{"id":49362,"date":"2025-10-23T19:20:50","date_gmt":"2025-10-23T19:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49362"},"modified":"2025-10-26T19:25:17","modified_gmt":"2025-10-26T19:25:17","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-367","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49362","title":{"rendered":"Riscos de cauda. Estamos preparados para a pr\u00f3xima crise?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/riscos-de-cauda-estamos-preparados-para-a-proxima-crise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>O maior risco que enfrentamos \u00e9 o pol\u00edtico: o de um pa\u00eds que continua a expulsar o m\u00e9rito, a compet\u00eancia e a integridade da vida p\u00fablica, como se o talento fosse uma amea\u00e7a e a dec\u00eancia, um defeito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Todos falam do previs\u00edvel. Poucos pensam no que realmente nos pode derrubar e se preparam para tal. Neste artigo abordo de forma breve alguns temas da atualidade para me focar em riscos mais ou menos escondidos de baixa probabilidade, mas de elevado impacto, os designados \u201criscos de cauda\u201d, por se concentrarem na cauda da distribui\u00e7\u00e3o, os quais n\u00e3o s\u00e3o debatidos em Portugal \u2013 e, como tal, s\u00e3o ignorados pelos nossos pol\u00edticos, que se centram sobretudo, como sabemos, no curto prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia \u00e9 avaliar se Portugal est\u00e1 minimamente preparado para eventos pouco prov\u00e1veis de alto impacto negativo \u2013 na medida das possibilidades, pois nunca se est\u00e1 totalmente preparado para crises \u2013, centrando-me na \u00e1rea econ\u00f3mica, mas n\u00e3o s\u00f3. Na economia, tal como na vida, \u00e9 bom sermos positivos e esperar o melhor, mas tamb\u00e9m estarmos preparados para o pior, aspeto em que habitualmente falham os nossos governantes, expondo o pa\u00eds a riscos que poderiam ser mitigados antecipadamente com a devida avalia\u00e7\u00e3o, pondera\u00e7\u00e3o e planeamento. Se a despreocupa\u00e7\u00e3o de cada um corre por sua conta e risco, os respons\u00e1veis pelo destino colativo certamente n\u00e3o o devem fazer, para proteger o bem comum.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O risco s\u00edsmico agravado pelo centralismo, incumprimento da regulamenta\u00e7\u00e3o e falta de sensibiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Come\u00e7o pelo evento de cauda t\u00edpico, de probabilidade baixa e enorme impacto negativo.<\/p>\n\n\n\n<p>No pr\u00f3ximo dia 1 de novembro ter\u00e3o passado 250 anos sobre o terramoto de 1755 que assolou em Lisboa, provocando um enorme n\u00famero de mortos (cerca de 10 mil) e devasta\u00e7\u00e3o, para o que contribuiu ainda o tsunami subsequente. Os especialistas afirmam que, dado o elevado risco s\u00edsmico dessa \u00e1rea (por cima de uma falha entre placas continentais), numa escala temporal alargada ocorrer\u00e1 um novo terramoto. S\u00f3 n\u00e3o sabemos quando acontecer\u00e1, pelo que a probabilidade que ocorra durante a nossa exist\u00eancia se torna reduzida (na cauda da distribui\u00e7\u00e3o), mas existe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 pergunta sobre se estamos preparados para esse evento, os especialistas respondem que n\u00e3o, pois grande parte da constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o segue a regulamenta\u00e7\u00e3o de preven\u00e7\u00e3o s\u00edsmica e h\u00e1 pouco controlo a esse n\u00edvel, faltando uma certifica\u00e7\u00e3o s\u00edsmica dos edif\u00edcios. A falta de sensibiliza\u00e7\u00e3o para a mat\u00e9ria implica ainda que n\u00e3o haja procura pela cobertura de riscos s\u00edsmicos nas ap\u00f3lices de seguro de habita\u00e7\u00e3o. A atual crise na habita\u00e7\u00e3o agrava a situa\u00e7\u00e3o, pois as pessoas est\u00e3o, naturalmente, mais focadas na acessibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Menos abordado neste contexto, que eu conhe\u00e7a, \u00e9 o agravamento do impacto destrutivo de um eventual terramoto devido ao elevado centralismo do pa\u00eds, ao provocar uma forte concentra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o e atividade em Lisboa e arredores, al\u00e9m dos riscos econ\u00f3micos e sociais da perda de coes\u00e3o nacional \u2013 pela desigualdade de oportunidades econ\u00f3micas no territ\u00f3rio \u2013, para os quais tenho vindo a alertar. Ou seja, o centralismo coloca em risco, potencialmente, a vida de milhares de cidad\u00e3os e o seu patrim\u00f3nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um estudo de Maria Lu\u00edsa Sousa Sotto-Mayor, investigadora do Laborat\u00f3rio Nacional de Engenharia Civil, uma nova cat\u00e1strofe semelhante \u00e0 de 1755 resultaria num n\u00famero entre 17 a 27 mil mortes, ou seja, cerca de duas a tr\u00eas vezes o n\u00famero de mortes ocorridas em 1755. Havendo hoje muito mais edificado, ainda que mais resiliente, os custos econ\u00f3micos n\u00e3o deixariam de ser tamb\u00e9m muito altos.