{"id":49382,"date":"2025-11-05T22:19:44","date_gmt":"2025-11-05T22:19:44","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49382"},"modified":"2025-11-09T22:22:58","modified_gmt":"2025-11-09T22:22:58","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-371","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49382","title":{"rendered":"A pol\u00edtica portuguesa de mal a pior"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/a-politica-portuguesa-de-mal-a-pior\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A frase de Ventura ficar\u00e1 como s\u00edmbolo de uma \u00e9poca: a da frustra\u00e7\u00e3o e do populismo moralista.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Depois do Ventura pol\u00edtico qu\u00e2ntico \u2013 simultaneamente candidato a Presidente da Rep\u00fablica e a Primeiro-ministro (cargo que assumidamente prefere) \u2013, que expus\u00a0<a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/ventura-o-politico-quantico-candidato-a-presidente-e-a-primeiro-ministro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">numa cr\u00f3nica anterior<\/a>, recentemente pass\u00e1mos a perceber a verdadeira inten\u00e7\u00e3o da sua candidatura presidencial, ap\u00f3s um conjunto de declara\u00e7\u00f5es \u2018inflamadas\u2019 e muito \u2018sonantes\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Na leitura que aqui proponho, o objetivo de Ventura nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais \u00e9 transformar o ato eleitoral num verdadeiro plebiscito ao regime democr\u00e1tico \u2013 procurando criar uma base simb\u00f3lica e eleitoral que lhe permita explorar, em futuras legislativas, a ades\u00e3o que agora conseguir a uma narrativa de rutura com o sistema, orientada para a consolida\u00e7\u00e3o de um poder pessoal de natureza quase absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tal bastar\u00e1 agora passar \u00e0 segunda volta \u2014 onde teria poucas possibilidades de vencer \u2014 com uma vota\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito diferente da que tornou o Chega a segunda maior for\u00e7a pol\u00edtica no Parlamento. Esse resultado seria suficiente para refor\u00e7ar a sua legitimidade junto do eleitorado e cimentar o discurso antissistema que alimenta o seu protagonismo, agora com o objetivo mais expl\u00edcito de mudar o regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s uma vota\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas considerada desapontante pelo pr\u00f3prio Ventura, nada melhor que criar um \u2018facto pol\u00edtico\u2019 \u2013 em que \u00e9 especialista \u2013 para promover essa passagem \u00e0 segunda volta, que \u00e9 instrumental para come\u00e7ar a preparar as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas, em que tem reais ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Alerto que, se os eleitores lhe \u2018derem a m\u00e3o\u2019 agora, mais tarde \u2018querer\u00e1 o bra\u00e7o e o resto do corpo\u2019.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ventura, o ditador pr\u00e9-anunciado, tornando as elei\u00e7\u00f5es presidenciais um plebiscito \u00e0 Democracia<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>H\u00e1 frases que dizem quase tudo. Esta \u00e9 uma delas: \u201c<strong>N\u00e3o era preciso um Salazar, eram precisos tr\u00eas Salazares para p\u00f4r Portugal na ordem<\/strong>\u201d, Andr\u00e9 Ventura (2025). Seguiram-se explica\u00e7\u00f5es que apenas confirmam a gravidade deste \u2018desejo venturiano\u2019, que teria s\u00e9rias implica\u00e7\u00f5es negativas para o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O l\u00edder do Chega apresenta-se como um \u201cdemocrata por natureza\u201d, mas defende que Portugal \u201cprecisa de outro regime\u201d, assegurando que tal posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mera ret\u00f3rica, j\u00e1 que, nas suas palavras, o pa\u00eds \u201cest\u00e1 podre de corrup\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 uma perce\u00e7\u00e3o que muitos tender\u00e3o a reconhecer como tendo fundamento, sobretudo quando se constata que um pa\u00eds que recebeu milhares de milh\u00f5es em fundos europeus, que goza de paz, beleza natural e estabilidade geopol\u00edtica, continua amarrado \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o, com a coes\u00e3o social e territorial a permanecerem, lamentavelmente, uma miragem.