{"id":49374,"date":"2025-10-30T16:58:02","date_gmt":"2025-10-30T16:58:02","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49374"},"modified":"2025-11-02T17:00:57","modified_gmt":"2025-11-02T17:00:57","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-369","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49374","title":{"rendered":"A Guerra das Terras Raras: China age, EUA reagem, Europa dorme e Portugal hiberna"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/a-guerra-das-terras-raras-china-age-eua-reagem-europa-dorme-e-portugal-hiberna\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>As guerras contempor\u00e2neas raramente se travam com ex\u00e9rcitos \u2014 a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra \u2014, travam-se com cadeias de abastecimento.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Poucas mat\u00e9rias-primas revelam t\u00e3o bem a interdepend\u00eancia e a vulnerabilidade da economia global como as terras raras \u2014 um conjunto de 17 elementos qu\u00edmicos da tabela peri\u00f3dica, com nomes que poucos conhecem, mas que s\u00e3o indispens\u00e1veis \u00e0 vida tecnol\u00f3gica moderna. Motores el\u00e9tricos, turbinas e\u00f3licas, smartphones, sat\u00e9lites ou sistemas de defesa dependem deles.<\/p>\n\n\n\n<p>A recente decis\u00e3o da China de restringir as exporta\u00e7\u00f5es destes materiais e das tecnologias que os processam reacendeu uma tens\u00e3o que vai muito al\u00e9m do com\u00e9rcio: trata-se de uma guerra econ\u00f3mica silenciosa, onde o controlo de recursos cr\u00edticos se converte em instrumento de poder geopol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa pelas terras raras tornou-se um s\u00edmbolo da nova era em que vivemos \u2014 uma era em que o crescimento econ\u00f3mico, a seguran\u00e7a energ\u00e9tica e a soberania tecnol\u00f3gica est\u00e3o cada vez mais entrela\u00e7ados. A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e digital precisa destes elementos, pelo que a sua escassez ou manipula\u00e7\u00e3o pode trav\u00e1-la. \u00c9 neste tabuleiro, onde se cruzam as ambi\u00e7\u00f5es da China, as rea\u00e7\u00f5es dos EUA e a vulnerabilidade europeia, que Portugal tamb\u00e9m \u00e9 chamado a posicionar-se \u2014 ainda que, como \u00e9 habitual entre n\u00f3s, um tema desta relev\u00e2ncia pare\u00e7a n\u00e3o suscitar a devida preocupa\u00e7\u00e3o da classe pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A guerra global das terras raras<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>H\u00e1 guerras que n\u00e3o se travam com tanques, mas com cadeias de abastecimento. Desde o in\u00edcio dos anos 2000, a China percebeu que o verdadeiro poder n\u00e3o est\u00e1 apenas em extrair recursos, mas em dominar a refina\u00e7\u00e3o e o processamento \u2014 as etapas de maior valor acrescentado e mais dif\u00edceis de replicar. Hoje, controla cerca de 70% da extra\u00e7\u00e3o mundial e quase 90% da refina\u00e7\u00e3o (e.g., Goldman Sachs, \u201cThe case for rare-earths\u201d, Outubro 2025), colocando o resto do mundo numa depend\u00eancia estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, h\u00e1 poucas semanas, Pequim apertou novamente os controlos \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, invocando raz\u00f5es ambientais e de seguran\u00e7a nacional, o gesto foi interpretado como uma jogada de press\u00e3o pol\u00edtica. As terras raras tornaram-se a nova alavanca diplom\u00e1tica chinesa, usada para influenciar negocia\u00e7\u00f5es comerciais e tecnol\u00f3gicas, especialmente com Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta americana foi r\u00e1pida. Ciente da vulnerabilidade das suas cadeias industriais \u2014 em particular nas \u00e1reas da defesa, energia limpa e semicondutores \u2014, a Administra\u00e7\u00e3o dos EUA acelerou acordos com pa\u00edses aliados, procurando reconstruir um ecossistema de fornecimento alternativo mesmo antes de Trump se encontrar com o l\u00edder Chin\u00eas