<\/p>\n\n\n\n<p>A reforma territorial administrativa que tenho vindo a defender em cr\u00f3nicas anteriores, ao promover a descentraliza\u00e7\u00e3o e uma melhor distribui\u00e7\u00e3o das atividades e da popula\u00e7\u00e3o pelo territ\u00f3rio nacional, descongestionando ao mesmo tempo Lisboa, al\u00e9m de estimular um desenvolvimento mais equilibrado do pa\u00eds, seria tamb\u00e9m uma forma de reduzir o impacto negativo de um novo terramoto na capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7o ainda notar que a concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico em Lisboa \u2013 tamb\u00e9m em risco de vida na eventualidade de um novo terramoto \u2013 dificultaria muito a resposta a uma situa\u00e7\u00e3o de crise como essa, pelo que, tamb\u00e9m por essa raz\u00e3o, faria sentido distribuir melhor os \u00f3rg\u00e3os de poder pelo pa\u00eds, al\u00e9m de planear e precaver bem, ao n\u00edvel da prote\u00e7\u00e3o civil e comando, esse cen\u00e1rio de cat\u00e1strofe.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os riscos econ\u00f3micos de adiar uma reforma administrativa territorial decisiva, como a que proponho, n\u00e3o parecem mobilizar os nossos pol\u00edticos, pergunto se o risco de vida dos pr\u00f3prios, ainda que com uma probabilidade reduzida, \u00e9 motiva\u00e7\u00e3o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Riscos financeiros poss\u00edveis no horizonte: crise de d\u00edvida soberana, crash bolsista ou crise banc\u00e1ria<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O FMI, nos seus relat\u00f3rios mais recentes \u2014 World Economic Outlook, Global Financial Stability Report e Fiscal Monitor \u2014, alerta para a acumula\u00e7\u00e3o de riscos financeiros em tr\u00eas frentes interligadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(i) Risco de uma nova crise de d\u00edvidas soberanas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A vulnerabilidade crescente nas finan\u00e7as p\u00fablicas de v\u00e1rias economias avan\u00e7adas, com destaque para Fran\u00e7a e, em menor medida, It\u00e1lia e Reino Unido, suscita o risco de uma nova crise de d\u00edvidas soberanas. A combina\u00e7\u00e3o de d\u00edvida p\u00fablica elevada, aumento dos custos de financiamento e fraco crescimento econ\u00f3mico reduz as margens or\u00e7amentais e aumenta o risco de tens\u00f5es nos mercados de d\u00edvida soberana.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o FMI n\u00e3o preveja uma crise imediata no recente Fiscal Monitor, avisa que uma subida s\u00fabita das taxas de juro soberanas ou uma perda de confian\u00e7a dos investidores poderia desencadear uma nova fase de instabilidade semelhante \u00e0 vivida na zona euro na d\u00e9cada passada, a crise de d\u00edvidas soberanas, que levou ao resgate de Portugal pela troika de credores e ao duro programa de ajustamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Na eventualidade de uma crise de d\u00edvida soberana originada em Fran\u00e7a, Portugal n\u00e3o estaria, desta vez, no \u2018olho do furac\u00e3o\u2019, mas apenas numa segunda linha de pa\u00edses potencialmente afetados em momento posterior. N\u00e3o estamos t\u00e3o expostos como em 2011 porque o nosso r\u00e1cio de d\u00edvida p\u00fablica \u00e9 bem menor, mas \u00e9 ainda dos mais altos na Uni\u00e3o Europeia (UE) e \u00e1rea euro, na casa dos 90%, conv\u00e9m n\u00e3o esquecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7o notar que um r\u00e1cio da d\u00edvida p\u00fablica elevado toma uma trajet\u00f3ria \u2018explosiva\u2019 se a taxa de juro a que o Estado se financia for superior ao crescimento nominal do PIB, como sucedeu em 2010. N\u00e3o estamos nesse cen\u00e1rio atualmente, pois a taxa de juro soberana de Portugal \u00e9 relativamente baixa e o crescimento nominal tem sido superior, mas rapidamente a situa\u00e7\u00e3o se pode inverter num contexto de crise, pois basta os mercados anteciparem riscos para o governo come\u00e7ar a enfrentar custos de financiamento crescentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os riscos para o crescimento real do PIB portugu\u00eas s\u00e3o previs\u00edveis, evidentes e graves, como tenho vindo a alertar. Sem reformas estruturais, o pa\u00eds volta a deslizar para o marasmo do costume: um crescimento med\u00edocre, sustentado por nada. Espera-se uma forte desacelera\u00e7\u00e3o em 2027 com o esgotamento dos efeitos do PRR e do turismo, que j\u00e1 vem a perder dinamismo. O abrandamento poder\u00e1 at\u00e9 come\u00e7ar em 2026, segundo as