificado, modernizem o Estado, libertem as empresas de amarras burocr\u00e1ticas e melhorem decisivamente o perfil de especializa\u00e7\u00e3o da economia. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel aumentar a produtividade de forma sustentada e recuperar a capacidade de crescer a ritmos elevados, como nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A falsa sensa\u00e7\u00e3o de progresso que alguns n\u00fameros oficiais transmitem desvanece-se quando se integra a realidade demogr\u00e1fica \u2014 que o INE continua inexplicavelmente a n\u00e3o atualizar com base nos dados da AIMA. Incorporando a popula\u00e7\u00e3o real residente, o quadro torna-se mais claro e mais grave: Portugal est\u00e1, de facto, a descer na hierarquia europeia do n\u00edvel de vida, e essa descida tornar-se-\u00e1 ainda mais evidente nos pr\u00f3ximos anos, quando desaparecerem os efeitos tempor\u00e1rios que mascaram o estado real da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se queremos contrariar este empobrecimento relativo que marcou as primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo, n\u00e3o bastam discursos ou remendos. Precisamos de reformas estruturais profundas \u2014 que reforcem o investimento produtivo, valorizem o trabalho qualificado, modernizem o Estado, libertem as empresas de amarras burocr\u00e1ticas e melhorem decisivamente o perfil de especializa\u00e7\u00e3o da economia. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel aumentar a produtividade de forma sustentada e recuperar a capacidade de crescer a ritmos elevados, como nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passe por isto ser\u00e1 apenas gerir o decl\u00ednio \u2014 com proclama\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que j\u00e1 cansam e n\u00e3o convencem ningu\u00e9m, e que nos conduziram exatamente ao ponto em que estamos. Portugal merece \u2014 e pode \u2014 muito mais do que esta lenta eros\u00e3o do seu futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>E, por fim, uma nota que n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f3mica, pois atravessa a Sociedade, aplicando-se a todas as \u00e1reas: Nenhum pa\u00eds se renova enquanto continuar a expulsar a sua \u201cboa moeda\u201d \u2014 os competentes, os \u00edntegros, os que n\u00e3o se deixam capturar \u2014 e a promover quem vive das conveni\u00eancias, dos pequenos equil\u00edbrios e das redes de interesse. Sem coragem moral, n\u00e3o haver\u00e1 coragem reformista. E sem coragem reformista, n\u00e3o haver\u00e1 futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine Nenhum pa\u00eds se renova enquanto continuar a expulsar os competentes, os \u00edntegros e a promover quem vive das conveni\u00eancias e das redes de interesse.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49434","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49434","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49434"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49434\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49435,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49434\/revisions\/49435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49434"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49434"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49434"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}