na Coreia do sul esta semana \u2014 estando j\u00e1 previsto um acordo preliminar para a China adiar por um ano as restri\u00e7\u00f5es de terras raras aos EUA em troca da suspens\u00e3o das tarifas adicionais de 100% de Trump, mais algumas promessas parte a parte. Os pactos recentes dos EUA com Austr\u00e1lia e Jap\u00e3o s\u00e3o paradigm\u00e1ticos: preveem investimentos conjuntos e coopera\u00e7\u00e3o em minera\u00e7\u00e3o e processamento, cria\u00e7\u00e3o de mecanismos para identificar vulnerabilidades nas cadeias de fornecimento e investimentos bilaterais estrat\u00e9gicos em troca da redu\u00e7\u00e3o das tarifas americanas. O objetivo dos EUA \u00e9 claro \u2014 reduzir a depend\u00eancia chinesa via rede de parceiros \u201camigos\u201d, o chamado friend-shoring.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, os limites da estrat\u00e9gia s\u00e3o claros. Nenhum pa\u00eds, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da China, possui simultaneamente a escala de produ\u00e7\u00e3o, o dom\u00ednio tecnol\u00f3gico e a flexibilidade ambiental necess\u00e1rios para sustentar o mercado global. A substitui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 lenta, cara e politicamente fr\u00e1gil. Enquanto isso, o mundo continua preso \u00e0 teia industrial chinesa, onde a efici\u00eancia econ\u00f3mica se confunde com depend\u00eancia estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Europa na encruzilhada: depend\u00eancias, transi\u00e7\u00e3o verde e oportunidade da reciclagem<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A Europa, sem rumo e sem uma estrat\u00e9gia coerente \u2014 como, ali\u00e1s, come\u00e7a a ser a sua marca \u2014 vai assistindo ao desenrolar desta disputa com uma mistura de preocupa\u00e7\u00e3o e atraso, reagindo mais do que agindo, num mundo que j\u00e1 n\u00e3o espera por ela. Durante d\u00e9cadas, confiou que o com\u00e9rcio global garantiria acesso est\u00e1vel a tudo o que n\u00e3o produzia. Essa cren\u00e7a colapsou com a pandemia, a guerra na Ucr\u00e2nia e, agora, com o controlo chin\u00eas sobre os materiais cr\u00edticos da transi\u00e7\u00e3o verde.<\/p>\n\n\n\n<p>O dilema europeu \u00e9 claro: como conciliar as metas ambiciosas de neutralidade carb\u00f3nica e digitaliza\u00e7\u00e3o com a escassez de mat\u00e9rias-primas controladas por um rival geopol\u00edtico? A resposta ainda \u00e9 incerta, mas o tempo joga contra o continente. As metas do Pacto Ecol\u00f3gico implicam multiplicar entre tr\u00eas e sete vezes a procura de minerais cr\u00edticos at\u00e9 2040 (Ag\u00eancia Internacional da Energia, \u201cCritical Minerals Outlook\u201d, 2024). E, enquanto a Europa hesita e adormece entre cimeiras e declara\u00e7\u00f5es, cada atraso em diversificar fornecedores torna-a mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Perante a restri\u00e7\u00e3o recente das terras raras da China, a Comiss\u00e3o Europeia est\u00e1 a considerar utilizar o Instrumento Anticoer\u00e7\u00e3o, uma ferramenta comercial poderosa, legalmente vinculativa, que autoriza san\u00e7\u00f5es ou restri\u00e7\u00f5es comerciais proporcionais contra pa\u00edses que usem a economia como arma pol\u00edtica. No entanto, na pr\u00e1tica, a UE ainda n\u00e3o o aplicou, o que significa que h\u00e1 alguma incerteza sobre a rapidez e efic\u00e1cia da sua implementa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, qualquer medida seria cuidadosamente calibrada para n\u00e3o prejudicar demasiado os pr\u00f3prios interesses europeus, dependendo da capacidade da UE de agir de forma coordenada e r\u00e1pida, o que, como sabemos n\u00e3o tem acontecido com a frequ\u00eancia e a efetividade necess\u00e1rias nas mais variadas \u00e1reas. Esse n\u00e3o pode, por isso, ser o \u00fanico vetor de resposta da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Num passado recente, a UE tem tamb\u00e9m procurado diversificar as suas fontes atrav\u00e9s de acordos bilaterais e parcerias com pa\u00edses fora da China, incluindo Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Brasil, mas estas iniciativas s\u00e3o geralmente de longo prazo e ainda n\u00e3o resultaram em acordos comerciais concretos equivalentes aos pactos dos EUA com Jap\u00e3o e Austr\u00e1lia (e, anteriormente, na \u00e1rea da defesa, com a Ucr\u00e2nia).