previs\u00f5es do Conselho de Finan\u00e7as P\u00fablicas (CFP), que aponta para uma sobrestima\u00e7\u00e3o da previs\u00e3o de crescimento do governo na proposta de Or\u00e7amento de Estado de 2026 (OE26). Acresce que a infla\u00e7\u00e3o, entretanto, baixou para valores normais e, por isso, o deflator do PIB (componente nominal) deixar\u00e1 de ajudar \u00e0 baixa do r\u00e1cio da d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as previs\u00f5es do FMI no recente World Economic Outlook de outubro (WEO), a economia portuguesa dever\u00e1 desacelerar de 2,1% em 2026 para 1,5% em 2027, enquanto o governo projeta 2,3% em 2026 (n\u00famero revisto em baixa de 0,3 pontos percentuais, p.p., face \u00e0s suas anteriores previs\u00f5es) e, h\u00e1 poucos meses, apontava para 2,9% em 2027, n\u00famero que dever\u00e1 vir a ser revisto em forte baixa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Os riscos para o crescimento real do PIB portugu\u00eas s\u00e3o previs\u00edveis, evidentes e graves, como tenho vindo a alertar. Sem reformas estruturais, o pa\u00eds volta a deslizar para o marasmo do costume: um crescimento med\u00edocre, sustentado por nada. Espera-se uma forte desacelera\u00e7\u00e3o em 2027 com o esgotamento dos efeitos do PRR e do turismo, que j\u00e1 vem a perder dinamismo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O esgotamento da margem or\u00e7amental em 2026 \u2013 ap\u00f3s a distribui\u00e7\u00e3o de benesses e o esgotamento dos efeitos tempor\u00e1rios do PRR e da recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pand\u00e9mica do turismo \u2013 e a insufici\u00eancia de reformas no Estado e na economia para criar margem or\u00e7amental futura \u2013 de modo a elevar o investimento p\u00fablico e baixar a carga fiscal de forma mais decisiva e sustent\u00e1vel, estimulando o investimento privado \u2013, como alertei na cr\u00f3nica anterior, tornam Portugal exposto a uma eventual nova crise de d\u00edvidas soberanas.<\/p>\n\n\n\n<p>O regresso a contas p\u00fablicas deficit\u00e1rias devido \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de \u2018benesses\u2019 \u2013 nesta altura, parece estar na calha o regresso aos 25 dias de f\u00e9rias na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, numa \u2018nova inje\u00e7\u00e3o de dopamina\u2019 pol\u00edtica \u2013 e uma eventual recess\u00e3o da economia \u2013 que deve ser reformada para se tornar mais resiliente \u2013, rapidamente amea\u00e7ariam a trajet\u00f3ria de descida do r\u00e1cio da d\u00edvida. N\u00e3o \u00e9 esse o cen\u00e1rio central nesta altura, repito, mas estou a analisar riscos de cauda e h\u00e1 mais pela frente, analisados abaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ainda que respons\u00e1veis do FMI, na divulga\u00e7\u00e3o do Fiscal Monitor, tenham afirmado que \u201cPortugal est\u00e1 num bom caminho no que diz respeito \u00e0s finan\u00e7as p\u00fablicas\u201d, esse caminho pode rapidamente \u2018fugir dos nossos p\u00e9s\u2019, como mencionei acima.<\/p>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o do nosso r\u00e1cio de d\u00edvida p\u00fablica at\u00e9 2030 (para 77,4%, face a 94,9% em 2024) nos n\u00fameros do WEO do FMI depende de pressupostos de crescimento e de financiamento em mercado que poder\u00e3o n\u00e3o se verificar numa crise \u2013 sobretudo se for econ\u00f3mica e financeira em simult\u00e2neo \u2013, tendo Portugal uma margem reduzida, com uma despesa corrente muito r\u00edgida e em acelera\u00e7\u00e3o, como tenho alertado.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed que o ajustamento or\u00e7amental numa eventual recess\u00e3o ou crise mais profunda se far\u00e1 sempre primeiro, tal como no passado, pela via mais f\u00e1cil da subida de impostos e da compress\u00e3o do investimento, o que penalizaria a competitividade, comprometendo os compromissos atuais do governo nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o FMI apresenta valores previsionais de saldo or\u00e7amental em 2025 e 2026 pr\u00f3ximos dos do governo (0,2% e 0,0% do PIB, face a 0,3% e 0,1% nos n\u00fameros do OE26), a verdade \u00e9 que aponta para o regresso a d\u00e9fices nos anos seguintes (-0,2% em 2027, agravando-se gradualmente at\u00e9 -0,9% em 2030). Igualmente importante, corrigindo o efeito do ciclo econ\u00f3mico e das medidas extraordin\u00e1rias, ao contr\u00e1rio do que aponta o governo, o saldo or\u00e7amental estrutural correspondente \u00e9 negativo em 2025 e 2026 nas contas do FMI (-0,1% e -0,4% do PIB potencial, respetivamente, que compara com 0,5% e 0,2% nos n\u00fameros do OE26) e agrava-se nesse ano e nos seguintes (at\u00e9 -0,9% em 2030).