<\/p>\n\n\n\n<p>Este tipo de afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o pode, contudo, ser banalizado, sob pena de estarmos todos a pactuar com a nostalgia de um passado autorit\u00e1rio que, apesar de ter conseguido evitar a participa\u00e7\u00e3o de Portugal na Segunda Grande Guerra Mundial, representou para o pa\u00eds um per\u00edodo de isolamento, repress\u00e3o e limita\u00e7\u00e3o das liberdades individuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um regime que, embora tenha alcan\u00e7ado alguma disciplina or\u00e7amental e per\u00edodos de equil\u00edbrio externo, f\u00ea-lo \u00e0 custa da liberdade, do pensamento cr\u00edtico e do desenvolvimento social.<\/p>\n\n\n\n<p>A estabilidade financeira foi obtida atrav\u00e9s de pol\u00edticas de conten\u00e7\u00e3o que sacrificaram o investimento humano e tecnol\u00f3gico, deixando Portugal, no final do regime, profundamente atrasado face \u00e0s democracias europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica educativa \u00e9 um exemplo paradigm\u00e1tico dessa orienta\u00e7\u00e3o. Em vez de promover o progresso social e a alfabetiza\u00e7\u00e3o de massas, foi colocada ao servi\u00e7o da doutrina\u00e7\u00e3o moral, religiosa e nacionalista, moldando cidad\u00e3os obedientes e conformes ao ide\u00e1rio autorit\u00e1rio e conservador do regime. O ensino exaltava a figura de Salazar, a Igreja e a Na\u00e7\u00e3o, suprimindo o esp\u00edrito cr\u00edtico e a criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os c\u00e9lebres \u201ctr\u00eas F\u201d \u2014 F\u00e1tima, Futebol e Fado \u2014 foram deliberadamente promovidos como instrumentos de distra\u00e7\u00e3o coletiva, desviando a aten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o dos problemas estruturais do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, vale a pena refletir sobre o que significa desejar \u201ctr\u00eas Salazares\u201d \u2014 n\u00e3o um, mas tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00famero de \u201cSalazares\u201d que Ventura deseja n\u00e3o parece ser inocente. Tr\u00eas \u00e9 o n\u00famero dos poderes fundamentais de um Estado moderno: o legislativo, o executivo e o judicial, que devem estar separados num regime democr\u00e1tico \u2014 pelo princ\u00edpio da separa\u00e7\u00e3o de poderes constitucionalmente consagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Substituam o nome da Salazar pelo de Ventura \u2014 que o parece idolatrar e, porventura, at\u00e9 querer imitar\u2014 e, nessa interpreta\u00e7\u00e3o, teremos:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>1. O Ventura Executivo (Primeiro-ministro);<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>O Ventura Legislador (controlo do Parlamento);<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>O Ventura Juiz (controlo do poder judicial e da Magistratura).;<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Parece apenas faltar o quarto Ventura, o Pol\u00edcia, que ter\u00e1 omitido para n\u00e3o assustar.