{"id":49330,"date":"2025-09-25T08:30:23","date_gmt":"2025-09-25T08:30:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49330"},"modified":"2025-09-28T20:58:13","modified_gmt":"2025-09-28T20:58:13","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-360","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49330","title":{"rendered":"A Economia da Miseric\u00f3rdia: A Igreja Cat\u00f3lica e a imigra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/a-economia-da-misericordia-a-igreja-catolica-e-a-imigracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Na imigra\u00e7\u00e3o, Portugal n\u00e3o pode ceder nem ao fechamento ego\u00edsta, nem \u00e0 permissividade desordenada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Neste artigo falo de uma \u2018Economia da Miseric\u00f3rdia\u2019 n\u00e3o como conceito t\u00e9cnico, mas como uma forma de designar uma economia inspirada pela Doutrina Social da Igreja, que une justi\u00e7a e caridade, acolhimento e prud\u00eancia, dignidade e solidariedade, aspetos que desenvolverei abaixo em torno do tema da imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A imigra\u00e7\u00e3o tornou-se um dos debates mais intensos do nosso tempo. Em Portugal e na Europa, a quest\u00e3o divide opini\u00f5es entre quem privilegia o controlo e quem reconhece a necessidade de m\u00e3o-de-obra estrangeira para sustentar a economia, mas as duas vertentes s\u00e3o concili\u00e1veis conforme j\u00e1 mostrei em cr\u00f3nicas anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p>Como economista, vejo que Portugal precisa de uma pol\u00edtica migrat\u00f3ria regulada, que tenha em conta as necessidades da economia \u2014 com \u2018portas abertas\u2019, mas n\u00e3o \u2018escancaradas\u2019. E como cat\u00f3lico, sei que s\u00f3 assim se pode acolher com dignidade quem entra no pa\u00eds, em linha com a Doutrina da Igreja e com as palavras recentes da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, que lembrou n\u00e3o se poder considerar verdadeiramente cat\u00f3lico quem alimenta discursos xen\u00f3fobos ou rejeita o migrante.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A Doutrina da Igreja e os migrantes<\/h3>\n\n\n\n<p>Desde a Enc\u00edclica Rerum Novarum, promulgada em 1891 pelo Papa Le\u00e3o XIII, at\u00e9 enc\u00edclicas mais recentes como Caritas in Veritate (Papa Bento XVI, 2009), Evangelii Gaudium, Laudato Si\u2019 e Fratelli Tutti (Papa Francisco, 2013, 2015 e 2020, respetivamente), a Igreja Cat\u00f3lica tem defendido que a economia deve estar ao servi\u00e7o da dignidade humana. Os migrantes s\u00e3o parte integrante desse horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de fluxos estat\u00edsticos, mas de pessoas concretas, fam\u00edlias, vidas que procuram dignidade e futuro. Por tr\u00e1s de cada chegada h\u00e1 sempre uma hist\u00f3ria de coragem e de perda: quem abandona a sua terra f\u00e1-lo, em geral, porque busca melhores condi\u00e7\u00f5es de vida ou porque foge da guerra, da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou religiosa, da anarquia ou da simples aus\u00eancia de perspetivas de futuro. Cada migrante carrega consigo n\u00e3o apenas uma mala, mas tamb\u00e9m a esperan\u00e7a de reconstruir a vida em paz.<\/p>\n\n\n\n<p>O mandamento evang\u00e9lico de acolher o estrangeiro \u00e9 claro: \u201cera estrangeiro e acolhestes-me\u201d (Evangelho segundo S\u00e3o Mateus, cap\u00edtulo 25, vers\u00edculo 35), pelo que este preceito est\u00e1 impregnado na Doutrina Cat\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p>Como lembrou insistentemente o Papa Francisco, a imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser reduzida a uma abstra\u00e7\u00e3o ou a uma quest\u00e3o administrativa: cada migrante tem rosto, nome e hist\u00f3ria. \u00c9 essa \u201ccultura do encontro\u201d, tantas vezes defendida pelo Papa, que deve orientar a nossa pol\u00edtica migrat\u00f3ria. A verdadeira integra\u00e7\u00e3o nasce do reconhecimento da dignidade concreta de cada pessoa, mas um acolhimento digno tamb\u00e9m requer condi\u00e7\u00f5es de acolhimento pelo pa\u00eds de destino.