<\/p>\n\n\n\n<p>Isto significa que uma eventual recess\u00e3o, de origem interna ou externa, rapidamente faria descarrilar as contas para um d\u00e9fice significativo j\u00e1 em 2026 \u2013 podendo mesmo inverter a trajet\u00f3ria de redu\u00e7\u00e3o do r\u00e1cio da d\u00edvida \u2013, admitindo que o FMI tem \u2018contas mais certas\u2019, pois o CFP apontou inconsist\u00eancias nos dados do saldo estrutural e produto potencial do governo no parecer do OE26, como referi na cr\u00f3nica anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra hip\u00f3tese de eclos\u00e3o de uma crise de d\u00edvidas soberanas \u00e9 na sequ\u00eancia de um crash bolsista \u2013 foi o que aconteceu em 2010, ap\u00f3s a crise do subprime nos EUA de 2008, ainda que esta tenha tido caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias \u2013 ou de uma crise banc\u00e1ria, cen\u00e1rios que abordo nos pontos seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(ii) Perigo de uma corre\u00e7\u00e3o abrupta nos mercados acionistas, em particular no setor tecnol\u00f3gico ligado \u00e0 Intelig\u00eancia Artificial<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O surto atual de investimento e as valoriza\u00e7\u00f5es excessivas em empresas tecnol\u00f3gicas, neste caso ligadas \u00e0 Intelig\u00eancia Artificial (IA), recordam a bolha \u201cdot-com\u201d dos anos 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o financiamento atual seja menos alavancado e muitas dessas empresas j\u00e1 estejam a gerar receitas (o que n\u00e3o acontecia com muitas empresas de internet, apenas baseadas em expectativas), o FMI considera plaus\u00edvel um ajustamento significativo das cota\u00e7\u00f5es, com potenciais efeitos de cont\u00e1gio sobre o sentimento dos investidores e os fluxos de capital globais.<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma corre\u00e7\u00e3o dos mercados \u00e9 saud\u00e1vel e at\u00e9 desej\u00e1vel nesta altura, um crash bolsista, como o que aconteceu na viragem do mil\u00e9nio, poderia provocar uma recess\u00e3o global, que afetaria tamb\u00e9m Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em qualquer dos casos, sublinho que, tal como aconteceu com o crash dot-com, uma eventual corre\u00e7\u00e3o, ou mesmo crash bolsista, ligado \u00e0 IA, n\u00e3o coloca em causa o impacto potencial de longo prazo desta tecnologia transversal na produtividade e crescimento econ\u00f3mico, desde que sejam salvaguardados os riscos, tamb\u00e9m eles grandes. Todos n\u00f3s sentimos no dia-a-dia o impacto positivo da internet nas nossas vidas, mas tamb\u00e9m conhecemos os riscos crescentes, nomeadamente ao n\u00edvel da ciberseguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(iii) Risco sist\u00e9mico associado \u00e0s entidades financeiras n\u00e3o banc\u00e1rias, incluindo os criptoativos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O r\u00e1pido crescimento de entidades financeiras n\u00e3o banc\u00e1rias (fundos de investimento, cr\u00e9dito privado, plataformas digitais, seguradoras, etc.), ou \u201cn\u00e3o bancos\u201d, tem criado interliga\u00e7\u00f5es complexas com o sistema banc\u00e1rio sem a correspondente cobertura regulat\u00f3ria. Isto porque \u201cos n\u00e3o bancos\u201d, ao n\u00e3o estarem sujeitos \u00e0 regula\u00e7\u00e3o estrita dos bancos, t\u00eam menos custos e podem crescer mais rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma perturba\u00e7\u00e3o nestes segmentos \u2014 por exemplo, corridas a fundos ou perdas em ativos digitais \u2014 poderia propagar-se ao sistema financeiro tradicional, sobretudo em bancos com exposi\u00e7\u00f5es significativas a essas entidades, com potencial para provocar uma crise financeira internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>No recente Global Financial Stability Report, o FMI alerta que os \u201cn\u00e3o bancos j\u00e1 det\u00eam cerca de metade dos ativos financeiros do mundo\u201d e a interconex\u00e3o com os bancos representa um canal de cont\u00e1gio particularmente preocupante por interconex\u00f5es, opacidade regulat\u00f3ria e poss\u00edvel stress de liquidez \/ resgates for\u00e7ados. Ou seja, se um \u201cn\u00e3o banco\u201d sofrer perdas ou resgates em massa, pode haver press\u00e3o para vender ativos ou recorrer a linhas de cr\u00e9dito, potencialmente afetando contrapartes banc\u00e1rias. Alguns bancos j\u00e1 operam com exposi\u00e7\u00f5es a \u201cn\u00e3o bancos\u201d que ultrapassam seus capitais regulat\u00f3rios, o que aumenta o risco de solv\u00eancia em cen\u00e1rios adversos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s criptomoedas, embora muitos bancos ainda estejam pouco expostos diretamente, o risco est\u00e1 em componentes adjacentes: fintechs, subsidi\u00e1rias digitais, colaterais em cripto, e plataformas de empr\u00e9stimos cripto que possam estar interligadas com o sistema banc\u00e1rio. Sob