<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo em reconfigura\u00e7\u00e3o, as terras raras deixaram de ser apenas um tema t\u00e9cnico de minera\u00e7\u00e3o ou de ambiente. Tornaram-se um \u00edndice de soberania econ\u00f3mica \u2014 um espelho das for\u00e7as e fraquezas de cada modelo de desenvolvimento. E \u00e9 \u00e0 luz dessa realidade que se deve ler o caso europeu e portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Europa acordou tarde para o peso estrat\u00e9gico das mat\u00e9rias-primas cr\u00edticas. Durante demasiado tempo, confiou que bastava regulamentar e inovar para garantir prosperidade, acreditando num com\u00e9rcio global previs\u00edvel e est\u00e1vel. Essa vis\u00e3o colapsou. Hoje, a Uni\u00e3o Europeia (UE) enfrenta o paradoxo de querer liderar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e digital enquanto continua dependente da China para 98% das terras raras processadas que utiliza (Comiss\u00e3o Europeia, Raw materials dependence statistics 2024).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Bruxelas tem tentado corrigir o erro, mas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O Critical Raw Materials Act, aprovado (apenas) em 2024, define metas ambiciosas para 2030: extrair internamente 10% das necessidades, refinar 40% e reciclar 15%.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma tentativa de construir um \u201cescudo industrial\u201d num dom\u00ednio onde o continente quase abdicou da soberania. S\u00f3 que as dificuldades s\u00e3o evidentes: os projetos de minera\u00e7\u00e3o enfrentam resist\u00eancia ambiental e burocr\u00e1tica, o investimento privado \u00e9 escasso e o tempo joga contra as metas clim\u00e1ticas. A UE at\u00e9 vai tendo recursos financeiros, o que lhe falta \u00e9 capacidade executiva, determina\u00e7\u00e3o e, sobretudo, vontade de acordar do seu torpor estrat\u00e9gico.<\/p>\n\n\n\n<p>O contraste com a estrat\u00e9gia chinesa \u00e9 gritante. Pequim domina toda a cadeia de valor, da extra\u00e7\u00e3o \u00e0 refina\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de \u00edmanes, enquanto a UE depende de importa\u00e7\u00f5es at\u00e9 para equipamentos de reciclagem. Se a globaliza\u00e7\u00e3o ensinou os europeus a valorizar a efici\u00eancia, a nova geopol\u00edtica exige-lhes resili\u00eancia. O com\u00e9rcio deixou de ser neutro e tornou-se o campo onde se mede poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o verde, vista como s\u00edmbolo de autonomia energ\u00e9tica, \u00e9 tamb\u00e9m um novo tipo de depend\u00eancia. As turbinas e\u00f3licas, as baterias dos ve\u00edculos el\u00e9tricos, os pain\u00e9is solares \u2014 todos dependem fortemente de elementos raros, como o neod\u00edmio, o c\u00e9rio ou o t\u00e9rbio. A substitui\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis por minerais n\u00e3o elimina a depend\u00eancia; apenas a transforma. E, paradoxalmente, torna-a mais concentrada em poucos pa\u00edses. Enquanto o petr\u00f3leo se pode comprar a v\u00e1rios fornecedores, as terras raras, em grande medida, concentram-se em poucos, sobretudo dois ou tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Europa, que se orgulha de liderar a transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, corre o risco de se tornar ref\u00e9m de uma transi\u00e7\u00e3o controlada por outros. A ambi\u00e7\u00e3o verde poder\u00e1 ser verde na ret\u00f3rica, mas cinzenta na pr\u00e1tica, se continuar dependente de cadeias produtivas externas. \u00c9 a diferen\u00e7a entre ser protagonista da revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ou apenas seu consumidor.