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Com este (quarto) poder adicional, ter\u00edamos o verdadeiro ditador 4D, com o instrumento da censura e repress\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o \u2013 conv\u00e9m lembrar que a PIDE (Pol\u00edcia Internacional e de Defesa do Estado) foi criada durante o regime do Estado Novo de Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar precisamente com esse prop\u00f3sito, matando a liberdade de express\u00e3o (e, inerentemente, a liberdade de imprensa), que \u00e9 o outro princ\u00edpio fundamental de um regime democr\u00e1tico, al\u00e9m da separa\u00e7\u00e3o de poderes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 precisamente isso que a sedutora capa do \u201ccombate ao banditismo e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o\u201d pode ocultar \u2014 sobretudo quando persistem casos dessa natureza envolvendo v\u00e1rios membros e ex-membros do pr\u00f3prio Chega, partido que, ironicamente, recruta quadros vindos dos mesmos \u201cpartidos do sistema\u201d que Ventura tanto condena e afirma querer combater. Da figura de \u2018her\u00f3i com superpoderes\u2019 que Ventura querer\u00e1 promover como essencial no seu ide\u00e1rio absolutista, rapidamente chegar\u00edamos \u00e0 triste constata\u00e7\u00e3o do \u2018supervil\u00e3o\u2019 com falhas e maus prop\u00f3sitos, n\u00e3o muito diferentes daqueles que agora acusa, at\u00e9 porque veio do \u201cSistema\u201d que tanto acusa, tendo sido militante do PSD antes de sair e fundar o Chega.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ditador \u00e9 e ser\u00e1 sempre um ditador, procurando o m\u00e1ximo poder para decidir o que julga melhor para todos (e sobretudo, para si, mas sem o dizer), arrogando-se uma aura \u2018divina\u2019 que o torna um \u2018ser iluminado\u2019, que sabe mais do que os demais. Parece querer explorar uma \u2018nostalgia sebasti\u00e2nica\u2019 que possa residir nos cidad\u00e3os, mas por de tr\u00e1s do \u2018nevoeiro\u2019 do combate devido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o pode esconder-se o l\u00edder narc\u00edsico e muito limitado nos seus conhecimentos, nomeadamente na \u00e1rea da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em particular, fazer do tema da imigra\u00e7\u00e3o praticamente o \u2018alfa e o \u00f3mega\u2019 de toda a sua pol\u00edtica \u2014 \u00e9 falado a prop\u00f3sito de qualquer \u00e1rea de governa\u00e7\u00e3o, desde a Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Habita\u00e7\u00e3o ou \u00e0 Justi\u00e7a\u2014, significa omitir (propositadamente ou n\u00e3o) que, se restringirmos demasiadamente a imigra\u00e7\u00e3o, o crescimento econ\u00f3mico ser\u00e1 penalizado e ser\u00e1 ainda mais dif\u00edcil financiar sequer uma \u00ednfima parte do programa irrealista do Chega com que se tem apresentado em elei\u00e7\u00f5es \u2014 e que rapidamente levaria o pa\u00eds \u00e0 bancarrota, como se deduz do impacto or\u00e7amental estimado por um estudo que foi noticiado nos media. Precisamos de uma imigra\u00e7\u00e3o regulada em fun\u00e7\u00e3o das necessidades da economia e capacidade de absor\u00e7\u00e3o da sociedade, como tenho defendido, com \u2018portas abertas, mas n\u00e3o escancaradas\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>As declara\u00e7\u00f5es de Ventura confirmam que n\u00e3o quer ser Presidente \u2014 que tem relativamente pouco poder no atual regime \u2014, mas projetar-se ainda mais numa futura candidatura a Primeiro-ministro, onde ter\u00e1 mais possibilidades de criar um \u201cnovo regime\u201d absolutista que parece querer liderar, o que torna as elei\u00e7\u00f5es presidenciais num plebiscito ao regime democr\u00e1tico, que querer\u00e1 explorar mais \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o car\u00e1cter narc\u00edsico e controlador de Ventura, caracter\u00edsticas t\u00edpicas de um ditador, basta ler as declara\u00e7\u00f5es de uma antiga figura destacada do Chega, uma voz inc\u00f3moda que Ventura parece ter afastado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O l\u00edder narc\u00edsico e autorit\u00e1rio descrito pelo ex-Vice-presidente do Chega<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Nada melhor para perceber as puls\u00f5es de Ventura do que as impress\u00f5es de quem trabalhou de perto com ele no partido Chega.