choques fortes, essas liga\u00e7\u00f5es podem criar stress adicional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 partida, este tipo de risco internacional afetar\u00e1 mais Portugal se provocar uma recess\u00e3o global, admitindo que a banca nacional est\u00e1 com uma situa\u00e7\u00e3o financeira robusta nesta altura e que o risco dos \u201cn\u00e3o bancos\u201d \u00e9 relativamente pequeno no nosso pa\u00eds, mas caber\u00e1 ao Banco de Portugal, agora sob a governa\u00e7\u00e3o de \u00c1lvaro Santos Pereira, estar atento e avaliar permanentemente esse tipo de risco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(iv) Intera\u00e7\u00e3o de riscos financeiros, ampliando impactos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda a possibilidade de intera\u00e7\u00e3o os tr\u00eas tipos de riscos financeiros referidos, ampliando os impactos negativos, que ser\u00e3o maiores se forem econ\u00f3micos e financeiros em simult\u00e2neo. Por exemplo, a deten\u00e7\u00e3o excessiva de d\u00edvida p\u00fablica pelos bancos agrava os riscos em caso de crise de d\u00edvida soberana, que, por sua vez, pode espoletar uma corre\u00e7\u00e3o ou crash bolsista como sucedeu h\u00e1 uns anos. Por outro lado, outro tipo de riscos, como os geopol\u00edticos e comerciais, pode ser um rastilho para um crash bolsista e outros riscos financeiros descritos acima, com destaque para uma eventual invas\u00e3o de Taiwan pela China, cujo impacto analiso mais abaixo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O risco de a inova\u00e7\u00e3o se deslocar ainda mais para os EUA e China, deixando a UE e Portugal mais pobres<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O Pr\u00e9mio Nobel da Economia de 2025 foi atribu\u00eddo a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt por \u201cterem explicado o crescimento econ\u00f3mico impulsionado pela inova\u00e7\u00e3o\u201d. Mokyr foi distinguido pela sua an\u00e1lise hist\u00f3rica sobre como o progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico depende de institui\u00e7\u00f5es e culturas abertas \u00e0 mudan\u00e7a, enquanto Aghion e Howitt foram reconhecidos pela formaliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do modelo de \u201cdestrui\u00e7\u00e3o criativa\u201d, inspirado em Joseph Schumpeter \u2013 Aghion, P., and Howitt, P. (1992). A model of growth through creative destruction. Econometrica, 60(2), 323-351; https:\/\/doi.org\/10.2307\/2951599. A liga\u00e7\u00e3o ao pensamento schumpeteriano \u00e9 direta: os laureados mostraram, com base emp\u00edrica e modela\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica, como o processo cont\u00ednuo de substitui\u00e7\u00e3o de tecnologias e empresas antigas por novas \u00e9 o verdadeiro motor do crescimento econ\u00f3mico. O pr\u00e9mio refor\u00e7a, assim, a vis\u00e3o de Schumpeter de que a inova\u00e7\u00e3o \u2014 mais do que o simples acumular de capital \u2014 \u00e9 a for\u00e7a din\u00e2mica central das economias capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como alertou recentemente o professor Nuno Palma, se a Europa n\u00e3o conseguir construir um ecossistema inovador competitivo, com universidades fortes, incentivos institucionais e capitais de risco, h\u00e1 o risco real de que futuros centros de inova\u00e7\u00e3o \u2014 empresas, startups, patentes e talentos \u2014 migrem de forma ainda mais acelerada para os EUA ou para a China, que j\u00e1 dominam as fronteiras tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Chanceler alem\u00e3o Friedrich Merz referiu recentemente que \u00e9 necess\u00e1rio criar uma bolsa de valores europeia \u00fanica para que empresas de sucesso \u2014 incluindo empresas biotecnol\u00f3gicas como a alem\u00e3 BioNTech \u2014 n\u00e3o se vejam obrigadas a ir para os EUA para captar financiamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a fuga de startups alem\u00e3s de sucesso \u00e9 real, ainda \u00e9 maior no caso de Portugal, por maioria de raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco de cauda \u00e9 deixar de haver inova\u00e7\u00e3o com impacto disruptivo e decisivo para o crescimento econ\u00f3mico em territ\u00f3rio europeu, penalizando o n\u00edvel de vida da UE e Portugal.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Riscos comerciais e geopol\u00edticos, que no limite podem minar o projeto europeu e a economia global<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O risco de uma nova guerra mundial n\u00e3o est\u00e1, infelizmente, afastado do horizonte, mas j\u00e1 temos, de forma relacionada, uma guerra na Ucr\u00e2nia em que interv\u00eam as principais pot\u00eancias mundiais, de forma direta ou indireta. O escalar para um conflito militar mundial, que penalizaria a economia mundial de forma dram\u00e1tica, \u00e9, por isso, um risco de cauda.