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a Doutrina Social da Igreja Cat\u00f3lica sempre conciliou dois princ\u00edpios: o acolhimento e a prud\u00eancia. Por um lado, a dignidade do migrante \u00e9 inviol\u00e1vel; por outro, os pa\u00edses t\u00eam o direito de gerir as suas fronteiras e avaliar a sua capacidade de integra\u00e7\u00e3o. A caridade, como lembrou o Papa Bento XVI, n\u00e3o \u00e9 um sentimentalismo sem crit\u00e9rios, exige racionalidade e justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O novo Papa Le\u00e3o XIV e a Economia da Miseric\u00f3rdia<\/h3>\n\n\n\n<p>O novo Papa Le\u00e3o XIV, na sua primeira homilia, no dia 18 de maio de 2025, deixou clara a orienta\u00e7\u00e3o do seu pontificado: rejeitar o \u201c\u00f3dio\u201d e o \u201cpreconceito\u201d, e condenar um modelo econ\u00f3mico que marginaliza os pobres e esgota os recursos da Terra. Numa linha de continuidade com a \u201cEconomia de Francisco\u201d, Le\u00e3o XIV fala de uma economia humanista, que constr\u00f3i pontes e n\u00e3o muros, que integra em vez de excluir. Muitos interpretam essa orienta\u00e7\u00e3o como uma verdadeira \u2018Economia da Miseric\u00f3rdia\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, Le\u00e3o XIV n\u00e3o ignora os desafios da integra\u00e7\u00e3o. Reconhece que os Estados t\u00eam o direito e o dever de gerir os fluxos migrat\u00f3rios, mas insiste que isso deve ser feito com humanidade. N\u00e3o se trata de abrir fronteiras sem crit\u00e9rio, mas de garantir que ningu\u00e9m \u00e9 reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de descart\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos convergem na mesma mensagem: o migrante n\u00e3o \u00e9 um problema a rejeitar, mas um irm\u00e3o a acolher com justi\u00e7a e prud\u00eancia. Esta vis\u00e3o partilhada mostra que a Doutrina da Igreja n\u00e3o oscila ao sabor das circunst\u00e2ncias, mas permanece firme na defesa da dignidade humana. H\u00e1 aqui uma linha de continuidade clara com o pontificado anterior.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A Igreja em Portugal e a advert\u00eancia recente da Confer\u00eancia Episcopal<\/h3>\n\n\n\n<p>Recentemente, a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP) deixou uma advert\u00eancia moral que refor\u00e7a este sentido crist\u00e3o de acolhimento: n\u00e3o se pode considerar verdadeiramente cat\u00f3lico quem alimenta discursos de xenofobia ou rejei\u00e7\u00e3o do migrante. Este \u00e9 um alerta importante para que os portugueses, maioritariamente cat\u00f3licos, n\u00e3o se deixem levar por esse tipo de discursos no atual contexto, indo de encontro \u00e0 Doutrina Social da Igreja e \u00e0s palavras do novo Papa Le\u00e3o XIV, ao condenar o preconceito e o \u00f3dio como contr\u00e1rios ao Evangelho. Esta chamada de aten\u00e7\u00e3o da Igreja nacional sublinha que a f\u00e9 n\u00e3o se coaduna com atitudes que neguem dignidade humana ou criem muros de exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de um desafio apenas pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m cultural e humano: a forma como acolhemos o migrante diz muito sobre quem somos enquanto sociedade, at\u00e9 porque Portugal tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de emigra\u00e7\u00e3o \u2014 infelizmente uma inevitabilidade, na grande maioria das sa\u00eddas, devido ao baixo n\u00edvel de vida em Portugal e a uma economia pouco desenvolvida e que gera poucas oportunidades, em resultado de d\u00e9cadas seguidas de pol\u00edticas p\u00fablicas de reduzida qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A indiferen\u00e7a desumaniza, o acolhimento enriquece. Ao abrir a porta a quem chega, n\u00e3o estamos a perder identidade \u2014 estamos a fortalec\u00ea-la com novas hist\u00f3rias, novas m\u00e3os e novos sonhos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A Economia e a Imigra\u00e7\u00e3o em Portugal: o equil\u00edbrio necess\u00e1rio<\/h3>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, o debate sobre a imigra\u00e7\u00e3o em Portugal oscilou entre a necessidade econ\u00f3mica e, mais recentemente, o imperativo do controlo. Como \u00e9 conhecido, o pa\u00eds enfrenta uma escassez de m\u00e3o-de-obra em setores-chave, nomeadamente na constru\u00e7\u00e3o, agricultura e turismo. A imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma resposta inevit\u00e1vel ao fat\u00eddico envelhecimento populacional e \u00e0 falta de trabalhadores associada. Sem imigrantes, a economia portuguesa corre o risco de perder competitividade e dinamismo, e at\u00e9 de