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, contudo, uma via interm\u00e9dia \u2014 e promissora: a reciclagem e a economia circular. As terras raras podem ser recuperadas de equipamentos em fim de vida \u2014 motores, turbinas, discos r\u00edgidos, smartphones \u2014, reduzindo a necessidade de minera\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e aliviando press\u00f5es ambientais. A UE det\u00e9m o conhecimento cient\u00edfico para o fazer, mas ainda n\u00e3o criou um quadro econ\u00f3mico que o torne vi\u00e1vel em larga escala. O custo de reciclagem \u00e9 elevado e as pol\u00edticas p\u00fablicas raramente recompensam suficientemente as externalidades positivas dessa atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Investir em hubs industriais de recupera\u00e7\u00e3o de materiais cr\u00edticos seria, simultaneamente, um ato de soberania e de inova\u00e7\u00e3o. Permitiria reduzir a depend\u00eancia externa e criar emprego qualificado. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio ver a reciclagem n\u00e3o como um complemento, mas como um pilar da pol\u00edtica industrial europeia. \u00c9 tamb\u00e9m aqui que Portugal pode ter um papel relevante, se souber alinhar a sua capacidade cient\u00edfica com uma estrat\u00e9gia industrial coerente \u2014 embora, face \u00e0 (in)capacidade das lideran\u00e7as que temos tido o azar de conhecer, a esperan\u00e7a de o ver acontecer seja, no m\u00ednimo, prudente. Este ser\u00e1 o tema da pr\u00f3xima sec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A fragilidade da Europa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a montante, na obten\u00e7\u00e3o de terras raras, mas tamb\u00e9m no desenvolvimento de uma ind\u00fastria de semicondutores mais forte e resiliente, que possa ser competitiva e suportar o resto do aparelho industrial europeu, faltando pol\u00edticas nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio recente da Nexperia mostra que a globaliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ing\u00e9nua, tornou-se defensiva e seletiva. Esta empresa de semicondutores, com sede nos Pa\u00edses Baixos, passou a ser chinesa ap\u00f3s a aquisi\u00e7\u00e3o em 2019 pela China Wingtech. Recentemente, o governo holand\u00eas interveio para restringir o controlo da Nexperia sobre uma produtora local de semicondutores, a Nowi, de modo a impedir a transfer\u00eancia de tecnologia e conhecimentos \u00e9 o retrato dessa viragem.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que o governo holand\u00eas ter assumido o controle da Nowi, a China respondeu com a interrup\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de produtos da Nexperia, fundamentais para a ind\u00fastria autom\u00f3vel europeia, incluindo as empresas do grupo alem\u00e3o Volkswagen, um dos maiores clientes da empresa chinesa.<\/p>\n\n\n\n<p>No que refere a Portugal, a Autoeuropa j\u00e1 admitiu, em comunicado, a preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o, embora at\u00e9 ver ainda n\u00e3o tenha sido afetada e tenha a produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima assegurada. Outras not\u00edcias d\u00e3o conta de que o grupo Wolkswagen criou uma task force para lidar coma situa\u00e7\u00e3o e j\u00e1 ter\u00e1 arranjado um substituto para a Nexperia, mas \u00e9 algo ainda a confirmar, pelo que a situa\u00e7\u00e3o deve ser acompanhada de perto pelas autoridades europeias e nacionais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Portugal entre a vulnerabilidade e a oportunidade: uma estrat\u00e9gia poss\u00edvel<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Portugal raramente surge nas manchetes quando se fala em terras raras \u2014ou de semicondutores, mas as suas vulnerabilidades est\u00e3o profundamente entrela\u00e7adas com as da Europa. Embora n\u00e3o produza componentes estrat\u00e9gicos em grande escala, o pa\u00eds integra cadeias industriais altamente expostas: autom\u00f3vel, aeron\u00e1utica, energias