{"id":49286,"date":"2025-08-21T10:03:20","date_gmt":"2025-08-21T10:03:20","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49286"},"modified":"2025-08-24T10:10:24","modified_gmt":"2025-08-24T10:10:24","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-352","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49286","title":{"rendered":"O negociador Trump, a paz na Ucr\u00e2nia e os custos para a UE e Portugal"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000\"><span style=\"color: #005500\"><span style=\"color: #ff0000\">\u00d3scar Afonso, &nbsp;ECO Magazine<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/o-negociador-trump-a-paz-na-ucrania-e-os-custos-para-a-ue-e-portugal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>&nbsp;A paz na Ucr\u00e2nia, se chegar, ser\u00e1 positiva, mas ter\u00e1 um custo elevado para os europeus e Portugal n\u00e3o ser\u00e1 exce\u00e7\u00e3o. A continua\u00e7\u00e3o da guerra ter\u00e1 um custo ainda maior, financeiro e humano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dias temos assistido ao retomar de negocia\u00e7\u00f5es com vista a um acordo de paz na Ucr\u00e2nia, intermediadas pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, que organizou duas reuni\u00f5es importantes em poucos dias. Depois de reunir com o Presidente da R\u00fassia na passada sexta-feira no Alasca, nesta segunda-feira reuniu em Washington com o Presidente da Ucr\u00e2nia e altos representantes europeus \u2013 a Presidente da Comiss\u00e3o Europeia e os chefes de Estado das cinco maiores economias europeias, mais a Finl\u00e2ndia, que partilha uma larga fronteira com a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Independentemente dos interesses de Trump no processo \u2013- econ\u00f3micos e pessoais, n\u00e3o sendo segredo que pretende ser premiado com o Nobel da Paz \u2013-, teve o m\u00e9rito de relan\u00e7ar as negocia\u00e7\u00f5es de paz, como reconheceram v\u00e1rios dos l\u00edderes europeus presentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta cr\u00f3nica analiso alguns dos principais aspetos das negocia\u00e7\u00f5es \u2014 lembrando que estas ainda decorrem e que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil alcan\u00e7ar um acordo para uma paz duradoura na Ucr\u00e2nia e na Europa. Trata-se de um processo que continuar\u00e1 a \u2018fazer correr muita tinta\u2019, mas cujo essencial \u00e9 retirar as implica\u00e7\u00f5es para a economia portuguesa: seja no cen\u00e1rio em que a paz finalmente regresse ao continente europeu, o que hoje parece mais pr\u00f3ximo, seja no caso de a guerra se prolongar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O papel principal de Trump, o negociador, no processo de paz na Ucr\u00e2nia e a UE como figurante<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se antevia que, neste segundo mandato como Presidente dos EUA, Donald Trump, com maioria nas duas c\u00e2maras do Congresso, teria ainda mais poder para exercer a sua vis\u00e3o transacional da pol\u00edtica, incluindo na pol\u00edtica externa, com consequ\u00eancias para o resto do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a guerra tarif\u00e1ria que Trump lan\u00e7ou, vimos a pol\u00edtica comercial e a diplomacia (incluindo a econ\u00f3mica) serem substitu\u00eddas pela amea\u00e7a de tarifas elevadas que podem ser reduzidas ou mesmo eliminadas em contrapartida das suas pretens\u00f5es, aproveitando o facto de os EUA serem ainda a maior economia mundial, pelo menos enquanto mercado de consumo \u2013 sendo a China cada vez mais o maior produtor, disputando a hegemonia dos EUA, o que \u00e9 o principal fator da geopol\u00edtica mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>E se a press\u00e3o de Trump tem sido, sobretudo, para a realiza\u00e7\u00e3o de acordos comerciais, com vista a alcan\u00e7ar ganhos de v\u00e1ria ordem \u2013 econ\u00f3micos, mas tamb\u00e9m pol\u00edticos, como se viu com a imposi\u00e7\u00e3o de uma tarifa mais alta ao Brasil devido ao processo judicial do seu amigo e antigo Presidente brasileiro, Bolsonaro \u2013, no caso do processo de paz na Ucr\u00e2nia, a amea\u00e7a de tarifas secund\u00e1rias sobre os principais compradores do petr\u00f3leo russo (China e \u00cdndia) foi a forma de Trump chamar Putin \u2018a jogo\u2019.