<\/p>\n\n\n\n<p>Gabriel Mith\u00e1 Ribeiro, antiga figura intelectual de relevo do partido Chega, anunciou recentemente as raz\u00f5es para a sua sa\u00edda formal do partido num artigo e entrevista cr\u00edticos. Descreveu Andr\u00e9 Ventura como um l\u00edder \u201cnarc\u00edsico e controlador\u201d e denunciou o que considerava \u201cabuso de poder narc\u00edsico\u201d e uma \u201cpuls\u00e3o autocr\u00e1tica destrutiva\u201d. Mith\u00e1 destacou que o partido se tinha transformado num \u201cprojeto de culto da personalidade\u201d, em que a reflex\u00e3o e a autonomia eram vistas como amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Relembro que Mith\u00e1 Ribeiro chegou a ser vice-presidente e coordenador do Gabinete de Estudos do Chega, tendo sido progressivamente afastado por discordar da progressiva centraliza\u00e7\u00e3o do partido em tono de Ventura. Primeiro, Mith\u00e1 \u2014 acad\u00e9mico em Hist\u00f3ria e Estudos Africanos \u2014 foi exclu\u00eddo, em 2022, do Gabinete de Estudos que liderava, \u00f3rg\u00e3o central para a defini\u00e7\u00e3o program\u00e1tica do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as suas declara\u00e7\u00f5es, tal deveu-se a diverg\u00eancias internas sobre a autonomia do Gabinete e a orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do partido, consolidando a sua perce\u00e7\u00e3o de que Ventura concentrava poder pessoal e controlava rigidamente todas as estruturas. Nas suas palavras, \u201ccumprir o primeiro dever imposto [a um Gabinete de Estudos, depreende-se] revelou-se imposs\u00edvel para um l\u00edder narc\u00edsico, pois obrigava-o a descentrar o Chega da sua pessoa (indiv\u00edduo) e recentr\u00e1-lo num valor civilizacional universal e abstrato (coletivo)\u201d. E acrescentou: \u201cO ponteiro da responsabilidade coletiva nunca se moveu no Chega, que para militantes e simpatizantes n\u00e3o deixou de ser mais do que \u2018o partido do Andr\u00e9\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em sequ\u00eancia, pediu a demiss\u00e3o de Vice-presidente do Chega nesse ano, que foi aceite por Ventura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mith\u00e1 Ribeiro, com ascend\u00eancia africana e indiana, nomeadamente (filho de pai cat\u00f3lico e m\u00e3e isl\u00e2mica), descreve ainda um epis\u00f3dio em que foi impedido de falar sobre racismo na Assembleia da Rep\u00fablica, confirmando uma mistura de controlo e puls\u00f5es xen\u00f3fobas dentro do Chega. \u201cAndr\u00e9 Ventura impediu-me de falar sobre o assunto no Parlamento e, at\u00e9 hoje, o tema foi banido do radar pol\u00edtico e c\u00edvico do Chega na mais cobarde irresponsabilidade social, c\u00edvica, civilizacional\u201d, salientando ainda que \u201cum outro militante\u201d lhe recomendou n\u00e3o tocar no assunto por causa do risco de se tornar \u201cuma nova Joacine\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto na sequ\u00eancia da rejei\u00e7\u00e3o do seu nome como candidato do Chega para a vice-presid\u00eancia da Assembleia da Rep\u00fablica em 2019, considerando ter sido \u201crejeitado num pa\u00eds que anda h\u00e1 d\u00e9cadas a dizer que combate o racismo\u201d e em que h\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a de tratamento entre pol\u00edticos de esquerda e de direta oriundos de minorias \u00e9tnicas \u2014 relembro que Ant\u00f3nio Costa, anterior Primeiro-ministro durante oito anos, tem ascend\u00eancia indiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa denuncia n\u00e3o lhe foi permitida pelo pr\u00f3prio partido, conhecido por explorar discursos xen\u00f3fobos sobre minorias \u00e9tnicas, sobretudo ciganos e os imigrantes do Indost\u00e3o. A meu ver, a presen\u00e7a de Mith\u00e1 no Chega estaria sempre a prazo, a partir do momento em que o partido liderado por Ventura come\u00e7ou