renov\u00e1veis, eletr\u00f3nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Um simples atraso na chegada de \u00edmanes ou sensores produzidos na Alemanha \u2014 dependentes, por sua vez, de refina\u00e7\u00e3o chinesa \u2014, como poder\u00e1 acontecer se o epis\u00f3dio Nexperia n\u00e3o for resolvido rapidamente, repercute-se nas f\u00e1bricas portuguesas de componentes. A depend\u00eancia \u00e9 indireta, mas real. E torna o pa\u00eds vulner\u00e1vel a choques de fornecimento, subida de custos e perda de competitividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Portugal enfrenta um risco adicional: o da complac\u00eancia. O pa\u00eds tende a reagir tarde \u00e0s mudan\u00e7as estruturais, sobretudo quando estas exigem coordena\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, pol\u00edtica industrial e ambiente. Mesmo quando disp\u00f5e de fundos, falta-lhe aquilo que o dinheiro n\u00e3o compra: capacidade de decis\u00e3o, vis\u00e3o estrat\u00e9gica e sentido de urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Multiplicam-se planos, comiss\u00f5es e relat\u00f3rios, mas escasseiam decis\u00f5es efetivas. A administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica move-se a um ritmo que desincentiva o investimento, a pol\u00edtica hesita por c\u00e1lculo e o pa\u00eds, entretido na ret\u00f3rica, perde janelas de oportunidade que n\u00e3o voltam. A guerra das terras raras \u00e9 mais do que uma disputa entre superpot\u00eancias \u2014 \u00e9 um aviso claro de que quem n\u00e3o define uma estrat\u00e9gia industrial acaba por ser definido pelos outros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014 Potencial nas terras raras e dilemas nacionais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista geol\u00f3gico, Portugal tem ocorr\u00eancias identificadas de elementos de terras raras, muitas vezes associadas a pegmatitos e dep\u00f3sitos de estanho e l\u00edtio. Estudos do LNEG (\u201cRelat\u00f3rio de recursos minerais cr\u00edticos em Portugal\u201d, 2024) e de programas europeus como o Eurare (\u201cSpain and Portugal: Occurrence of rare-earth elements\u201d, 2023) indicam potencial em algumas zonas do Norte e do Centro, embora com rentabilidade e escala incertas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o obst\u00e1culo principal n\u00e3o \u00e9 geol\u00f3gico: \u00e9 pol\u00edtico e social. A experi\u00eancia recente com o l\u00edtio mostrou a dificuldade em equilibrar explora\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, como ficou patente nos processos de consulta p\u00fablica sobre concess\u00f5es no Norte e Centro do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 leg\u00edtimo \u2014 e necess\u00e1rio \u2014 exigir transpar\u00eancia, rigor ambiental e benef\u00edcio efetivo para as comunidades envolvidas. O que \u00e9 inaceit\u00e1vel \u00e9 repetir o padr\u00e3o hist\u00f3rico: aceitar extra\u00e7\u00e3o com custos ambientais e sociais para os habitantes locais, sem compensa\u00e7\u00e3o justa, enquanto os ganhos se concentram em Lisboa ou em meia d\u00fazia de interesses que o centralismo protege e enriquece.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal tem vivido h\u00e1 d\u00e9cadas desta l\u00f3gica corrosiva de distribui\u00e7\u00e3o desigual dos recursos \u2014 em que o interior fornece, o Estado centralista decide e o litoral recolhe. Se o pa\u00eds quiser levar a s\u00e9rio a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e a coes\u00e3o territorial, ter\u00e1 de quebrar este ciclo. A extra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a prote\u00e7\u00e3o ambiental; o que falta \u00e9 um modelo de licenciamento transparente, fiscaliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica independente e verdadeira participa\u00e7\u00e3o das comunidades locais \u2014 n\u00e3o como ornamento, mas como parte do processo de decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do meu ponto de vista de n\u00e3o especialista, enquanto