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo sucede caso a guerra comercial entre EUA e China n\u00e3o se resolva em termos moderados, pois as empresas chinesas, em particular, tender\u00e3o a escoar para a UE os produtos que deixarem de vender nos EUA, causando ainda mais problemas \u00e0s empresas europeias, incluindo as portuguesas, caso as autoridades europeias n\u00e3o tenham uma resposta adequada. No limite, a Alemanha poderia cair em depress\u00e3o e at\u00e9 fazer ruir o projeto europeu \u2014 pois este depende, em grande medida, do mecanismo de transfer\u00eancias do Or\u00e7amento da UE, que est\u00e1 muito assente na contribui\u00e7\u00e3o alem\u00e3 \u2014, um risco de cauda que abalaria as pr\u00f3prias funda\u00e7\u00f5es em que assentam as institui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais portuguesas.<\/p>\n\n\n\n<p>Destaco ainda, nesta sec\u00e7\u00e3o, que uma eventual invas\u00e3o de Taiwan pela China representaria um dos maiores choques geoecon\u00f3micos das \u00faltimas d\u00e9cadas, com impacto imediato e profundo nos mercados financeiros globais. Taiwan \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 60% da produ\u00e7\u00e3o mundial de semicondutores e por mais de 90% dos chips de alta performance, atrav\u00e9s da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), que \u00e9 a espinha dorsal de setores estrat\u00e9gicos como a ind\u00fastria autom\u00f3vel, as telecomunica\u00e7\u00f5es, a intelig\u00eancia artificial e a defesa. Qualquer interrup\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o ou do fornecimento da TSMC teria efeitos devastadores nas cadeias de valor globais, desencadeando uma escassez de componentes, aumento de custos e colapso tempor\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica a n\u00edvel mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos mercados de a\u00e7\u00f5es, a incerteza provocada por um conflito desta dimens\u00e3o faria despencar as bolsas asi\u00e1ticas e geraria fortes corre\u00e7\u00f5es nos \u00edndices norte-americanos e europeus, especialmente nos setores tecnol\u00f3gico e industrial. Empresas dependentes dos chips da TSMC \u2014 como Apple, Nvidia, AMD, Qualcomm ou Tesla \u2014 veriam as suas a\u00e7\u00f5es penalizadas de forma imediata. Ao mesmo tempo, o risco geopol\u00edtico crescente e o potencial de san\u00e7\u00f5es cruzadas entre a China e o Ocidente poderiam provocar uma fuga massiva para ativos considerados seguros, como o ouro, o d\u00f3lar e as obriga\u00e7\u00f5es do Tesouro norte-americano. Em suma, um conflito em torno de Taiwan n\u00e3o seria apenas uma quest\u00e3o regional: seria um choque sist\u00e9mico com potencial para redefinir o equil\u00edbrio tecnol\u00f3gico e financeiro global.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Os riscos da imigra\u00e7\u00e3o: da \u2018balda\u2019 \u00e0 rigidez \u2014 e o perigo de um novo desequil\u00edbrio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Durante anos, Portugal confundiu abertura com aus\u00eancia de controlo. A pol\u00edtica migrat\u00f3ria foi conduzida com ligeireza, sem planeamento, sem crit\u00e9rios claros e sem capacidade administrativa para gerir o fluxo de entrada. O pa\u00eds abriu portas a todos, sem distinguir perfis, sem prever a integra\u00e7\u00e3o e sem calibrar as necessidades do mercado de trabalho. A \u201cbalda\u201d institucional \u2014 essa mistura de boa vontade, amadorismo e c\u00e1lculo pol\u00edtico \u2014 gerou o que agora se tenta corrigir \u00e0 pressa: uma press\u00e3o real sobre os servi\u00e7os p\u00fablicos, a habita\u00e7\u00e3o e o emprego, e uma eros\u00e3o da confian\u00e7a dos cidad\u00e3os num processo que parecia servir todos, menos o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A desordem n\u00e3o serviu sequer os imigrantes que recebemos. Muitos foram deixados \u00e0 sua sorte, entregues a redes informais, a promessas falsas e a condi\u00e7\u00f5es indignas de trabalho e habita\u00e7\u00e3o. O Estado ausentou-se onde devia proteger, e o acolhimento transformou-se, demasiadas vezes, em abandono. Tra\u00edmos, assim, os nossos pr\u00f3prios valores humanistas, porque acolher exige mais do que abrir fronteiras: exige integrar, respeitar e dar dignidade a quem escolhe viver entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pol\u00edtica migrat\u00f3ria desordenada \u00e9 um convite ao populismo, um claro risco de cauda social e, paradoxalmente, uma forma de desumanidade travestida de toler\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, perante os excessos do passado, corre-se o risco oposto: o de transformar a corre\u00e7\u00e3o em cerco. A restri\u00e7\u00e3o dos vistos de trabalho a apenas trabalhadores