a explorar esses temas mais insistentemente com o crescendo do discurso populista do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, a exclus\u00e3o de Mith\u00e1 do governo-sombra do Chega, onde esperava assumir a pasta da Educa\u00e7\u00e3o, foi a \u2018gota de \u00e1gua\u2019 para pedir a sa\u00edda do partido, considerando que esse epis\u00f3dio refor\u00e7ou a perce\u00e7\u00e3o de centraliza\u00e7\u00e3o de poder pessoal por Ventura e consolidou o seu diagn\u00f3stico sobre o car\u00e1cter autorit\u00e1rio do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>A respeito desse governo sombra, passado quase um m\u00eas e meio do seu an\u00fancio, n\u00e3o ouvi ainda qualquer pensamento dos ministros-sombra sobre o que pensam fazer para melhorar o futuro do pa\u00eds se o Chega vier a liderar o pa\u00eds, tratando-se do maior partido da oposi\u00e7\u00e3o nesta altura. Talvez Ventura ainda n\u00e3o tenha tido tempo de instruir todos sobre o que dizer, uma esp\u00e9cie de \u2018cartilha\u2019 que assegure consist\u00eancia com a doutrina do l\u00edder, atendendo \u00e0s palavras de Mith\u00e1 Ribeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A obsess\u00e3o pelo controlo de Ventura parece ter-se estendido aos autarcas eleitos do Chega, com o an\u00fancio de uma estrutura permanente de coordena\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 poder\u00e1 fazer sentido a n\u00edvel operacional, nomeadamente, mas \u00e0 luz do que foi acima exposto, o prop\u00f3sito poder\u00e1 ser tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de instrumento de condicionamento da liberdade de atua\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o dos autarcas, para que n\u00e3o se desviem um mil\u00edmetro da estrat\u00e9gia do partido, ou seja, de Ventura.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A necessidade de reformas e a(s) pol\u00edtica(s) em espiral descendente<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o precisa de tr\u00eas Salazares. Precisa, isso sim, de tr\u00eas reformas estruturais e inadi\u00e1veis:&nbsp;<strong>na Justi\u00e7a, na Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica e na Economia<\/strong>. Precisa, sobretudo, de uma classe pol\u00edtica \u00e0 altura do pa\u00eds \u2014 capaz de compreender que autoridade sem \u00e9tica degenera em tirania; que firmeza sem reformas n\u00e3o passa de encena\u00e7\u00e3o; e que o populismo autorit\u00e1rio, mascarado de moralismo punitivo, \u00e9 sempre o prel\u00fadio do desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>Urge travar a eros\u00e3o moral e c\u00edvica que faz com que a m\u00e1 moeda expulse a boa \u2014 porque ainda h\u00e1 boa moeda: gente \u00edntegra, competente e dispon\u00edvel para servir. Mas se a degrada\u00e7\u00e3o do debate e das institui\u00e7\u00f5es prosseguir, restar\u00e1 apenas o que sobra quando o m\u00e9rito desiste e a dec\u00eancia se cansa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a verdade \u00e9 que a frase de Ventura n\u00e3o caiu num deserto.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiu num terreno f\u00e9rtil, num pa\u00eds cansado da lentid\u00e3o da justi\u00e7a, da corrup\u00e7\u00e3o impune e da mediocridade dos pol\u00edticos e, sobretudo, das pol\u00edticas, que n\u00e3o resolvem os problemas reais e crescentes da popula\u00e7\u00e3o. Quando o Estado falha sucessivamente, a tenta\u00e7\u00e3o de \u201cum homem forte\u201d reaparece \u2014 e, se poss\u00edvel, em vers\u00e3o \u2018tridimensional\u2019 ou, ainda mais assustadora, \u2018quadridimensional\u2019, como referi.