colapsar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cr\u00f3nicas recentes que publiquei neste espa\u00e7o de opini\u00e3o (\u201c<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/portugal-tem-de-ser-mais-competitivo-e-regular-imigracao\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Portugal<\/a>&nbsp;tem de ser mais competitivo e regular imigra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201c<a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/especiais\/imigracao-entre-o-imperativo-do-controlo-e-a-economia\/?utm_source=chatgpt.com\" rel=\"noreferrer noopener\">Imigra\u00e7\u00e3o: entre o imperativo do controlo e a economia<\/a>\u201d), defendi, com base em trabalhos do gabinete de estudos da Faculdade de Economia do Porto (FEP), uma imigra\u00e7\u00e3o regulada em fun\u00e7\u00e3o das necessidades da economia, cujo perfil de especializa\u00e7\u00e3o deve evoluir para maior intensidade em conhecimento e tecnologia, atrav\u00e9s de reformas estruturais (como as que tenho vindo a propor).<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, at\u00e9 hoje \u2014 e infelizmente poder\u00e1 passar ainda muito mais tempo \u2014 n\u00e3o se registou qualquer reforma digna desse qualificativo. E \u00e9 precisamente essa aus\u00eancia que vai corroendo a esperan\u00e7a coletiva: frustra os nacionais que anseiam por um pa\u00eds mais competitivo e justo, e imp\u00f5e uma dupla penaliza\u00e7\u00e3o aos imigrantes \u2014 por um lado, dificulta a sua integra\u00e7\u00e3o num projeto de futuro que tarda em materializar-se; por outro, impede que a economia ganhe a escala necess\u00e1ria para absorver a m\u00e3o-de-obra de que tanto carece.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Uma pol\u00edtica de \u2018portas escancaradas\u2019, sem planeamento e sem liga\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades da economia, como tivemos desde 2017 em resultado do regime de manifesta\u00e7\u00e3o de interesse (RMI), n\u00e3o s\u00f3 pressiona os servi\u00e7os p\u00fablicos \u2014 sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o \u2014 como gera alarme social e mina a pr\u00f3pria integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes, pois ficam mais expostos \u00e0s redes de imigra\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o ilegais, alojamento prec\u00e1rio e dificuldades de integra\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uma pol\u00edtica de \u2018portas escancaradas\u2019, sem planeamento e sem liga\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades da economia, como tivemos desde 2017 em resultado do regime de manifesta\u00e7\u00e3o de interesse (RMI), n\u00e3o s\u00f3 pressiona os servi\u00e7os p\u00fablicos \u2014 sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o \u2014 como gera alarme social e mina a pr\u00f3pria integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes, pois ficam mais expostos \u00e0s redes de imigra\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o ilegais, alojamento prec\u00e1rio e dificuldades de integra\u00e7\u00e3o social. Estes efeitos negativos comprometem tanto a dignidade dos migrantes quanto a harmonia social, contrariando os princ\u00edpios que a Igreja Cat\u00f3lica sustenta como centrais.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada massiva de imigrantes, ainda n\u00e3o totalmente refletida nas estat\u00edsticas do INE e do Eurostat, significa ainda que o nosso n\u00edvel de vida est\u00e1 sobrestimado nos dados oficiais, como alertei recentemente, e que muito provavelmente uma boa parte dos que entraram estar\u00e1 inserido na economia paralela, impedindo uma integra\u00e7\u00e3o adequada e reduzindo o impacto na economia e nas receitas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao que j\u00e1 foi feito, entretanto, em mat\u00e9ria de regula\u00e7\u00e3o, se foi positivo o anterior governo AD terminar o regime de manifesta\u00e7\u00e3o de interesse (RMI) \u2014 que levou a uma entrada acentuada de estrangeiros em poucos anos \u2014 e criar a Via Verde da imigra\u00e7\u00e3o, pela exig\u00eancia de contrato de trabalho pr\u00e9vio, \u00e9 preciso confirmar se este mecanismo d\u00e1 uma resposta capaz \u00e0s necessidades da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>No que se refere ao Pacote de Imigra\u00e7\u00e3o (Lei de Estrangeiros e Lei da Nacionalidade) promovido