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Essa amea\u00e7a de tarifas secund\u00e1rias poder\u00e1 vir a ser o \u2018game changer\u2019 para a paz na Ucr\u00e2nia \u2013 al\u00e9m de acordos entre Trump e Putin nas \u00e1reas da energia e outras, condicionais ao avan\u00e7o do processo de paz \u2013, ao pressionar a alguma abertura do l\u00edder russo, mesmo que pequena. A admiss\u00e3o de garantias de seguran\u00e7a para a Ucr\u00e2nia, que antes era uma \u2018linha vermelha\u2019 de Moscovo, parece ser a \u00fanica concess\u00e3o de Putin e j\u00e1 serviu para desbloquear as negocia\u00e7\u00f5es, mas ser\u00e1 dif\u00edcil alcan\u00e7ar entendimento noutros aspetos cruciais, como as concess\u00f5es de territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia pretendidas pelo l\u00edder russo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se deve esquecer, por\u00e9m, que tanto a China como a \u00cdndia t\u00eam margem para desempenhar um papel de media\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, fora da \u00f3rbita de Washington. A crescente influ\u00eancia de Pequim nas institui\u00e7\u00f5es multilaterais e o seu relacionamento estrat\u00e9gico com Moscovo tornam-na um ator incontorn\u00e1vel. Tamb\u00e9m a \u00cdndia, apesar da sua depend\u00eancia energ\u00e9tica, tem procurado afirmar-se como pot\u00eancia aut\u00f3noma. Ignorar estes equil\u00edbrios pode levar a UE a subestimar a complexidade real do xadrez diplom\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa amea\u00e7a de tarifas secund\u00e1rias poder\u00e1 vir a ser o \u2018game changer\u2019 para a paz na Ucr\u00e2nia \u2013 al\u00e9m de acordos entre Trump e Putin nas \u00e1reas da energia e outras, condicionais ao avan\u00e7o do processo de paz \u2013, ao pressionar a alguma abertura do l\u00edder russo, mesmo que pequena. A admiss\u00e3o de garantias de seguran\u00e7a para a Ucr\u00e2nia, que antes era uma \u2018linha vermelha\u2019 de Moscovo, parece ser a \u00fanica concess\u00e3o de Putin e j\u00e1 serviu para desbloquear as negocia\u00e7\u00f5es, mas ser\u00e1 dif\u00edcil alcan\u00e7ar entendimento noutros aspetos cruciais, como as concess\u00f5es de territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia pretendidas pelo l\u00edder russo.<\/p>\n\n\n\n<p>A postura algo err\u00e1tica de Trump faz parte de uma estrat\u00e9gia, a meu ver, que \u00e9 t\u00e3o simples como o conhecido sistema de incentivos do \u2018pau\u2019 e da \u2018cenoura\u2019 (\u2018<em>stick and carrot<\/em>\u2019 na vers\u00e3o em ingl\u00eas) para encorajar determinados comportamentos, em que as tarifas desempenham o papel principal, come\u00e7ando por ser exageradamente altas e depois baixando ou sendo mesmo eliminadas mediante contrapartidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa ainda salientar que esta estrat\u00e9gia tem tamb\u00e9m uma forte leitura dom\u00e9stica. Trump capitaliza junto do eleitorado norte-americano a imagem de negociador duro, que n\u00e3o desperdi\u00e7a recursos dos contribuintes fora do pa\u00eds, ao mesmo tempo que consegue contrapartidas comerciais e geopol\u00edticas. Assim, a sua pol\u00edtica externa \u00e9 tamb\u00e9m um instrumento de pol\u00edtica interna.