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica portuguesa vive h\u00e1 anos num p\u00e2ntano de promessas incumpridas. Governos alternam sem reformar, e o eleitorado gira entre o cansa\u00e7o e o desespero. Uns pedem o regresso da \u201cm\u00e3o firme\u201d, outros continuam a acreditar que bastar\u00e1 \u201cgerir melhor\u201d. A cada ciclo, o resultado \u00e9 o mesmo: crescimento an\u00e9mico, burocracia excessiva, um sistema judicial paralisado e uma administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que trata o cidad\u00e3o como s\u00fabdito. Os resultados est\u00e3o sumarizados na tabela e o atual governo tamb\u00e9m n\u00e3o fica bem na fotografia, pois n\u00e3o basta fingir que faz reformas, j\u00e1 que rapidamente a falta de resultados vir\u00e1 \u00e0 tona.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a frase de Ventura \u00e9 mais sintoma do que causa. \u00c9 o reflexo de uma democracia enfraquecida pela aus\u00eancia de resultados e que abre o flanco a discursos populistas e autorit\u00e1rios, e a personagens como essa.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria demonstra, sem exce\u00e7\u00e3o, que o autoritarismo \u00e9 sin\u00f3nimo de estagna\u00e7\u00e3o e fracasso \u2014 porque nenhuma na\u00e7\u00e3o prospera quando, desde logo em termos econ\u00f3micos, a obedi\u00eancia substitui o m\u00e9rito e o medo asfixia a iniciativa. O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, por sua vez, n\u00e3o se faz com proclama\u00e7\u00f5es morais ou gestos teatrais, mas com institui\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, independentes e implac\u00e1veis na aplica\u00e7\u00e3o da lei. E \u00e9 precisamente essa solidez que distingue as democracias maduras das que apenas o fingem ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal precisa, pois, n\u00e3o de homens providenciais, mas de l\u00edderes serenos, determinados e \u00edntegros \u2014 capazes de reformar sem dividir, de exigir sem humilhar e de servir sem se servir. O nosso caminho \u00e9 o de uma democracia ocidental que tem de crescer e de se reformar, n\u00e3o o de uma na\u00e7\u00e3o resignada \u00e0 nostalgia da obedi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tabela comparativo dos prov\u00e1veis resultados econ\u00f3micos por partido\/coliga\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ecoonline.s3.amazonaws.com\/uploads\/2025\/11\/captura-de-ecra-2025-11-05-as-170328.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1754809\"\/><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que est\u00e1 realmente em jogo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica portuguesa n\u00e3o precisa de her\u00f3is, mas de maturidade institucional \u2014 de regras claras, justi\u00e7a c\u00e9lere e uma administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que sirva o bem comum em vez de se proteger a si pr\u00f3pria. O renascimento do debate em torno dos \u201ctr\u00eas Salazares\u201d \u00e9, no fundo, o reflexo de uma crise de confian\u00e7a: quando os cidad\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o acreditam no Parlamento, no Governo ou nos tribunais, tendem a procurar atalhos morais, homens \u201cfortes\u201d que prometem o que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o cumprem.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o autoritarismo \u00e9 sempre um atalho para o abismo \u2014 promete ordem e deixa ru\u00edna, proclama moralidade e instala medo, invoca autoridade e perpetua a mediocridade.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o pa\u00eds precisa n\u00e3o s\u00e3o salvadores, mas pessoas s\u00e9rias, competentes e persistentes, com vis\u00e3o reformista e sentido de Estado \u2014 aquelas que n\u00e3o buscam aplausos f\u00e1ceis, mas resultados duradouros; que n\u00e3o gritam, mas constroem. S\u00f3 com l\u00edderes assim se poder\u00e1 restaurar a confian\u00e7a p\u00fablica e reconstruir um Estado digno da sua democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de um ditador em 3D, Portugal precisa de um governo reformador em 3D \u2014 que pense nas seguintes tr\u00eas dimens\u00f5es amplas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Crescimento sustentado;<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li><strong>Justi\u00e7a c\u00e9lere e eficaz;<\/strong><\/li>\n\n\n\n<li>Estado leve, digital e transparente.