pelo atual governo AD com apoio do Chega (ap\u00f3s o entendimento alcan\u00e7ado), se a maioria das altera\u00e7\u00f5es parece justific\u00e1vel, h\u00e1 v\u00e1rios aspetos que foram longe demais, alguns dos quais considerados mesmo inconstitucionais, pelo que se espera um ajustamento por parte do governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Lei de Estrangeiros, faz sentido, por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o da Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras (UNEF), a nova unidade especializada da Pol\u00edcia de Seguran\u00e7a P\u00fablica (PSP), suprindo uma lacuna deixada ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), pois s\u00f3 parte das suas atribui\u00e7\u00f5es passou para Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o Migra\u00e7\u00f5es e Asilo (AIMA).<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00edvel econ\u00f3mico, a altera\u00e7\u00e3o mais estranha nesse diploma, a meu ver, \u00e9 a limita\u00e7\u00e3o de vistos de trabalho a trabalhadores altamente qualificados, o que n\u00e3o se coaduna com as necessidades da economia atual \u2014 n\u00e3o com a economia real que temos, mas apenas com a que alguns governantes gostariam que j\u00e1 existisse, sem, contudo, terem feito nada de substancial para a tornar poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma ilus\u00e3o pensar que, num \u2018passe de m\u00e1gica\u2019, as empresas v\u00e3o substituir rapidamente m\u00e3o-de-obra n\u00e3o qualificada, que deixariam de obter por via da imigra\u00e7\u00e3o, por maquinaria, como, entretanto, ouvi de alguns governantes com responsabilidades na mat\u00e9ria, mas prefiro a express\u00e3o inglesa wishful thinking \u2013 mesmo as autoridades do Jap\u00e3o, pa\u00eds com maior uso de tecnologia e rob\u00f3tica a n\u00edvel mundial, admitem que tal n\u00e3o chega para contrariar os efeitos do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o na economia, precisando de mais imigra\u00e7\u00e3o, que t\u00eam limitado por raz\u00f5es culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Do meu ponto de vista, o foco dos vistos de trabalho deve ser antes os trabalhadores especializados \u2013 com experi\u00eancia e forma\u00e7\u00e3o nas respetivas profiss\u00f5es, exigindo mais ou menos habilita\u00e7\u00f5es acad\u00e9micas \u2013 considerados necess\u00e1rios nos v\u00e1rios setores de atividade, em articula\u00e7\u00e3o com as confedera\u00e7\u00f5es patronais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Em mat\u00e9ria de controlo da imigra\u00e7\u00e3o e uma regula\u00e7\u00e3o alinhada com as necessidades da economia e a integra\u00e7\u00e3o humana e crist\u00e3 dos imigrantes, h\u00e1 medidas positivas em curso, outras que foram consideradas inconstitucionais e ter\u00e3o de ser corrigidas, mas persistem erros econ\u00f3micos graves, verdadeiros erros de conce\u00e7\u00e3o e de execu\u00e7\u00e3o, que ainda podem ser revertidos \u2014 designadamente na pol\u00edtica de vistos de trabalho e de naturaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s inconstitucionalidades da Lei de Estrangeiros proposta pelo governo, destaco a rejei\u00e7\u00e3o de algumas normas que poderiam conduzir \u00e0 \u201cdesagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia nuclear do cidad\u00e3o estrangeiro\u201d ou colocar em causa a \u201cprote\u00e7\u00e3o constitucionalmente devida \u00e0 fam\u00edlia\u201d. Tal n\u00e3o s\u00f3 prejudicaria a integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes, mas seria, a meu ver, pouco humano e contr\u00e1rio \u00e0 Doutrina Crist\u00e3, tendo em conta o j\u00e1 exposto. Contudo, como essas normas foram consideradas inconstitucionais, o problema j\u00e1 n\u00e3o se coloca, uma vez que o governo ter\u00e1 de corrigir o diploma em conson\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>No que se refere \u00e0 Lei de Nacionalidade \u2013 que, \u00e0 data em que escrevo estas linhas, ainda estava a ser debatida na Comiss\u00e3o de Assuntos Constitucionais do Parlamento, para minorar riscos de inconstitucionalidade e favorecer a aprova\u00e7\u00e3o quando for submetida \u00e0 vota\u00e7\u00e3o \u2013, n\u00e3o percebo que as mexidas visem tornar o regime de naturaliza\u00e7\u00e3o portugu\u00eas um dos mais restritivos da Uni\u00e3o Europeia (UE), conflituando com o objetivo de captar trabalhadores altamente qualificados do pr\u00f3prio governo.