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal objetivo de Trump no processo de paz da Ucr\u00e2nia parece ser a rapidez do mesmo, passando o \u00f3nus e os custos da guerra para os pa\u00edses europeus caso a Ucr\u00e2nia n\u00e3o aceite o que \u2018est\u00e1 em cima da mesa\u2019 (as principais pretens\u00f5es russas), pois o principal objetivo \u00e9 centrar a aten\u00e7\u00e3o e os recursos dos EUA na disputa com a China, incluindo a quest\u00e3o de Taiwan, onde est\u00e1 situada a maior empresa mundial de semicondutores \u2013 a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company), com uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica crucial face \u00e0 ascens\u00e3o da Intelig\u00eancia Artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u2018bajula\u00e7\u00e3o\u2019 faz parte do sucesso negocial com Trump e os l\u00edderes europeus j\u00e1 compreenderam bem esse mecanismo, como se viu na reuni\u00e3o desta segunda-feira. Mas, ap\u00f3s este per\u00edodo de aprendizagem, esse passar\u00e1 a ser apenas um formalismo do protocolo (al\u00e9m de usar fato, no caso do Presidente Zelenski).<\/p>\n\n\n\n<p>No atual processo de paz, Trump tem usado a referida estrat\u00e9gia do \u2018pau\u2019 e da \u2018cenoura\u2019 com Zelenski, os l\u00edderes europeus e at\u00e9 Putin, n\u00e3o apenas com as armas negociais que disp\u00f5e (tarifas e poderio militar, sobretudo), mas tamb\u00e9m no relacionamento pessoal, ora destratando-os, quando seguem uma linha diferente da que pretende, ora fazendo os maiores elogios quando o acompanham.<\/p>\n\n\n\n<p>Trump ir\u00e1 ganhar qualquer que seja o desfecho das negocia\u00e7\u00f5es e h\u00e1 fortes evid\u00eancias disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Se houver paz, as garantias de seguran\u00e7a dos EUA (poss\u00edvel for\u00e7a militar transnacional nas novas fronteiras da Ucr\u00e2nia) ser\u00e3o partilhadas com pa\u00edses europeus e ser\u00e3o mais do que compensadas pelas compras de armamento pelos pa\u00edses da UE, o acordo de minerais com a Ucr\u00e2nia e prov\u00e1veis acordos com a R\u00fassia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a guerra continuar, Trump dir\u00e1 que tentou tudo para alcan\u00e7ar a paz e culpar\u00e1 os l\u00edderes europeus e a Ucr\u00e2nia pelo insucesso das negocia\u00e7\u00f5es, \u2018sacudindo a \u00e1gua do capote\u2019 e passando totalmente os custos e o \u00f3nus para a Ucr\u00e2nia e os pa\u00edses europeus, que est\u00e3o a ser cada vez mais pressionados pelas opini\u00f5es p\u00fablicas internas (e a ascens\u00e3o de partidos extremistas, na UE) para acabar a guerra, e sabem que, sem o apoio dos EUA \u2013 mesmo que apenas fornecendo armas sem as pagar \u2013, o desfecho ser\u00e1 ainda pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado da R\u00fassia, se for concedida a pretens\u00e3o territorial da totalidade do Donbass (al\u00e9m do reconhecimento oficial da Crimeia como russa), que ainda n\u00e3o conquistou totalmente (possivelmente concedendo pequenas parcelas de territ\u00f3rio conquistado em troca, a confirmar), conseguir\u00e1 pela diplomacia o que n\u00e3o alcan\u00e7ou no campo de batalha, o que \u00e9 um incentivo para n\u00e3o prosseguir a guerra, pelo menos para j\u00e1, pois h\u00e1 o risco de que no futuro \u2018volte \u00e0 carga\u2019, da\u00ed a import\u00e2ncia das garantias de seguran\u00e7a para a Ucr\u00e2nia, que relevam tamb\u00e9m para a seguran\u00e7a da UE.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Diria que h\u00e1 incentivos de todos os lados para que a guerra cesse num horizonte relativamente pr\u00f3ximo, o que traz alguma esperan\u00e7a, mas resta saber a que custo para a Ucr\u00e2nia e a UE \u2013 e se est\u00e3o dispostos a aceit\u00e1-lo \u2013, e se trar\u00e1 os ingredientes necess\u00e1rios a uma paz duradoura. Como diz o povo, \u2018o diabo est\u00e1 nos detalhes\u2019. A Justi\u00e7a, essa n\u00e3o existir\u00e1 com certeza se o agressor for premiado, como tudo aponta.