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Um governo constitu\u00eddo por pessoas respons\u00e1veis, competentes e vision\u00e1rias \u2013 s\u00e9rio, exigente e guiado por um sentido de dever mais forte do que o apelo da popularidade. E com um l\u00edder que saiba que governar \u00e9 reformar e servir, n\u00e3o dominar; que perceba que autoridade sem \u00e9tica \u00e9 tirania, e que firmeza sem reformas \u00e9 teatro. Enquanto os partidos se entret\u00eam com t\u00e1ticas ef\u00e9meras e slogans vazios, a economia definha, os jovens continuam a partir, a popula\u00e7\u00e3o envelhece e o pa\u00eds arrisca-se a permanecer num ciclo de estagna\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada. E desta vez, com menos fundos estruturais, que durante d\u00e9cadas serviram de almofada, as fragilidades internas ficar\u00e3o mais expostas a nu: a in\u00e9rcia produtiva, a burocracia paralisante e a incapacidade de transformar oportunidades em progresso duradouro.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A frase de Ventura ficar\u00e1 como s\u00edmbolo de uma \u00e9poca: a da frustra\u00e7\u00e3o e do populismo moralista. Mas tamb\u00e9m \u00e9 um aviso. Se o discurso dos \u201ctr\u00eas Salazares\u201d entranhar nas mentes dos cidad\u00e3os eleitores, \u00e9 porque o pa\u00eds desistiu de acreditar nas suas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es e de lutar por elas. E quando isso acontece, o risco n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtico \u2014 \u00e9 econ\u00f3mico, social e civilizacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o precisa de uma \u201cm\u00e3o firme\u201d. Precisa, isso sim, de uma m\u00e3o inteligente \u2014 capaz de unir rigor e vis\u00e3o, disciplina e sentido de futuro. Precisa de coragem para reformar sem destruir a liberdade, de serenidade para resistir ao populismo e de car\u00e1cter para fazer o que \u00e9 necess\u00e1rio, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 popular. Ainda h\u00e1 quem encarne essa sobriedade e esse sentido de dever \u2014 qualidades que hoje escasseiam, mas das quais depende, em grande medida, o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, precisamos que os mais velhos \u2014 aqueles que viveram ou ouviram, de pais e av\u00f3s, o que foi o Antigo Regime \u2014 recordem aos mais novos que a ditadura de Salazar significou medo, censura, repress\u00e3o e atraso. Um pa\u00eds pobre, fechado e resignado, onde o talento era silenciado e a obedi\u00eancia recompensada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 tamb\u00e9m verdade que a democracia, apesar de ter devolvido a liberdade e garantido estabilidade, n\u00e3o cumpriu as promessas de prosperidade e justi\u00e7a que a inspiraram.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9cadas de fundos europeus, paz e oportunidades n\u00e3o chegaram para quebrar o c\u00edrculo da estagna\u00e7\u00e3o, nem para restaurar a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. Ainda assim, o caminho n\u00e3o \u00e9 o de retroceder para o autoritarismo, mas o de aperfei\u00e7oar a democracia \u2014 com l\u00edderes s\u00e9rios, reformas verdadeiras e uma vis\u00e3o de pa\u00eds que reconcilie liberdade com compet\u00eancia, \u00e9tica com exig\u00eancia e Estado com m\u00e9rito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine A frase de Ventura ficar\u00e1 como s\u00edmbolo de uma \u00e9poca: a da frustra\u00e7\u00e3o e do populismo moralista.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49382"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49383,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49382\/revisions\/49383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}