altamente qualificados (defendida pelo ministro da Presid\u00eancia) e a tentativa de impor um dos regimes de naturaliza\u00e7\u00e3o mais r\u00edgidos da UE podem ter efeitos perversos sobre o crescimento econ\u00f3mico, como j\u00e1 alertaram algumas ag\u00eancias de rating. Num cen\u00e1rio em que a economia continua a crescer, a escassez de m\u00e3o-de-obra estrangeira qualificada em diferentes \u00e1reas travar\u00e1 o potencial produtivo. Assim se compreende que, por sua vez, o ministro das Finan\u00e7as defenda a necessidade de imigrantes com qualifica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas \u2014 carpinteiros, mec\u00e2nicos, eletricistas, \u2026 \u2014, em fun\u00e7\u00e3o da realidade concreta, e o ministro da Economia e Coes\u00e3o aponte que faltam trabalhadores na constru\u00e7\u00e3o, onde predominam as baixas qualifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Num cen\u00e1rio de crise internacional, os novos entraves \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o agravar\u00e3o o decl\u00ednio, tal como sucedeu ap\u00f3s 2011, mas agora por escolha pol\u00edtica e n\u00e3o por falta de oportunidades. A Europa precisa de pol\u00edticas migrat\u00f3rias inteligentes, e Portugal n\u00e3o pode passar da neglig\u00eancia \u00e0 claustrofobia \u2014 de fronteiras escancaradas a portas seladas. Entre a balda e o bloqueio, h\u00e1 um pa\u00eds que se perde no caminho da racionalidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O risco de uma corre\u00e7\u00e3o em baixa dos pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Uma crise externa significativa \u2014 por exemplo, um abalo geopol\u00edtico ou uma recess\u00e3o global \u2014 poderia desencadear uma corre\u00e7\u00e3o em baixa dos pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o em Portugal, ap\u00f3s v\u00e1rios anos de valoriza\u00e7\u00e3o acelerada, com potencial impacto negativo no rendimento das fam\u00edlias e nos balan\u00e7os dos bancos. O mercado imobili\u00e1rio portugu\u00eas tem beneficiado de condi\u00e7\u00f5es financeiras excecionalmente favor\u00e1veis, do investimento estrangeiro e da perce\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a econ\u00f3mica e pol\u00edtica. No entanto, um choque externo que provoque uma retra\u00e7\u00e3o da procura internacional, uma subida abrupta das taxas de juro ou uma deteriora\u00e7\u00e3o das expectativas de rendimento das fam\u00edlias poderia inverter rapidamente essa tend\u00eancia. A elevada depend\u00eancia do cr\u00e9dito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e a crescente taxa de esfor\u00e7o dos agregados tornam o setor particularmente vulner\u00e1vel a mudan\u00e7as s\u00fabitas nas condi\u00e7\u00f5es macroecon\u00f3micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, uma eventual desacelera\u00e7\u00e3o do turismo ou uma quebra no investimento estrangeiro \u2014 ambos sens\u00edveis a crises globais \u2014 teria impacto direto nos segmentos mais din\u00e2micos do mercado, como o alojamento local e a habita\u00e7\u00e3o de luxo em Lisboa, Porto e no Algarve. A conjuga\u00e7\u00e3o desses fatores poderia levar a uma descida expressiva dos pre\u00e7os, sobretudo nos centros urbanos mais valorizados, e expor riscos sist\u00e9micos no sistema banc\u00e1rio. Embora uma corre\u00e7\u00e3o moderada pudesse restaurar algum equil\u00edbrio no acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, uma queda abrupta, embora de probabilidade baixa (exigiria uma crise severa), teria efeitos negativos impactantes no consumo, na confian\u00e7a dos agentes econ\u00f3micos e na estabilidade financeira do pa\u00eds, sendo esse o risco de cauda.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Por isso, \u00e0 pergunta sobre se Portugal est\u00e1 preparado para estes v\u00e1rios tipos de risco aqui elencados, a resposta honesta \u00e9 que n\u00e3o. Nalguns dom\u00ednios houve progressos relevantes e noutros houve retrocessos. Falta-nos uma verdadeira cultura de preven\u00e7\u00e3o e planeamento estrat\u00e9gico de longo prazo, substitu\u00eddas demasiadas vezes por respostas reativas e horizontes pol\u00edticos curtos, o c\u00e9lebre \u2018desenrascan\u00e7o\u2019 nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Os riscos de cauda \u2013 sejam eles s\u00edsmicos, financeiros, tecnol\u00f3gicos, geopol\u00edticos e outros (analisei apenas os que considero mais prementes na conjuntura atual, embora existam outros riscos que tamb\u00e9m justificam aten\u00e7\u00e3o, como o de uma nova pandemia) \u2013 exigem institui\u00e7\u00f5es resilientes, descentraliza\u00e7\u00e3o administrativa, contas p\u00fablicas s\u00f3lidas, uma economia mais diversificada e inovadora, e uma sociedade civil informada e exigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal tem condi\u00e7\u00f5es para se proteger melhor: Disp\u00f5e de capital humano qualificado, uma posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica relevante e integra\u00e7\u00e3o plena na UE. Mas isso s\u00f3 bastar\u00e1 se formos capazes de traduzir diagn\u00f3sticos em reformas estruturais, adotando uma vis\u00e3o de futuro que olhe al\u00e9m do ciclo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O risco pol\u00edtico \u00e9 corrosivo porque multiplica todos os outros. \u00c9 nele que os riscos de cauda \u2014 raros, mas devastadores \u2014 ganham for\u00e7a. Nenhuma sociedade resiste a choques graves quando tem lideran\u00e7as fr\u00e1geis, impreparadas ou moralmente duvidosas. Um pa\u00eds pode suportar uma crise econ\u00f3mica, uma pandemia ou at\u00e9 um colapso financeiro; o que n\u00e3o sobrevive \u00e9 \u00e0 aus\u00eancia de quem comanda com lucidez e coragem.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em suma, preparar-nos para o improv\u00e1vel, no que depende de n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 pessimismo \u2014 \u00e9 prud\u00eancia e maturidade coletiva. Porque, como a Hist\u00f3ria nos recorda, as crises raramente avisam antes de chegar. Por isso, o maior risco que enfrentamos \u00e9, provavelmente, o pol\u00edtico: o de um pa\u00eds que continua a expulsar o m\u00e9rito, a compet\u00eancia e a integridade da vida p\u00fablica \u2014 como se o talento fosse uma amea\u00e7a e a dec\u00eancia, um defeito.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco pol\u00edtico \u00e9 corrosivo porque multiplica todos os outros. \u00c9 nele que os riscos de cauda \u2014 raros, mas devastadores \u2014 ganham for\u00e7a. Nenhuma sociedade resiste a choques graves quando tem lideran\u00e7as fr\u00e1geis, impreparadas ou moralmente duvidosas. Um pa\u00eds pode suportar uma crise econ\u00f3mica, uma pandemia ou at\u00e9 um colapso financeiro; o que n\u00e3o sobrevive \u00e9 \u00e0 aus\u00eancia de quem comanda com lucidez e coragem.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem lideran\u00e7a qualificada e institui\u00e7\u00f5es que premiem a subst\u00e2ncia em vez do espet\u00e1culo, nenhum plano, por mais t\u00e9cnico ou moderno que pare\u00e7a, resiste ao teste do tempo. Preparar-nos para o improv\u00e1vel exige \u00e9tica, vis\u00e3o e coragem \u2014 virtudes hoje tratadas como excentricidades num sistema que recompensa o c\u00e1lculo, o marketing e o medo de desagradar.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica tornou-se o espelho de um pa\u00eds que confunde ru\u00eddo com a\u00e7\u00e3o e popularidade com valor. A m\u00e1 moeda expulsa a boa: o m\u00e9rito incomoda, a compet\u00eancia levanta suspeitas e a integridade \u00e9 punida com isolamento. Celebram-se os que sabem posar, promovem-se os que alinham sem perguntar.<\/p>\n\n\n\n<p>As carreiras pol\u00edticas transformaram-se num jogo de sobreviv\u00eancia entre lealdades e apar\u00eancias, onde o crit\u00e9rio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 servir o pa\u00eds, mas permanecer na fotografia. E os melhores \u2014 mesmo que j\u00e1 tenham provado que poderiam reformar e reduzir riscos de cauda \u2014 afastam-se, n\u00e3o por falta de voca\u00e7\u00e3o, mas por excesso de vergonha.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o pa\u00eds empobrece \u2014 n\u00e3o s\u00f3 nas contas, mas na alma. Troca excel\u00eancia por conveni\u00eancia, coragem por c\u00e1lculo e lideran\u00e7a por encena\u00e7\u00e3o. E quando o ch\u00e3o tremer \u2014 seja um terramoto, uma crise financeira ou uma simples reforma do Estado \u2014 perceber\u00e1, tarde demais, que afastou quem sabia comandar.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta aos riscos de cauda depende, antes de tudo, de quem est\u00e1 ao leme. Enquanto o m\u00e9rito for punido e a mediocridade recompensada, Portugal n\u00e3o precisar\u00e1 de inimigos: bastar-lhe-\u00e1 continuar a ser governado por si pr\u00f3prio. A boa pol\u00edtica existe \u2014 mas precisa de institui\u00e7\u00f5es que a protejam e de cidad\u00e3os que a exijam.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine O maior risco que enfrentamos \u00e9 o pol\u00edtico: o de um pa\u00eds que continua a expulsar o m\u00e9rito, a compet\u00eancia e a integridade da vida p\u00fablica, como se o talento fosse uma amea\u00e7a e a dec\u00eancia, um defeito.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49362","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49362","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49362"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49364,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49362\/revisions\/49364"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}