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Trump j\u00e1 sinalizou que essa negocia\u00e7\u00e3o territorial ser\u00e1 feita entre Putin e Zelenski, ao promover um encontro bilateral (mas admitindo um encontro a tr\u00eas logo a seguir), o que \u00e9 inteligente como mediador, salvaguardando-se de (mais) acusa\u00e7\u00f5es de favorecimento numa das mat\u00e9rias mais sens\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Putin convenceu Trump a abdicar da ideia de cessar-fogo por um acordo de paz potencialmente r\u00e1pido, que lhe conv\u00e9m \u2013 os pr\u00e9mios Nobel s\u00e3o divulgados em outubro \u2013, a press\u00e3o da agress\u00e3o no campo de batalha continua e \u00e9 um fator tamb\u00e9m n\u00e3o despiciendo nas negocia\u00e7\u00f5es, quando o normal seria decorrerem no decurso de um cessar-fogo, que parece agora mais longe, mas poder\u00e1 ainda acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Diria que h\u00e1 incentivos de todos os lados para que a guerra cesse num horizonte relativamente pr\u00f3ximo, o que traz alguma esperan\u00e7a, mas resta saber a que custo para a Ucr\u00e2nia e a UE \u2013 e se est\u00e3o dispostos a aceit\u00e1-lo \u2013, e se trar\u00e1 os ingredientes necess\u00e1rios a uma paz duradoura. Como diz o povo, \u2018o diabo est\u00e1 nos detalhes\u2019. A Justi\u00e7a, essa n\u00e3o existir\u00e1 com certeza se o agressor for premiado, como tudo aponta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficar\u00e1 a li\u00e7\u00e3o, para a UE e a pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia (que, relembre-se, abdicou do seu arsenal nuclear em favor da R\u00fassia) de que a defesa \u00e9 mat\u00e9ria de soberania nacional e n\u00e3o pode ser delegada, como os pa\u00edses da UE o fizeram com os EUA desde a Segunda Grande Guerra Mundial, tendo a \u2018fatura\u2019 do velho aliado chegado agora, \u2018servida\u2019 pela m\u00e3o de Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00e1 haver formas de o territ\u00f3rio do Donbass ficar sob gest\u00e3o russa sem reconhecimento oficial \u2013 esperando que, no futuro, haja um volte-face com uma nova lideran\u00e7a russa \u2013, como j\u00e1 li recentemente, o que salvaria um pouco \u2018a face\u2019 da Ucr\u00e2nia (e, de forma associada, a da UE) e o seu esfor\u00e7o sobre-humano de defesa face ao gigante russo, mas ser\u00e1 sempre algo mais simb\u00f3lico no curto e m\u00e9dio prazo. S\u00f3 Donald Trump poder\u00e1 exercer verdadeira press\u00e3o sobre a R\u00fassia nesse sentido com as suas armas negociais, mas resta saber se o far\u00e1, pois poder\u00e1 haver outros acordos com a R\u00fassia que procurar\u00e1 salvaguardar.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico trunfo negocial da UE parece ser a redu\u00e7\u00e3o dos muitos pacotes de san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia, pois a compra de g\u00e1s russo deixou de estar em cima da mesa, tendo sido um dos fatores que permitiu o in\u00edcio da guerra. Vejamos se esse trunfo ser\u00e1 bem jogado para conseguir alguns ganhos na mesa de negocia\u00e7\u00e3o, pois at\u00e9 agora a UE n\u00e3o passa de um \u2018figurante\u2019 em todo o processo negocial.<\/p>\n\n\n\n<p>A ades\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 UE ser\u00e1 um desses ganhos poss\u00edveis, sendo tamb\u00e9m crucial para o futuro desse pa\u00eds. Como Trump parece querer agradar a Putin, a UE poder\u00e1 ainda jogar essa carta para envolver os EUA no esfor\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e baixar essa fatura, mas \u00e9 apenas uma possibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A UE a pagar a sua defesa, os custos da guerra na Ucr\u00e2nia e, provavelmente, a reconstru\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cumprindo a sua promessa eleitoral de gastar menos recursos dos norte-americanos no exterior, Trump