mirand\u00eas e economista, considero que \u00e9 preciso ter em conta todos os impactos e avaliar se os benef\u00edcios superam os custos, incluindo externalidades negativas a curto, m\u00e9dio e longo prazos \u2014 por exemplo, potenciais impactos na sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es e sobre o turismo devem ser avaliados \u2014, e se n\u00e3o h\u00e1 alternativas melhores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Portugal tem vivido h\u00e1 d\u00e9cadas desta l\u00f3gica corrosiva de distribui\u00e7\u00e3o desigual dos recursos \u2014 em que o interior fornece, o Estado centralista decide e o litoral recolhe. Se o pa\u00eds quiser levar a s\u00e9rio a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e a coes\u00e3o territorial, ter\u00e1 de quebrar este ciclo. A extra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a prote\u00e7\u00e3o ambiental; o que falta \u00e9 um modelo de licenciamento transparente, fiscaliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica independente e verdadeira participa\u00e7\u00e3o das comunidades locais \u2014 n\u00e3o como ornamento, mas como parte do processo de decis\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por exemplo, segundo publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e not\u00edcias recentes, na China foram dados passos para extrair l\u00edtio filtrando a \u00e1gua do mar ou de salmouras (nesse caso, resultantes de processos de dessaliniza\u00e7\u00e3o, que t\u00eam os seus desafios pr\u00f3prios, mas h\u00e1 salmouras apenas para a extra\u00e7\u00e3o de sal e temos v\u00e1rias em Portugal), s\u00f3 que a produ\u00e7\u00e3o comercial em larga escala ainda n\u00e3o foi alcan\u00e7ada. Portugal poderia explorar esta via potencialmente mais segura, \u00e0 luz da nossa realidade, como alternativa ou complemento \u00e0 minera\u00e7\u00e3o prevista \u2014 mas com prud\u00eancia e pragmatismo, reconhecendo que a tecnologia ainda n\u00e3o est\u00e1 madura, o que passaria por estudos de viabilidade e eventuais projetos piloto, caso fa\u00e7am sentido, bem como investiga\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o podemos \u00e9 ser incoerentes na UE e em Portugal: recusar minera\u00e7\u00e3o interna, mas importar minerais extra\u00eddos com menor exig\u00eancia ambiental noutros continentes. Como alertou a Comiss\u00e3o Europeia no Critical Raw Materials Act (2024), essa depend\u00eancia externa transfere apenas o impacto ambiental, sem o eliminar.<\/p>\n\n\n\n<p>O dilema \u00e9 moral e econ\u00f3mico, pelo que temos de procurar alternativas e os melhores equil\u00edbrios poss\u00edveis. Uma coisa \u00e9 certa, a neutralidade clim\u00e1tica n\u00e3o se alcan\u00e7a com depend\u00eancia estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u2014 A via realista: ci\u00eancia, reciclagem e diplomacia econ\u00f3mica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Portugal pode n\u00e3o ser uma pot\u00eancia mineira, mas pode ser uma pot\u00eancia inteligente na economia dos materiais cr\u00edticos, pois h\u00e1 outras \u00e1reas relacionadas onde o pa\u00eds pode ter vantagens comparativas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Reciclagem e recupera\u00e7\u00e3o: centros de investiga\u00e7\u00e3o como o LNEG, o INESC TEC ou o Instituto Superior T\u00e9cnico possuem compet\u00eancias em metalurgia, separa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e economia circular. Com incentivos adequados, poderiam liderar projetos de recupera\u00e7\u00e3o de \u00edmanes e componentes industriais, integrando Portugal em cons\u00f3rcios europeus de reciclagem.<\/li>\n\n\n\n<li>Inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: o pa\u00eds tem universidades de excel\u00eancia e capacidade de atrair fundos europeus para investiga\u00e7\u00e3o em materiais, economia verde e sustentabilidade. \u00c9 aqui que se pode gerar o conhecimento aplicado que falta \u00e0 Europa.