<\/p>\n\n\n\n<p>De um modo mais geral, a economia continuar\u00e1 a precisar um fluxo regular de imigrantes \u2013 embora abaixo do ritmo elevado e descontrolado dos \u00faltimos anos \u2013 e tal poder\u00e1 ser colocado em causa com uma naturaliza\u00e7\u00e3o demasiado restritiva, pelo que seria avisado adotar mexidas mais graduais nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, em mat\u00e9ria de controlo da imigra\u00e7\u00e3o e uma regula\u00e7\u00e3o alinhada com as necessidades da economia e a integra\u00e7\u00e3o humana e crist\u00e3 dos imigrantes, h\u00e1 medidas positivas em curso, outras que foram consideradas inconstitucionais e ter\u00e3o de ser corrigidas, mas persistem erros econ\u00f3micos graves, verdadeiros erros de conce\u00e7\u00e3o e de execu\u00e7\u00e3o, que ainda podem ser revertidos \u2014 designadamente na pol\u00edtica de vistos de trabalho e de naturaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns receiam que uma pol\u00edtica mais regulada signifique fechamento. N\u00e3o \u00e9 esse o caso se as medidas forem equilibradas: regular n\u00e3o \u00e9 rejeitar, \u00e9 organizar para acolher melhor. Se n\u00e3o houver regula\u00e7\u00e3o, o resultado \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio do que a Igreja prop\u00f5e: exclus\u00e3o, precariedade e marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros receiam o impacto econ\u00f3mico ou cultural, mas a resposta passa pela regula\u00e7\u00e3o das entradas em fun\u00e7\u00e3o das necessidades reais da economia e por uma integra\u00e7\u00e3o inteligente, assente em pol\u00edticas p\u00fablicas bem concebidas e sustentadas pelo acr\u00e9scimo de receita fiscal e contributiva que os imigrantes proporcionam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cEconomia da Miseric\u00f3rdia\u201d n\u00e3o significa ingenuidade nem permissividade. Significa conjugar acolhimento com justi\u00e7a, integra\u00e7\u00e3o com dignidade, prosperidade com solidariedade. Rejeita tanto o fechamento ego\u00edsta como a explora\u00e7\u00e3o desumana.<\/p>\n\n\n\n<p>O Papa Le\u00e3o XIV desafia-nos a ver na imigra\u00e7\u00e3o n\u00e3o um problema a temer, mas uma oportunidade para praticar a fraternidade e construir um futuro comum. Ou seja, al\u00e9m de fluxos migrat\u00f3rios e equil\u00edbrios econ\u00f3micos, estamos a falar de pessoas concretas que \u2018batem \u00e0 nossa porta\u2019. A quest\u00e3o essencial \u00e9 se queremos ser uma sociedade que ergue muros de medo ou uma comunidade que estende a m\u00e3o com justi\u00e7a e solidariedade, com a prud\u00eancia necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>As posi\u00e7\u00f5es que tenho defendido, no ECO, caminham nesse mesmo sentido: Uma pol\u00edtica migrat\u00f3ria ao servi\u00e7o da dignidade humana, mas tamb\u00e9m da sustentabilidade econ\u00f3mica e social.<\/p>\n\n\n\n<p>Como economista e cat\u00f3lico, acredito que manter \u2018portas abertas\u2019, mas n\u00e3o \u2018escancaradas\u2019, \u00e9 a forma de acolher com dignidade, garantir integra\u00e7\u00e3o e respeitar a justi\u00e7a. \u00c9 esta mesma l\u00f3gica que sustenta a posi\u00e7\u00e3o que tenho defendido: uma pol\u00edtica migrat\u00f3ria regulada, capaz de responder \u00e0s necessidades da economia, mas sempre ancorada na dignidade e no respeito por quem chega.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal n\u00e3o pode ceder nem ao fechamento ego\u00edsta, nem \u00e0 permissividade desordenada. Tal como recordam os \u00faltimos dois Papas (Francisco e Le\u00e3o XIV), acolher com justi\u00e7a e prud\u00eancia \u00e9 a \u00fanica via que garante coes\u00e3o social e fidelidade ao Evangelho. S\u00f3 assim estaremos a ser fi\u00e9is ao Evangelho e \u00e0 voz da Igreja \u2014 nacional e universal \u2014 que nos recorda que n\u00e3o h\u00e1 lugar para a xenofobia no cora\u00e7\u00e3o crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine Na imigra\u00e7\u00e3o, Portugal n\u00e3o pode ceder nem ao fechamento ego\u00edsta, nem \u00e0 permissividade desordenada.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49330","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49331,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49330\/revisions\/49331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}