j\u00e1 conseguiu v\u00e1rios sucessos a esse n\u00edvel com a sua pol\u00edtica externa agressiva, remetendo os custos de defesa europeia para os europeus e fazendo os EUA ganhar dinheiro com isso:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7 Comprometeu os pa\u00edses europeus com uma meta de 5% do PIB de despesa de defesa na NATO e responsabilizou-os pela sua defesa \u2013 ap\u00f3s colocar d\u00favidas sobre a interven\u00e7\u00e3o dos EUA em futuros conflitos na Europa, no \u00e2mbito do conhecido artigo 5\u00ba do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte. A necessidade de uma defesa comum obrigar\u00e1 os pa\u00edses da UE a articularem-se melhor, a construir uma ind\u00fastria europeia de defesa e, sobretudo, a gastarem mais nessa fun\u00e7\u00e3o de soberania.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00b7 Obrigou ainda os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia (UE) a comprar o armamento enviado pelos EUA para a Ucr\u00e2nia, bem como, no \u00e2mbito do acordo comercial com os EUA, a comprarem um determinado valor de equipamento militar norte-americano, o que limita a capacidade de desenvolvimento de uma ind\u00fastria de defesa europeia, que ter\u00e1 tamb\u00e9m de seguir a via das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Assinou um acordo de explora\u00e7\u00e3o de minerais e terras raras com a Ucr\u00e2nia, servindo de contrapartida pelo apoio militar dos EUA durante a presid\u00eancia Biden.<\/li>\n\n\n\n<li>Posicionou os EUA para se livrarem rapidamente da quest\u00e3o da Ucr\u00e2nia, seja conseguindo um acordo de paz, seja, delegando o \u00f3nus para os pa\u00edses europeus no caso da continua\u00e7\u00e3o da guerra.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A estes custos para a UE acrescem os custos de reconstru\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia, tanto maiores quanto mais tempo durar a guerra, que tamb\u00e9m est\u00e1 a ser paga pela UE, o que \u00e9 mais um incentivo para que ela finde. Os custos da reconstru\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia poder\u00e3o atingir valores equipar\u00e1veis ou mesmo superiores ao Plano Marshall do p\u00f3s-guerra em propor\u00e7\u00e3o, mas desta vez sem a participa\u00e7\u00e3o generosa dos EUA. \u00c9 prov\u00e1vel que a UE tenha de suportar a quase totalidade da fatura, num contexto or\u00e7amental j\u00e1 muito pressionado por novas prioridades internas como migra\u00e7\u00f5es e habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntem-se as tarifas gerais de 15% no acordo da UE com Trump, que ter\u00e1 sido uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para este servir como intermedi\u00e1rio no processo de paz na Ucr\u00e2nia, e percebe-se que Trump ganha em toda a linha.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa das minhas cr\u00f3nicas neste mesmo espa\u00e7o de opini\u00e3o defendi a import\u00e2ncia da UE escolher negociadores h\u00e1beis e reconhecidos para as quest\u00f5es comerciais \/econ\u00f3micas (sugeri Mario Draghi) e de defesa com os EUA. Olhando para os magros resultados da abordagem europeia e dos seus l\u00edderes, considero que poder\u00edamos ter tido mais sucesso com essa abordagem que defendi, pois pior seria dif\u00edcil, evidenciando a crise de lideran\u00e7as que enfrentamos. Trump tem usado diversos negociadores nas v\u00e1rias \u00e1reas, que muitos comentadores desprezam por serem desconhecidos ou virem de fora das respetivas \u00e1reas, mas a verdade \u00e9 que t\u00eam entregue resultados, por mais que nos custe admitir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O desfecho do processo de paz na Ucr\u00e2nia, o or\u00e7amento da UE e as implica\u00e7\u00f5es para Portugal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de novas prioridades, como habita\u00e7\u00e3o e