<\/li>\n\n\n\n<li>Diplomacia econ\u00f3mica: Portugal deve posicionar-se como parceiro cred\u00edvel na pol\u00edtica europeia de mat\u00e9rias-primas cr\u00edticas, capaz de captar investimento industrial e tecnol\u00f3gico. O seu peso pol\u00edtico poder\u00e1 ser pequeno, mas o seu papel estrat\u00e9gico, se bem definido, pode ser grande.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Esses tr\u00eas pilares \u2014 reciclar, investigar e negociar \u2014 constituem uma estrat\u00e9gia poss\u00edvel, realista e coerente com a dimens\u00e3o do pa\u00eds, complementando o contributo potencial na minera\u00e7\u00e3o terrestre ou at\u00e9 mar\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Uma estrat\u00e9gia industrial com sentido de futuro<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra das terras raras obriga a repensar o lugar de Portugal na economia europeia. N\u00e3o basta crescer com base em turismo e servi\u00e7os. O pa\u00eds precisa de participar nas cadeias industriais que definir\u00e3o o s\u00e9culo XXI: energia limpa, mobilidade el\u00e9trica, semicondutores, tecnologias de defesa e reciclagem avan\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, \u00e9 essencial articular tr\u00eas dimens\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Pol\u00edtica econ\u00f3mica, que incentive a produ\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o industrial;<\/li>\n\n\n\n<li>Ci\u00eancia e tecnologia, capazes de transformar conhecimento em produtos e processos;<\/li>\n\n\n\n<li>Planeamento ambiental e territorial, que permita investir e produzir sem degradar.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p>Portugal tem recursos humanos e institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de qualidade. O que lhe falta \u00e9 coordena\u00e7\u00e3o e vis\u00e3o estrat\u00e9gica. Um pa\u00eds pequeno pode n\u00e3o competir em escala, mas pode competir em intelig\u00eancia \u2014 e a economia das terras raras \u00e9, acima de tudo, um jogo de intelig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que o pa\u00eds disp\u00f5e de uma academia e de um setor empresarial capazes de pensar e agir com vis\u00e3o, mas raramente encontra, na pol\u00edtica, o mesmo n\u00edvel de compet\u00eancia e ambi\u00e7\u00e3o. Falta-nos uma classe dirigente \u00e0 altura do talento que j\u00e1 temos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>As guerras contempor\u00e2neas raramente se travam com ex\u00e9rcitos \u2014 a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra \u2014, travam-se com cadeias de abastecimento. O controlo das terras raras \u00e9 hoje uma forma de poder silencioso, e quem o dominar condicionar\u00e1 a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e a autonomia das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o deve ver este tema como distante ou t\u00e9cnico. Est\u00e1 em causa a sua capacidade de participar, com relev\u00e2ncia, na nova economia europeia, assim os l\u00edderes europeus tomem, finalmente, as r\u00e9deas de uma reindustrializa\u00e7\u00e3o consequente.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo em que o poder se mede pelo dom\u00ednio do invis\u00edvel, o pa\u00eds tem de escolher entre ser espectador ou protagonista. E, para ser protagonista, precisa de vis\u00e3o, ci\u00eancia e coragem pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que extrair minerais, Portugal precisa de extrair valor com conhecimento e estrat\u00e9gia. Essa ser\u00e1 a verdadeira riqueza \u2014 e talvez a mais rara de todas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine As guerras contempor\u00e2neas raramente se travam com ex\u00e9rcitos \u2014 a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra \u2014, travam-se com cadeias de abastecimento.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49374"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49375,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49374\/revisions\/49375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}