migra\u00e7\u00f5es, o or\u00e7amento da UE ser\u00e1 pressionado por todos os custos de defesa e com a Ucr\u00e2nia que referi, que n\u00e3o parecem incorporados na atual proposta, bem como o impacto negativo das tarifas na economia da UE, com realce para a economia da Alemanha, a maior e com um peso relevante do mercado norte-americano nas exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Um desfecho r\u00e1pido do processo de paz poder\u00e1 mesmo influenciar o or\u00e7amento, se acelerar a ades\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 UE e exigir mais rapidamente a comparticipa\u00e7\u00e3o nos custos de reconstru\u00e7\u00e3o, que muito provavelmente recair\u00e1 sobretudo na UE, dependendo tamb\u00e9m das negocia\u00e7\u00f5es em curso, como referi.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a guerra prosseguir, os custos da reconstru\u00e7\u00e3o ser\u00e3o apenas adiados e alargados, e os custos de armar a Ucr\u00e2nia subir\u00e3o, o que ser\u00e1 ainda pior a n\u00edvel financeiro, al\u00e9m do custo em vidas humanas e sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixarei uma an\u00e1lise mais detalhada do or\u00e7amento da UE atualmente em discuss\u00e3o (2028-2034) para outra altura, mas para efeitos de exposi\u00e7\u00e3o refiro apenas que, para j\u00e1, com uma proposta de despesa que dever\u00e1 ser substancialmente revista em baixa \u2013 a Alemanha, o principal contribuinte, j\u00e1 a rejeitou claramente \u2013 para as atuais prioridades, mas poder\u00e1 ter de ser revista em alta com mais custos associados \u00e0 Ucr\u00e2nia, o governo portugu\u00eas j\u00e1 se queixou que h\u00e1 um corte de sete mil milh\u00f5es de euros para Portugal.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Para Portugal, os riscos n\u00e3o se limitam, pois, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de fundos. Embora n\u00e3o dependamos do g\u00e1s russo, continuaremos a ser afetados pelos pre\u00e7os da energia no mercado europeu, que influenciam diretamente a competitividade das empresas. Por outro lado, as reformas estruturais exigidas n\u00e3o podem ficar pela ret\u00f3rica: \u00e9 imperativo acelerar a moderniza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, aumentar o investimento em inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e garantir maior flexibilidade do mercado de trabalho. Sem estas mudan\u00e7as e outras, dificilmente acompanharemos o ritmo das economias de Leste quando a paz regressar.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Temo, assim, que a redu\u00e7\u00e3o dos fundos europeus de Portugal no quadro 2028-2034 venha a ser muito maior numa vers\u00e3o aceite pela Alemanha e refletindo a despesa com a Ucr\u00e2nia. Isto a acrescer ao fim do PRR em 2026, significando que a redu\u00e7\u00e3o de apoios europeus come\u00e7a em 2027.<\/p>\n\n\n\n<p>Num cen\u00e1rio de paz na Ucr\u00e2nia, \u00e9 previs\u00edvel que as economias de leste voltem a retomar uma tend\u00eancia de crescimento muito superior ao nosso, exigindo uma eleva\u00e7\u00e3o do potencial de crescimento econ\u00f3mico de Portugal para n\u00e3o ser ultrapassado em n\u00edvel de vida relativo e conseguir subir posi\u00e7\u00f5es nesse indicador determinante, da\u00ed a import\u00e2ncia de reformas estruturais nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Portugal, os riscos n\u00e3o se limitam, pois, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de fundos. Embora n\u00e3o dependamos do g\u00e1s russo, continuaremos a ser afetados pelos pre\u00e7os da energia no mercado europeu, que influenciam diretamente a competitividade das empresas. Por outro lado, as reformas estruturais exigidas n\u00e3o podem ficar pela ret\u00f3rica: \u00e9 imperativo acelerar a moderniza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, aumentar o investimento em inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e garantir maior flexibilidade do mercado de trabalho. Sem estas mudan\u00e7as e outras, dificilmente acompanharemos o ritmo das economias de Leste quando a paz regressar.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio de paz, a vantagem de Portugal como destino tur\u00edstico seguro, longe da guerra, tamb\u00e9m se desvanece (pelo menos a curto prazo), o que poder\u00e1 provocar algum desvio de turistas, acentuando o abrandamento em curso do turismo (passada a euforia p\u00f3s-pandemia), que tem sido um dos principais motores do crescimento recente da economia, excessivamente dependente desse setor. Como venho a afirmar, \u00e9 crucial uma maior diversifica\u00e7\u00e3o para a ind\u00fastria e servi\u00e7os de alto valor acrescentado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es em curso para a paz na Ucr\u00e2nia confirmam que Donald Trump \u00e9 um negociador h\u00e1bil e j\u00e1 assegurou ganhos independentemente do desfecho desse processo: ou ficar\u00e1 com os louros da paz, ou transferir\u00e1 o \u00f3nus e os custos da guerra para a Ucr\u00e2nia e para a UE.<\/p>\n\n\n\n<p>A R\u00fassia poder\u00e1 conquistar pela diplomacia o que n\u00e3o alcan\u00e7ou no campo de batalha, e a UE arrisca-se a assumir o papel de financiadora principal de uma paz imperfeita e de uma reconstru\u00e7\u00e3o car\u00edssima, sobretudo se n\u00e3o for capaz de repartir esses custos com os EUA, o que parece pouco prov\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A UE precisa, pois, de avan\u00e7ar para uma verdadeira pol\u00edtica externa e de defesa comuns. Enquanto depender quase exclusivamente da vontade dos Estados Unidos, a Europa continuar\u00e1 vulner\u00e1vel a lideran\u00e7as imprevis\u00edveis em Washington, sejam de Trump ou de qualquer sucessor. S\u00f3 uma maior autonomia estrat\u00e9gica poder\u00e1 evitar que a UE se limite a financiar uma paz imperfeita ditada por outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Portugal, as consequ\u00eancias s\u00e3o claras: menos fundos europeus, mais contributos para a defesa comum e a urg\u00eancia de acelerar reformas estruturais que aumentem o potencial de crescimento da economia, tornando-a mais assente em ind\u00fastria e servi\u00e7os de alto valor acrescentado e menos dependente do turismo, que poder\u00e1 abrandar mais num contexto de paz, pelo menos a curto prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>A expect\u00e1vel retoma da din\u00e2mica de crescimento dos pa\u00edses de leste num cen\u00e1rio de paz significar\u00e1 perder mais posi\u00e7\u00f5es em n\u00edvel de vida na UE se n\u00e3o elevarmos o potencial de crescimento econ\u00f3mico, j\u00e1 que o nosso dinamismo recente assentou muito nos efeitos tempor\u00e1rios do surto de turismo e do PRR, e a partir de 2027 teremos cada vez menos fundos europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>A paz na Ucr\u00e2nia, se chegar, ser\u00e1 positiva, mas ter\u00e1 um custo elevado para os europeus e Portugal n\u00e3o ser\u00e1 exce\u00e7\u00e3o. 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A continua\u00e7\u00e3o da guerra ter\u00e1 um custo ainda maior, financeiro e humano.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,298],"tags":[],"class_list":["post-49286","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-outras"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49286","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49286"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49286\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49290,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49286\/revisions\/49290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49286"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49286"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}